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18 de janeiro de 2014

A Europa dos cafés


A Europa era feita de cafés. Uma cartografia de encontro de poetas, escritores, artistas, filósofos, revolucionários, flâneurs. Como se a própria Europa fosse um grande café, lugar de hábitos metódicos e dos vaivéns casuais.

"Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa", escreve George Steiner no ensaio A ideia da Europa. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Também de renuncia, como nos cafés de Viena, onde os homens sem qualidades de Musil representavam sem saber a irrealidade da vida, ora se deixando ir, contemplativos, em "apocalipse alegre", ora afrontando a vertigem do vazio da era moderna, sem nele se despenharem.

Lisboa onde ao entardecer, metódica e pontualmente, como num rito sagrado, Pessoa se sentava numa mesa de canto do Martinho da Arcada, desdobrando-se, em desassossego interior, em Bernardo Soares para meditar em vão sobre "metafísicas perdidas pelos cantos dos cafés de todo o lado, as ideias casuais de tanto casual, as instituições de tanto zé-ninguém". Ou a Brasileira do Chiado onde nas tertúlias de antanho era comum verem-se os restos da Carbonária numa mesa, os integralistas noutra e Pessoa e Almada Negreiros noutra ainda. Ou o Majestic, no Porto, "onde - conta Agustina Bessa Luís - se juntavam músicos e pintores do tempo duma boémia que o burguês via com enfado".

Lisboa: Pessoa no Martinho da Arcada inventando a mais profunda genealogia da literatura portuguesa. Paris: Sartre e Simone de Beauvoir no Café de Flore, num amplexo amoroso, entre duas reuniões "existencialistas". Berlim: Walter Benjamin no Café Tiergarten, traçando "labirintos de tinta embebidos nos [seus] cadernos". Copenhaga: Kierkegaard num vaivem meditativo entre cafés, lançando as bases do existencialismo. Trieste: Claudio Magris navegando pelo Danúbio no Café San Marco, "um verdadeiro café, situado na periferia da História". Praga: Kafka pousando a sua existência de morcego no Café Louvre. Budapeste: Deszó Kosztolányi, no Café Sirius, pedindo tinta para escrever, em vez de um café: "- Garçon – dizia – tinta, s´il vous plaît!". Odessa: Isaac Babel pondo em movimento, num café do guetto judeu, os seus gangsters de papel.

Zurique: Lenine, à mesa do café, imaginando uma revolução. James Joyce escrevendo a história moral da Irlanda. Mata-Hari ensaiando os primeiros passos na intriga internacional. As sombras, ainda, de Goethe, Hermann Hesse, Thomas Mann. Enrique Vila-Matas autoficcionando um encontro impossível: "Na manhã seguinte, nevava em Zurique. Saí do hotel com o chapéu de feltro e o meu guarda-chuva, e fui tomar o pequeno almoço ao velho e famoso Café Odeon, de que sempre se disse que Lenine, assíduo cliente daquele estabelecimento, pôde trocar mais de uma palavra com James Joyce, outro cliente habitual. Ah, o Odeon! Lembrei-me que Mata-Hari tinha ali debutado como bailarina. E a seguir imaginei uma cena impossível, imaginei Lenine a beber um café, enquanto lançava olhares furtivos a um exemplar de Gente de Dublin".

E ainda os cafés de Paris revisitados por Enrique Vila-Matas em Paris nunca se acaba, como aquele "café que fica perto do cruzamento da rue du Bac com o boulevard Saint-Germain, onde Perec recomendava que nos sentássemos para observar a rua com um esmero um pouco sistemático e a anotar o que víssemos, o que nos chamasse a atenção, obrigando-nos a nós mesmo a escrever inclusive o que aparentemente não tem interesse, o que é mais evidente, o mais comum, o mais opaco".

Ou o Café La Closerie de Lilas onde um dia me pareceu ver o encantador de garrafas Hemingway, mas que, afinal, se revelou ser um jovem catalão aprendiz de escritor aguardando o melhor momento para sair sem pagar. Ou aquele minúsculo café no Boulevard Jourdan para onde me levavam os meus passos nocturnos desde a Cité Universitaire para, noite adentro, ir enfiando moedas na velha juke-box e ouvir o anarquismo musical de Boris Vian e de Leo Ferré, porque ali não se cantava o fado e a metafísica ocupava todas as mesas.

Desapareceram, entretanto, os cafés da velha Europa. Ou, o que vem dar ao mesmo, apagou-se a aura que os habitava. E os que, ainda, sobrevivem, já não são habitados pela ideia de infinito, mas antes por uma clientela mais ou menos extravagante, composta por epígonos nostálgicos, turistas alheios ao literário, contempladores sensíveis e fetichistas dos bons lugares, confundidos no vaivem dos empregados de mesa sem perceberem que  tudo, ali, afrouxou na aparência das coisas e da sua representação.

10 de março de 2012

A tentação do fracasso


A partir da vida fracassada de um jovem com ar de Dylan, um espectro do passado, alguns fantasmas do futuro e um Arquivo Geral do Fracasso, Enrique Vila-Matas, regressa de Dublin - para onde tinha dada o salto inglês, melhor seria dizer irlandês - a Barcelona, ao seu próprio bairro nas imediações da Pasaje Pellicer ("Na realidade quando me mudei para este bairro, vivi indirectamente esta história. Dediquei-me, por isso, a contá-la, modificando apenas alguns pormenores. Real na sua essência, como a própria vida", confessa em entrevista à revista El Cultural) para nos brindar com Aire de Dylan (numa evocação à ampôla de vidro com ar de Paris que Duchamp construiu para oferecer a uns amigos e à qual deu o nome de Air de Paris) que a Seix Barral lançará na próxima 3ª feira em Espanha e a Teodolito, a nova editora de Veiga Ferreira, publicará em Portugal, parece, ainda este mês.

Segundo o editor, um romance em que Vila-Matas convoca os seus melhores argumentos retóricos com humor, ironia e sarcasmo para, através de uma intriga negra, com assassinos e assassinatos, dirigir uma crítica à pós-modernidade. E um romance, ainda, cuja história "dialoga - segundo o próprio autor - com o jovem que escreveu História abreviada da literatura portátil que girava em torno de uma sociedade secreta". Uma sociedade secreta preguiçosa, que se contenta em "ter uma ideia por dia", mas sem nunca levá-la a cabo para - digo eu - não fracassar na sua tentação de fracassar.

"Alguns entram muito tarde no teatro da vida, mas quando o fazem parece que entram sem rédea e directamente para o final da obra", assim arranca Aire de Dylan. Outras frases soltas que me chegaram, como "O fracasso é prefiguração natural do escritor", antecipam a ideia da tentação do fracasso que parece alimentar a vida do protagonista do romance, o jovem Vilnius, conhecido como o pequeno Dylan, mistura do cantor americano com o poeta Rimbaud.

Segundo a sinopse do editor, um prolífico escritor vai a um congresso, para o qual recebeu convite, com alguma estranheza e uma certa inquietação. Nesse congresso, participa, em substituição de Juan Lancastre, uma espécie de "Hamlet fitzgeraldiano pós-moderno", o seu filho Vilnius, um jovem criativo com um certo ar de Dylan, que tem como objectivo último da sua vida atingir o mais total e absoluto fracasso, tema que preside ao invulgar congresso. Mas fracassar absolutamente não é tarefa fácil, como, imagino, se verá no livro.

A partir desse extravagante congresso literário sobre o fracasso, acompanhamos a história de Vilnius que acredita que se encontra possuído pelo espectro do pai. Como ainda não li o livro, ponho-me a imaginar que Vilnius tentará imitar Lancastre, cultivando a impostura de viver como se fosse ele. E imagino que Vilnius fracassará no empenho de levar por diante uma vida emprestada, fracassada. E que no seu duplo fracasso, o de querer fracassar mas fracassar no empenho de fracassar, Vilnius se assemelhará ao escrevente Bartleby - o personagem do conto homónimo de Herman Melville - na sua fracassada tentativa de escrever "um decálogo da não acção".

Ao mesmo tempo, acompanhamos o escritor que, por sua vez, deseja pôr um ponto final na sua já vasta obra e atingir o silêncio total e definitivo. "Tinha decidido secretamente mesmo antes de conhecê-los, confessei-o a Débora, não escrever nenhum outro livro, pois estava muito arrependido, quase magoado, com todos os que tinha publicado durante a minha vida" (Aire de Dylan). Enfim, sucumbir perante o síndroma de Bartleby essa "pulsão negativa ou atracção pelo nada que faz com que certos criadores [...] renunciem à escrita [...] e fiquem, um dia, literalmente paralisados para sempre" que Vila-Matas já recenseara nesse "caderno de notas de pé de página" a que deu o nome de Bartleby & Companhia (Assírio & Alvim). Fascinado por Vilnius que terá escrito, o escritor, e Vila-Matas, segue-lhe o percurso e observa-lhe os estratagemas para chegar ao fracasso.

Ponho-me, então, a imaginar que com a esta improvável união, rodeados e isolados por uma teia de personagens, um e outro se sentirão cada vez mais tentados pelo fracasso, o que será um êxito. Este paradoxo fará, imagino, que a distinção entre fracasso e sucesso resulte em algo em que não nos devemos fiar. Tal como também não será de fiar esta minha tentativa de escrever esta nota de pé de página sobre um livro que ainda não li mas cujo desejo de ler me vai fazendo sucumbir à tentação do fracasso de o escrever para, assim, poder antecipar a sua leitura, no que, certamente, como bom escrevente bartlebiano fracassarei.

Levado pela tentação do fracasso de escrever, seguindo os preceitos avançados por Pierre Bayard em Comment parler des livres que l'on n'a pas lus?, sobre um livro que não li, nem poderia ter lido porque ainda não foi publicado, mas não querendo fracassar nesse empenho, encontro no Diário Volúvel algo com um certo ar de Dylan. "O mundo é uma ilusão, um cenário onde todos temos frases para dizer e um papel  para representar. Certa classe de actores, ao constatar que fazem parte de uma peça, continuarão a representá-la apesar de tudo; outra classe de actores, escandalizados com a descoberta de estarem participando numa impostura, tratarão de sair de cena e da peça. Os segundos enganam-se. Enganam-se porque fora do teatro não há nada, nenhuma vida alternativa que possamos incorporar. O espectáculo, tal como o teatro kafkiano de Oklahoma, é, pode dizer-se, o único que está em exibição. E a única coisa que alguém pode fazer é continuar representando o seu papel, ainda que talvez com uma nova consciência, uma consciência cómica.”

