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13 de janeiro de 2014

O rapto da Europa


Leio no El País (5.Jan.2014) uma entrevista de Martin Schulz, onde Presidente do Parlamento Europeu explica porque, por ocasião, da atribuição do prémio Nobel da Paz à UE, utilizou o romance de Thomas Mann, Os Buddenbrook, como metáfora da Europa actual. "Uma metáfora porque narra uma história através de três gerações: a dos fundadores, a dos administradores e aquela em que se joga a herança. Já passámos pela primeira, também pela que teve de administrar a herança, e não quero pertencer à geração que a destrói". Aquilo a que assistimos nas últimas páginas deste romance é, precisamente, à destruição da herança dos Buddenbrook e, por extensão, à decadência de um mundo, traduzida em termos de tragicidade (isto é, como consciência dividida e infeliz de Thomas Buddenbrook) através das tensões entre o material e o espiritual, os negócios e a arte, a mundaneidade e a vida interior.

Ora as mesmas tensões que assombravam o mundo dos Buddenbrook, assombram, hoje, a Europa que, vítima do seu próprio sucesso após o desmoronamento dos muros que a dividiam, delapidou a ligação afectiva com os seus cidadãos e, em consequência, a carga mítica e utópica que transportava. Perdida a dimensão cultural como demanda trágica de um sentido, tornou-se "frágil na cena do mundo", com dificuldade em "se constituir com um mínimo de coerência política", incapaz quer de superar antigas contradições internas quer a campanha externa persistente no sentido de não deixar o velho continente perseguir o seu sonho, como afirma, desencantado, Eduardo Lourenço (A Europa desencantada: para uma mitologia Europeia). 

"Bruxelas é a capital do vazio», escreve Peter Sloterdijk no livro Se a Europa se levanta. A Europa como "laboratório para a experiência do fim do mundo", conforme uma visão completamente apolítica da existência. Em vez dos cafés, os não-lugares sem alma dos centros comerciais. Em vez da conversa mobilizadora à mesa do café, a delegação, e a denegação, política em "expertocratas que gerem as coisas por nós, de modo a realizar o projecto de nos tornarmos os últimos homens", como afirmou Sloterdijk. Em vez da democracia, a absurda burocracia engendrada pela implementação administrativa do sonho europeu, conforme denuncia Hans Magnus Enzensberger em El gentil monstruo de Bruselas o Europa bajo tutela (Anagrama). Uma Europa que, conforme Walter Laqueur escreve em After the Fall: the End of the European Dream and the Decline of a Continent (Thomas Dunne Books), está condenada a converter-se numa espécie de parque temático do seu desaparecido esplendor. Permanece, por isso, válida a pergunta de Czeslaw Milosz: "Estes homens de negócios de olhares nulos e sorrisos atrofiados… É a esta vérmina que chegou uma civilização tão delicada, tão complexa?"

Desapareceram os cafés da velha Europa que antes eram habitados pela ideia de infinito e, hoje, é a própria Europa que se arrisca, ela própria, a desaparecer, tornando-se numa espécie de parque temático de si mesma, onde vai retro-reflectindo um esplendor apenas apropriado à contemplação obscena de turistas nostálgicos, refinados ou fetichistas de países emergentes que atravessam uma paisagem onde tudo se desumaniza ou desaparece e, inclusive, a própria História se desvanece. Em vez do infinito, o consumismo, como se a Europa tivesse perdido para sempre a sua alma faustiana habitada pela ideia de infinito. 

Assim como se eclipsaram os cafés da velha Europa, também a paixão metafísica se evaporou da nova cartografia espiritual europeia. A literatura já não é a grande máquina da modernidade. Quem são, hoje, os herdeiros da Mitteleuropa? Quem transporta o fogo de Thomas Mann e de Robert Musil? Na Inglaterra, os grandes escritores são indianos, sul-africanos, ou emigraram para a América. W. G. Sebald já cá não está. A literatura encontra-se numa encruzilhada. Ou é uma literatura ensimesmada, sobre o nada. Ou reporta-se a inutilidades pós-modernas, a representações de consumo enjoado. Para onde vai a Europa herdeira das duas cidades, Atenas e Jerusalém? "Com a queda do marxismo na tirania bárbara e na nulidade económica, perdeu-se um grande sonho de – como Trotsky proclamou - o homem comum seguir as pisadas de Aristóteles e Goethe".

E, contudo, nesta espécie de laboratório do consumismo em que se transformou a Europa, e onde cada vez mais somos turistas de nós próprios, consumidores do efémero, ainda guardamos algumas referências: "a santidade do pormenor diminuto" - dizia William Blake - de que é feita a nossa diversidade. Um conjunto de identidades múltiplas em dinamismo triádico de construção, desconstrução e reconstrução e que leva Eduardo Lourenço a afirmar que a "Europa continua a viver-se como continente-Penélope. No que a Europa – como ideal ou utopia – sempre tropeçou, foi em sim mesma", concluindo que "a Europa foi sempre apenas Europas." (A Europa desencantada: para uma mitologia Europeia).

Acredita George Steiner que "o sonho pode, e deve, ser sonhado novamente. É, porventura, apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido da vulnerabilidade trágica da condition humaine poderiam constituir-se como base. É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção" (Uma ideia da Europa) de que ainda é possível não se deixar enganar pelo touro de Ovídio e inverter o ardil a favor da Europa. A Europa como utopia viável ou, como a persegue Eduardo Lourenço, "uma espécie de ideal à maneira de Kant, ponto de fuga do projecto europeu. Não é pouco". (A Europa desencantada: para uma mitologia Europeia).

23 de abril de 2012

Os livros dentro dos livros



Encontro sempre outros livros nos livros que leio. E leio-os procurando escapar às tentações hermenêuticas que sustentam uma certa leitura crítica, profissionalizante, controladora do sentido dos textos através de uma axiomática que procura iluminar o oculto, e que Foucault descrevia como uma «vontade de verdade». Não, não vou por aí, perseguindo a ilusória linha contínua da hybris do novo iluminismo. Prefiro os labirintos benjaminianos embebidos na tinta dos livros.

E, por isso, prefiro os livros onde se recorta a trama da vida, com as suas cesuras que remetem para outras vidas contadas noutros livros. Gosto, então, de livros onde ecoam outros livros, outros autores, outras tramas. Livros que remetem, que aludem, que citam. Livros onde um só fragmento, uma evocação pode levar a outros caminhos que neles se bifurcam. Livros que trazem consigo o estigma dos cruzamentos, da enxertia. Livros que engendram novos livros. Livros de fronteira cuja essência reside na sua travestização genóloga. Livros, ainda, que são por si só uma biblioteca inteira e que, por isso, leio para saber o que os seus autores leram. Livros- labirinto que transformam qualquer limitada biblioteca na interminável biblioteca laboriosamente construída por tradutores, exegetas, anotadores, interpretes, bibliotecários que habitam os contos de Borges. Também por escritores sem qualidades. E outros doentes da literatura obcecados pela vontade de citar, glosar, anotar, comentar textos alheios, exercitando, assim, através da apropriação das palavras alheias toda uma «poética enciclopédica».

Todas as leituras são provisórias, porque nunca relemos um livro da mesma maneira que o lemos da primeira vez. Ou porque relemos cada livro como se estivéssemos a ler um livro que nunca tivesse sido lido. Procuro, assim, escapar à imanência do texto, através de uma hipertextualidade não tecnológica, perscrutando na geografia do acaso de cada texto o ponto e a ponte de passagem para outros textos. «Perder-se numa cidade como se perde numa floresta exige toda uma educação», escreveu Walter Benjamin. Sim, perder-me num livro e reencontrar-me noutro. Não para me confortar, mas para abanar convicções. A leitura, então, como experiência do mundo, mesmo que o livro seja um clássico, até porque, por definição borgesiana «clássico é aquele livro [...] que decidimos ler como se nele tudo fosse [...] tão profundo como o cosmos e sujeito a todas as interpretações». Ou aquele onde, ainda, «surpreende que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível, aqui, no papel». Nada está oculto nesta definição de leitura oferecida por W. G. Sebald. Nada está oculto nos livros que me são dados a ler, pois neles também se faz e desfaz, à medida que os leio, - como escreveu George Bataille - a «experiência interior que corresponde à necessidade em que me acho em cada momento».

Por isso, porque por contaminação literária também reescrevo os livros que leio, renego aquilo a que Gilles Deleuze chamava de «interpretose» e que continua a assolar a crítica universitária contemporânea. Porque é preciso nunca falhar a ocasião da leitura, o que só acontece se soubermos adentrarmo-nos nos mundos paralelos que se bifurcam nos livros. Não em todos, claro, apenas naqueles que escolhemos como quem escolhe um bem precioso. Esses são os livros que leio e sobre os quais, numa fulguração momentânea, até mesmo Kafka, contrariando todos os seus intérpretes futuros, escreveu: «atravessando as palavras há restos de luz».

4 de março de 2012

Extremamente alto e incrivelmente perto


"Todos os livros são sobre a perda", diz Jonathan Safran Foer, um dos mais promissores escritores norte-americanos, segundo a revista Granta, tal como Nicole Krauss, sua mulher, autora de A história do amor (Dom Quixote). Os livros que W. G. Sebald escreveu, esses são, seguramente, sobre a perda. Livros sobre a consternação do mundo, sobre as ruínas que o nosso tempo vai amontoando. Tijolos sobre tijolos. E ninguém na paisagem desolada. Apenas a literatura para gravar no papel o desvanecimento da História. Num outro registo narrativo, também Jonathan Safran Foer tenta em Extremamente alto e incrivelmente perto, romance reeditado pela Bertrand que vem publicando a obra deste autor norte-americano, uma meditação sobre a perda e sobre o luto num mundo que - literalmente - desabou à sua volta. 

Em Extremamente alto e incrivelmente perto (adaptado ao cinema por Stephen Daldry e protagonizado por Tom Hanks e Sandra Bullock), Oskar é um órfão do 11 de Setembro, "o dia mais triste de todos os tempos": o seu pai desabou com as torres gémeas e com elas também os arquétipos de uma criança que não consegue parar de inventar mundos paralelos; noutra história, contada através das cartas escritas pelos avós, é a paisagem de destruição de Dresden durante a Segunda Guerra Mundial que surge carregada de fantasmas do passado. O que nos poderia levar a Sebald (História natural da destruição) evocando as marcas da destruição de Berlim se o livro de Jonathan Safran sobre a consternação do mundo e sobre o luto do pós 11-S tivesse sido um pouco mais apocalíptico e um pouco menos integrado nos circuitos  comerciais.

