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18 de janeiro de 2014

A Europa dos cafés


A Europa era feita de cafés. Uma cartografia de encontro de poetas, escritores, artistas, filósofos, revolucionários, flâneurs. Como se a própria Europa fosse um grande café, lugar de hábitos metódicos e dos vaivéns casuais.

"Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa", escreve George Steiner no ensaio A ideia da Europa. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Também de renuncia, como nos cafés de Viena, onde os homens sem qualidades de Musil representavam sem saber a irrealidade da vida, ora se deixando ir, contemplativos, em "apocalipse alegre", ora afrontando a vertigem do vazio da era moderna, sem nele se despenharem.

Lisboa onde ao entardecer, metódica e pontualmente, como num rito sagrado, Pessoa se sentava numa mesa de canto do Martinho da Arcada, desdobrando-se, em desassossego interior, em Bernardo Soares para meditar em vão sobre "metafísicas perdidas pelos cantos dos cafés de todo o lado, as ideias casuais de tanto casual, as instituições de tanto zé-ninguém". Ou a Brasileira do Chiado onde nas tertúlias de antanho era comum verem-se os restos da Carbonária numa mesa, os integralistas noutra e Pessoa e Almada Negreiros noutra ainda. Ou o Majestic, no Porto, "onde - conta Agustina Bessa Luís - se juntavam músicos e pintores do tempo duma boémia que o burguês via com enfado".

Lisboa: Pessoa no Martinho da Arcada inventando a mais profunda genealogia da literatura portuguesa. Paris: Sartre e Simone de Beauvoir no Café de Flore, num amplexo amoroso, entre duas reuniões "existencialistas". Berlim: Walter Benjamin no Café Tiergarten, traçando "labirintos de tinta embebidos nos [seus] cadernos". Copenhaga: Kierkegaard num vaivem meditativo entre cafés, lançando as bases do existencialismo. Trieste: Claudio Magris navegando pelo Danúbio no Café San Marco, "um verdadeiro café, situado na periferia da História". Praga: Kafka pousando a sua existência de morcego no Café Louvre. Budapeste: Deszó Kosztolányi, no Café Sirius, pedindo tinta para escrever, em vez de um café: "- Garçon – dizia – tinta, s´il vous plaît!". Odessa: Isaac Babel pondo em movimento, num café do guetto judeu, os seus gangsters de papel.

Zurique: Lenine, à mesa do café, imaginando uma revolução. James Joyce escrevendo a história moral da Irlanda. Mata-Hari ensaiando os primeiros passos na intriga internacional. As sombras, ainda, de Goethe, Hermann Hesse, Thomas Mann. Enrique Vila-Matas autoficcionando um encontro impossível: "Na manhã seguinte, nevava em Zurique. Saí do hotel com o chapéu de feltro e o meu guarda-chuva, e fui tomar o pequeno almoço ao velho e famoso Café Odeon, de que sempre se disse que Lenine, assíduo cliente daquele estabelecimento, pôde trocar mais de uma palavra com James Joyce, outro cliente habitual. Ah, o Odeon! Lembrei-me que Mata-Hari tinha ali debutado como bailarina. E a seguir imaginei uma cena impossível, imaginei Lenine a beber um café, enquanto lançava olhares furtivos a um exemplar de Gente de Dublin".

E ainda os cafés de Paris revisitados por Enrique Vila-Matas em Paris nunca se acaba, como aquele "café que fica perto do cruzamento da rue du Bac com o boulevard Saint-Germain, onde Perec recomendava que nos sentássemos para observar a rua com um esmero um pouco sistemático e a anotar o que víssemos, o que nos chamasse a atenção, obrigando-nos a nós mesmo a escrever inclusive o que aparentemente não tem interesse, o que é mais evidente, o mais comum, o mais opaco".

Ou o Café La Closerie de Lilas onde um dia me pareceu ver o encantador de garrafas Hemingway, mas que, afinal, se revelou ser um jovem catalão aprendiz de escritor aguardando o melhor momento para sair sem pagar. Ou aquele minúsculo café no Boulevard Jourdan para onde me levavam os meus passos nocturnos desde a Cité Universitaire para, noite adentro, ir enfiando moedas na velha juke-box e ouvir o anarquismo musical de Boris Vian e de Leo Ferré, porque ali não se cantava o fado e a metafísica ocupava todas as mesas.

Desapareceram, entretanto, os cafés da velha Europa. Ou, o que vem dar ao mesmo, apagou-se a aura que os habitava. E os que, ainda, sobrevivem, já não são habitados pela ideia de infinito, mas antes por uma clientela mais ou menos extravagante, composta por epígonos nostálgicos, turistas alheios ao literário, contempladores sensíveis e fetichistas dos bons lugares, confundidos no vaivem dos empregados de mesa sem perceberem que  tudo, ali, afrouxou na aparência das coisas e da sua representação.

23 de abril de 2012

Os livros dentro dos livros



Encontro sempre outros livros nos livros que leio. E leio-os procurando escapar às tentações hermenêuticas que sustentam uma certa leitura crítica, profissionalizante, controladora do sentido dos textos através de uma axiomática que procura iluminar o oculto, e que Foucault descrevia como uma «vontade de verdade». Não, não vou por aí, perseguindo a ilusória linha contínua da hybris do novo iluminismo. Prefiro os labirintos benjaminianos embebidos na tinta dos livros.

E, por isso, prefiro os livros onde se recorta a trama da vida, com as suas cesuras que remetem para outras vidas contadas noutros livros. Gosto, então, de livros onde ecoam outros livros, outros autores, outras tramas. Livros que remetem, que aludem, que citam. Livros onde um só fragmento, uma evocação pode levar a outros caminhos que neles se bifurcam. Livros que trazem consigo o estigma dos cruzamentos, da enxertia. Livros que engendram novos livros. Livros de fronteira cuja essência reside na sua travestização genóloga. Livros, ainda, que são por si só uma biblioteca inteira e que, por isso, leio para saber o que os seus autores leram. Livros- labirinto que transformam qualquer limitada biblioteca na interminável biblioteca laboriosamente construída por tradutores, exegetas, anotadores, interpretes, bibliotecários que habitam os contos de Borges. Também por escritores sem qualidades. E outros doentes da literatura obcecados pela vontade de citar, glosar, anotar, comentar textos alheios, exercitando, assim, através da apropriação das palavras alheias toda uma «poética enciclopédica».