Restará saber (e isso poderia ser a tese do romance se eu me fizesse passar por Vila-Matas) -, mas essa resposta deixarei que seja o autor a dá-la, afinal o romance é seu e eu não pretendo continuar a imitar Vilnius, ele tomando o lugar de Lancastre no congresso sobre o fracasso, e eu tomando o lugar de Vila-Matas na escrita deste livro - se neste teatro kafkiano de Oklahoma, o prolífico escritor, numa atitude semelhante à dos personagens de Roberto Arlt, se sentirá, no final do romance, livre de qualquer sentimento de culpa ou responsabilidade relativamente ao seu fracasso literário, exibindo-se perante os espectadores ou se, ao contrário dos fracassados exibicionistas arltianos, adoptará a atitude de Oblomov - o personagem do romance homónimo do escritor russo Ivan Goncharov -, um jovem desamparado aristocrata incapaz de levar a sua vida por diante, inspirando aqueles "jovens poéticos e doentes, notórios Oblomovs, perdidos no vazio cultural do seu mundo e com tendência a ser, até insuspeitados limites, preguiçosos e avessos ao esforço" (Aire de Dylan). Nisto reside "a alma moderna, o ar de Dylan, a essência da nossa época" (Aire de Dylan).

Dir-me-ia Vila-Matas, se lesse este texto, que fracassei na minha tentação de escrever sobre Aire de Dylan sem o ter lido, já que houve aqui uma certa impostura da minha parte ao citar, e glosar, o que nunca poderia ter citado, e glosado, devido à evidência física de não possuir o livro. Como, então terei sucumbido à tentação de escrever sobre um livro que não li? Ficando, esta noite, quieto em casa como bom discípulo de Kafka que, numa noite, em Praga, escreveu "Não é necessário que saias de casa. Fica à tua mesa e escuta. Nem sequer escutes...", apanha apenas o ar de Vila-Matas.

1 de março de 2012

Vila-Matas no país das maravilhas



Nestas noites volúveis em vou lendo as mais de quinhentas páginas de Uma vida absolutamente maravillosa de Enrique Vila-Matas (título de um artigo sobre Marcel Duchamp que V-M publicou no El País), vejo-me tão maravillado como na primeira vez que li El viajero más lento, El traje de los domingos, Desde la ciudad nerviosa y El viento ligero de Parma que integram esta antologia cronológica de artigos e ensaios, agora, recuperados pela Mandadori DeBolsillo.

Um livro absolutamente vilamatiano, no sentido em que V-M é aqui, ao mesmo tempo, um ensaísta que narra e um contista que ensaia, como confirmam os maravillosos ensaios do segundo livro de Diario voluble e, sobretudo, uma espécie catálogo comentado das suas leituras intitulado Para acabar con los números redondos, autêntica galeria de retratos de momento que integram a sua biblioteca de quarto escuro: "Tan descontente estava Alberto Savinio con las enciclopedias que se hizo la suya propria para su uso personal. Lo mismo creo haber yo hecho con la literatura de este siglo, pues en un cuarto escuro de mi casa he reunido a todos mis autores preferidos": Walser, Joyce, Gombrowicz, Céline, Roussel, Kafka, Schulz, entre outros bartlebianos e shandianos. Fecha o livro uma última secção com o título equívoco Notas que dá continuidade à "geografía personal" vilamatiana sem a qual, confessa V-M, "no sabría vivir".

O que me leva, então, a atravessar como um funâmbulo da leitura as cordas que V-M  estende sobre os caminhos da literatura buscando novas estações de luz nos interstícios de metáforas apagadas da experiência quotidiana? Precisamente o processo vilamatiano de «desfamiliarizar uma experiência e dela se apropriar como ficção». Não, portanto, uma qualquer intenção de estilhaçar prescrições formais ou normas de conduta narrativa. Não uma vontade de subversão da realidade e da sua substituição pela fantasia, pelo mágico, pelo mítico. Mas um impulso irresistível de tratar o ensaio conferindo-lhe uma dimensão narrativa, e ficcional, onde convivem o diário, a autobiografia e a biografia inventada, o conto, a digressão, a citação literária enquanto formulações retóricas inventadas para contar uma vida absolutamente maravillosa.  

Uma visão aristotélica de representação ficcional muito próxima da imitação do real. Verosimilhança, portanto. E verosimilhança que em Vila-Matas se manifesta na sua capacidade de assumir o evidente sem pedir explicações à evidência, segundo uma teoria que li já não sei onde. De buscar possibilidades ficcionais na vida de todos os dias. De convocar a sua experiência pessoal, vivida e, depois, efabulá-la. De explorar abismos reais e imaginários, e observar horizontes plausíveis e, às vezes, precipitar-se no vazio. De cruzar personagens reais e fictícias. De navegar à bolina no fragmentário e no rasto do casual ou da memória súbita de livros, vidas, citações perdidas. De convocar o acaso para determinar destinos de vidas alheias, às vezes, a sua própria vida ou a de um narrador que se parece demasiado com ele próprio. De levar-nos a acreditar e, ao mesmo tempo, a duvidar do que julgamos verdadeiro ou falso. De domesticar a fantasia mais inverosímil sob o manto diáfano do real e de esconder a realidade mais verosímil sob a insolência da fantasia mais cintilante. Uma forma e uma fórmula, afinal, de E V-M se posicionar diante da literatura e da vida, como ele próprio confessou no citado artigo sobre Duchamp: "una forma de tener, como minimo, dos versiones de un mismo tema: él mismo. Por eso a veces juego con el gato de Schrödinger que encarna la paradoja cuántica de estar vivo y muerto a la vez. En otras palabras, juego a no ser Duchamp y serlo."

Daí, levar-nos a acreditar, a nós leitores, funâmbulos também na corda bamba da escrita vilamatiana, que toda a ficção é real e que toda a realidade ficcionada é uma nova realidade que somos convidados a explorar como expedicionários de um território que existe «fora daqui» e onde, aí sim, sugere Vila-Matas, nos adentramos na vida. Até porque, como escreveu Pessoa, "a literatura não é mais do que uma tentativa de tornar real a vida".

"Que tengan ustedes muy buenas noches y una vida absolutamente maravillosa", despediu-se E V-M no artigo sobre Duchamp. Eu, certamente, irei ter uma boa noite de leitura maravillosa.

12 de fevereiro de 2012

Naufrágio com espectador


Quando tudo fazia prever que o centenário do naufrágio do "Titanic", seria mais uma comemoração nostálgica de uma tragédia longínqua, relativamente à qual seríamos, uma vez mais, espectadores de desastres alheios, com o vago prazer que produzem as catástrofes longínquas que nos chegam em livros e filmes que lemos e vemos como leitores contemplativos ou espectadores obscenos, eis que a tragédia recente do "Costa Concordia" nos vem lembrar que os desastres marítimos, e não só, são, afinal, bem actuais. E inquietante coincidência, o "Concordia" fora palco de rodagem do filme de Jean-Luc Godard, estreado em 2010 no festival de Cannes, que pretende ser uma reflexão-profecia sobre a decadência e o fim da Europa. No filme, enquanto o navio viaja através da noite escura, e os passageiros fingem divertir-se, falam ao telemóvel, vagueiam sem rumo, uma mulher jovem, na coberta do navio, murmura: "Pobre Europa, conspurcada, humilhada pelo sofrimento".

Entre as interessantes comparações que, por estes dias, se fizeram entre o naufrágio do "Concordia" e o do "Titanic, além daquela que leva a concluir que é mais fácil chocar com um iceberg do que com uma ilha, ficámos, também, a saber que o primeiro se afundou às escuras e o segundo com todas as luzes acesas e com a orquestra tocando, o que é mais consentâneo com a sociedade-espectáculo em que vamos vivendo.

Quanto aos capitães, enquanto o do Concordia parece ter sido o primeiro a fugir, o do "Titanic" afundou-se com o navio, transformando-se num exemplo de coragem e heroísmo gravado num epitáfio num monumento novaiorquino: "Faithful in duty. Friendly in spirit. Firm in command. Fearless in disaster. He saved women and children and went down with his ships". Conta-se que no "Concordia", a correria para os salva-vidas foi caótica, com os mais fortes a empurrar mulheres e a pisar crianças no afã de chegar primeiro aos botes. No "Titanic, a fazer fé na estatística dos sobreviventes, os homens honraram o protocolo de "as mulheres e as crianças primeiro" instituído após o épico naufrágio, em 1852, perto da Cidade do Cabo, em frente de Danger Point (!), da fragata britânica "HMS Birkenhead", em que os soldados e oficiais do 73 Regimento de Infantaria, permaneceram em formação na coberta, enquanto as mulheres e as crianças a bordo (familiares dos militares) subiam para as lanchas e se punham a salvo. No "Titanic", as coisas não terão sido heróicas do mesmo modo, já que, a prioridade foi dada às crianças da primeira classe e só depois às da segunda e terceira classes (segundo as mesmas estatísticas, no "Titanic" 94% das crianças que viajavam em primeira classe salvaram-se, enquanto na terceira classe a mortalidade ascendeu a 75%).

Outra diferença entre os dois naufrágios, é que enquanto o "Titanic" se afundava no meio do mar, a muitas milhas da costa e, portanto, sem espectadores, o "Concordia" afundou-se a 150 metros da terra perante o olhar contemplativo de muitos espectadores, o que me leva ao ensaio de Hans Blumenberg Naufrágio com espectador (1979), em que o filósofo alemão lembra que o naufrágio sempre foi uma "metáfora existencial", tal como se encontra no Proémio do livro de Lucrécio Rerum Natura, sublinhando a posição segura em terra firme a partir da qual espectador observa a cena do heróico naufrágio dos audazes navegadores. A partir da metáfora do naufrágio, Blumenberg produz um excelente argumento de como a oposição terra/mar determina todo um conjunto de outras que vão vigorando historicamente até à "modernidade", de entre as quais as que são determinadas pelo nihilismo moderno marcado pela tensão entre a segurança de quem fica em terra, isto é, no seu lugar e a insegurança de quem, saindo do seu lugar, violando as fronteiras, se expõe ao perigo e ao desastre.