Contudo, embora permeável ao sucesso mediático, outra maneira de abordar a questão será considerar Jonathan Safran como um jovem escritor que pega no lastro de uma certa literatura, retraçando a partir daí o que antes já fora traçado de outra forma. De resto, o autor não recusa a influência de Sebald, cuja escrita compara a "um machado afiado". Ou a aproximação à agudeza judaica de Philip Roth do período de O complexo de Portnov (não esquecer que Jonathan Safran é judeu e a sua, ainda, curta obra persegue o lastro dessa herança, reinterpretando-a à luz da actualidade). Ou a inspiração em Bruno Schulz cujo conto "A rua dos crocodilos" serviu de base ao seu mais recente livro A tree of codes, "um livro-objecto que joga com o vazio fisico e com palavras e frases arrancadas do conto". Ou a integração de um sopro surrealista que não destoaria de algumas páginas de Kurt Vonnegut. Ou, talvez, antes de tudo, a auto-referenciação a uma certa arquitectura narrativa que evoca Laurence Stern.

6 de fevereiro de 2012

Literatura sem escritores



Escreve W. G. Sebald que à sua volta tudo se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História se desvanece. E que neste processo de aceleração imparável é conveniente que a literatura se encarregue desta consternação. Mas Sebald já cá não está. Nem Mann, nem Musil, nem Walser, nem outros que acreditaram na capacidade de resistência da literatura e o papel fundamental que ela poderia desempenhar na sobrevivência da história da memória humana, como disse Vila-Matas em Doutor Pasavento. É, ainda, Sebald que, em Os anéis de Saturno, nos oferece uma admirável síntese do que é a literatura: Sempre que decifro uma destas notas surpreende-me que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível aqui, no papel.

Mas, onde perseguir, hoje, esse rasto, quando é o próprio universo da literatura que parece poder funcionar sem escritores? Não estará a banalização da palavra a levar ao desaparecimento a própria ideia de literatura? Quem inscreve no papel esse rasto que leremos daqui a cem anos, mil anos? Todos estes mortos à nossa volta, onde sepultá-los se não na linguagem?,  pergunta Adónis, um poeta sírio-libanês que me revela Vila-Matas. E, no entanto, a banalização "pós-moderna" da palavra é uma miragem de um lago em cuja superfície opaca se desvanecem os traços, os rastos, a própria essencia da literatura.

Que fizeram os escritores contemporâneos do legado que receberam do passado, permitindo que a água e o ar estejam a apagar o rasto das palavras? Entra-se numa livraria e há muitos livros. Mas há poucos escritores. Tão poucos que parece que o próprio mundo da literatura parece já funcionar sem a necessidade dos escritores. «Vejo escritores falsos e sei distinguir entre o escritor falso e um que não o é» - disse Vila-Matas numa entrevista recente. «Depois de Kafka não consigo imaginar um escritor a apanhar banhos de sol [...] há muitos escritores que vejo como falsos», acrescentou. E, ainda, em O Mal de Montano, «essa raça de escritores, imitadores do já feito e gente absolutamente desprovida de ambição literária, mas não de ambição económica». E Lídia Jorge: «Não me interessa a literatura sobre o nada». Vila-Matas e Lídia Jorge, tão aparentemente diferentes, mas tão iguais na sua entrega à literatura. Por isso, li os seus últimos livros quase ao mesmo tempo. Porque não há em nenhum dos dois, embora em registos literários muito diferentes, nada de excessivo. Não desbaratam palavras. O primeiro, através de Pasavento, perseguindo uma poética da extinção, da ocultação, os mortos sepultados na linguagem; Lídia recolhendo a matéria impura com que veste a sua escrita, a realidade, onde põe em movimento personagens com inteireza, vivas.

Evoco-os aqui porque, embora cada um transformando, contando, a realidade à sua maneira, ambos são verdadeiros. Ambos pertencem à literatura. Na sua diferença representam aqueles que procuram contrariar a histeria tranquila de grande parte dos escritores da moda, incapazes de traçar os sulcos que muitos anos depois, se os tivessem inscrito, haveríamos de ler. Na maior parte, o que há, hoje, são actores e não autores, que transformam a literatura num ramo pobre e marginal da cultura do espectáculo. Um simulacro de literatura, aproveitado, incentivado por «homens de negócio que editam livros». Por isso, as novidades das livrarias encontram-se inflacionadas por livros de figuras públicas, jornalistas, políticos, historicismos, esoterismos, remakes, best-sellers, bagatelas que se vendem como qualquer mercadoria, porque são, efectivamente, mercadoria efémera.

Já Roland Barthes, nos anos 60, afirmava que a crise não era da literatura, mas sim do livro, do excesso de livros postos a circular por um mercado apenas preocupado com a multiplicação das páginas, do lucro. Só nos restará, então, regressar aos clássicos? A esses regressaremos sempre, hoje, daqui a cem anos, mil anos, porque neles se encontra gravada a história da memória humana. São os livros esplendorosos, raros, assombrosas «extensões da memória e da imaginação» que com paciência encontramos quase escondidos nas livrarias. Que apenas se encontram nos alfarrabistas amantes de livros. E há, também alguns, actuais, ainda mais raros, e difíceis de reconhecer na confusão de títulos lançados em cascata, mas que serão futuros clássicos donde, uma vez abertos a quem os queira ler, se soltará para sempre o sopro que manterá vivo, apesar dos outros, apesar dos «trapezistas do marketing» editorial, o fogo da literatura. 

27 de novembro de 2011

O anjo da história


Para que serve a literatura? Interroga-se W. G. Sebald no micro-ensaio "Uma tentativa de restituição" que integra o seu livro póstumo Campo Santo. «Talvez sirva apenas para nos lembrar, para nos ensinar a compreender que há estranhas ligações que a lógica casual é incapaz de explicar…», responde. Talvez sirva para dar conta da consternação do escritor ao ver que à sua volta tudo se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História se desvanece, como observa Enrique Vila-Matas reportando-se àquilo que define em Sebald como uma poética da extinção. Talvez sirva para opor à obsessão moderna pelo esquecimento o imperativo redentor da memória, capaz, ainda, de deixar gravadas no papel um rasto, que não se extinguirá jamais, de um narrador em propulsão atravessando uma paisagem cuja topografia nos sacode, nos interpela, nos propõe uma meditação sobre um amontoado de ruínas, não para nelas sucumbirmos mas para cavar nelas a recordação, a invocação, o lamento, às vezes, a alucinação, vestígios incandescentes de instantes esquecidos que se negam a desaparecer irrompendo na paisagem devastada da nossa modernidade inacabada.

«Escrever é a única maneira de me defender das recordações que tantas vezes e tão inesperadamente me avassalam. Ficassem elas presas na minha memória e o tempo torná-las-ia cada vez mais pesadas, acabariam por me esmagar», confessa Sebald em Os Anéis de Saturno. Para isto serve, então, a literatura escavada por Sebald numa História enterrada viva, sedimentada em camadas de esquecimento, mas que palpita, ainda, sob o amontoado de ruínas que o viandante vasculha. Não para buscar qualquer hipótese de redenção que parece já não ser possível, não para se rebelar contra o nihilismo do existente, mas para afrontar com um olhar melancólico a vertigem do vazio da era moderna sem nele se despenhar. Até porque «grande é a distância entre o ponto onde hoje nos encontramos e esse final do século XVIII, quando a esperança de uma melhoria dos males da humanidade e a convicção de que esta seria capaz de aprender se inscreveram em letras bem desenhadas no nosso firmamento filosófico!» («Uma tentativa de restituição», in Campo Santo).

Talvez isso justifique o seu método de escavação do passado, «adoptando uma perspectiva histórica concreta, esculpindo pacientemente, juntando coisas aparentemente alheias umas às outras, ao jeito de uma nature morte» («Uma tentativa de restituição», in Campo Santo). «Uma espécie de metafísica da história através da qual a recordação voltava a ganhar vida» (Austerlitz , 2001) nos sedimentos depositados em fortalezas, estações de comboios, colunas, manicómios, campos de concentração e extermínio paisagens, bolsas de valores. Rastos de sofrimento atestando «a sombria viragem da história». Fotografias que «surgem do passado como [...] se tivessem memória e se recordassem de nós», libertando a aura benjaminiana de «um tempo que trás consigo um registo enigmático que remete para a redenção» (Walter Benjamin, Sobre o conceito de história). Correspondências, portanto, vestígios da recordação que a presença elíptica, em Austerlitz, de Proust (de La recherche), de Kafka (referência a um episódio biográfico de Kafka em Marienbad) e de Thomas Bernhardt (a natureza melancólica dos personagens) acentua.

Mas «até onde retroceder para encontrar o começo?» pergunta-se Sebald em busca da sua génese, em Nach der Nature (1988)/Sobre a natureza, o seu primeiro livro. «Quando no Dia da Ascenção/ de quarenta e quatro vim ao mundo,/ a minha mãe viu nisso um bom presságio, sem saber/ que o frio planeta Saturno regia a constelação/ do momento e que, sobre as montanhas,/ espreitava já a tempestade [...] logo imaginei uma catástrofe silenciosa que ocorre/ sem que o espectador o perceba». Antes, a mãe com ele ainda no ventre tinha sobrevivido ao bombardeamento e ao incêndio de Nuremberga que Sebald haveria de contemplar cinquenta anos depois num «quadro de Altdorfer, / que representa a mulher de Lot/ e as suas filhas. No horizonte, / um terrível incêndio/ devora uma grande cidade. /O fumo sobe, /as chamas elevam-se ao céu/ e, no reflexo avermermelhado./ vêem-se obscuras/ fachadas de casas», resgatando da sua memória uterina a matéria das duas conferências que sob o título, Guerra aérea e literatura, proferiria em Zurique, em 1997, e que seriam, depois, publicadas postumamente em História Natural da Destruição, 2003).

Quantas viagens a pé terá feito o caminhante saturnino dos seus livros nos escassos cinquenta e sete anos de uma vida prematuramente destruída numa curva de uma estrada de Norwich, em 14 de Dezembro de 2001? Sigamos os seus passos. Em Vertigem (1990): «Em outubro de 1980 viajei de Inglaterra, onde, vivia, então, havia quase 25 anos, numa região que estava quase sempre ensombrada por um céu cinzento, rumo a Viena, com a esperança de que uma mudança de lugar me ajudasse a superar uma etapa da minha vida particularmente difícil. Porém, em Viena descobri que os dias se tornavam demasiados compridos, agora que não eram ocupados pela minha rotina de escrever e tratar do jardim, e literalmente não sabia onde ir. Saía cedo todas as manhãs e caminhava sem rumo nem objectivo pelas ruas da cidade antiga…».