Todas as leituras são provisórias, porque nunca relemos um livro da mesma maneira que o lemos da primeira vez. Ou porque relemos cada livro como se estivéssemos a ler um livro que nunca tivesse sido lido. Procuro, assim, escapar à imanência do texto, através de uma hipertextualidade não tecnológica, perscrutando na geografia do acaso de cada texto o ponto e a ponte de passagem para outros textos. «Perder-se numa cidade como se perde numa floresta exige toda uma educação», escreveu Walter Benjamin. Sim, perder-me num livro e reencontrar-me noutro. Não para me confortar, mas para abanar convicções. A leitura, então, como experiência do mundo, mesmo que o livro seja um clássico, até porque, por definição borgesiana «clássico é aquele livro [...] que decidimos ler como se nele tudo fosse [...] tão profundo como o cosmos e sujeito a todas as interpretações». Ou aquele onde, ainda, «surpreende que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível, aqui, no papel». Nada está oculto nesta definição de leitura oferecida por W. G. Sebald. Nada está oculto nos livros que me são dados a ler, pois neles também se faz e desfaz, à medida que os leio, - como escreveu George Bataille - a «experiência interior que corresponde à necessidade em que me acho em cada momento».

Por isso, porque por contaminação literária também reescrevo os livros que leio, renego aquilo a que Gilles Deleuze chamava de «interpretose» e que continua a assolar a crítica universitária contemporânea. Porque é preciso nunca falhar a ocasião da leitura, o que só acontece se soubermos adentrarmo-nos nos mundos paralelos que se bifurcam nos livros. Não em todos, claro, apenas naqueles que escolhemos como quem escolhe um bem precioso. Esses são os livros que leio e sobre os quais, numa fulguração momentânea, até mesmo Kafka, contrariando todos os seus intérpretes futuros, escreveu: «atravessando as palavras há restos de luz».

24 de março de 2011

Frente ao inafrontável


Há muito que nos andam a dar a ler uma narrativa rasurada cujo último capítulo se desenrola à beira de um abismo para onde vamos sendo arrebatados no torvelinho da contenda política. Eis-nos, hoje, enfim, «de pé e enfrentando o caos», como diria Cornelius Castoriadis. E se o confronto com o caos já seria por por si só perturbante e doloroso na estreiteza histórica desta narrativa, o mais desconcertante - parafraseando Enrique Vila-Matas, em Exploradores de Abismos - para quem, como nós, seres comuns que sondam, sem mapa, o horizonte plausível, indagando sobre o que poderá haver fora daqui, isto é, fora deste limbo político em que vamos vivendo, é que os mesmo maquinadores que, em «apocalipse alegre», conduziram o país para o limiar estreito em que, agora, se encontra, estejam - governo e oposição - mais interessados numa perigosa fuga para a frente, do que, e citando uma vez mais Castoriadis, «se confrontar de pé com o abismo.»

Aquilo que nos tem sido dado a ler, mais não é do que um simulacro de contenda política que disfarça uma operação de encobrimento de interesses inconfessados em que assenta a base ideológica dos diferentes jogadores que praticam, ainda que com diferentes convicções, a utopia neoliberal: Passos Coelho ambicionando superar pela direita os génios que levaram à crise especulativa, e Sócrates, qual cata-vento das tendências neoliberais internacionais, sempre pronto a lhes conceder novas oportunidades.

No actual quadro de crise financeira que semeia angústia e medo social, em vez de uma nova atitude de reflexividade social, traduzida em ideias, estratégias e acções capazes nos pôrem na estrada certa, os «falsos maquinistas» entretêm-se em jogos de poder. De um lado, Sócrates com o sua teimosia resiliente, incapaz de aceitar o que seriam as condições mínimas da decência social, isto é, aumentar a progressividade do sistema fiscal, abdicar das mordomias e da distribuição de empregos e favores, renegociar as PPP e as concessões predatórias, e prosseguir uma estratégia credível de contenção orçamental. E do outro, Passos Coelho e a sua utopia neo-liberal que concebe o paraíso de um mercado concorrencial plenamente emancipado de qualquer tutela do estado, propondo a privatização de tudo o que dá prejuízo. E mais à direita, o que Portas acrescenta é a saudade de uma sociedade desigual, a defesa da moral e da autoridade, a retórica populista para seduzir gente com «medo de existir». Enquanto isto, à esquerda (BE e PCP) apenas o clamor contra a precariedade aproveitando a onda de protesto da auto-designada geração à rasca, a pirotécnia política - sobretudo do BE - dissolvendo-se no ar no meio do torvelinho de ideias próximas do zero que andam por aí a agitar-se, a ausência de projecto verosímil para uma alternativa de governação.

Que fazer, então, para afrontarmos a vertigem do vazio da política sem nele nos despenharmos? Nas «condições de política» actuais, em que os partidos se tornaram organizações fechadas, pouco orientadas pelo interesse nacional e muito viradas para a perpetuação dos seus interesses, talvez exigir ao PS e aos partidos à sua esquerda o reconhecimento da emergência de novos actores e formas de organização social e cívica mais fluida e descentralizada, «retraçando», os modos de «dizer» e «fazer» política, de forma a renovar a sua legitimidade na esfera pública contemporânea. Estar atento às «cesuras», procurar, como nos ensina Walter Benjamin, «dinamitar a continuidade coisificada da história», reescrevendo uma narrativa em que as coisas não continuem como antes.

26 de dezembro de 2010

Tudo o que era sólido


Chegado que é o fim do ano, e em tempo de recomeços, do alto deste trapézio voador - observatório instável sobre as coisas cá em baixo - mais do que me precipitar no vazio do novo ano que aí vem, opto por uma reflexão, necessariamente breve, sobre este tempo falhado, numa espécie de tentativa de escandir o passado recente para, depois, imitando as personagem de Exploradores do abismo , de Enrique Vila-Matas, fazer como «as pessoas normais que, ao ver-se à beira do precipício fatal, adoptam a posição do expedicionário e sondam o horizonte plausível, indagando sobre o que pode haver fora daqui ou mais além dos nossos limites».

E o que vi desde o meu instável posto de observação foi o arrancar do véu da utopia neo-liberal e as consequências desastrosas da desregulação capitalista sobre as economias, ameaçando transformar o «apocalipse alegre» em que íamos vivendo numa queda sem fim que nos levará não se sabe, ainda, até onde. E eis-nos, então, agora, «de pé enfrentando o caos» que irrompeu como uma brecha no rochedo aparentemente sólido das nossas rotinas, ameaçando dissolver no ar tudo aquilo que era sólido, como antecipou Marx.