Estas a posição antagónica entre o espectador e o naufrago. Já Lucrécio, o espectador, contemplava desde terra firme o desastre marítimo alheio: "é doce, quando no mar imenso os ventos agitam as águas./ observar a partir de terra as tribulações alheias", o que me faz regressar à actualidade do naufrágio do "Concordia" à vista de todo o mundo e à alegoria da nossa existência actual enquanto observadores passivos diante do desastre que pensávamos ser apenas alheio - o naufrágio financeiro e social da Grécia diante da contemplação obscena das instâncias políticas europeias -, mas que, afinal, se revela poder vir a ser um naufrágio geral de uma Europa à deriva após o capitalismo ter violado as fronteiras da decência. Blumenberg, citando Pascal, coloca-nos na posição de navegadores prestes a naufragar: "vous êtes embarqués". E embarcados numa viagem de alto risco, entre "recifes, tempestades, abismos e calmaria", sem timoneiro ou ancoradouro que nos ponha a salvo da crise que aí está para nos afundar. Mas não igualmente todos, porque nesta embarcação, tal como no "Concordia", os capitães da finança e da política estabelecida serão os primeiros a pôr-se a salvo; e tal como no "Titanic", os que viajam em primeira classe têm já os salva-vidas à sua espera, enquanto os que viajam em segunda e terceira classes dificilmente chegarão a eles.

Talvez, por isso, Enrique Vila-Matas nos tenha lembrado, recentemente, numa crónica no El País, intitulada El naufragio por excelencia, sobre o "relato do mais famoso naufrágio do século XVII", Les Naufragés du Batavia, de Simon Leys,  que "as ansiedades, crises e catástrofes são apenas isso, ansiedades, crises e catástrofes, mas o pior pode vir depois. Nestes tempos em que, com estranha constância, sem o menor desfalecimento, as notícias financeiras diárias se mostram ensimesmadas numa já quase complacente descrição do naufrágio geral, seria bom lembrar que nem tudo termina numa crise recorrente e que, às vezes, pode encontrar-se no outro lado da porta algo ainda mais ligeiramente infame: o tempo do horror." "É que todos esperamos o barco de Java, a embarcação capaz de vir em nosso socorro com a sua vela branca, tão necessária por estes dias."

10 de fevereiro de 2012

Vila-Matas portátil


Quanto pesariam os livros de bolso de Enrique Vila-Matas que trouxe na minha bagagem de cabine no voo low cost de Barcelona para Sevilha? Seguramente, embora contundentes, pesariam pouco, senão não os poderia ter trazido comigo e começado a lê-los no avião, o que ajuda sempre em qualquer voo, já que livros e turbinas são - como diria o escritor argentino Rodrigo Fresán, autor de "La velocidad de cosas" e, talvez por isso, também ele, um viajante-leitor - máquinas locomotoras.

Livre de taxas de peso adicional, subi, primeiro, à máquina voadora e, só depois, aos três livros De Bolsillo da biblioteca portátil vilamatiana que a Mandadori decidiu começar a publicar, a saber: "En un lugar solitário. Narrativa 1973-1984", "Chet Baker piensa en su arte" e "Una vida absolutamente maravillosa". "Dublinesca", também publicado nesta colecção, não o trouxe, não por medo de excesso de peso, mas porque já o tinha subido noutra viagem. Sempre que subo a aviões, subo também a livros, como já em posts anteriores se ficou a saber. Assim como me confio à perícia dos pilotos que vão traçando linhas nos céus, também me confio à perícia daqueles que traçam linhas nas páginas subidas na cabine.

E num destes livros, traça V-M que tinha o secreto desejo de se tornar realizador de cinema e que, na época, viveu a experiência do serviço militar obrigatório como um calvário. «Daquele já muito remoto ano de 1971, que passei em Mellila como soldado do Exército espanhol, recordo muito particularmente os 20 dias que estive internado no manicómio militar dessa fortaleza». Assim começa o pesado prólogo de En un lugar solitário. Narrativa 1973-1984, escrito por V-M para o volume que reúne os seus cinco primeiros livros. Neste extenso prólogo, V-M confessa como, a pouco e pouco, subiu, ele próprio, para a literatura: «Conto como entrei na literatura, as minhas debilidades iniciais quando comecei a escrever. Primeiro, como leitor de poesia, comecei, depois, a escrever quase por casualidade, e entrei, sem saber como, nesta aventura».

O texto En un lugar solitário, que dá o nome à antologia, foi o primeiro livro publicado por V-M, na ocasião, com o título  Mujer en el espejo contemplando el paisaje. Al sur de los párpados foi o terceiro, tendo o autor evitado reeditá-lo até agora. "Sempre tive alguns preconceitos contra estes dois livros. Contudo, ao relê-los 30 anos depois, reconheço-me neles. Ambos contém coisas boas e más, mas fazem sentido no conjunto dos textos reunidos. Não quis adicionar nem eliminar nada para não diminuir o seu valor documental" numa antologia que integra, ainda,  La asesina ilustrada, Nunca voy al cine e Impostura. "Suprimir um ou outro título da minha obra dos primeiros anos deixá-la-ia coxa".

En Chet Baker piensa en su arte, V-M institui algo que ele próprio classifica como "ficção crítica", processo que utiliza para reflectir sobre a obra de Joyce e de Simenon: "um crítico literário, encerrado durante uma noite noite num hotel de Turim, procura o traço de união entre a literatura radical encarnada pelo último Joyce e a literatura tradicional de qualidade representada por Simenon; persegue o livro que uniria idealmente os leitores de contos minoritários e exigentes com aqueles que preferem histórias mais comerciais".

Dos livros subidos a bordo nesta viagem de regresso a casa, depois de uma estada na cidade nervosa de V-M, Una vida absolutamente maravillosa, que me decidi começar a ler no avião por ser o mais locomotor, é, de entre todos, o mais vilamatiano, aquele em que V-M é, ao mesmo tempo, um ensaísta que narra e um contista que ensaia. Continuo a ler a suas mais de quinhentas páginas nestas noites volúveis, tão maravillado como na primeira vez que li El viajero más lento, El traje de los domingos, Desde la ciudad nerviosa y El viento ligero de Parma. E leituras maravillosas, o segundo livro de Diario voluble e Para acabar con los números redondos que integram o volume. Assim como os retratos de momento de autores que integram a sua, e a minha, biblioteca de quarto escuro: Walser, Joyce, Gombrowicz, Céline, Roussel, Kafka, Schulz, entre outros bartlebianos & shandianos.

E vocês, que esperam para meter no bolso esta ligera, mas contundente, biblioteca portátil vilamatiana? Subir a um avião ou esperar pela tradução?

6 de fevereiro de 2012

Literatura sem escritores



Escreve W. G. Sebald que à sua volta tudo se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História se desvanece. E que neste processo de aceleração imparável é conveniente que a literatura se encarregue desta consternação. Mas Sebald já cá não está. Nem Mann, nem Musil, nem Walser, nem outros que acreditaram na capacidade de resistência da literatura e o papel fundamental que ela poderia desempenhar na sobrevivência da história da memória humana, como disse Vila-Matas em Doutor Pasavento. É, ainda, Sebald que, em Os anéis de Saturno, nos oferece uma admirável síntese do que é a literatura: Sempre que decifro uma destas notas surpreende-me que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível aqui, no papel.

Mas, onde perseguir, hoje, esse rasto, quando é o próprio universo da literatura que parece poder funcionar sem escritores? Não estará a banalização da palavra a levar ao desaparecimento a própria ideia de literatura? Quem inscreve no papel esse rasto que leremos daqui a cem anos, mil anos? Todos estes mortos à nossa volta, onde sepultá-los se não na linguagem?,  pergunta Adónis, um poeta sírio-libanês que me revela Vila-Matas. E, no entanto, a banalização "pós-moderna" da palavra é uma miragem de um lago em cuja superfície opaca se desvanecem os traços, os rastos, a própria essencia da literatura.

Que fizeram os escritores contemporâneos do legado que receberam do passado, permitindo que a água e o ar estejam a apagar o rasto das palavras? Entra-se numa livraria e há muitos livros. Mas há poucos escritores. Tão poucos que parece que o próprio mundo da literatura parece já funcionar sem a necessidade dos escritores. «Vejo escritores falsos e sei distinguir entre o escritor falso e um que não o é» - disse Vila-Matas numa entrevista recente. «Depois de Kafka não consigo imaginar um escritor a apanhar banhos de sol [...] há muitos escritores que vejo como falsos», acrescentou. E, ainda, em O Mal de Montano, «essa raça de escritores, imitadores do já feito e gente absolutamente desprovida de ambição literária, mas não de ambição económica». E Lídia Jorge: «Não me interessa a literatura sobre o nada». Vila-Matas e Lídia Jorge, tão aparentemente diferentes, mas tão iguais na sua entrega à literatura. Por isso, li os seus últimos livros quase ao mesmo tempo. Porque não há em nenhum dos dois, embora em registos literários muito diferentes, nada de excessivo. Não desbaratam palavras. O primeiro, através de Pasavento, perseguindo uma poética da extinção, da ocultação, os mortos sepultados na linguagem; Lídia recolhendo a matéria impura com que veste a sua escrita, a realidade, onde põe em movimento personagens com inteireza, vivas.