Depois, prossegue a viagem através do norte de Itália. E ali indaga, interpela, alucina-se, escava vestígios da passagem de Kafka por aqueles lugares, convoca outras biografias de escritores, Stendhal, Casanova, Ernst Hölderlin, Robert Walser, Thomas Mann, Peter Weiss. Depois, em Os Emigrantes (1992) relata uma viagem a Deauville em busca de algum «resíduo do passado» para confirmar que «essa praia outrora lendária está em pleno declínio como todos os sítios que hoje se visita, seja qual for o país ou continente, arruinados pelo tráfego automóvel, pelos estabelecimentos comerciais e por essa sanha de destruição sempre insaciável.»; e nessa viagem a pé, ainda, o pretexto para a evocação desoladora dos fugitivos e dos exilados que sob o signo da melancolia se vêem trasladados das suas terras de origem para os quatro cantos do mundo. Depois, em Os Anéis de Saturno , 1995) («Em agosto de 1992, quando os dias caniculares se aproximavam do fim, caminhei pelo distrito de Suffolk, com a esperança de dissipar o vazio que se apodera de mim de cada vez que concluo um trabalho») oferece-nos uma cadenciada meditação intercalada por breves ensaios tão diferentes quanto magistrais sobre Roger de Casement e as infâmias do regime de Leopoldo no Congo, as primeiras aventuras no mar de Joseph Conrad, a natureza da guerra, o ciclo de vida dos arenques, a destruição das grandes florestas do mundo. Finalmente, em Campo Santo (2003) - o trabalho que interrompeu em 1995 para escrever Austerlitz -, viaja pela Córsega reflectindo sobre a dor, o luto e a memória.

«Portanto, para que serve a literatura?» Para dar conta do que contempla, horrorizado, o anjo da história ao olhar, na curva do caminho, uma vez mais para trás. Para dar conta da consternação de Sebald contemplando, como Hölderlin, «um reino por demais abstémio onde impera o lamento enganador do lustro traiçoeiro, onde se contam as horas lentas de gelo e de seca e onde só suspiros prezam a imortalidade» («Uma tentativa de restituição», in Campo Santo).

10 de setembro de 2011

Retóricas do 11-S


Foi há dez anos que a queda das Torres Gémeas, em Nova Iorque, inaugurou de forma tragicamente espectacular o novo milénio, trazendo consigo o regresso da História depois do seu «fim» proclamado por Francis Fukuyama e de um período em que se assistiu a uma espécie de «greve dos acontecimentos», segundo a fórmula de Baudrillard. O espectáculo de fogo mortal, visível em tempo real em todo o planeta, superaria todas as ficções, tornando-se na grande metáfora de um mundo com anemia moral e alimentado pela hipocrisia e pela felicidade engarrafada, mas irremediavelmente ferido a partir do 11de Setembro de 2001.

A vida nova depois do 11-S, simultaneamente maculada e redentora, tem dado origem a uma repetição dos discursos sobre o acontecimento, visando a sua «legibilidade», à luz de interesses variados e, muitas vezes, antagónicos, legitimadores da resposta ocidental à «barbárie» de um Islão desfigurado, perseguida pelo «profeta electrónico» Bin Laden, cujas aparições foram acontecendo na única realidade do nosso tempo, a televisão. Que caminhamos agora entre os vestígios de uma catástrofe cuja onda de choque continua a repercutir-se no mundo já o sabemos. Só não sabemos é se a catástrofe ficará por ali, sepultada junto ao ground zero nova-iorquino, agora irremediavelmente ameaçado pelo novo skiline mercantil em construção no mesmo lugar ou se continuará, como uma onda de choque imparável, a desmoronar cidades e vidas longe daquele epicentro.

Haverá, ainda, redenção possível depois de tanta ruína? Se, num estado próximo do sonambulismo, W. G. Sebald caminhasse depois do 11-S sobre os mesmos tijolos calcinados, talvez voltasse a dizer: «Demasiados edifícios ruíram, amontoou-se demasiado entulho, são intransponíveis os sedimentos e as moreias» [Os Anéis de Saturno, Teorema, p. 172].

Mas será que o 11-S, nas suas causas e efeitos, constituiu uma cesura radical na narrativa moderna? Ou não terá sido antes mais um episódio de esbanjamento trágico do potencial redentor da humanidade? Foi, seguramente, um regresso ao fundamentalismo religioso incentivado pelo «choque das civilizações» (Samuel Huntington, O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, Gradiva, 1999) ou «choque dos preconceitos» - como corrigiu Edward Said (Orientalismo, Cotovia, 2004] -, marcado pela tendência para a «teologização do político» e para a «instrumentalização política da religião» [Alain Badiou, Circunstances, Éditions Léo Scheer, 2004] tão presente nos discursos maniqueístas dos protagonistas desta tragédia global. Seja como for, cesura ou continuidade histórica, neste tempo de ebulição catastrófica, ganham adeptos as teorias salvícas que vão hipostasiando um «nós» ocidental contra um Islão desfigurado pela violência fundamentalista, fazendo-nos, assim, roçar um abismo cujo fundo negro desconhecemos. Multiplicam-se, por isso, os discursos que visam a «legibilidade» do 11-S à luz dessas mesmas teorias que conduzem a um perigoso resvalar para territórios de liberdade condicionada no mundo ocidental, refém, sempre, da maldição moderna do petróleo.

Eis a retórica dominante na efeméride negra do 11-S, como se o acontecimento apenas pudesse ter «legibilidade» através de um discurso legitimador da resposta americana enviesada, não tanto contra o terrorismo, mas contra um «inimigo providencial» (Carl Schmidt, Théologie politique, Gallimard, 1969), em cujas fileiras se contam já milhares de vítimas inocentes, iraquianas sobretudo, mas também soldados das forças internacionais, enquanto deixa os sequazes de Bin Laden à solta no Afeganistão e no Paquistão. Ou, num sentido oposto, nos discursos negacionistas de uma certa esquerda, anacrónica, e também ela maniqueísta, só que invertendo os pólos do bem e do mal.

E qual retórica da literatura sobre o 11-S? Tem sido ela capaz de retraçar o acontecimento dando conta da consternação do «mundo ocidental» pós 11-S? No epicentro da catástrofe, vários escritores americanos publicaram romances sobre a vida depois do 11-S. «Ela falou da torre […] claustrofobicamente, o fumo, os corpos desmembrados, e compreendeu que podiam falar daquelas coisas somente entre eles» - escreve Don DeLillo em Falling Man, um romance circular a várias vozes : a de um sobrevivente do atentado, a de sua mulher e de um terrorista. E Claire Messud, em The Emperor’s Children: «aquele imenso buraco parecia una extensão da sua própria dor». E Jay McInerney, em Good Life. E Jonathan Safran Foer, em Extremely Loud & Incredibly Close/Extremamente alto & incrivelmente perto (Quetzal, 2007).

Claro que mesmo nesta literatura estamos, ainda, diante de visões hipostasiadas de um «nós» que exclui os outros, enraizadas na experiência ocidental do acontecimento, visões parciais, portanto, mas que nem por isso deixam de constituir outras formas de retraçar o acontecimento, preferindo a ficção à interpretação, a experiência individual do acontecimento à sua explicação alegórica, a sua subjectivação discursiva à sua «legibilidade» compulsiva, sem cair na tentação didáctica, mas, como cabe à literatura, expondo-nos destinos tiritantes que poderiam ser os nossos, num mundo caminhando alegremente para um «pôr-do-mundo» cada vez mais desvanecido e alheado (Peter Sloterdijk, Alheamento do mundo)

20 de janeiro de 2011

Topografias


Escreve W. G. Sebald no breve ensaio «O mistério da pele castanho-rubra» (in Campo Santo) que dedica a Bruce Chatwin que os seus livros são difíceis de classificar. «Histórias de aventuras ligadas às nossas primeiras leituras infantis, recolhas de factos reais, livros de sonhos, romances folclóricos, exemplos de exotismo apaixonado, penitências puritanas e arrebatadoras visões barrocas, negação de si e confissões: são todas essas coisas juntas.»

Não é, por isso, de estranhar que o caminhante solitário Sebald vá no encalço do viajante incansável Chatwin seguindo as suas pisadas escritas nos cinco livros que publicou [Os gémeos de Black Hill, Anatomia da errância, O que faço eu aqui, Na Patagónia e Canto nómada, editados em Portugal pela Quetzal] e que numa curva dessa abordagem chatwiniana se detenha a comentar «a sua mania de respigar e coleccionar transformando depois os fragmentos achados em significantes mementos carregados de mistério», evocativos de territórios longínquos que o nosso sedentarismo nos impede de alcançar mas em cujos mapas imaginários nos adentramos guiados pela sua prosa nómada.

É que, tal como os livros de Sebald, também os livros de Chatwin são difíceis de classificar, oscilando entre a reportagem, o ensaio, o diário e as memórias que constrói e desconstrói a partir de achados quotidianos sedimentados em camadas de esquecimento que vai recolhendo nas bermas dos caminhos da sua peregrinação pelo mundo. E, tal como Sebald, também Chatwin era um agrimensor de paisagens, um taquígrafo da errância, um imitador de vozes, um virtuoso das anotações. E ambos partilhavam a avidez fetichista de respigar e coleccionar sedimentos do mundo à sua volta: Sebald, as desvanecidas e enigmáticas fotografias que, depois, incorporava nos seus textos; Chatwin, os achados trazidos do fim do mundo e carregados de histórias apócrifas que, depois, levam a nossa imaginação para lá do sol posto. Sebald, um metafísico da história caminhando à beira do precipício contra o esquecimento. Chatwin, um metafísico da sete paragens do mundo que escolheu a viagem como respiração. Cada um à sua maneira, topógrafos da sobrevivência.