E enquanto, por ora, vamos caminhando sem mapa pelas estradas que fazemos -«e que o fazemos somente ao caminhar por elas» -, como escreveu Zygmunt Bauman, que fazem os políticos? Deixam-se ir na mesma operação de encobrimento que volta a servir os «mercados», assumindo novas patologias de posição, transitórias, etéreas que mais não fazem do que permitir a colonização do discurso político pelas mesmas retóricas neo-liberais que nos conduziram perigosamente para a beira do abismo. Outros, diante do perigo que sobrevém, e este vem sempre, armam-se em maquinistas da desgraça e vão maquinando soluções contra as vítimas de sempre.

E nós, em separado ou em simultâneo, puros hedonistas, hiperactivos voláteis, contempladores sensíveis, espectadores obscenos, que fazemos diante do torvelinho que vai arrastando o país (e o mundo), e nós com ele, para o vórtice fatal tão bem descrito por Edgar Allan Poe no conto «Uma descida ao Maelstrom»? Deixámo-nos ir, ainda, em «apocalipse alegre» - para utilizar a mesma fórmula que Hermann Broch usou para descrever o nihilismo da sociedade europeia de fim de século - que é, também, a forma como hoje nos vamos entregando ao nihilismo pós-moderno, falhando, portanto, como diria Walter Benjamin, a ocasião de as coisas não continuarem como antes.

Daí, então, que este balanço possa parecer, numa espécie de espelhismo relativamente aos acontecimentos recenseados, também ele, nihilista. E sê-lo-á quer no sentido em que persegue a incompletude, o falhado, a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», quer, ainda, por corresponder a um modo de escandir o tempo que só produz passado, que é uma nova forma de «doença histórica» que revoga o tempo breve da novidade. Mas ainda que nihilista face à consciência da generalização actual do alegre apocalipse, porque não ler, também, nesta recensão cronológica uma forma de rebelião contra o próprio nihilismo? O que dito de outro modo poderá traduzir-se na pergunta: como aceitar estes acontecimentos quando se pode sempre esperar que o tempo que vem aí traga outras possibilidades ao mundo, outras ocasiões de não deixar as coisas continuarem como antes? Que não seja mais um recomeço, mas antes um começo? Ou que, como desejava Paul Celan, nos deixe caminhar pelas estradas que fazemos afrontando «a crise» enquanto sinal da liberdade para responder ao perigo que sobrevém.

Este o balanço que importa perseguir, até porque só o escandir do tempo, recenseando a história não para arquivá-la, mas para nos confrontarmos com ela, levará a acreditar que um balanço pode ser algo mais do que uma cronologia ou uma patologia da «doença histórica» de que falava Nietzsche. E que, quem sabe, nalguma cesura aparentemente invisível na sucessão veloz de fins e de recomeços, sejamos capazes, ainda, de sondar os horizontes plausíveis do tempo actual, indagando sobre os acontecimentos que deveremos perseguir no futuro para superar as consequências dos acontecimentos passados, dando, finalmente, como bem tentou Walter Benjamin na sua solidão irredutível, «o salto de tigre no céu livre da história».

5 de outubro de 2010

Flâneries


Gosto de Paris. Gosto de, ao entardecer, sob o zinco da esplanada do Café de Flore, enquanto vou observando a chuva oblíqua através das vitrines, folhear um livro acabado de comprar ali mesmo ao lado, na livraria La Hune; gosto de caminhar sem rumo preciso, por Germain-des Près, guiado apenas pela intuição do flâneur que me leva, depois, através da Rue de Seine a cruzar o arco que dá para o Quai de Conti e para a Pont des Arts.

Gosto das bancas de livros ao longo dos cais. Gosto da Île de Saint-Louis com as suas boutiques elegantes. Gosto de deambular pelo Marais até à Place de Vosges, de tomar um chá na rue Vieille du Temple. Gosto do mercado da rue Mouffetard e das suas bancas onde se vendem ostras com um forte sabor a mar, gosto do aroma forte dos queijos expostos naquela crémerie onde sempre entro. Gosto da livraria Arbre à Lettres onde, finalmente, encontrei o Livre des Passages, de Walter Benjamin.

Gosto, ainda, de errar por essas passages secretas, donde Benjamin via Paris como a cidade dos espelhos; gosto de me imaginar Le Paysan de Paris e, como Aragon, adentrar-me na cartografia de Paris e escutar a formidável ressonância das pequenas coisas que se mostram dissimuladas ao passeante.

19 de março de 2010

Istambul desaparecida


Fui a Istambul pelos passos de Orhan Pamuk, perseguindo uma cidade secreta, descrita «em dois tons, como a cor do chumbo, semiobscura, no estilo das fotografias a preto e branco» do fotógrafo Ara Güler. Fui para descobrir uma cidade desaparecida ou, pelo menos, invisível ao olhar do turista fortuito, mas que, ainda, é capaz de se revelar ao viajante que ousa «perder-se [nela] tal como é possível acontecer num bosque», o que «requer instrução», como um dia disse Walter Benjamin. Fui, por isso, desde o meu hotel, na praça Taksim, mapeando as ruas secundárias de Beyoglu, de Gálata, de Cihangir, de Fatih e de Zeyrek à procura do aleph que todas as cidades escondem e que, ali, é a paisagem a preto e branco cuja «beleza reside na sua tristeza», como escreveu Ahmet Razim, também ele um cronista desta cidade nervosa que tem um pé na Europa e outro no Oriente próximo.

Fui por ali como um expedicionário de memórias alheias - as memórias de Orhan Pamuk que me chegaram através das páginas lentas, quase proustianas, do seu livro Istambul: Memórias de uma cidade (Editorial Presença) e que constituíram a minha prévia e necessária «instrução» para me perder na cidade inquieta, simultaneamente real e onírica, mas também as memórias de ilustres viajantes estrangeiros do século XIX; como Meeling que nos legou em Voyage pitoresque de Constantinople et des rives du Bosphare esplendorosas gravuras das paisagens do Bósforo; ou Nerval que em Voyage en Orient compara a exuberância da Rua Grande de Pera, hoje a Avenida Istikal, a Paris; ou Gautier que em Constantinople narra o seu périplo melancólico pelos subúrbios assombrados de Üsküdar, Karaköy e Byazit; ou Flaubert que nas cartas que envia desde Istambul fala do frio da cidade e do vento poyraz que sopra do Mar Negro encapelando as angras.