Evoco-os aqui porque, embora cada um transformando, contando, a realidade à sua maneira, ambos são verdadeiros. Ambos pertencem à literatura. Na sua diferença representam aqueles que procuram contrariar a histeria tranquila de grande parte dos escritores da moda, incapazes de traçar os sulcos que muitos anos depois, se os tivessem inscrito, haveríamos de ler. Na maior parte, o que há, hoje, são actores e não autores, que transformam a literatura num ramo pobre e marginal da cultura do espectáculo. Um simulacro de literatura, aproveitado, incentivado por «homens de negócio que editam livros». Por isso, as novidades das livrarias encontram-se inflacionadas por livros de figuras públicas, jornalistas, políticos, historicismos, esoterismos, remakes, best-sellers, bagatelas que se vendem como qualquer mercadoria, porque são, efectivamente, mercadoria efémera.

Já Roland Barthes, nos anos 60, afirmava que a crise não era da literatura, mas sim do livro, do excesso de livros postos a circular por um mercado apenas preocupado com a multiplicação das páginas, do lucro. Só nos restará, então, regressar aos clássicos? A esses regressaremos sempre, hoje, daqui a cem anos, mil anos, porque neles se encontra gravada a história da memória humana. São os livros esplendorosos, raros, assombrosas «extensões da memória e da imaginação» que com paciência encontramos quase escondidos nas livrarias. Que apenas se encontram nos alfarrabistas amantes de livros. E há, também alguns, actuais, ainda mais raros, e difíceis de reconhecer na confusão de títulos lançados em cascata, mas que serão futuros clássicos donde, uma vez abertos a quem os queira ler, se soltará para sempre o sopro que manterá vivo, apesar dos outros, apesar dos «trapezistas do marketing» editorial, o fogo da literatura. 

26 de dezembro de 2010

Tudo o que era sólido


Chegado que é o fim do ano, e em tempo de recomeços, do alto deste trapézio voador - observatório instável sobre as coisas cá em baixo - mais do que me precipitar no vazio do novo ano que aí vem, opto por uma reflexão, necessariamente breve, sobre este tempo falhado, numa espécie de tentativa de escandir o passado recente para, depois, imitando as personagem de Exploradores do abismo , de Enrique Vila-Matas, fazer como «as pessoas normais que, ao ver-se à beira do precipício fatal, adoptam a posição do expedicionário e sondam o horizonte plausível, indagando sobre o que pode haver fora daqui ou mais além dos nossos limites».

E o que vi desde o meu instável posto de observação foi o arrancar do véu da utopia neo-liberal e as consequências desastrosas da desregulação capitalista sobre as economias, ameaçando transformar o «apocalipse alegre» em que íamos vivendo numa queda sem fim que nos levará não se sabe, ainda, até onde. E eis-nos, então, agora, «de pé enfrentando o caos» que irrompeu como uma brecha no rochedo aparentemente sólido das nossas rotinas, ameaçando dissolver no ar tudo aquilo que era sólido, como antecipou Marx.

E enquanto, por ora, vamos caminhando sem mapa pelas estradas que fazemos -«e que o fazemos somente ao caminhar por elas» -, como escreveu Zygmunt Bauman, que fazem os políticos? Deixam-se ir na mesma operação de encobrimento que volta a servir os «mercados», assumindo novas patologias de posição, transitórias, etéreas que mais não fazem do que permitir a colonização do discurso político pelas mesmas retóricas neo-liberais que nos conduziram perigosamente para a beira do abismo. Outros, diante do perigo que sobrevém, e este vem sempre, armam-se em maquinistas da desgraça e vão maquinando soluções contra as vítimas de sempre.

E nós, em separado ou em simultâneo, puros hedonistas, hiperactivos voláteis, contempladores sensíveis, espectadores obscenos, que fazemos diante do torvelinho que vai arrastando o país (e o mundo), e nós com ele, para o vórtice fatal tão bem descrito por Edgar Allan Poe no conto «Uma descida ao Maelstrom»? Deixámo-nos ir, ainda, em «apocalipse alegre» - para utilizar a mesma fórmula que Hermann Broch usou para descrever o nihilismo da sociedade europeia de fim de século - que é, também, a forma como hoje nos vamos entregando ao nihilismo pós-moderno, falhando, portanto, como diria Walter Benjamin, a ocasião de as coisas não continuarem como antes.

Daí, então, que este balanço possa parecer, numa espécie de espelhismo relativamente aos acontecimentos recenseados, também ele, nihilista. E sê-lo-á quer no sentido em que persegue a incompletude, o falhado, a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», quer, ainda, por corresponder a um modo de escandir o tempo que só produz passado, que é uma nova forma de «doença histórica» que revoga o tempo breve da novidade. Mas ainda que nihilista face à consciência da generalização actual do alegre apocalipse, porque não ler, também, nesta recensão cronológica uma forma de rebelião contra o próprio nihilismo? O que dito de outro modo poderá traduzir-se na pergunta: como aceitar estes acontecimentos quando se pode sempre esperar que o tempo que vem aí traga outras possibilidades ao mundo, outras ocasiões de não deixar as coisas continuarem como antes? Que não seja mais um recomeço, mas antes um começo? Ou que, como desejava Paul Celan, nos deixe caminhar pelas estradas que fazemos afrontando «a crise» enquanto sinal da liberdade para responder ao perigo que sobrevém.

Este o balanço que importa perseguir, até porque só o escandir do tempo, recenseando a história não para arquivá-la, mas para nos confrontarmos com ela, levará a acreditar que um balanço pode ser algo mais do que uma cronologia ou uma patologia da «doença histórica» de que falava Nietzsche. E que, quem sabe, nalguma cesura aparentemente invisível na sucessão veloz de fins e de recomeços, sejamos capazes, ainda, de sondar os horizontes plausíveis do tempo actual, indagando sobre os acontecimentos que deveremos perseguir no futuro para superar as consequências dos acontecimentos passados, dando, finalmente, como bem tentou Walter Benjamin na sua solidão irredutível, «o salto de tigre no céu livre da história».

18 de maio de 2010

Hotéis de passagem (I)


Todos hotéis são por natureza lugares transitórios. Alguns são hotéis de passe para amantes ocasionais. Outros são hotéis de passagem para transeuntes nocturnos roçando abismos por cruzar. E outros há, ainda, que são protagonistas de histórias em que a realidade supera a ficção, como um tal hotel Cervantes, situado numa rua do centro de Montevideu que aparece em dois contos de Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares, e que serve de pretexto para uma crónica que Enrique Vila-Matas me enviou faz algum tempo para publicação numa Atlântica por vir.

E porque - ignoro por que motivo - me cruzo, às vezes, com a sombra do escritor catalão, lembro-me de há alguns anos me ter escapado desde Colónia do Sacramento (onde, como viajante acidental, acompanhava a minha mulher num seminário de história ibero-americana) até Montevideu, e de ter errado pelo centro à procura de um velho cinema que por ali havia numa rua arruinada nas imediações da despovoada Plaza Independencia – a Soriano, entre Convención e Andes – e de ter ladeado a fachada espectral, sombria, discreta, banal de um hotel perdido no meio de edifícios feios e de despojos depositados na calçada pela vizinhança, que ostentava um grande letreiro onde se podia ler o nome de Hotel Cervantes. Ignorava ainda o desejo de Vila-Matas de, transitoriamente, aí se hospedar um dia quando for a Montevideu e, sobretudo, o mistério da porta entaipada do quarto 205, protagonista do conto La puerta condenada, de Cortázar, e de um outro escrito por Adolfo Bioy Casares, Un viaje ou El mago inmortal, cujo rumor me chegou em forma de crónica vilamatiana. Ou não fosse, afinal, para isso que servem as portas entaipadas dos quartos de hotéis transitórios.

Se minimamente suspeitasse dos mistérios que se escondiam naquele segundo andar onde viveu durante anos, até à sua morte, o poeta filósofo Emilio Oribe, e onde, também, Jorge Luís Borges confessa ter-se hospedado e sofrido de insónias - «Lembro que fui para Montevidéu. Estava alojado no Hotel Cervantes e às vezes acordava as duas ou três da manhã...» [Alifano, Roberto, Borges, Biografia verbal. Barcelona: Plaza & Janés, 1988] -, teria certamente cruzado o balcão da recepção e, quem sabe, subido ao quarto 205 e, noite adentro, escutado as vozes dos passageiros da noite que pernoitavam no quarto ao lado. Mas não. Distraído dos abismos que uma qualquer rua banal pode oferecer ao transeunte ocasional, passei pelo umbral do hotel sem entrar.

Procuro no google e confirmo que o hotel Cervantes ainda lá está na rua Soriano, em Montevideu (encontra-se actualmente em remodelação com vista a tornar-se num hotel de charme ) e que, por isso, se se concretizar o desejo de Vila-Matas - «se algum dia for a Montevideu, irei visitá-lo e tratarei de alojar-me no segundo piso, numa "pieza chiquita", onde talvez se encontre, ainda, esse grande armário que tapa a misteriosa puerta entaipada» [in Diário volúvel, Teorema]-, é de admitir que possamos ler um conto vilamatiano onde que se escutarão, seguramente, os gemidos de amantes ocasionais vindos do outro lado da porta entaipada atrás do armário, ou não fosse Vila-Matas um coleccionador nato das existências alheias, sobretudo quando essas existências roçam um qualquer abismo que se abre numa noite de insónias no outro lado de um umbral obscuro, ao mesmo tempo que no piso de baixo ressoa uma milonga de Gardel, também ele, tantas vezes, um passageiro da noite montevidiana.

4 de maio de 2010

Vulcanografias


Por estes dias em que o vulcão islandês Sneffels volta a expelir cinzas tóxicas sobre os céus da Europa, depois da Islândia já ter, antes, disseminado matéria financeira tóxica sobre os mercados, mostrando-se, assim - seja pela via da vulcanologia seja pela via da economia -, que continua válido o enigmático aforismo de Marx segundo o qual tudo o que é sólido se dissolve no ar, ou que, ironicamente, contrariando Heidegger, a técnica sucumbiu diante das vertiginosas forças tectónicas, provocando o caos nas ligações aéreas à escala planetária, como não revisitar alguns livros abissais da minha biblioteca?