25 de dezembro de 2010

Passeantes de Dezembro



Herisau, dia de Natal de 1956. Entre faias e abetos, na ladeira que desce do Schochenberg, um homem jaz no chão confundindo-se com o deserto branco que o rodeia. A neve é o mais perfeito esconderijo. Depois de ter almoçado no sanatório, errara durante horas até ao coração do bosque, perdido. Ao longe, talvez, o toque lamentoso de um sino. A cabeça está apoiada sobre a raiz de um abeto que emerge da neve. Não há tristeza no seu rosto. Apenas a réstia de um olhar eternamente extasiado perante a neve pura, com o espanto de quem descobre, finalmente, o mais secreto dos desejos. Daqui a pouco, um grupo de crianças encontrará um corpo num bosque gelado e saberemos tratar-se de Robert Walser, o «poeta mais escondido que alguma vez existiu», como escreveu Elias Canetti. E que num nos dos seus romances, Os irmãos Tanner, pusera premonitoriamente na boca de um personagem uma elegia a Sebastião, o poeta encontrado morto na neve: «Com que nobreza escolheu a sua tumba! Jaz no meio de esplêndidos abetos verdes, cobertos pela neve. Não quero avisar ninguém. A natureza inclina-se a contemplar o seu morto, as estrelas cantam suavemente à volta da sua cabeça e as aves nocturnas grasnam: é a melhor música para alguém que não tem ouvido nem sensações».

No mesmo dia de Natal, em 1956, há cinquenta e três anos, portanto, morria o avô de W. G. Sebald - o escritor passeante através de paisagens solitárias, que morreu como o seu avô e como Walser, também, num dia Dezembro de 2002 – que tinha saído de sua casa para dar um passeio pela neve e tombou sobre ela quase à mesma hora em que o outro passeante, Robert Walser, caía, também, fulminado sobre a neve, numa paisagem de faias e abetos.

Neste Natal de 2010, recordo não os silêncios dos passeantes mortos em Dezembro, mas as palavras que nos legaram entre ruínas de um passado que remete para a totalidade do mundo. E olhando à minha volta, enquanto se fazem os preparativos para o fogo de artifício que há-de incendiar a noite da passagem do novo ano que aí vem com os seus relâmpagos e fulgores luminosos efémeros, retenho da leitura daqueles passeantes de Dezembro que partiram no mesmo ano em que eu cheguei, a sua esterilidade sentimental em relação às festividades natalícias.

Em Portimão não neva, por isso não haverá o perigo de me perder na neve no dia de Natal. Tão pouco sou um passeante através de paisagens solitárias. Já o escrevi aqui, sou antes um flâneur urbano que não se deixa bafejar pela secura do coração daqueles passeantes em relação ao Natal. Até porque, embora seja avesso a toda a retórica que transforma a época natalícia numa época do mais seco mercantilismo envolto em falsas roupagens de fraternidade e solidariedade, conforta-me a reunião da família, a exposição da minha pequena colecção presépios do mundo, a estética do fogo da lareira, os sabores, os cheiros, o aflorar do passado trazido sempre pelos mais velhos. Por isso, neste Natal continuarei a criar com os amigos e a família uma realidade distinta a partir da realidade inquietante, empobrecida, envolta em papéis cintilantes que serão rasgados no momento da troca de presentes. Porque se ainda é possível um verdadeiro espírito de Natal, ele só poderá ser encontrado se formos capazes de ver os outros no meio da bruma que anda por aí.

Aproveitar, então, o Natal, não para desaparecer na neve comoo passeante Walser, muito menos para nos perdermos nos labirintos do mercantilismo contradidório que nestes tempos de crise anda por aí, mas para, no meio de uma estética de ciprestes, pinheiros, zimbro e coloridas velas trémulas com cheiros que compoêm a paisagem doméstica destes dias, continuarmos a explorar, como passeantes de Dezembro, outras possibilidades para o mundo.

7 de dezembro de 2009

Não falhar a ocasião de Copenhaga


«Mas quanto mais me aproximava das ruínas, mais se afastava a imagem de uma secreta ilha dos mortos e mais me julgava no meio dos vestígios da nossa própria civilização aniquilada por uma catástrofe futura», escreveu W. G. Sebald em Os Anéis de Saturno [Teorema, 2006], descrente da capacidade da razão para dominar a natureza enlouquecida pelos homens.

Há nestas palavras de Sebald uma espécie de premonição trágica, apocalíptica, relativamente ao devir do mundo, caso não sejam tomadas medidas que reconduzam o rio turvo da destruição ambiental às suas antigas margens. Como abrandar, então, a imensa fornalha vertical cheia de brasas que ameaça transformar a paisagem do mundo num campo de sedimentos intransponíveis, rios pedregosos, árvores calcinadas, despojos de máquinas destruídas, espirais fantasmagóricas de poeira, cidades costeiras alagadas, almas à deriva sob um céu acinzentado?

Este tom apocalíptico encontramo-lo, hoje, não apenas na literatura, mas no discurso de divulgação científica sobre o aquecimento global, como se a realidade tivesse já ultrapassado a ficção. Em A nossa escolha - Um plano para resolver a crise climática (Esfera do Caos, 2009) Al Gore dramatiza ao extremo a situação, afirmando que temos de «evitar a catástrofe inimaginável que se abaterá sobre o planeta se não começarmos a fazer mudanças drásticas rapidamente». E profetiza que «o futuro da civilização será determinado para sempre por aquilo que fizermos agora». Não sei se haverá aqui uma espécie lucidez sebaldiana sobre a situação-limite para onde avançamos ou se esta dramatização discursiva sobre um mundo à beira da catástrofe - a que o filósofo alemão Karl Löwith chamou de «modo de pensar por catástrofes» - não terá uma raiz contraditoriamente conservadora, e cíclica, cujo pessimismo mais do que provocar a vontade colectiva de uma alternativa ambiental sustentável, antes nos deixa amarrados perante a verdadeira catástrofe que pode ser a das «coisas continuarem como antes» [Walter Benjamin, Passagens, frag. N9a, 1].

A questão, hoje, será a de saber se o discurso apocalíptico sobre as alterações climáticas - descontando a suicidária corrente negacionista sobre a gravidade do aquecimento climático - não corresponderá ao mal moderno que Ulrich, a personagem criada por Robert Musil em O homem sem qualidades, compreendeu com dramática lucidez: o mal de, apesar do estrondosos avanços da técnica, ou por causa dela, sermos agora incapazes de controlar o «sistema» que a integra, através da ética, por exemplo, procurando a resposta contra o absolutismo da realidade.

O que se pede, então, à Cimeira de Copenhaga que, hoje, começou, é uma vontade colectiva de não falhar a ocasião das coisas não continuarem como antes, opondo à tese conservadora de Heidegger de que «só um Deus nos pode salvar», o verso de Hölderlin que diz que «onde está o perigo está o que salva».

2 de novembro de 2009

A última caminhada


Que melhor post publicar em 2 de Novembro, data em que tradicionalmente é prestada homenagem aos mortos, se não aquele que editei no meu blogue pretérito a pretexto do livro Campo Santo, de W. G. Sebald?

«O meu primeiro passeio no dia seguinte à chegada a Piana levou-me para fora da povoação, por uma rua que começava logo a descer numas curvas, esquinas e ziguezagues medonhos, ladeando precipícios rochosos quase verticais…». Quem por ali vai caminhando é um narrador que dá pelo nome de W. G. Sebald, o passeante solitário e sensitivo que nos habituámos a seguir em peregrinações errantes através dos mapas devastados da nossa modernidade imperfeita. Na linha de Os anéis de Saturno, Sebald aproveita uma viagem à Córsega, durante uma férias de Verão, para percorrer os territórios de uma ancestralidade onírica, onde mora a melancolia, resgastando em quatro fragmentos de um trabalho inacabado – «todos eles autónomos, [...] um espectro incompleto que não deverá corresponder exactamente ao que viria a ser o livro», como nos informa Sven Meyer, na introdução a Campo Santo, agora editado pela Teorema – a nostalgia de um tempo sedimentado em camadas de esquecimento ao qual ele volta a opor o imperativo da memória como condição de possibilidade redentora.

O método de Sebald é aqui, ainda, o da caminhada a pé enquanto contemplação, investigação e indagação numa paisagem devastada, com o propósito de buscar uma moral na natureza, meditar sobre estilos de vida desaparecidos, dar conta da consternação do mundo. Nesta derradeira viagem, vai primeiro a Ajaccio, «o lugar onde o imperador Napoleão tinha vindo ao mundo», e na casa-museu que lhe é dedicada reflecte sobre as minudências imponderáveis que mudaram o destino da Europa. Depois, visita o cemitério de Piana onde as inscrições das lápides dos túmulos lhe inspiram uma dissertação sobre o desaparecimento do culto dos mortos, sobre a crescente insensibilidade moderna ao luto, a mal disfarçada pressa e mesquinhez com que nos despedimos dos nossos mortos, a exiguidade das suas habitações eternas, sobretudo «nas cidades que avançam inexoravelmente para um número de trinta milhões de habitantes! Para onde vão eles, os mortos de Buenos Aires e São Paulo, da Cidade do México, Lagos e Cairo, de Tóquio, Xangai e Bombaim? [...] Quem se lembrará deles, quem se há-de lembrar?». Finalmente, a contemplação da paisagem fá-lo reflectir sobre a destruição dos antigos bosques alpinos da ilha transformados em reverberações nostágicas – «tempos houve em que a Córsega era toda coberta de floresta» – e a denunciar o «sanguinário desporto» da caça, comparando os caçadores às «milícias croatas e sérvias que lhes tinham destruído a pátria com o seu belicismo desvairado», oferecendo-nos a visão consternada de um mundo em vertigem, através de uma prosa meticulosa e cadenciada que oscila entre a reportagem, a crónica de viagens, o registo antropológico e a anotação de história política e social.

Completa o livro um brilhante compêndio de ensaios literários sobre Kafka, Nabokov, Bruce Chatwin e Jean Améry que constituem, a partir de agora, guias incontornáveis para a compreensão da obra de Sebald e que nos mostram a realidade que existe para lá da literatura mas a que só acedemos se nos transformarmos em caminhantes solitários e sensitivos dos livros que resgatamos da memória para neles nos adentrarmos, uma e outra vez, transfigurados em personagens de uma trama que já não sabemos se lida ou vivida, como na recreação nostálgica da viagem de Kafka e Max Brod a Paris – Via Suíça para o bordel -, que desencadeia em Sebald a recordação da viagem que em criança fizera com a mãe atravessando os mesmos cenários descritos por Kafka nos seus Diários.

24 de outubro de 2009

Os dias calcinados


350 ppm é o indíce de concentração que os principais cientistas dizem ser o limiar seguro para dióxido de carbono na nossa atmosfera, para evitar as trágicas consequências das alterações climáticas. Hoje, quando faltam menos de 50 dias para a Conferência de Copenhaga sobre alterações climáticas, milhares de pessoas, em 144 lugares emblemáticos do mundo, assinalaram o Dia Internacional da Acção Climática, manifestando-se contra os dias calcinados que podem vir aí se não se parar já a deriva ambiental. E nós, o que é que podemos fazer? Agir como fizeram, hoje, em todo o mundo, aqueles que podemos ver aqui]. Talvez, também, escrever, nem que seja um post como este que recupero de um meu blogue pretérito e que agora aqui deixo actualizado.