Fui por ali, também, recordando o que o escritor, político e viajante Manuel Teixeira Gomes escreveu, em Miscelânea, sobre Istambul, onde aportou num dos seus périplos mediterrânicos. «Já na minha última visita a Constantinopla, onde eu andava algo febril e depauperado por uma dose de malária, apanhada nas ruínas de Éfeso, uma ou outra dessas figurinhas [do sarcófago de Alexandre] me aparecera de fugida, e sempre nos cemitérios que são o que ali há de mais helénico. Os cemitérios de Constantinopla! Lembra-se? O bosque de ciprestes em Scutari, mostrando ao fundo das suas infinitas ruas a perspectiva risonha do Mar de Marmara; e a poesia dos pequeninos cemitérios de Gálata, fechados em tuias e alcatifados de tulipas! E os encontros nessa inverosímil cidade, que são como em nenhuma outra parte inesperados, sugestivos, fugazes e estranhos. É uma incessante parada que levanta do pó dos séculos as mais pitorescas e formosas criações. Dias há que nos parece que as estátuas antigas desceram dos seus pedestais, e as odaliscas se evadiram dos gineceus e vieram espairecer pelas «Águas-doces-da-Europa, ou pelos bazares de Istambul. Ou misturar-se ao formigueiro humano que enche continuadamente a amplíssima ponte que fecha o Corno de Oiro».

Fui por ali, não tanto para atravessar a floresta de banalidades urbanas circundantes, mas para até mesmo na topografia turística descortinar desde o Bósforo, tal como Manuel Teixeira Gomes a viu, uma Istambul «armada no coração do mundo, com as mil lanças dos seus minaretes», com torres, palácios, mesquitas, colunas e cúpulas. O esplendor desvanecido da Hagia Sofia; a incandescente visão da Mesquita Azul com os seus seis minaretes rasgando os céus; o harém do Palácio de Topkapi; a estação Sirkeci onde durante anos terminava a linha do Expresso do Oriente, com gente anónima com malas chegando e partindo; mais gente anónima apressada atravessando a ponte Gálata por entre uma chusma de pescadores à linha que ali gastam o tempo e a vida; o Grande Bazar em cujo labirinto de vozes e coisas se pode achar desde os brocados gregos ao açafrão iraniano, do vidro de Alepo aos tecidos listrados do Iémen; e o Bazar das Especiarias com os seus mil aromas e texturas visuais.

E fui por ali, sobretudo, à procura de uma Istambul secreta sedimentada em camadas de esquecimento que, como escreve Pamuk, se escondem sob «o arco mais modesto, a fonte mais pequena enterrada em toneladas de betão, a mesquita mais pobre nos bairros afastados, por maltratados e esquecidos que estejam, fazem sentir com dor aos milhões de pessoas que vivem entre essas memórias - tanto como as grandes mesquitas monumentais e os edifícios históricos da cidade - que são resíduos de um grande império». Vestígios esquecidos de uma Istambul de prodígios e raridades acesas que se negam em desaparecer e que irrompem nas entranhas de ruas secundárias; na penumbra dos seus tugúrios míticos de casas de madeira vazias e cambadas. Nos seus cafés e tabernas com mesas de mármore onde se sentaram os escritores solitários do hüzun - a melancolia turca - agora a abarrotar de desempregados e delicados saracoteares de chávenas de chá, e onde também eu me sentei a beber raki. Nas livrarias vazias de alfarrabistas encaixadas em passagens secretas onde procurei um livro inexistente do turcófilo Pierre Loti; nas velhas barbearias, outrora lugares de discussão política e, onde, hoje, os poucos clientes discutem as rivalidades futebolísticas locais. No cântico do muezzin que se evola nos ares sobre a penumbra dos entardeceres e se confunde com o pregão monocórdico dos vendedores de simit. Nos olhos cor de uva das mulheres de lenços islâmicos na cabeça, intangíveis, suspensas no tempo nas paragens de autocarros; nos vapur a abarrotar de gente no ir e vir sem fim entre a Europa e a Ásia. Nas docas de Sirkeci e Eminönü fervilhando de gente apressada no ir e vir sem fim entre a Europa e a Ásia. No cais de Karakoy, onde desembarcam os desempregados russos e romenos e as "Natachas" que logo se prostituirão ali perto, nas ruelas dos antigos bordéis.

Fui por ali, cruzando o Bósforo num vapur, o proyaz, o vento que sopra do Mar Negro, açoitando-me o olhar, e vi, como Orhan Pamuk, a silhueta fugidia de Istambul desfilando à minha frente «com todo o peso do seu caos, com as suas mesquitas, os seus bairros afastados, as suas pontes, os seus minaretes, as suas torres, os seus jardins». O vapur correndo no meio de rápidas correntes, no meio da sujidade, do fumo e do ruído. «Ventos, ondas, profundezas, trevas». As margens esmagadas por altos edifícios que ocupam agora um território onde antes havia grandes konak e yali de madeira rodeados de jardins com ciprestes e habitados paxás loucos, e que foram incendiados para instalar o novo turismo; os estaleiros abandonados apodrecendo insidiosamente nas margens maltratadas; as chusmas de pescadores à linha nos cais pacíficos de Besiktas; os gatos que espreitam os pescadores por entre os plátanos da marginal; os dolmus apinhados de passageiros, na sua marcha lenta, à beirinha da margem; os restaurantes com ramadas sobre ancoradouros onde acostam barcaças trazendo anchovas e sargos que saltam directamente para as frigideiras.

Fui por ali e na esplanada do Café Pierre Loti, na "colina dos mortos", na penumbra do eclipse, por entre o preto e o branco, pareceu-me ver, por instantes, a mesma beleza triste e aquática de uma Lisboa desaparecida.

(alto: foto de Ara Guler)

1 de janeiro de 2010

As qualidades da década


Na curva derradeira do ano e, também, da década, num impulso momentâneo, arrebatado, talvez, por uma certa forma de nihilismo que faz da actualidade o modo crucial da temporalidade contemporânea levando tantos de nós, em jornais, revistas e televisões a fazer os balanços, as recensões, as listas do que, nas diversas áreas, precisa de ser inventariado nesta sucessão cada vez mais veloz de fins e recomeços cíclicos, para logo em seguida ser depositado nos arquivos da nossa memória breve, vou como um «explorador de abismos» medindo os acontecimentos desta década que está prestes a findar para melhor avaliar as suas qualidades.