Livros aparentemente adormecidos, mas que escondem vulcões tão reais como o Sneffels, e outros inventados, mais estes do que aqueles, para onde me deixei arrastar por certa vertigem da leitura, própria, aliás, de quem lê procurando encontrar à beira do abismo passagens, fendas que dão para mundos paralelos de «uma trama mais subtil, uma teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos», como escreveu esse expedicionário de vulcões inventados, Enrique Vila-Matas, em Exploradores do abismo. E onde, então, melhor, encontrar essas estreitas passagens se não à beira desses precipícios, reais e inventados, que nos atraem para uma queda sem fim?

Voltar a descer, então, pelo Sneffels, essa «boca do mundo» aberta na península Snaefellsnes, na Islandia, que me foi revelada, em noites de infância extrema, por Júlio Verne em Viagem ao centro da terra, e por onde, perigosamente, se escapuliram embriagados pela voluptuosidade das alturas , o professor e geólogo Otto Lindenbrock, o seu sobrinho Axel e Hans, o atlético guia islandês, e eu com eles, num périplo de cinco mil quilómetros de inarráveis perigos e irremediáveis fascínios, através das ocas entranhas e do mar interior do centro da terra, para regressarmos, depois, ao outro lado do mundo, numa nuvem de cinzas e gazes tóxicos, expelidos pela cratera incandescente do Stromboli.

Ali, de pé frente ao inafrontável - experimentando o mesmo sentimento de vertigem que levou Axel a pensar que não havia «nada mais inebriante que a atracção do abismo» -, eu não sabia, ainda, que a força gravitacional que me arrastava num delírio onírico de leitura precoce se metamorfosearia na vertigem que Edgar Allan Poe descreveu no conto «Uma descida ao Maelstrom», cuja imagem de pendor nihilista tão bem ilustra o vórtice da história enlouquecida atraída irresistivelmente pelo abismo, como reflexiona Bragança de Miranda em Queda sem fim (Vega, 2006).

E ainda menos suspeitava eu que, anos depois, haveria de ver Malcolm Lowry, o «cônsul da embriaguez e dos vulcões», como o descreveu o poeta José Agostinho Baptista, ser engolido em Cuernavaca, México, pelos abismos do mezcal brotando Debaixo do vulcão mais inventado da minha biblioteca, ainda que, de entre eles, o Popocatepetl seja o único que eu, sentado de frente para ele na esplanada Las Mañanitas, bebendo uma coronita muito fresca, avistei, resplandecente de neve, num Dia de los Muertos, enquanto procurava decifrar os admiráveis abismos de festa e alucinação para onde se atirou, numa queda sem fim, aquele inglês sonhador quando se viu à beira do precipício.

E nesta périplo de vulcões, reais e inventados - e este agora roubado de uma página do Diário Volúvel de Enrique Vila-Matas, -, vejo agora emergir da minha biblioteca o Tängri, espécie de montanha mágica criada por Julien Gracq nesse romance absoluto que é A costa de Sirtes [Vega, 1998], e onde Vila-Matas se deixa ir caindo nas profundezas do Tangri para nos oferecer uma lição de vulcões: «no fundo, os vulcões, reais ou inventados, não são mais do que a busca da origem, da génese da vida e da arte. (...) Um vulcão é a origem e é também geometria da erupção, mistura de atracção e repulsa».

Que fazer, então, por estes dias de revolta dos vulcões islandeses cujas poeiras acinzentam os céus da Europa e ameaçam as rotas aéreas? E que fazer diante dos outros abismos reais que escapando à vulcanografia inventada ameaçam arrastar-nos no seu vórtice numa queda sem fim? Talvez fazer como aqueles exploradores vilamatianos que «ao verem-se à beira do precipício fatal, adoptam a posição do expedicionário e sondam o horizonte plausivel, indagando sobre o que pode haver fora daqui, ou mais além dos nossos limites».

Não ter, portanto, medo de cair, porque talvez tudo dependa do modo como se cai. Porque se pode cair numa queda sem fim ou cair para a seguir nos elevarmos melhor. Tudo, então, uma arte da queda, das inclinações, do clinamen.

1 de janeiro de 2010

As qualidades da década


Na curva derradeira do ano e, também, da década, num impulso momentâneo, arrebatado, talvez, por uma certa forma de nihilismo que faz da actualidade o modo crucial da temporalidade contemporânea levando tantos de nós, em jornais, revistas e televisões a fazer os balanços, as recensões, as listas do que, nas diversas áreas, precisa de ser inventariado nesta sucessão cada vez mais veloz de fins e recomeços cíclicos, para logo em seguida ser depositado nos arquivos da nossa memória breve, vou como um «explorador de abismos» medindo os acontecimentos desta década que está prestes a findar para melhor avaliar as suas qualidades.

E, à medida que vou escandindo a década, é como se estivesse «de pé e enfrentando o caos», como um explorador vilamatiano que ao ver-se à beira do precipício fatal adopta a posição do expedicionário e sonda o horizonte plausível, indagando sobre o que pode haver fora daqui, ou mais além dos nossos limites» (Enrique Vila-Matas).

«Frente ao inafrontável», como diria Zygmunt Bauman, momentaneamente entregue a esta forma de nihilismo que me leva a recensear o passado, vejo e revejo uma década que foi inútil, para não dizer completamente fracassada, mesmo naquilo em que parecia haver um consenso para se avançar, como o combate às alterações climáticas e uma melhor gestão dos recursos esgotáveis do planeta, como ainda há dias se viu com o dramático fiasco de Cimeira de Copenhaga onde os líderes do mundo se revelaram incapazes de encontrar a receita para debelar o enlouquecimento do clima. O conflito israelo-palestiniano foi nesta década agravado com o erguer de um muro de ódio e silêncio que vai serpenteando na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, incendiando ódios na «terra prometida». Outros conflitos, sem solução à vista, no Iraque, Afeganistão e, por arrastamento, no Paquistão, vão transformando as suas cidades em espirais fantasmagóricas de corpos destroçados por bombistas suicidas. A fome, a doença e a morte estendem-se como um manto negro sobre o continente africano transformado num território de sedimentos intransponíveis, rios pedregosos, árvores calcinadas, despojos de máquinas destruídas por guerras passadas. A violência associada ao narcotráfico encontra-se incontrolada em várias regiões da América Latina. A pobreza e a exclusão social atingem camadas cada vez mais vastas das populações, aumentando o fosso entre ricos e pobres. No rescaldo do 11 de Setembro, o medo assentou praça nas nossas vidas e derrota-nos diariamente nas nossas ruas vigiadas, nos aeroportos, nos aviões. O mundo ficou mais imundo, prisioneiro de um capitalismo descontrolado, dos homens de negócios sem escrúpulos e dos sacerdotes da economia libérrima tornada no novo absoluto dos tempos modernos, espalhando mais desemprego, mais pobreza e suicídio entre os mais desfavorecidos. Nunca a formulação de Walter Benjamin foi tão verdadeira como na década que agora finda: «Cuidado, tudo é perigoso, mas não igualmente ao mesmo tempo».

Incapaz de enfrentrar o caos, diante do torvelinho que vai arrastando o mundo pelo vórtice fatal tão bem descrito por Edgar Allan Poe no conto «Uma descida ao Maelstrom», às mãos dos homens de negócios e do novo determinismo histórico. A política tornou-se num teatro de títeres. E nós, neste teatro, em separado ou em simultâneo, com maior ou menor consciência das qualidades que nos são incitadas, puros hedonistas, hiperactivos, contempladores sensíveis, espectadores obscenos, fetichistas da ascensão social, somos figurantes sem voz da «operação de encobrimento a que chamamos sociedade». E, assim, nos deixamos ir em «apocalipse alegre» - para utilizar a mesma fórmula que Hermann Broch usou para descrever o nihilismo da sociedade europeia de fim de século - que é, também, a forma como hoje nos vamos entregando ao nihilismo pós-moderno, falhando, como diria Walter Benjamin, a ocasião de as coisas não continuarem como antes.

Daí, então, que este balanço das qualidades da década possa parecer, numa espécie de espelhismo simétrico relativamente aos acontecimentos medidos, também ele, nihilista. E sê-lo-á quer no sentido em que inventaria a incompletude, o falhado, a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», quer, ainda, por corresponder a um modo de escandir o tempo que parece apenas produzir passado, o que - se não for excessiva a convocatória da formulação de Nietzsche - constitui uma nova forma de «doença histórica» que revoga o tempo breve da novidade. Mas, paradoxalmente, mesmo que nihilista face à consciência da generalização actual do alegre apocalipse, porque não ler, também, nesta recensão das qualidades da década uma forma de rebelião contra o próprio nihilismo, na medida em que denuncia a ilegitimidade dessas qualidades?

Porquê continuar a aceitar o que está aí quando podemos sempre procurar outra coisa, como faz, por exemplo, o personagem Ulrich no inacabado livro de referência deste blogue, O Homem sem Qualidades? Porquê aceitar as qualidades atrás referenciados quando nos podemos desprender delas e esperar que a próxima década ofereça outras possibilidades ao mundo, outras ocasiões de não deixar as coisas continuarem como antes?

Talvez nalguma cesura aparentemente invisível na sucessão veloz de fins e de recomeços, como «exploradores optimistas,» possamos, ainda, sondar os horizontes plausíveis do tempo que aí vem, indagando sobre as qualidades necessárias para superar as consequências dos acontecimentos passados, dando, finalmente, como bem o tentou Walter Benjamin na sua solidão irredutível, «o salto de tigre no céu livre da história».

[foto ao alto: © Lartigue]

22 de outubro de 2009

Falemos de Deus


Contra as ressonâncias bíblicas que se ouvem por aí a propósito do livro de Saramago, outra forma de abordar «o teorema perfeito e terrível» de Deus.