Durante o Verão, surgiu uma tromba de fogo no crepúsculo do Árctico, sobre o mar de Barens, derramando sobre as nuvens baixas que encobriam o céu de Hammerfest uma luminosidade laranja espectral, anunciando a extensão à cena árctica da nova versão patética da tetralogia de Wagner, agora reposta sob a forma da maldição do gás adormecido durante milhões de anos sob as calotes de gelo em fusão. O que sobrará para o mundo quando se apagar a última réstia do fogo que concorre agora com as auroras boreais ninguém ainda sabe. Ou talvez saibam apenas os visionários.

«Mas quanto mais me aproximava das ruínas, mais se afastava a imagem de uma secreta ilha dos mortos e mais me julgava no meio dos vestígios da nossa própria civilização aniquilada por uma catástrofe futura», escreveu W. G. Sebald em Os Anéis de Saturno [Teorema, 2006], descrente da capacidade da razão para dominar a natureza enlouquecida pelos homens. E nós, que ainda não caminhamos entre ruínas,vamos vivendo com os primeiros efeitos das alterações climáticas provocadas pelo aumento das emissões de gazes com efeito de estufa: temperaturas em alta, concentrações de dióxido de carbono a subir, degelo das calotes polares, subida dos oceanos, chuvas torrenciais, secas mortíferas, o rol que afinal já todos conhecemos, sem que isso, no entanto, produza uma reacção global à altura da tragédia eminente.

Por isso, talvez reconhecer nas palavras de Sebald uma espécie de lucidez trágica relativamente ao devir do mundo, caso não sejam tomadas medidas que reconduzam o rio turvo da destruição ambiental às suas margens, impondo urgentemente a redução das emissões poluentes que afectam o aquecimento global. Mas estarão os governantes do mundo motivados para isso? Ou, pelo contrário, indiferentes ao roçar o abismo, falharão a derradeira ocasião de salvar o planeta, deixando as «coisas continuarem como antes» [Walter Benjamin, Passagens, frag. N9a, 1], isto é, resvalando para a «catástrofe futura». Haverá aqui uma visão demasiado catastrofista? Para Ban Ki-moon, Secretário-Geral das Nações Unidas, nem tanto: «O aquecimento global é uma realidade e, se não intervirmos, as suas consequências poderão ser devastadoras, senão catastróficas, nas próximas décadas [...] peço aos dirigentes mundiais que exerçam a sua liderança. Que ajam. [Já] não podemos fazer como se nada se passasse à nossa volta».

Como abrandar, então, esta imensa fornalha vertical cheia de brasas que ameaça transformar a paisagem do mundo num campo de sedimentos intransponíveis, rios pedregosos, árvores calcinadas, despojos de máquinas destruídas, espirais fantasmagóricas de poeira, cidades costeiras alagadas, almas à deriva sob um céu acinzentado? Seguramente não ficar acocorado a um canto à espera da combustão final como prisioneiros numa casa em chamas. Talvez falar. Talvez escrever, porque só as palavras poderão ainda evitar a catástrofe de falhar a ocasião de abrandar o braseiro. Agir.

19 de outubro de 2009

Caminhos cruzados



Pergunta-se W. G. Sebald no micro-ensaio «Uma tentativa de restituição» (in Campo Santo) «quais são as relações invisíveis que determinam a nossa vida, como se estendessem os fios» entre acontecimentos distantes ditados por uma estranha lei que nos escapa. O que liga a prosa anímica do caminhante Sebald ao rasto já há muito extinto do passeante Robert Walser, mas que continua visível no papel? Onde se cruzam as suas biografias? Talvez no facto de Sebald ter vivido toda a sua infância com o avô materno, que não só tinha o hábito das grandes caminhadas como Walser, como, ainda, era muito parecido fisicamente com ele e, se não bastasse essa coincidência, ter também ele morrido na neve enquanto passeava solitário numa paisagem semelhante àquela em que Walser sucumbiu fulminado e que distava apenas cem quilómetros de Herisau e, ao que parece, no dia anterior ao do último aniversário do escritor suíço. Talvez, depois, ainda, na circunstância de ambos remeterem para uma espécie de poética da extinção; em Walser através de elegantes fantasias poéticas que vai traçando, tenuamente, a lápis no papel para melhor desaparecer, uma frase fazendo sempre esquecer a anterior; e em Sebald sedimentada em camadas de esquecimento nos escombros que ele vai escavando através de uma prosa pausada e cadenciada para melhor dar conta do desvanecimento da história. Talvez, ainda, porque, um e outro, entreviam o mundo envolto numa estranha quitetude; Walser caminhando solitário sob a luz cristalina da manhã em busca do espírito da montanha; Sebald procurando resgatar uma moral da natureza. Um e outro procurando uma cintilação qualquer no tecido puído do tempo.

Seriam estas as causualidades que levaram Sebald, em 1997, na primeira sessão do ciclo de lições que proferiu na Universidade de Zurique, a evocar o passeio de Carl Seeling com Walser, nos arredores do manicómio de Herisau, no Verão de 1943 – passeio que aquele, depois, relataria na biografia que lhe dedicou -, precisamente no mesmo dia do bombardeamento de Hamburgo descrito em História natural da destruição? «Não são casualidades – diria Sebald se lhe perguntassem sobre o que o liga a Walser – trata-se apenas de existir algures uma relação que de quando em quando cintila por entre um tecido puído».

Como também não é casualidade eu ter terminado de ler os ensaios literários de Campo Santo e me ter interrogado por não encontrar ali qualquer referência Walser – como se a sua biografia fosse tão delicada e a sua prosa tão leve que tornasse quase impossível seguir-lhe o rasto, mesmo para alguém como Sebald tão habituado em fazer incursões fantásticas nos territórios dos excêntricos cujos sedimentos vasculha nas camadas de esquecimento para onde os seus passos de caminhante solitário e de narrador interpelante o levam sempre que se dispõe a ir por aí, entre ruínas – e, agora, chegar às livrarias portuguesas um ensaio do caminhante alemão sobre o caminhante suíço - e que na tradução portuguesa dá nome ao livro - O caminhante solitário (Teorema) [traduzido de Logis in einem Landhaus, Carl Hanser Verlag, 1998], e onde Sebald vai por ali, sem mapa, perseguindo, desde o ponto de vista da fugacidade – a sua e a de Walser -, a prosa dançante de repente levantada como uma poeira trágica do tempo incapaz de escapar ao seu destino de, uma e outra vez, continuar a ser lida por Sebald e, agora que Sebald também já cá não está, por todos aqueles que se adentram numa literatura de consternação.

16 de outubro de 2009

Desaparecidos em trânsito



Desse caminhante solitário que ocupa um lugar muito particular na minha biblioteca de quarto escuro, W. G. Sebald, chega, agora, às livrarias portuguesas, Logis in einem Landhaus (1998) [Hospedagem numa casa de campo] que na edição da Teorema se apresenta com o título de um dos ensaios que integra o livro, O caminhante solitário, belíssima homenagem a outro caminhante solitário, Roberto Walser - seu vizinho no meu quarto escuro, ambos escritores sem qualidades que partiram em trânsito deste mundo, Sebald numa curva de uma estrada de Norwich, num dia de Dezembro de 2001, e Walser, também num dia de Dezembro de 1956, durante um passeio pela neve nos arredores do manicómio de Herisau onde se refugiara para desaparecer – a quem Sebald descreve como um ente querido que aos poucos se vai dissolvendo no ar «suavemente e sem ruído até um reino mais livre», ou como um familiar próximo que lhe recorda o seu avô Josef Egelhofer: «Walser sempre me acompanhou em todos os caminhos. Apenas necessito suspender um dia de trabalho quotidiano, para logo ver meu ao lado, nalgum lugar, [a sua] figura inconfundível […] olhando à sua volta».

17 de julho de 2009

Projecto para uma roda de leitura perigosa



Confessa Roberto Bolaño em Entre parêntesis [Anagrama) que é «muito mais feliz lendo que escrevendo». E eu - que também me confesso esse leitor feliz e dilatório, não o leitor interactivo dos livros da moda, mas o leitor iterativo, assediado pelos labirintos de tinta embebida nos livros da minha biblioteca de quarto escuro - imagino-me, momentaneamente, o engenheiro Agostino Ramelli carregando no pedal e volto a fazer girar a sua Roda da Leitura [cf. Agostino Ramelli: projecto para uma roda de leitura. Paris, 1588] com sete livros de escritores sem qualidades cuja leitura proponho para este Verão.

São sete livros perigosos que compõem uma pequena biblioteca giratória, intensiva e portável, que retiro de uma prateleira sombria e que, aqui, proponho aos leitores subversivos e relutantes que neste Verão arrisquem - ao invés de se deixarem atrair pela superfície brilhante das palavras - atravessar o bosque escuro e sem nome e, por momentos, «viverem errando / na penumbra dos bosques / com a novela perigosa», como se pode ler nuns versos que Pushkin escreveu. Sete livros para serem, talvez, relidos como se os estivéssemos a ler sem que nunca os tivéssemos lido. Porque, como poderia ter dito Heraclito, nunca mergulhamos no mesmo livro duas vezes.

Que vasos comunicantes entre estes livros? Desde logo, o facto de partilharem, na minha biblioteca de quarto escuro, o canto mais sombrio. E também a circunstância dos seus autores pertencerem a uma certa geografia, a da Mitteleurope que mais do que uma condição espacial corresponde, sobretudo, a uma certa ideia de literatura. Depois, porque são autores que ocultaram a sua biografia para melhor poderem afirmar a sua obra. E, ainda, porque todos habitaram de uma forma ou de outra «as regiões do destino onde reina a solidão». Finalmente, porque talvez encaixem na categoria de livros a que Robert Walser se referia quando escreveu em O Salteador (Relógio de Água, 2003): «Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deviam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável?»