E, à medida que vou escandindo a década, é como se estivesse «de pé e enfrentando o caos», como um explorador vilamatiano que ao ver-se à beira do precipício fatal adopta a posição do expedicionário e sonda o horizonte plausível, indagando sobre o que pode haver fora daqui, ou mais além dos nossos limites» (Enrique Vila-Matas).

«Frente ao inafrontável», como diria Zygmunt Bauman, momentaneamente entregue a esta forma de nihilismo que me leva a recensear o passado, vejo e revejo uma década que foi inútil, para não dizer completamente fracassada, mesmo naquilo em que parecia haver um consenso para se avançar, como o combate às alterações climáticas e uma melhor gestão dos recursos esgotáveis do planeta, como ainda há dias se viu com o dramático fiasco de Cimeira de Copenhaga onde os líderes do mundo se revelaram incapazes de encontrar a receita para debelar o enlouquecimento do clima. O conflito israelo-palestiniano foi nesta década agravado com o erguer de um muro de ódio e silêncio que vai serpenteando na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, incendiando ódios na «terra prometida». Outros conflitos, sem solução à vista, no Iraque, Afeganistão e, por arrastamento, no Paquistão, vão transformando as suas cidades em espirais fantasmagóricas de corpos destroçados por bombistas suicidas. A fome, a doença e a morte estendem-se como um manto negro sobre o continente africano transformado num território de sedimentos intransponíveis, rios pedregosos, árvores calcinadas, despojos de máquinas destruídas por guerras passadas. A violência associada ao narcotráfico encontra-se incontrolada em várias regiões da América Latina. A pobreza e a exclusão social atingem camadas cada vez mais vastas das populações, aumentando o fosso entre ricos e pobres. No rescaldo do 11 de Setembro, o medo assentou praça nas nossas vidas e derrota-nos diariamente nas nossas ruas vigiadas, nos aeroportos, nos aviões. O mundo ficou mais imundo, prisioneiro de um capitalismo descontrolado, dos homens de negócios sem escrúpulos e dos sacerdotes da economia libérrima tornada no novo absoluto dos tempos modernos, espalhando mais desemprego, mais pobreza e suicídio entre os mais desfavorecidos. Nunca a formulação de Walter Benjamin foi tão verdadeira como na década que agora finda: «Cuidado, tudo é perigoso, mas não igualmente ao mesmo tempo».

Incapaz de enfrentrar o caos, diante do torvelinho que vai arrastando o mundo pelo vórtice fatal tão bem descrito por Edgar Allan Poe no conto «Uma descida ao Maelstrom», às mãos dos homens de negócios e do novo determinismo histórico. A política tornou-se num teatro de títeres. E nós, neste teatro, em separado ou em simultâneo, com maior ou menor consciência das qualidades que nos são incitadas, puros hedonistas, hiperactivos, contempladores sensíveis, espectadores obscenos, fetichistas da ascensão social, somos figurantes sem voz da «operação de encobrimento a que chamamos sociedade». E, assim, nos deixamos ir em «apocalipse alegre» - para utilizar a mesma fórmula que Hermann Broch usou para descrever o nihilismo da sociedade europeia de fim de século - que é, também, a forma como hoje nos vamos entregando ao nihilismo pós-moderno, falhando, como diria Walter Benjamin, a ocasião de as coisas não continuarem como antes.

Daí, então, que este balanço das qualidades da década possa parecer, numa espécie de espelhismo simétrico relativamente aos acontecimentos medidos, também ele, nihilista. E sê-lo-á quer no sentido em que inventaria a incompletude, o falhado, a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», quer, ainda, por corresponder a um modo de escandir o tempo que parece apenas produzir passado, o que - se não for excessiva a convocatória da formulação de Nietzsche - constitui uma nova forma de «doença histórica» que revoga o tempo breve da novidade. Mas, paradoxalmente, mesmo que nihilista face à consciência da generalização actual do alegre apocalipse, porque não ler, também, nesta recensão das qualidades da década uma forma de rebelião contra o próprio nihilismo, na medida em que denuncia a ilegitimidade dessas qualidades?

Porquê continuar a aceitar o que está aí quando podemos sempre procurar outra coisa, como faz, por exemplo, o personagem Ulrich no inacabado livro de referência deste blogue, O Homem sem Qualidades? Porquê aceitar as qualidades atrás referenciados quando nos podemos desprender delas e esperar que a próxima década ofereça outras possibilidades ao mundo, outras ocasiões de não deixar as coisas continuarem como antes?

Talvez nalguma cesura aparentemente invisível na sucessão veloz de fins e de recomeços, como «exploradores optimistas,» possamos, ainda, sondar os horizontes plausíveis do tempo que aí vem, indagando sobre as qualidades necessárias para superar as consequências dos acontecimentos passados, dando, finalmente, como bem o tentou Walter Benjamin na sua solidão irredutível, «o salto de tigre no céu livre da história».

[foto ao alto: © Lartigue]

7 de dezembro de 2009

Não falhar a ocasião de Copenhaga


«Mas quanto mais me aproximava das ruínas, mais se afastava a imagem de uma secreta ilha dos mortos e mais me julgava no meio dos vestígios da nossa própria civilização aniquilada por uma catástrofe futura», escreveu W. G. Sebald em Os Anéis de Saturno [Teorema, 2006], descrente da capacidade da razão para dominar a natureza enlouquecida pelos homens.

Há nestas palavras de Sebald uma espécie de premonição trágica, apocalíptica, relativamente ao devir do mundo, caso não sejam tomadas medidas que reconduzam o rio turvo da destruição ambiental às suas antigas margens. Como abrandar, então, a imensa fornalha vertical cheia de brasas que ameaça transformar a paisagem do mundo num campo de sedimentos intransponíveis, rios pedregosos, árvores calcinadas, despojos de máquinas destruídas, espirais fantasmagóricas de poeira, cidades costeiras alagadas, almas à deriva sob um céu acinzentado?