Raramente falamos de Deus. E quando a ele nos referimos preferimos a metáfora, como se tudo o resto se descolasse do seu nome. E ainda menos falamos dessa questão «menor» de acreditar ou não acreditar em Deus, preferindo cruzar os braços contra a crença profunda em que nascemos. A verdade é que herdámos Deus mesmo antes de termos conhecido «as suas casas profundas». Na infância, Deus é, como escreveu Soares dos Passos, «aquele que povoa a imensidade». Depois, à medida que nos vamos adentrando no mundo, verificamos que caminhamos mais sós do que desejávamos. Por isso transformamos as perguntas nas respostas que procuramos, enquanto aguardamos pelo teorema da existência de Deus. E deixamo-nos arrastar pelo medo que cobre um mundo onde se apagaram as imagens que o paraíso já não devolve depois da «morte do criador» anunciada por Nietzsche. E desde aí, vivemos no medo de termos ficado órfãos para sempre, como se escrevêssemos um novo e desesperado Livro de Job. Há quem explique esta angústia como um «erro genético» que a todos afecta. Porque todos, crentes e agnósticos, estamos inelutavelmente comprometidos com a dúvida original, oscilando entre um ascetismo puro e uma transcendência luminosa. Talvez, por isso, uns e outros, em qualquer momento das nossas vidas, já tenhamos sentido a falta de Deus. E outras vezes escutado os seus passos, os restos da sua voz no nevoeiro que cobre o mundo. E isso apazigua o medo. E, depois, estranhos de passagem, continuamos o caminho, cépticos ainda, mas com menos frio no coração. Mas será essa estranheza algo que devemos ocultar? Ou, como diz Henry James, «é preciso acreditar na dúvida, porque é isso que faz a grandeza do homem».

Diante da dúvida, que futuro, então, para Deus, num mundo que, ao mesmo tempo que vai perdendo o seu sentido ético, assiste à «instrumentalização política da religião», traduzida nos múltiplos fundamentalismos religiosos que enlouquecem os homens. «Talvez [como escreveu Enrique Vila-Matas] as ideias casuais de tanta gente incerta [...], as inquietações de cada um, dos vivos e dos mortos. Talvez algum dia com fluido abstracto e impossível substancia, formem um Deus ou um tecido novo e com a luz de outra vida ocupem o mundo».

Entretanto, «nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre/ o teorema perfeito/ e terrível» [Herberto Helder, Última Ciência].

6 de setembro de 2009

Do sentido da possibilidade



A literatura, então, como «uma tentativa de tornar real a vida», escreveu Pessoa. Ignorava o poeta que, algumas décadas mais tarde, Enrique Vila-Matas haveria de fazer da possibilidade de introduzir o real na ficção uma marca do seu estilo pessoal através da qual a aparência de verdade levada até ao extremo converte aquilo que no início é apenas verosímil numa nova forma de realidade que não necessita de nenhuma outra explicação que a da evidência da ficção. E de uma ficção que questiona o nosso limitado conceito de verosimilhança e nos transforma em exploradores mentais de mapas obscuros em cuja cartografia abismal nos adentramos para nos aproximarmos mais da verdade.

Trata-se, então, aqui, de um conceito de verosimilhança que remete não tanto para aquilo que verdadeiramente entendemos por realidade, isto é, aquilo que acontece, mas mais para aquilo que poderia ter acontecido, que poderá acontecer, introduzindo, assim, na ficção «um sentido de possibilidade» musiliano que transforma as personagens «correntes e vulgares» de Exploradores do abismo em expedicionários de mundos paralelos, protagonistas de vivências nunca experimentadas que sobrepõem ao tédio quotidiano com a insolência de quem possui a fórmula mágica que o há-de esconjurar.

Lembram estes exploradores vilamatianos «esses homens [musilianos] do possível [que] vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos» (p. 41) que constituem simulacros de sentido num mundo que Musil sabe sem sentido mas que insiste em narrar em O homem sem qualidades (Dom Quixote) apesar de «tudo ter deixado de ser narrável e não seguir já nenhum fio» (p. 827). E lembra-nos Vila-Matas - que se cruzou com Musil à beira de um abismo mental no final de O mal de Montano - que se trata de «um novo modo de narrar que se constitui em permanente ensaio da vida» e que «abriu, sem fechar, o mais amplo horizonte que se oferece ao romance moderno» respondendo (tal como Hermann Broch) àquilo a que Kundera classificou como o apelo do pensamento, «não para transformar o romance em filosofia, mas para mobilizar, com base narrativa, todos os meios, racionais e irracionais, narrativos e meditativos, susceptíveis de esclarecer o ser do homem; de fazer do romance a suprema síntese intelectual».

Um convite, então, não para um passeio romanesco ao passado, mas para uma longa expedição através dos mapas obscuros do «apocalipse alegre» (expressão que sintetiza, segundo Broch, a forma como os austríacos viveram nihilismo de fin de siècle) cujos abismos cacanianos me disponho agora a explorar num programa de leitura para afrontar o vazio deste «mundo de qualidades sem homem» em que vamos vivendo. Isto é, escolhendo a qualidade de leitor sem qualidades, aberto a toda contingência, a toda a possibilidade de leitura que pode surgir numa qualquer dobra das duas mil páginas da monumental edição da Dom Quixote, numa autorizada tradução de João Barrento.

10 de agosto de 2009

Bartleby ou o eclipse da palavra


«Escrever poesia depois de Auchswitz é bárbaro», afirmou Adorno. E Paul Celan, que viveu em carne viva a experiência do extermínio, repetiu até à própria laceração de si mesmo, até ao emudecimento total, a mesma promessa angustiante: «Se viesse, / se viesse um homem / se viesse um homem ao mundo, hoje, com / a barba de luz dos / patriarcas: só poderia, / se falasse deste tempo, só / poderia balbuciar, balbuciar / sempre sempre / só só». Caídos neste torvelinho de terrível impotência, num tempo de silêncio e destruição, a que Hanna Arendt chamou a «banalidade do mal», escritores houve que sucumbiram à derrocada da razão e da linguagem, calando a sua fala, negando-se a escrever, abraçando o silêncio depois de ter proferido palavras de um modo que anunciava a promessa de novas palavras, como um rio que de repente tivesse secado deixando apenas no leito pedregoso a nostalgia do nunca mais dito. Como se escrever, acrescentar mais alguma semântica à desordem do mundo, mais não fizesse do que aumentar a catástrofe.

Hoffmansthal abriu o vertiginoso século XX mostrando o seu próprio desconcerto face à impossibilidade da comunicação através da escrita, prometendo na sua Carta de Lord Chandos, em 1902, nunca mais escrever. Kafka alude, depois, à impossibilidade da literatura, sobretudo nos seus Diários. Borges cita o poeta argentino Enrique Banchs, de quem diz: «Na cidade de Buenos Aires, em 1911, Enrique Banchs publica La urna, o melhor dos seus livros, e um dos melhores da literatura argentina: depois, misteriosamente, emudece. Há vinte e cinco anos que emudeceu». Seriam, afinal, cinquenta e sete anos. E essa mesma experiência de impotência e renúncia, desencanto e ocultação é sucessivamente reiterada ao longo do século por escritores com medo de existir diante da anormalidade da escrita: Robert Walser, Robert Musil, Bruno Schulz, Juan Rulfo, J. D. Salinger, Henri Roth… Tal como os seus antepassados Hölderlin, Joseph Joubert, Rimbaud. Rimbaud cuja insensata santidade o levou a pronunciar o mais belo manifesto de vida: «sobretudo fumar, beber licores fortes como o metal fundido» e, com uma singular precocidade, a escrever toda a sua obra até aos dezanove anos para depois partir para a aventura abissínia.

A interrupção da escrita, o silêncio, a renúncia da palavra de «um sector importante da literatura ocidental moderna», eis o que rastreia Enrique Vila-Matas em Bartleby & Companhia [Assírio & Alvim, 2001], uma espécie de catálogo de instantes fulgurantes dessa «pulsão negativa ou atracção pelo nada que faz com que certos criadores [...] renunciem à escrita [...] e fiquem, um dia, literalmente paralizados para sempre». Tendo como base Bartleby, o escriturário – o personagem do conto homónimo de Herman Melville – que, quando alguém pretendia encarregá-lo de alguma tarefa, respondia invariavelmente «Preferia não o fazer» - espécie de formulação não exaltante da negatividade moderna -, Vila-Matas oferece-nos um caderno de notas de pé de página, «notas sem texto», como ele lhe chama, sobre o síndroma de Bartebly, esse «mal endémico das letras contemporâneas», uma espécie de fresco onde se respira um humor shandiano cuja principal virtude é a de avivar-nos a memória e o desejo de revisitar as paisagens literárias que vai povoando e seguir no rasto de Rimbaud, Walser, Roth e tantos outros escritores que formam a nossa biblioteca obscur

Entretanto, se alguém quiser adentrar-se mais no significado desta renúncia bartlebyana deverá visitar os ensaios de Giorgio Agamben [Bartebly o della contigenza, Macerata, 1993] ou Gilles Deleuse ["Bartleby ou la formule", in Critique et Clinique, Les Éditions de Minuit, Paris, 1993].

2 de agosto de 2009

(In)verosimilhanças


Como um funâmbulo da leitura volto a caminhar em equilíbrio instável sobre a corda bamba que Enrique Vila-Matas estende sobre as dezanove estações abismais que integram a cartografia do vazio atravessada pelos Exploradores do abismo (Teorema). Mas, ao contrário da minha primeira expedição em que me deixei ir por ali à deriva, perseguindo elipses e labirintos, em busca da realidade disfarçada na ficção, encaminho-me agora directamente para o centro do vazio – porque é aí «no centro do vazio [que] há outra festa», segundo o verso de Roberto Juarroz citado por Vila-Matas - que se encontra no conto «Porque ela me pediu», em torno do qual se estrutura este livro profundamente vilamatiano que estilhaça as fronteiras da realidade e da ficção, mostrando-nos como até a fantasia mais inverosímil pode ser domesticada através do filtro de metáforas apagadas da vida de todos os dias e, ao mesmo tempo, como a realidade mais verosímil pode ser vivida com a insolência da fantasia que cintila na ficção.