Talvez a vida destes escritores tenha sido «doentia», mas não os seus livros que parecem duplicar a vida que não tiveram inventando outras vidas. «Um romance é a vida secreta de um autor. O obscuro irmão gémeo de um homem», escreveu Faulkner. E não será isso a literatura? Inventar outra vida, inventar um duplo. A dissidência de si mesmo, então, levada a cabo por escritores que, contra todas as aparências, adoptaram os versos de Roberto Juarroz: «Às vezes parece/ que estamos no centro da festa/ Contudo/ no centro da festa não há nada/ No centro da festa está o vazio/ Mas no centro do vazio há outra festa» (Poesía Vertical). E que, por isso, não quereriam ver-se confundidos com nihilistas.

Nem eles nem este leitor sem qualidades que como um bibliotecário-oleiro põe agora a girar esta roda de leitura perigosa e vos propõe as seguintes notas de rodapé:

1. O homem sem qualidades, Robert Musil [1921] (D. Quixote, 2007: um livro sem as «qualidades» dos cânones literários da época. Um livro insuportável devido à sua «monstruosidade» literária que estilhaçará as fronteiras do género para desagrilhoar o humano na tentativa utópica de alcançar a totalidade do mundo;
2. Jacob von Gunten, Robert Walser [1909] (Assírio & Alvim, 2005): o fascinante livro do extravagante escritor suíço precursor de Kafka que escrevia lápis para melhor poder ausentar-se;
3. O castelo, Franz Kafka [1926] (Relógio d´Água, 1999)): um romance inacabado sobre a burocracia institucionalizada que triunfa sobre os homens sem qualidades;
4. As lojas de canela, Bruno Schulz [1933] (Assírio & Alvim, 1987): um livro de contos que transfiguram a pequena cidade de Drohobycz numa espécie de Macondo polaca onde se respira o ardor intenso da fantasia e das metamorfoses contra a colmeia de nevroses e de loucura onde o autor se encontra encerrado;
5. Fuga sem fim, Joseph Roth, [1927] (Difel, 1985): um livro que narra a viagem de errática de um desaparecido, na sua própria viagem de ocultação enquanto autor;
6. Diario, Witold Gombrowicz, [1968)] (Seix Barral, 2005): o diário do escritor polaco escrito durante os vinte e quatro anos que passou na Argentina onde nos são oferecidos aqueles instantes de deslumbramento que Gombrowicz designou por retratos de momento;
7. Os anéis de Saturno, Sebald, W. G. [1995] (Teorema, 2006): um livro onde o passeante Sebald contrapõe à obsessão moderna pelo esquecimento o imperativo redentor da memória, capaz, ainda, de deixar gravado no papel um rasto, que não se extinguirá jamais.

20 de fevereiro de 2008

Desolação



No post anterior dizia que se tratava de encontrar passagens nesta paisagem de desolação que aí está povoada de luzes ofuscantes que os trapezistas do marketing não se cansam de diariamente ir acendendo. Mas hoje sinto-me na obrigação de abandonar a metáfora, ainda que apenas pelo tempo de escrita deste post, para repetir a mesma expressão de paisagem de desolação, só que, desta vez, atribuindo-lhe o mais sebaldiano dos sentidos. Porque outro sentido não seria possível face às imagens de habitações escancaradas diante do olhar de espectadores obscenos, móveis humildes amontoados sobre um espelho de lama, intransponíveis sedimentos de esperança perdida sob o demónio cinzento da desgraça. Paisagem de infelicidade, afinal, que vem perturbar, agora, a retórica antes aqui deixada a propósito das novas patologias do nihilismo.

É que as imagens que, ontem e hoje, as televisões vão passando não são de divertimento, mas de estremecimento. É que, às vezes, as televisões também são capazes de dar conta da «consternação do mundo». E a consternação é, ainda, a mesma de sempre. Todos seguindo «o mesmo caminho de antemão traçado pela nossa origem e pelas nossas aspirações», diria o passeante melancólico W. G. Sebald, «impotente para afastar os fantasmas da repetição», se mergulhasse agora os passos naquela torrente adormecida de lama povoada de reminiscências de outras desolações. E nessa procissão entre ruínas húmidas, a dolorosa coincidência daquele jovem casal que tudo perdeu num torvelinho de lama e que já não reivindica felicidade, apenas a esperança perdida na vertigem do vazio. Resta-nos, então, encontrar passagens, fendas, na continuidade do mundo e procurar aí, depois, um sentido de possibilidade. Até porque, como disse Walter Benjamin «é apenas pelos sem esperança, os desesperados, que a esperança nos foi dada».

20 de novembro de 2007

Rio Congo acima



«Tudo me é antipático aqui» - escreve Jósep Teodor Konrad Korzenlowski numa carta enviada à sua tia Marguerite Paradowska, referindo-se à viagem que realizou em 1890, rio Congo acima até ao coração das trevas  - «os homens e as coisas, mas sobretudo os homens. Todos estes [...] mercadores de marfim de instintos sórdidos. Lamento ter vindo aqui. Lamento-o mesmo amargamente». Dessa subida iniciática do rio que lhe deixaria no corpo um sopro maligno, mas que também mudaria a sua alma - «Navegando pelo rio Congo, deixei de ser um animal para converter-me num escritor» - , contará, mais tarde, Conrad,  pela boca do expedicionário Marlow, seu alter ego no romance Coração das trevas, que publicará em 1902, depois de se ter feito escritor, precisamente, por causa dessa assombrosa viagem ao coração do mal, que nos legou como uma crónica daquela perversão levada a cabo no Congo, entre 1890 e 1900, pelo rei genocida Leopoldo II da Bélgica, originando a morte de quinhentas mil vítimas anónimas que não figuram nos relatórios oficiais. Uma experiência real que, escreveu Conrad, supera a ficção «com o propósito perfeitamente legítimo, creio eu, de trazê-la às mentes e ao coração dos leitores» e dar a «este tema sombrio uma sinistra ressonância, uma tonalidade própria, uma contínua vibração que ficará, essa a intenção, suspensa no ar e permanecerá gravada no ouvido depois de ter soado a última nota».

Por essa mesma altura, Roger de Casement, cônsul britânico em Boma, denunciava também a natureza e o volume desses crimes: «Quem viajar até ao curso superior do Congo e não tiver cegado de cobiça do dinheiro, verá desfilar diante dos seus olhos a agonia de um povo inteiro com todos os seus pormenores de rasgar o coração....». Denúncia que W. G. Sebald se encarregará de fazer ressoar nas páginas desse portentoso livro onde dá conta da consternação do mundo que é Os Anéis de Saturno, onde faz a contabilidade macabra desse reinado de terror: «Em muitas regiões do Congo, a população indígena foi totalmente dizimada pelo regime de trabalho forçado e os nativos que foram trazidos de outras partes de África ou de além-mar morreram em massa de disenteria, paludismo, varíola, beribéri, icterícia, fome, exaustão física e tuberculose».

 Esta a sinistra ressonância que ecoa no monólogo de Marlow que tem lugar num outro rio, o Tamisa, onde se pode pressentir «o lugar da cidade monstruosa, sinistramente marcado no céu, treva a germinar na luz do Sol, sinistro olhar debaixo das estrelas», como se aí residisse, ironicamente, a origem das trevas que o mundo civilizado derramou no coração de África «- E isto tudo, aqui [nas margens do Tamisa] - disse Marlow, de repente - foi um dos lugares selvagens do mundo», donde partiram «caçadores de ouro ou caçadores de glória», como Kurtz, o anjo exterminador que enlouquece absorvido pelos abismos da selva tropical, com um coração donde brota a mais primitiva crueldade, cujo drama se reflecte nas palavras pronunciadas pelo próprio antes de morrrer: «O horror! O horror!», e que constitui um dos gritos mais imponentes da literatura do século XX. Conta Marlow que, rio Congo acima, se vai arrastando o seu pequeno e decrépito vapor, numa atmosfera riscada pela morte e crueldade que ora se eleva da selva obscura, ora da rapacidade colonialista que ali se instalou para contaminar todos aqueles que atravessam a neblina cinzenta que esconde «a torrente deserta, um grande silêncio, a floresta impenetrável». Conta Marlow que o vapor vai percorrendo «um negro e incompreensível frémito», penetrando «mais e mais profundamente no coração das trevas», através de «intermináveis milhas de silêncio - que o arrastavam em direcção a Kurtz», com uma «inexplicável sensação de dor desesperada do clamor selvagem que [os] atingia da margem, atrás da cega brancura daquelas névoas».

A existência humana tomada como navegação encoberta, rio acima, capaz de naufragar a qualquer instante nas correntes súbitas do mal civilizacional, provocando uma hecatombe de cadáveres negros amontoados na história. O monólogo de Marlow, então, como uma relato em que o sombrio está tanto na orla do desconhecido como na alma dos que como «flibusteiros reles [apenas] querem arrancar tesouros às entranhas da terra» e se perdem na espessura do coração da trevas. Mas um coração que, embora remeta para um lugar geográfico e físico, o Congo, ou o continente negro que no mapa tem a forma de um coração gigante, constitui no romance de Conrad a metáfora das trevas que transportamos dentro de nós e que podemos derramar à nossa volta a qualquer momento sucumbindo ao «fascínio do abominável». Não sucumbiu Conrad a esse terrível fascínio, regressando da obscura corrente com a rapidez do coração das trevas, rio abaixo, à velocidade dupla da subida, numa espécie de refluxo do seu coração no mar inexorável do tempo, fazendo-se, depois, escritor na «cidade sepulcral», para que a contínua vibração da sua experiência permaneça gravada no ouvido depois de ter soado a última nota como um libelo desconstrucionista de um dos males do século passado, o colonialismo brutal cuja denuncia este livro actualiza, sempre que escutarmos Marlow.

Ontem voltei a adentrar-me no coração das trevas, para encontrar Kurtz, essa figura fantasmática que antecipa outras de Kafka ou de Beckett. Em duas horas de leitura subi e desci, rapidamente, o rio da infâmia colonial e na dobra da última página deste monólogo de assombrosa modernidade, deixei para trás definitivamente «caminho das águas, que leva aos confins da terra, corria escuro sob um céu sombrio - dir-se-ia que a levar-nos ao coração de infinitas trevas», as mesmas que foram pintadas da cor do sangue, no inquietante filme de Francis Ford Coppola, Apocalipse Now, inspirado na segunda parte do livro de Conrad que Agustina Bessa Luís elegeu como o livro da sua vida.

Por estes dias em que se evocam os cento e cinquenta anos do nascimento do escritor, em  1857, em Berdichev, uma pequena cidade polaca que integra hoje a Ucrânia - e se meteu, órfão, adolescente e marinheiro, num barco francês explorando os mares e, mais tarde, aos 23 anos, se fixar em Inglaterra e na sua marinha e atravessar águas exóticas -, reler talvez Lord Jim, esse romance marítimo que trata de outras iniquidades humanas.