Este tom apocalíptico encontramo-lo, hoje, não apenas na literatura, mas no discurso de divulgação científica sobre o aquecimento global, como se a realidade tivesse já ultrapassado a ficção. Em A nossa escolha - Um plano para resolver a crise climática (Esfera do Caos, 2009) Al Gore dramatiza ao extremo a situação, afirmando que temos de «evitar a catástrofe inimaginável que se abaterá sobre o planeta se não começarmos a fazer mudanças drásticas rapidamente». E profetiza que «o futuro da civilização será determinado para sempre por aquilo que fizermos agora». Não sei se haverá aqui uma espécie lucidez sebaldiana sobre a situação-limite para onde avançamos ou se esta dramatização discursiva sobre um mundo à beira da catástrofe - a que o filósofo alemão Karl Löwith chamou de «modo de pensar por catástrofes» - não terá uma raiz contraditoriamente conservadora, e cíclica, cujo pessimismo mais do que provocar a vontade colectiva de uma alternativa ambiental sustentável, antes nos deixa amarrados perante a verdadeira catástrofe que pode ser a das «coisas continuarem como antes» [Walter Benjamin, Passagens, frag. N9a, 1].

A questão, hoje, será a de saber se o discurso apocalíptico sobre as alterações climáticas - descontando a suicidária corrente negacionista sobre a gravidade do aquecimento climático - não corresponderá ao mal moderno que Ulrich, a personagem criada por Robert Musil em O homem sem qualidades, compreendeu com dramática lucidez: o mal de, apesar do estrondosos avanços da técnica, ou por causa dela, sermos agora incapazes de controlar o «sistema» que a integra, através da ética, por exemplo, procurando a resposta contra o absolutismo da realidade.

O que se pede, então, à Cimeira de Copenhaga que, hoje, começou, é uma vontade colectiva de não falhar a ocasião das coisas não continuarem como antes, opondo à tese conservadora de Heidegger de que «só um Deus nos pode salvar», o verso de Hölderlin que diz que «onde está o perigo está o que salva».

24 de outubro de 2009

Os dias calcinados


350 ppm é o indíce de concentração que os principais cientistas dizem ser o limiar seguro para dióxido de carbono na nossa atmosfera, para evitar as trágicas consequências das alterações climáticas. Hoje, quando faltam menos de 50 dias para a Conferência de Copenhaga sobre alterações climáticas, milhares de pessoas, em 144 lugares emblemáticos do mundo, assinalaram o Dia Internacional da Acção Climática, manifestando-se contra os dias calcinados que podem vir aí se não se parar já a deriva ambiental. E nós, o que é que podemos fazer? Agir como fizeram, hoje, em todo o mundo, aqueles que podemos ver aqui]. Talvez, também, escrever, nem que seja um post como este que recupero de um meu blogue pretérito e que agora aqui deixo actualizado.


Durante o Verão, surgiu uma tromba de fogo no crepúsculo do Árctico, sobre o mar de Barens, derramando sobre as nuvens baixas que encobriam o céu de Hammerfest uma luminosidade laranja espectral, anunciando a extensão à cena árctica da nova versão patética da tetralogia de Wagner, agora reposta sob a forma da maldição do gás adormecido durante milhões de anos sob as calotes de gelo em fusão. O que sobrará para o mundo quando se apagar a última réstia do fogo que concorre agora com as auroras boreais ninguém ainda sabe. Ou talvez saibam apenas os visionários.

«Mas quanto mais me aproximava das ruínas, mais se afastava a imagem de uma secreta ilha dos mortos e mais me julgava no meio dos vestígios da nossa própria civilização aniquilada por uma catástrofe futura», escreveu W. G. Sebald em Os Anéis de Saturno [Teorema, 2006], descrente da capacidade da razão para dominar a natureza enlouquecida pelos homens. E nós, que ainda não caminhamos entre ruínas,vamos vivendo com os primeiros efeitos das alterações climáticas provocadas pelo aumento das emissões de gazes com efeito de estufa: temperaturas em alta, concentrações de dióxido de carbono a subir, degelo das calotes polares, subida dos oceanos, chuvas torrenciais, secas mortíferas, o rol que afinal já todos conhecemos, sem que isso, no entanto, produza uma reacção global à altura da tragédia eminente.

Por isso, talvez reconhecer nas palavras de Sebald uma espécie de lucidez trágica relativamente ao devir do mundo, caso não sejam tomadas medidas que reconduzam o rio turvo da destruição ambiental às suas margens, impondo urgentemente a redução das emissões poluentes que afectam o aquecimento global. Mas estarão os governantes do mundo motivados para isso? Ou, pelo contrário, indiferentes ao roçar o abismo, falharão a derradeira ocasião de salvar o planeta, deixando as «coisas continuarem como antes» [Walter Benjamin, Passagens, frag. N9a, 1], isto é, resvalando para a «catástrofe futura». Haverá aqui uma visão demasiado catastrofista? Para Ban Ki-moon, Secretário-Geral das Nações Unidas, nem tanto: «O aquecimento global é uma realidade e, se não intervirmos, as suas consequências poderão ser devastadoras, senão catastróficas, nas próximas décadas [...] peço aos dirigentes mundiais que exerçam a sua liderança. Que ajam. [Já] não podemos fazer como se nada se passasse à nossa volta».

Como abrandar, então, esta imensa fornalha vertical cheia de brasas que ameaça transformar a paisagem do mundo num campo de sedimentos intransponíveis, rios pedregosos, árvores calcinadas, despojos de máquinas destruídas, espirais fantasmagóricas de poeira, cidades costeiras alagadas, almas à deriva sob um céu acinzentado? Seguramente não ficar acocorado a um canto à espera da combustão final como prisioneiros numa casa em chamas. Talvez falar. Talvez escrever, porque só as palavras poderão ainda evitar a catástrofe de falhar a ocasião de abrandar o braseiro. Agir.

9 de outubro de 2009

Dar outras possibilidades ao mundo


Que significado tem a atribuição do Nobel da Paz a Obama, quando o seu programa de pacificação prometido ao mundo se encontra, ainda, por cumprir? Talvez, a reiteração da exigência de não falhar a ocasião de nos salvar da catástorphe, como diria Walter Benjamin). Por isso, porque continuo a acreditar na promessa anunciada com a eleição de Obama de perseguir outras possibilidades para o mundo e, talvez, a paz, congratulo-me com a sua inesperada nomeação e recupero um texto que escrevi no rescaldo da sua eleição.