Expedição breve, mas que, ainda assim, permite descobrir que é ali naquela estação que dá pelo nome de «Porque ela não lho pediu» que se encontra o epicentro absoluto da verosimilhança. Vou instável mas ligeiro, primeiro, no encalço da personagem vilamatiana Rita Malú que viaja ao fundo do vazio, nos Açores, em busca do seu próprio fantasma e se enreda numa trama ficcional que se vai tornando verosímil graças às bifurcações das trajectórias das restantes personagens entre o lado de cá e o lado de lá da realidade - ou da ficção? E adiante descubro que essa mesma ficção se transfigura na mais verosímil realidade em que se adentra a escritora Sophie Calle quando decide protagonizar a ficção escrita por Vila-Matas. E, no final desta breve expedição, constato que tudo não passa, afinal, de um embuste para onde fui arrastado num jogo ficcional aberto a todas as possibilidades e onde a verdade e mentira se imbricam num processo vilamatiano de «desfamiliarizar uma experiência e dela se apropriar como ficção».

Mais vilamatiano que isto não há. Quem disse que este Vila-Matas já não era ele mesmo mas outro? O próprio? A verdade da mentira, portanto.

17 de janeiro de 2008

Uma vida crepuscular


A duração das minhas viagens de avião mede-se pelo número de páginas dos livros que escolho para ler durante o trajecto. Umas vezes, uma viagem nocturna - de ida e volta - pode durar as 609 páginas de Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño [Anagrama, 2006] que me levaram desde Lisboa via Zurique até Santiago do Chile e regresso, descontando os «sueños, no pesadillas, sueños musicales, sueños de preguntas transparentes, sueños de aviones esbeltos y seguros que [cruzam] Latinoamerica de punta a punta por brillante y frío cielo azul». Outras vezes, apenas as 172 páginas da edição de bolso de Mes amis, de Emmanuel Bove [Éditions Note bene, 2002], que dura a viagem entre Lisboa a Paris e volta, sem contar com o sono matinal, em ambos os trajectos, sobre os Pirinéus, interrompido pelas hospedeiras da Aigle Azur a perguntarem-me se queria café ou chá.

Vou a Paris, então, numa viagem de 172 páginas, para dobrar o ano em boa companhia, levando comigo Les amis que Emmanuel Bove [1898-1945] escreveu em 1924 e a antecipação de errâncias por uma cidade que já não existe, embora a deambulação solitária do protagonista aconteça num mapa que me é sempre familiar: «J´aime errer au bord de la Seine. Les docks, les bassins, les écluses me font songer à quelque port lointain où  je voudrais habiter». Também eu, em Paris, gosto de errar ao longo dos cais do Sena e para lá me leva este voo de 172 páginas. Vou, acompanhado, ao encontro de amigos que vão estar à minha espera no aeroporto, ao contrário do que sucede a Victor Bâton, o alter-ego de Bove que, igual a um vagabundo solitário, se passeia pelas ruas cinzentas de Paris com uma obsessão boviana pela amizade que vai falhando como se tal sortilégio lhe fosse para sempre vedado: «La solitude me pèse. J´aimerais à avoir un ami, un véritable ami, ou bien une maîtresse à qui je confierais mes peines».

E à medida que o avião avança, este Bove crepuscular, passeante sem escapatória de ruelas becos e parisienses que leio pela primeira vez - e que me foi oferecido por Enrique Vila-Matas que mo apresentou logo na capa de Doutor Pasavento, numa fotografia tirada no Jardin du Luxembourg onde aparece com a sua filha Nora, de sobretudo escuro e chapéu  -, vai-se parecendo cada vez mais com o passeante Robert Walser, só que Bove mais solitário que aquele, porque - ao contrário do escritor suíço que aos domingos dava longas caminhadas pelos arredores do sanatório de Herisau na companhia do seu amigo Carl Seeling - falhou sempre a sua busca obsessiva de amizade.

Bove, o Walser de Paris, portanto, sem «point d´amis», perdido no meio da chusma humana dos boulevards que passa sem o ver, mas que lhe dá a verdadeira medida da sua solidão. Emmanuel Bobovnikoff, Bove, o inventor da auto-ficção naturalista, descendo a rue Saint-Jacques desde o seu hotel no número 298 - que já não existe -, metendo depois pela rue Soufflot, para ser detido mais adiante pela polícia de Clemenceau. Bove, ocioso, sob a máscara de Bâton: «Un homme comme moi, qui ne travaille pas, que ne veut pas travailler, sera toujours détesté. J´étais dans cette maison d´ouvrier, le fou, qu´au fond, tous auraient voulu être. J´étais celui qui se privait de viande, de cinéma, de laine, pour être libre. J´étais celui qui, sans le savoir, rappelait chaque jour aux gens leur condition misérable. On ne m´a pas pardonné d´être libre et de ne point redouter la misère». Bove, pelos passos de Bâton, errando livremente pela rue de Seine, pela rue Gît le Coeur, que levam ao parapeito do Sena.

Ou Bove, «o Walser da rue Vaneau», como pensou Vila-Matas, por aquele ali ter vivido - teria? - na mais estrita solidão, durante o ano de 1928, no rez de chaussé do mesmo prédio onde vivia também André Gide. Sempre la bonne rumeur - diria Bove - da rue Vaneau, que cabe na minha estante dentro de um livro de Vila-Matas, nela cabendo também o mundo inteiro. E por isso, enquanto vou folheando este relógio de páginas que escolhi para medir o tempo deste voo, decido que num qualquer dia desta semana parisiense terei de ir à rue Vaneau, onde para além de Gide e Bove viveram ainda Marx e Saint- Éxupéry e se alojam, hoje, no Hotel de Suède, os escritores do editor Christian Bourgois, logo Lobo Antunes incluído, nas suas passagens por Paris, o que faz dessa rua um estranho tecido de destinos e de obras, a cujo significado só poderá aceder quem «viva já nas costuras do ruído mundano». As mesmas costuras que depois de ler Doutor Pasavento haveriam de me levar à estrada de Damasco. Mas isso são outras imbricações que apenas os que vêem neste blogue uma modesta tentativa de auto-ficção poderão, talvez, descortinar. Já a comparação de Bove com Walser que aqui se foi intrometendo me parece mais verosímil. Se não, digam-me lá se esta possibilidade de apagamento do sujeito na rua não faz lembrar Walser? «J´errai dans les rues, l´âme joyeuse et vivant seule, sans les yeux».

E sobre Bove, escreveu Peter Handke, num dia de chuva, em Petit-Clamart, nos arredores de Paris, uma carta-prefácio que seria enviada, depois, desde os correios de Bièvre para Jean-Luc Bitton, co-autor (com Raymond Cousse) da biografia [La vie comme une ombre, Le Castor Astral], «[qu´il] devrait devenir le patron-saint des écrivains (purs), plus que  Kafka, et de la même façon que Anton Tchecov et Francis Scott Fitzgerald». E aqui a imbricação entre a realidade de estar agora num avião que avança para Paris, a ficção do livro que vou lendo e um prefácio à biografia do autor, escrito e enviado, precisamente, da mesma localidade onde irei ficar nesta semana parisiense, Bièvre, o que mais uma vez vem mostrar que as coincidências nunca são acidentais, e que até numa crónica se podem «plasmar as estranhas combinações estranhas da vida», como disse Gerard de Nerval que não me consta que tenha andado por Bièvre, mas que também era dado a errâncias parisienses. Assim, terei escolhido Bove para ler no avião porque vinha para ficar em Bièvre ou ficarei em Bièvre porque trouxe comigo Bove que me levou a Jean-Luc Bitton que me levou a Peter Handke que escreveu um prefácio bièvrois para a biografia de Bove? O que sei, no final deste romance, é que voltarei a errar por aí com este Emmanuel Bove crepuscular.

26 de dezembro de 2007

Passeante do Loire


foto de Gérard Bertrand 

Também ele era um passeante e também ele desapareceu neste Dezembro nas margens do Loire. «Professeur, du géographe, du provincial, de l’amoureux du fleuve, du promeneur, du parisien d’adoption, de l’homme qui dit non, de l’ancien surréaliste qui l’était resté dans l’âme, de feu le communiste très provisoire, eis quem era, ainda, Julien Gracq (1910-2007), segundo o retrato que lhe traça Pierre Assouline.

Ao observar as novidades que por estes dias enchem os escaparates das livrarias não posso deixar de recordar as palavras deste escritor clássico-moderno francês que viveu até às vésperas deste Natal, ocultado na sua casa, em Saint-Florent-le-Vieil, nas margens do Loire, e que em A literatura no estômago [Assírio e Alvim, 1987], um planfleto publicado em 1950, escrevia que a arte literária não só era vítima desgraçada de uma massificação vazia, como estava submetida às perversas regras analfabetas do não-literário. Nesse texto premonitório, de uma actualidade cortante, Julien Gracq arremetia já contra a «literatura alimentícia», essa espécie de fast-food literário imposto pelo mercantilismo editorial emergente e que haveria de se tornar, nos nossos dias, na dieta compulsiva dos «analfabetos altivos».

Tal como Robert Walser que se ocultou em Herisau para escapar ao ruído do mundo, também Julien Gracq se refugiou - numa espécie de exílio interior contra a vanidade dos salões literários - na sua casa natal, nas margens do Loire, fora de Paris portanto, cujo apelo rejeitou, como rejeitou o Goncourt que lhe foi atribuído em 1951, para melhor construir os castelos no ar em que se foram transformando os seus livros cada vez mais fragmentários, cada vez mais imbricados nos territórios dos seus antepassados cujas paisagens quiméricas, como um amante do rio, atravessava em busca do conhecimento perdido. Daí o seu «desejo de preservar-se, de não ser incomodado, de dizer não, em resumo esse Deixem-me tranquilo no meu canto e não parem [que] deve atribuir-se à sua ascendência vendeana», tornando-se num «dos escritores mais ocultos do nosso tempo, um dos mais esquivos e afastados, um dos reis da Negação», como escreve Enrique Vila-Matas em O Mal de Montano, depois de o ter visitado no seu exílio vendeano.

E assim foi até à sua morte, com noventa e sete anos, na ante-véspera do dia de Natal, deixando-nos as dezenas de cadernos onde durante últimos quinze anos foi pintando as suas paisagens interiores. E, sobretudo, A costa de Sirtes [Vega, 1998], esse romance absoluto sobre a espera e os mundos de fronteira que sugere a mesma vagabundagem nervosa de Nerval e onde o leitor se cruza com uma sucessão de iluminações rimbaudianas, como aquela, fantasmagórica, quando vemos emergir do mar, como uma montanha mágica, o vulcão Tängri: «Aí estava, ali o tínhamos. A sua fria luz irradiava como um manancial de silêncio, rei na noite deserta». Um livro, ainda, que à data da sua publicação, em 1950, foi considerado por André Breton como o único livro capaz de actualizar a herança do surrealismo. E, sobretudo, um livro profético sobre a consternação do mundo que aí está, agora, aparentemente sem redenção.