14 de outubro de 2007

Madrid é uma festa



Num conto breve de Kafka, intitulado A partida, alguém pergunta: - «Conheces, então, a tua meta?». -«Sim [foi a resposta]. Já disse. Sair daqui: esta é minha meta». No meu plano de evasão constantemente renovado, Madrid foi a minha meta no último fim de semana prolongado. Deixo aqui uma espécie de cartografia espiritual de um fim de semana que nunca se acaba, pois já se estende por outros que hão-de vir.

Vivamerica. Madrid nunca se acaba, sobretudo num fim de semana carregado de palavras, sons, imagens e sabores vindos do outro lado do mar para celebrar a alma ibero-americana partilhada por mais de 400.000 milhões de falantes de espanhol e português em todo o mundo. Trata-se do Vivamerica que como uma enorme corrente atlântica se derrama por vários lugares da capital espanhola, deixando escutar a maresia do sul e, às vezes, olhar os abismos onde há muito tempo nos perdemos. Numa carta escrita a Pessoa falava Borges da «vaga gente sem geografia cumprindo em sua carne, obscuramente, seus hábitos». Hoje, outra vaga gente faz o caminho inverso e procura na Europa cumprir a sua carne, os seus hábitos que também já foram os nossos. Outras travessias, portanto, entre a saudade e a esperança de corações emigrantes navegando num mar em cujas águas verdes, azuis e negras se espelha a nossa alma antiga. Por isso, um emigrante equatoriano me dizia, enquanto esperávamos na Casa das Américas por Álvaro Mutis: «estamos aquí, por que vosotros estuvieran allá». E foi à procura dessa América inventada, imaginada, feita de encantos e desencantos que estive há uma semana em Madrid, escutando as palavras de Mutis, Juan Villoro, Pedro Juan Gutiérrez, Mario Delgado Aparain, Luis Sepúlveda, Inês Pedrosa, Fernando Pinto Amaral, entre outros; partilhando a experiência política de Rubén Blades como ministro do Panamá; ouvindo as sonoridades do gótico tropical de San Pascualito Rey. // Álvaro Mutis. A primeira vez que o encontrei, na Rue Vaneau, em Paris, pensei tratar-se de um seu duplo. Sempre a Rue Vaneau. Ou seria na página 293 de Doutor Pasavento [Teorema, 2007]? «Então pude ver que o homem não era parecido com Álvaro Mutis, mas sim o próprio Álvaro Mutis, o escritor colombiano». E agora ali estava ele de novo, com Juan Villoro ao lado, a abrir o festival Vivamerica. «O inventor da melancolia moderna», alguém disse já não sei se se referindo a Chateaubriand ou se a Mutis. O certo é que a conferência inaugural deste «maestro del descalabro» não andou longe do que pensaria o escritor francês se ali estivesse na Casa da América, transformada por instantes numa espécie de nau à deriva conduzida por um navegador do desassossego. «Jamás en su vida sobre la Tierra el hombre ha vivido más solo, más aislado de sus semejantes, más vejado por sus propios inventos, destinados a borrar en él hasta último rasgo de humanidad», afirmou o escritor de Los Elementos del Desastre [1953] perante a plateia que enchia a sala Gabriela Mistral. Lembro-me então da pergunta de Elias Canetti: «Regressará Deus quando a sua criação estiver destruída?». E como se escutasse o murmúrio do meu pensamento, Mutis responde que, haja o que houver, a poesia estará aí para contar o último suspiro do mundo. // Juan Villoro. Converso com Juan Villoro sobre a cidade do México, transformada agora na região menos transparente e no «único lugar donde he tenido miedo de perderme para siempre», como afirmou o escritor Claudio Magris. Digo-lhe que com a minha alma de passeante já lá estive uma vez, anónimo entre os seus quinze milhões de habitantes, perdendo-me num lugar para me reencontrar sempre noutro. Ofereço-lhe a revista Atlântica e peço-lhe cumplicidade na forma da escrita de texto a publicar no próximo número em preparação. Evoca Jaime Torres Bordet que já em 1957 escrevia: «Fuiste, ciudad. No eres. Te aplastaran/ tranvías, autos, noches al magnesio./ Para verter el paisaje/ ahora necessito un aparato/ preciso, lento, de radiografia./ Que enfermedad, tus árboles! Qué ruina/ tu cielo!». Ficou de me enviar uma crónica mexicana escrita sob un cielo artificial. // Rubén Blades. Pergunto a Rubén Blades como pode o cantor de Pablo pueblo passar de denunciante das injustiças a ministro do governo do Panamá. «Es pasar de escribir la denuncia, a una propuesta en la que vas a tratar de ayudar a mejorar las cosas a través de un proceso político», responde-me numa conversa que durou quase uma hora e que será publicada num próximo número da Atlântica. // San Pascualito Rey. Rock, rancheras, balada setentera, huapangos, música de congal e muita experimentação no terceiro disco deste grupo que veio do México.

Círculo de Belas Artes 1. Bruno Schulz. El pais tenebroso. Quem ousar entrar na sala Goya, no Círculo de Belas Artes, em Madrid, poderá precipitar-se num País tenebroso, exposição retrospectiva da obra plástica de Bruno Schulz. A memória da infância asfixiante na sua Drohobycz natal: cenografias de lojas sombrias, manequins de cera, mulheres anónimas, judeus errantes, fiacres nocturnos, seres deformados com feições caninas povoam a geografia de pesadelo de um Schulz que até ao fim de semana eu conhecia apenas desse extraordinário livro de contos que é As Lojas de Canela [Assírio & Alvim]. Trouxe comigo um belíssimo catálogo organizado por Monika Poliwka, comissária da exposição, com reproduções da sua obra plástica, postais antigos de Drohobycz, fotografias de família, alguns originais de correspondência trocada com Witold Gombrowicz. Restos de um pais tenebroso. // Ramón María del Valle-Inclán. Las Galas del Difunto. Ainda no Círculo de Belas Artes, o Teatro del Común, sob a direcção de Celia León, apresentou um texto pouco conhecido de Valle-Inclán, aquele «que se queixava de não lhe permitirem subir para um eléctrico com dois leões».

Museu Reina Sofia. Paula Rego, Retrospectiva. Uma trajectória artística que mostra a experiência do mundo de uma pintora indomável, inspirada nas recordações da sua solitária e mágica infância, como se Portugal inteiro, no seu melhor e no seu pior, estivesse agora ali diante de nós. Um Portugal que parece pintado por um Goya contemporâneo ou por Hogarth cuja influência Paula Rego reivindica. Momentos inebriados, festivos, violentos, lúdicos, teatrais, patéticos. E também os livros dentro dos quadros: As Criadas, inspirado na obra de Genet; Os Crimes do Padre Amaro, de Eça; Jane Eyre, de Charlotte Brontë; A Metamorfose, de Kafka; O Homem Almofada, inspirado em Martin McDonagh. Alegorias. Exposição visitadíssima, a mostrar que ainda há muitos portugueses que fazem quilómetros para ver arte. //Guernica. Picasso. «Escrever poesia depois de Auchswitz é bárbaro», afirmou Adorno diante da experiência do extermínio. E outros houve que emudeceram perante a «banalidade do mal». Mas Picasso, pelo contrário, pintou como ninguém essa banalidade, deixando-nos, isso sim, emudecidos diante da barbárie pintada do bombardeamento de Guernica. Uma pequena multidão olha o quadro em silêncio, como se ali qualquer outra semântica fosse redundante contra a banalidade do mal.

Museo del Prado. Demoro-me na pintura flamenga. Sobretudo Rubens, excessivo, apolíneo. A exuberância do nu feminino n´ As três Graças. O retorno à festa da vida n´ O jardim do amor e na Dança dos aldeões. Depois, detenho-me n´As Meninas, de Velásquez. E n´O jardim das delícias, de El Bosco. E depois, Goya, de quem Ortega y Gasset disse ser «um monstro... e o mais decidido monstro dos seus monstros». Talvez não, apesar de todos os seus fantasmas, vividos e pintados, e de oscilar sempre entre a luz da corte e a escuridão da alma. E de novo a «banalidade do mal», agora n´Os fusilamentos de três de Maio. // Patinir e a invenção da paisagem. A paisagem antes da destruição descrita por W. G. Sebald muito tempo depois. Um remador que lembra Erza Pound nos seus dias mais obscuros. Uma aragem lambendo a superfície líquida de um lago. A barca de Coronte transportando uma alma numa viagem sem retorno sob um céu azul, místico, nórdico, assim se anunciou num enorme painel colocado à entrada do Museu, a exposição do pintor flamengo que eu ainda não conhecia. Depois, lá dentro, 24 paisagens quase microcópicas, onde, ainda assim, cabemos todos, como se o próprio Patinir nos tivesse colocado aí como personagens secundários de outras tantas micro-narrativas enquadradas num fundo de paisagens submersas de azul, rochedos, bosques, torres, casarios, moinhos, uma fogueira, um bando de pássaros levantando voo e, no último plano, sempre um horizonte luminoso onde pairam densas e opressivas nuvens sobre imagens surreais de figurantes montados em bestas, monstros, matanças, calamidades.

Casa del Libro. Enrique Vila-Matas. Exploradores del Abismo [Anagrama, 2008]. Entro na livraria para comprar Exploradores del Abismo, o último Vila-Matas, de que já lera o conto «La modéstia». Abro-o ao acaso e leio em «La letra gorda», aquilo que me parece ser uma virtual declaração de princípios do livro: «La tensión más fuerte la provocaba el duro esfuerzo de contar historias de personas normales y tener a la vez quereprimir mi tendencia a divertirme con textos metaliterarios». Veremos se é outro ou o mesmo Vila-Matas que agora se dá a ler.// Vila-Matas portátil [Candaya, 2007]. Já se percebeu que sou um aficcionado do escritor catalão. « Tal vez en unos años la acumulación de ideas sobre el trabajo de Vila-Matasos permita descobrir con claridad las razones por las que nos commueve», escreveu o crítico mexicano Álvaro Enrique, em 1997. E dez anos e cinco livros depois? Compro o livro que reproduz o itinerário crítico e cronológico dos livros de Vila-Matas e que inclui testemunhos de Pitol, Bolaño, Villoro, Fresán, Cercas, Tabucchi e Loriga, entre outros que partilham a sua aventura shandy. // Joseph Roth. Fuga sin Fin. [Acantilado, 2003]. É o romance que Pasavento/Vila-Matas transportava na maleta vermelha que herdara da sua avó e que «leu de um só folgo», em Nápoles. Prometo a mim mesmo lê-lo também de um só folgo numa próxima viagem de ocultação. // Roberto Bolaño. Los detectives salvages [Anagrama, 1998]. O escritor chileno que se exilou no México, durante a ditadura, e que nas extravagantes 447 páginas de Los detectives salvages deixa fluir a sua alma nómada, misturando-a com todos os seres errantes que vivem à deriva nos arredores de si mesmos, instaurando uma espécie de «literatura por vir». // Sergio Pitol. El arte de la fuga [Anagrama, 1996]. Um livro que foge a qualquer classificação, que remove as fronteiras do género, parecendo, primeiro, um ensaio, mas logo depois uma narrativa, e depois uma crónica de uma vida, um testemunho de um viajante, ou anotações de um leitor hedonista, sempre como se o autor fosse uma criança deslumbrada diante da variedade do mundo.