No rescaldo da vitória de Barack Obama, ponho-me a pensar se, talvez, amanhã, tudo não será, outra vez, a mesma baixa política – que legitimou gente como Bush e Berlusconi ou continua a entronizar gente como Tony Blair, cada um, à sua maneira, aspirantes a Maquiavel -, e que este homem sem qualidades musilianas que veio do futuro para dar outras possibilidades ao mundo se deixe, também ele, contaminar pela infâmia dos interesses inconfessados, pela interiorização do cinismo e pela amoralidade e demais patologias da experiência política contemporânea que fizeram deslizar o mundo, não apenas para a crise económica profunda de que todos falam, mas, sobretudo, parece ter instalado uma crise sem precedentes da experiência, colocando a humanidade – na expressão de Zygmunt Bauman – «frente ao inafrontável», isto é, sem pontos de referência que nos tranquilizem e nos guiem pelas estradas perdidas que nós próprios vamos fazendo.

Mas hoje ainda não é amanhã, e o que vi na madrugada das eleições – e continuo a ver em vídeos no You Tube - é, entretanto, a imagem de um homem sereno e determinado a ajudar a encontrar o mapa que o mundo precisa para atravessar este deserto do mundo em que se tornou a modernidade fracassada, trazendo a uma parte da humanidade a esperança para enfrentar a crise – a económica e a existencial – e à outra parte da humanidade a esperança de vencer o terrível desafio da sobrevivência. Vi – vejo ainda – «um Presidente que tem uma cara em vez de um esgar e que usa a fala em lugar do balbucio», como escreveu José Manuel dos Santos, na sua crónica semanal na revista Actual/Expresso. Alguém, talvez, ainda, capaz de usar o mandato político que lhe foi oferecido nas urnas para desenterrar do pântano a ética para ali atirada pela iniquidade que transformou a América dos pobres num deserto sem mapa. Talvez – quem sabe? – capaz, ainda, de evitar a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», tanto na América como no resto do mundo.

Por isso, recuso o pensamento mesquinho que me assaltou por instantes. E o desconforto nihilista de pensar que à arrebatadora ilusão deste triunfo que anuncia outras possibilidades para mundo, poderá suceder a rápida e melancólica desilusão da sua impotência diante da política de bastidores e de alianças de conveniência. Escolho, então, definitivamente, a audácia de pensar que, mesmo que as contradições do tempo por vir venham a arrefecer o fogo sereno das palavras que cobriram o mundo na noite da vitória, uma coisa que Obama deu à América e que, nos tempos mais próximos, ninguém poderá retirar, foi a de pôr o pensamento a pensar, isto é, de ter incitado, e excitado, o pensamento de que, talvez, possa haver, ainda, outras possibilidades para o mundo.

E a melhor prova disso, dessa rebelião contra a vertigem do vazio da política pós-moderna – mais ainda do que a sua oratória, simultaneamente, emotiva e serena, arrebatadora e racional, disciplinada e inteligente – foi a possibilidade consumada de um militante afro-americano, um advogado dos destituídos, um agitador social e político ter decidido ser Presidente da América para dar outras possibilidades ao mundo, fazendo do seu próprio itinerário vital, da sua vida transformada em narrativa, o seu principal trunfo.

Posto isto, o que poderá «um mundo de qualidades sem homem» (Jean-François Peyret) pedir ao homem sem qualidades musilianas que é Obama? Talvez não aquilo que nem ele nem ninguém jamais poderá devolver ao mundo, isto é, a remissão da nossa vida fragmentada, e muito menos qualquer «promesse de bonheur» (Stendhal). Talvez exigir-lhe, apenas, não falhar a ocasião de nos salvar da catástorphe (Walter Benjamin). E isso já será um programa absoluto contra a inabitabilidade do mundo e o desesperante nihilismo reinante.

20 de fevereiro de 2008

Desolação



No post anterior dizia que se tratava de encontrar passagens nesta paisagem de desolação que aí está povoada de luzes ofuscantes que os trapezistas do marketing não se cansam de diariamente ir acendendo. Mas hoje sinto-me na obrigação de abandonar a metáfora, ainda que apenas pelo tempo de escrita deste post, para repetir a mesma expressão de paisagem de desolação, só que, desta vez, atribuindo-lhe o mais sebaldiano dos sentidos. Porque outro sentido não seria possível face às imagens de habitações escancaradas diante do olhar de espectadores obscenos, móveis humildes amontoados sobre um espelho de lama, intransponíveis sedimentos de esperança perdida sob o demónio cinzento da desgraça. Paisagem de infelicidade, afinal, que vem perturbar, agora, a retórica antes aqui deixada a propósito das novas patologias do nihilismo.

É que as imagens que, ontem e hoje, as televisões vão passando não são de divertimento, mas de estremecimento. É que, às vezes, as televisões também são capazes de dar conta da «consternação do mundo». E a consternação é, ainda, a mesma de sempre. Todos seguindo «o mesmo caminho de antemão traçado pela nossa origem e pelas nossas aspirações», diria o passeante melancólico W. G. Sebald, «impotente para afastar os fantasmas da repetição», se mergulhasse agora os passos naquela torrente adormecida de lama povoada de reminiscências de outras desolações. E nessa procissão entre ruínas húmidas, a dolorosa coincidência daquele jovem casal que tudo perdeu num torvelinho de lama e que já não reivindica felicidade, apenas a esperança perdida na vertigem do vazio. Resta-nos, então, encontrar passagens, fendas, na continuidade do mundo e procurar aí, depois, um sentido de possibilidade. Até porque, como disse Walter Benjamin «é apenas pelos sem esperança, os desesperados, que a esperança nos foi dada».

14 de janeiro de 2008

Da banalidade do mal



Gonçalo M. Tavares é, talvez, o mais anti-bartlebiano dos escritores portugueses contemporâneos. E por isso, incapaz de figurar na genealogia da negação da escrita elaborada por Enrique Vila-Matas, em Bartleby e Companhia. Pelo contrário, os vinte e três títulos de poesia, romance, contos, ensaio e teatro publicados em apenas seis anos, levam o escritor catalão a afirmar estarmos em presença de «um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário que jamais arderá». Pessoalmente não estaria tão seguro assim no que respeita à combustão ficcional, pois numa esquina desse «bairro» há um umbral que dá para quatro abismos negros para onde inapelavelmente somos arrastados pelo mesmo vórtice de uma História que parece ter enlouquecido sem ter sido capaz, antes, de cumprir a «promesse de bonheur» anunciada pela modernidade precoce.