Quando, na próxima semana, eu for a Paris - cidade que Julien Gracq adoptou durante grande parte da sua vida, antes de regressar definitivamente à sua casa natal - seguirei o conselho de Pierre Assouline e irei até à livraria de José Corti, o editor-livreiro da rue de Médicis, para, talvez, comprar ali algum livro de Gracq e depois, se a meteorologia o permitir, já no outro lado da rua, no Jardin du Luxembourg, folheá-lo «armé d’un canif, couteau, coupe-coupe, machette, tronçonneuse ou tout objet susceptible de disjoindre en un bruit exquis les pages non massicotées», porque assim o exigem os livros de José Corti.

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[Foto: Vitrine Julien Gracq, janvier 2002, rue Médicis, archives Corti].

6 de dezembro de 2007

O último Vila-Matas: funambulismos



Contrariamente ao que pensaria Elias Canetti, para quem os exploradores jamais regressam dos mapas obscuros em que adentram, cruzo a última página de Exploradores del abismo [Enrique Vila-Matas, Anagrama, 2007] e como um funâmbulo regressado à plataforma segura onde se prende a corda estendida sobre aquela cartografia abismal, reencontro-me no lado de cá de um território fronteiriço, desolador e, às vezes, desassossegante, onde numa noite de insónia me cruzei com «seres corrientes y vulgares, es decir de individuos amostazados, apopléticos y analfabetos» que entretém a vida roçando o vazio existencial multiplicado no espelho carveriano deste livro que, mais do que uma antologia de contos, antes constitui uma contínua narrativa de equilíbrio sobre o vazio do mundo - de que a travessia sobre uma corda estendida entre as torres gémeas do WTC evocada no conto Materia oscura constitui a metáfora absoluta -, atravessado por um escritor equilibrista com «una risa excepcional, diáfana, allá en lo alto, en claro contraste con el coche fúnebre que había quedado aparcado allí abajo».

E não só não me perdi ali, como naquela perigosa região fronteiriça me cruzei com o próprio Vila-Matas, também ele, sobretudo ele, um escritor funâmbulo em equilíbrio instável sobre os abismos que abrem no outro lado da literatura: «No quiero indagar más en el abismo, es decir, en el más allá de la literatura. No hay vida ahí, sino un riesgo de muerte». Por isso, estende-nos a corda que atravessa as dezanove estações do vazio, numa tentativa de ir ludibriando a morte, como já a havia ludibriado antes quando roçou literalmente o precipício absoluto numa cama de hospital. Funâmbulismos, portanto [segundo também a tese expressa no excelente blogue espanhol, El Lamento de Portnoy], do escritor e do leitor, a que Maurice Forest-Meyer, aquela personagem furtiva que encontramos em quase todas as estações abismais, dá consistência narrativa.

Daí a atracção kafkiana pelo abismo experimentada pelas suas personagens solitárias e erráticas que, vivendo na mais absoluta rotina quotidiana, são inesperadamente obsequiados com epifanias que os transformam em expedicionários de mundos paralelos, de vivências nunca experimentadas, preferindo os mundos paralelos à realidade que confrontam com a soberba de quem possui a fórmula mágica que a há-de esconjurar. Mas personagens impregnadas e construídas pela discursividade omnisciente do autor cuja presença abismal como se fosse um Deus habitando no apartamento do lado e que tudo manipula, fazendo deslizar as personagens ora para o abismo ora para «fuera daquí».

Por isso, autor e personagens, perseguem os luminosos e equívocos abismos que «dan contenido espiritual al vacío», através de uma casualidade onírica que não se esgota na retórica ficcional declinada em metáforas abismais, reiterações, acasos aparentes, imagens da monotonia da chuva, inverosimilhanças, miniaturizações descritivas, desvios, citações, atribuições falsas, biografias apócrifas procuradas incessantemente por um caçador furtivo de frases, por um fazedor de discursividade - diria Barthes -, onde ecoam, ainda e sempre, as vozes de Borges, de Augusto Monteroso ou de Sérgio Pitol. Do estilo destes contos diria, seguramente, Rosario Girondo, o narrador de O mal de montano, que «consiste em destestar a linha recta e vaguear, debruar, seguir elipses e labirintos, retroceder, andar em círculo, tocar de repente esse inalcansável» que é a realidade.

«Fuera de aquí, tal es mi meta», eis a radical auto-consciência que alimenta o propósito vertiginoso deste livro onde damos com um falso explorador de abismos que escala um vulcão em busca das almas dos mortos que se escondem num lago na cratera; um autista apaixonado pelas plateias vazias; gente que julga que uma matéria obscura e invisível atravessa o universo inteiro; um russo melancólico que, farto da sua vida familiar, descobre aliviado que prefere ser um personagem de um conto; uma mulher que descobre os contornos da sua própria morte e protagoniza, ritualmente, todas as cenas prefiguradas; alguém que vive a mesma vida do seu companheiro ligeiramente alterada; a artista Sophie Calle que desafia um escritor a inventar-lhe uma história que ela, depois, protagonizará na realidade; e o belíssimo ensaio final, La gloria solitaria, que convoca Miles Davis, Thelionius Monk, Montaigne, Kafka, Fernando Pessoa, Thomas Berhardt, Glenn Gould, Robert Walser, Raymond Roussel, Giorgio Agamben, «un microcosmos de soledades todas vinculadas entre ellas». Todos «solitario[s] de sí mismo».

Ficções imbricadas na realidade que um Vila-Matas fingidor que diz «que no podría haber escrito [...] si previamente, hace un año, no [se] hubiera transformado en alguien levemente distinto, no [se] hubiera convertido en otro» [in Café Kubista], de acordo com um propósito borgesiano que vinha anunciando havia já algum tempo, o que coloca, então, a questão de se saber quem, efectivamente, - o outro ou o mesmo Vila-Matas - escreve estes contos abismais? «Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas [...] eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me», confessa Jorge Luís Borges num seu famoso texto [O fazedor (Obras Completas Vol.II), Lisboa, Teorema]. E Vila-Matas, numa entrevista recente à revista catalã Paper de Vidre: «Que me ocurren cosas vilamatasianas? Lo sabe todo el mundo que me conoce. Basta salir un momento conmigo a la calle, ir a algún sitio y armarse de una relativa paciencia y al poco rato verá usted que ocurre siempre algo que parece salido de mis relatos. Toda la realidad se parece a lo que escribo. En esta situación, Vila-Matas es obviamente uno de mis personajes».

Esta mesma urdidura ficcional já era o propósito de Vila-Matas em livros anteriores em que ensaiava a ausência e o desaparecimento como temas literários: procurando, num romance precoce, La asesina ilustrada, aniquilar os seus leitores; depois, fazendo passar um ladrão de túmulos por um escritor desaparecido, em La impostura; a seguir, inventariando escritores que renunciaram à literatura, em Bartleby & compañia; depois, ainda, confundindo-se com um homem sem qualidades, doente da literatura, em O Mal de Montano; e, no final anunciado de um ciclo, perseguir a ocultação, o eclipse, o grau zero do desaparecimento, em Doutor Pasavento. Mas será que foi mesmo um fim de ciclo, como em dado momento o autor nos quis fazer acreditar, ou antes estes contos serão, ainda, a nova habitação, multiplicada agora dezanove vezes, de Montano e Pasavento expandidos nestes exploradores de abismos? E que a utopia do desaparecimento é agora mais do que nunca múltipla, constituindo a escrita, como diria Deleuze, uma ocultação do sujeito. Ou «a vida secreta do autor, o obscuro irmão gémeo de um homem», nas palavras de Faulkner. Ou em resposta à pergunta de Blanchot - «Como faremos para desaparecer?» -, talvez diluir-se no tecido da escrita, tornando-se uma espécie de alma gémea de Musil, o escritor sem qualidades. Ou, ainda, a invenção do duplo que, segundo Ricardo Piglia, decorre da recordação de uma memória estranha, metáfora perfeita da experiência literária. Ora dessas memórias estranhas de expedicionários da realidade tratam estes contos abismais.

A mesma afectação literária de sempre, portanto, onde a autobiografia se bifurca na construção de um outro a quem acontecem as coisas e que evoca a figura borgesiana do duplo. Só que, ao invés de Borges, Vila-Matas-o mesmo não se transforma num apagado contemplador do outro, antes procura fundir a sua autobiobiografia caprichosa com o universo ficcional que se declina ora no formato de retratos de momento, inspirados em Gombrowicz, ora em entrevistas espasmódicas, ora no universo shandiano dos seus livros, onde as coisas acontecem não ao outro, mas a todos os Vila-Matas em que Vila-Matas-o mesmo se multiplicam sem que, no entanto, essa heteronímia seja assumida, por exemplo, à maneira pessoana. Já em Doutor Pasavento escrevia que «havia tantos Pasaventos em palco que seria impossível localizar-me, perder-me-ia entre eles (p. 273). O autor-expedicionário destes abismos é, então, não o outro, mas o mesmo Vila-Matas que no romance anterior se confundia com Pasavento, Ingravallo e Pynchon, como se a sua autobiografia - construída por ele à altura da sua literatura - fosse caprichosamente um género literário - uma autoficção, segundo Serge Doubrovsky, simultaneamente vivida na vida real e nas vidas de papel acolhidas na «sua maleta con libros de Bolaño», como o próprio Vila-Matas me confessava, um destes dias, numa troca de correio electrónico. Fingimentos que Vila-Matas volta a  convocar para estilhaçar a distancia entre ficção e realidade, cuja imbricação extrema é sintetizada no insuperável conto Porque ella no lo pidió, a estação mais absoluta deste itinerário abismal sobre a realidade que encontramos para além da literatura.