Babelia. Tenho por hábito ler o suplemento do El Pais todos os sábados. Sento-me por isso na esplanada do Círculo de Artes, na Gran Via, e empreendo uma viagem através da literatura catalã que constitui o tema desta Babélia, transformando momentaneamente a Gran Via no Passeig de Gràcia. Um inquérito junto de mais de cem especialistas elege as 50 melhores obras catalães de sempre: Ramon Lull [1232-1316] («Implacável defensor de la lógica cristiana. Escribió en latin, catalán y árabe. Consciente de que existiria un Pierre Ménard reescribió de memoria algunos de sus libros perdidos en un naufragio»); Josep Pla [1897-1981] («incómodo y bellíssimo. Desconfiado, viajero, diletante, comodón, trabajador... es el paradigma de la literatura catalana»; Salvador Espriu [1914-1945] («Le compararon a Pablo Neruda, Rafael Alberti o Valle-Inclán. No se les parece en nada. Autor precoz, le tocó vivir con estoicismonlo peor de la história del siglo XX». Dos cinquenta títulos citados não li nenhum! Mas recordo o fundo cabalístico de Lull perseguido por Luisa Costa Gomes, em Vida de Ramón [Dom Quixote, 1991]. E li outros mais recentes, como Juan Marsé, Eduardo Mendoza, Javier Cercas, Carlos Ruiz Zafón e, claro, Enrique Vila-Matas. Nesta Babélia há ainda páginas sobre agentes literários, editores e livreiros de Barcelona que já não tive tempo de ler, pois alguém muito parecido com Che Guevara sentou-se na mesa ao lado. Pouso o jornal e regresso à Gran Via. Mais tarde, na Plaza del Sol, confirmaria tratar-se, efectivamente, de Che.

El tapeo. A idea é caminhar ao acaso desde a Puerta del Sol até à Plaza Mayor, passando pela Plaza de Santa Ana, ir descobrindo os rincones mais saborosos da cidade através do labirinto faustoso das mil tabernitas que há por ali e que nos convidam a entrar, fervilhando de gente que se pierde noche adentro, entre vinitos, cañas y bocadillos, la oreja, los torreznos, las anchoas, lo ibérico... y sobre todo con muchas ganas de vivir. Tapear es una arte y a Madrid la conocen como puede comprobar, tanto que ahora mismo se me huida la lengua para el castellano. Aqui fica a porta de entrada para a Venta El Buscón, um dos muitos abismos faustosos por onde me adentrei.  

20 de setembro de 2007

Políticas da literatura


Nalguns textos anteriores aqui inscritos (Da literatura Sebald: viagem entre ruínas), tenho procurado interrogar o papel da literatura enquanto expressão necessária da consternação de um mundo «tão cheio de falsas representações, tão fútil, onde tudo se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História se desvanece», como escreveu W. G. Sebald, em Os Anéis de Saturno.  Mas que literatura «ante a decadência implacável da ambição literária, a convergente ascensão de desengano, a verborreia e a crueldade insensível como assuntos normativos da ficção»? questionava Susan Sontag. Que literatura perante este mal endémico que corrói, hoje, as estantes das livrarias?

Demasiadas interrogações que vêm alimentar um debate em múltiplas direcções, actualizando a questão da definição do papel da literatura, questionamento que poderá constituir não apenas um sinal de indecisão acentuada, mas também uma aproximação à complexidade processual da literatura. Ante o espectro da síndrome do código [...de Da Vinci] e das suas múltiplas reprises, poderá a literatura, ainda, continuar a produzir uma interrogação sobre o mundo, revelando os territórios da dominação que se escondem atrás da vida de todos os dias e, assim, cumprir o seu papel na sobrevivência da memória? Ou será cada vez mais a literatura uma mercadoria que se expõe nas livrarias à espera de um leitor passivo e pouco exigente, uma raça de «analfabetos altivos» que «em vez de ler o melhor que se produziu nas diferentes épocas, se resume a ler as novidades, afundando-se cada vez mais no próprio lodo», como antecipou Schopenhauer?  Na verdade, o que cada vez há mais nas livrarias são apenas livros e pouca literatura, contribuindo para o simulacro de uma cultura que se esvanece perante a histeria tranquila que invade os escaparates livreiros, transformando o leitor num consumidor passivo, marcado pela fraqueza e pela impotência face à mercadoria exposta ali por «todos esses homens de negócios que editam livros, directores de departamento, líderes de mercado, trapezistas do marketing e licenciados em economia», como denuncia Enrique Vila-Matas nesse desassossegante libelo contra os inimigos do literário que é O Mal de Montano.

«A rasura total da literatura» ou «o horror do estilo», segundo João Barrento ou o «realismo urbano total», como classificou Miguel Real esta literatura achatada, e quase sempre vazia, que espelha o mundo que aí está e que muitos chamam de pós-moderno, correspondendo à «historicidade imanente» de que falava Theodoro W. Adorno.  Uma literatura que não é mais do que a manifestação epifânica de um mundo carregado de sombras ocultas sob a fogueira da técnica e do mercado que nos atrai como borboletas de asas trémulas. A literatura perdida no meio dos livros e nós doentes da literatura como mariposas errantes no meio deles. Estará a «arte de contar em vias de se perder», como afirmou Walter Benjamin? E não será isso uma consequência da crise da experiência moderna, onde o fragor da técnica emudeceu a fala dos homens e dos escritores apanhados pela mesma teia da contingência? Paul Auster afirma na sua Trilogia de Nova Iorque que «o caso é que as nossas palavras já não correspondem ao que se passa no mundo. [...]  Pouco a pouco [as] coisas fragmentaram-se, espalharam-se, caíram num caos. E, contudo, as palavras permaneceram as mesmas», tornando-se incapazes de dar lógica à trama da vida.

Que outra via, então, para a literatura? Isto é, entre a mercadorização, a alienação e o engagement será possível ainda uma literatura capaz de, para além dos propósitos do autor, perturbar o universo do sensível, os modos como percepcionamos o mundo, autonomizada, mas sem cair no vazio ou no ensimesmamento.  Como contrariar a profecia hegeliana sobre o devir da «prosa do mundo» que ao perder o seu sentido teológico perdeu também a sua literariedade, tornando-se num «objecto verbal laborioso e inútil», como já a sentia Jorge Luís Borges? Trata-se, agora, de resolver a oposição radical entre a passividade e a actividade do leitor, como propõe Jacques Rancière, em Politique de la littérature. Que novas figuras de esperança, sem cair na tentação panfletária, poderá ainda a literatura convocar neste crepúsculo das ideologias? Diz Rancière que «a força da arte é, precisamente, sair das figuras, das formas esperadas, para lhes dar um outro modo de presença». Não estamos diante de indivíduos, mas de personagens de papel - como escreveu Roland Barthes - através de cuja figuração estética o mundo impõe uma presença que apenas a distância nos permite abarcar. Mas «personagens com inteireza», segundo Lídia Jorge, capazes de dar à trama da vida uma outra lógica que lhe escapa e que só a literatura pode inventar, agitando éticas e estéticas conformistas. Uma literatura como simulação da vida, como escreveu Bernardo Soares no Livro do Desassossego: «Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa». Ir por aí, portanto, ultrapassando o velho paradigma modernista da distinção entre uma literatura engagée e uma literatura indiferente, mas recusando «uma espécie de pedagogia política voluntarista da arte» que não poderá constituir o contraponto ao vazio ou ensimesmamento literários.

Coloca-se, então, o problema da relação da política com a literatura, com a arte em geral. Qual o compromisso actual da literatura? Caberá à literatura e à arte produzir conhecimentos ou representações para a política, falhando a sua natureza ociosa? Ou, pelo contrário, não residirá o seu potencial emancipador, o seu fogo, precisamente, na sua aparente ociosidade? «Um romance não é significativo por ser, por exemplo, instrutivo, e expor-nos um destino estranho, mas porque esse destino estranho, com o fogo que lhe é atribuído, nos dá um calor que nunca somos capazes de conservar para o nosso próprio destino. O que empurra o leitor para a novela é a esperança de poder abrigar a sua própria vida tiritante face a uma morte sobre a qual se lê», e «não é por comunicar conteúdos, mas por trazer à luz da maneira mais límpida a sua dignidade e a sua essência que a a literatura se mostra eficaz», escreveu Walter Benjamin em momentos distintos.  Esta a essência da literatura, isto é, a sua capacidade de escapar a toda a determinação essencial, a toda a acção estabilizadora, diz Blanchot. Também Rancière afirma que a literatura  «produz ficções ou dissenções, agenciamentos de relações de regimes heterogéneos, mas não os produz para a acção política, mas sim no seio da sua própria política, criando um duplo movimento que por um lado conduz à sua própria supressão, e por outro, aprisiona a política da arte na sua solidão, recortando o espaço do sensível e da redistribuição das relações entre a actividade e a passividade, o singular e o comum, a aparência e a realidade, que são os espaços-tempos do teatro ou da projecção, do museu ou da página lida».

Ora, é nesta reconfiguração da experiência que a literatura poderá, então, suscitar novas formas de subjectivação política e nesse sentido levar à superação do binómio política/literatura a cuja indistinção Rancière dá o nome de ética. Ou como dizia Lídia Jorge a propósito do seu último livro, uma literatura «com um assomo político», capaz de dar trama à vida de todos os dias. E de «corrigir a fortuna que é cega, com a alegria da natureza que é previdente», acrescentaria Agustina Bessa-Luís. Porque toda a ética da literatura reside no modo como ela se dá a ler. Ou, nas palavras de Giorgio Agamben, «como tu falas, isso é a ética».