Como exploradores de abismos descemos às profundidades sombrias das quatro estações  [Um homem Klaus Klump (2003), A máquina de Joseph Walser (2004), Jerusalém (2005) e Aprender a rezar na era da técnica (2007)] onde impera a violência, a guerra e a crueldade e que no seu conjunto formam a tetralogia O Reino onde a História é reduzida a uma constelação de perigos e donde desapareceu toda a confiança no humanismo primitivo e na racionalidade iluminista presente nos romances filosóficos dos século XVIII. Neste reino do mal, que existe no lado de lá da literatura, Gonçalo M. Tavares descrê da racionalidade iluminista e da bondade humana e atravessando os mesmos abismos de Nietzsche, Robert Walser, Kafka ou Musil mostra-nos o lado sombrio da modernidade. De facto, «na esteira da ascensão do fascismo, do holocausto, do estalinismo e de outros episódios da história do século XX, podemos ver que a possibilidade do totalitarismo está contida dentro dos parâmetros institucionais da modernidade e não excluída por eles», escreve Anthony Giddens em As consequências da modernidade (Celta, 1992). Por isso, não há neste Reino a necessidade de qualquer tipo de explicação casual que possa conduzir-nos à interpretação do mal totalitário como rejeição dos limites morais tradicionais ou como patologia pessoal, antes a emanação do génio demoníaco das personagens. E nisto reside todo o desassossego que provoca esta descida ao maelstrom do mal para onde os livros negros de Gonçalo M. Tavares  inapelavelmente nos arrastam, já que o ponto de vista do autor é o da superação humanista que rejeita a visão niilista moderna da oposição entre o bem e o mal, entre a natureza e a técnica, deixando-nos tiritantes sobre a corda faustiana estendida sobre os abismos da história contemporânea e sem possibilidade de redenção.

O romance Aprender a rezar na era da técnica [Caminho, 2007], que encerra a tetralogia O Reino, narra a história de Lenz Buchmann, um cirurgião prestigiado que, em obediência à sua educação militar, encara a doença como um inimigo a combater com recurso a uma estratégia guerreira; simultaneamente, considera o corpo uma máquina sujeita a um funcionamento específico e a doença como uma disfuncionalidade de células que apenas a competência técnica poderá combater: «Os sentimentos não devem enferrujar o bisturi». Percebe, então, que a política se faz segundo a mesma lógica, mas que o seu poder sobre a humanidade é bastante maior. Por isso, Lenz troca o poder da medicina pelo poder da lei para impôr a sua ordem cortante a toda uma cidade que manipula com o bisturi da política, gerindo sem quaisquer escrúpulos as patologias da submissão que o medo real e fabricado desenvolve nos cidadãos. Lenz, o protagonista faustiano deste romance cortante - no sentido em que corta para observar primeiro a doença e, depois, a sociedade -, apercebe-se que o domínio que a instrumentalidade lhe faculta sobre o corpo doente pode ser alargado à sociedade através da política concebida como um instrumento de imposição totalitária. O subtítulo do romance, Posição no mundo de Lenz Buchmann, reforça a ideia da submissão da narrativa às patologias de posição que Lenz assume - cirurgião e político -, mas também à natureza do próprio poder repressivo exercido sobre os cidadãos, girando o romance à volta das noções nietzschianas de força e fraqueza que alimentam a crueldade de Lenz.

Mas há uma ambiguidade na excessiva tese heideggeriana de Gonçalo M. Tavares, quando Lenz é vitimado por um cancro, o mal supremo interior que nenhum bisturi pode curar, como se, no final, a natureza, numa derradeira irrupção destruidora, viesse vingar-se da técnica, recordando o verso de Hölderlin que diz «onde está o perigo está o que salva», com que Heiddeger termina o seu ensaio La question de la téchnique, publicado em 1953 e que acaba por mostrar, afinal, a fragilidade da instrumentalidade face à mortalidade. «Aquele que vai morrer despede-se daquele que já está morto», diz Lenz quando visita o túmulo do pai que se suicidara, antecipando a sua derradeira patologia de posição no mundo - a da fraqueza diante da doença e da morte -, o que parece fazer deslizar a narrativa, contraditoriamente, para um certo religioso, sempre brutalmente negado pela omnisciência da técnica, mas também, ambiguamente, sempre afirmado através do título do livro.

A questão da técnica é, então, central neste romance cujo título evoca o ensaio de Walter Benjamin A obra de arte na época da sua possibilidade de reprodução técnica [Assírio e Alvim] e nele podemos, ainda, encontrar alusões a Arnold Gehlen e a Heidegger. E Gonçalo M. Tavares analisa a questão da técnica do ponto de vista da sua indeterminação antropológica e da sua violência contra a natureza e contra as figuras históricas de que dependiam a ética e a moral: «Lenz não tinha ilusões acerca da terra que pisava: havia entre a natureza e o homem um ponto de ruptura que há muito fora ultrapassado. Existia uma luz nova nas cidades, a luz da técnica, luz que dava saltos materiais que antes nenhum animal conseguiria dar; e essa nova claridade aumentava o ódio que os elementos mais antigos do mundo pareciam ter guardado, desde sempre, em relação ao homem. [...] a impermeabilidade à história, à mudança de condições era agrande arma da natureza e, nesse sentido, aí residia o seu perigo[...]. Existiam, ao contrário do que dizia a frase bíblica, coisas novas sob o sol, o que não existia era algo de novo sob a pele» (pág. 42-43). Este o novo paradigma que fragiliza a experiência humana contemporânea expondo os homens ao corte certeiro do bisturi quando se detectam disfuncionalidades orgânicas - e sociais -, capazes de fazer perigar a harmonia das células do corpo - e da sociedade.

Que fazer, então, quando tudo arde na fogueira da técnica e nós, borboletas de asas trémulas, somos atraídos nesse vórtice de fogo donde não poderemos mais escapar? E para quê aprender a rezar numa era em que «se os crentes, ou os próprios padres, fizessem greve isso seria bem menos significativo e visível numa cidade do que uma greve de canalizadores ou electricistas. A boa circulação da água ou da electricidade torna-se, para o dia-a-dia, bem mais indispensável do que a boa circulação do sopro divino» (p. 217). Esta a ambiguidade do romance que ao mesmo tempo que parece negar toda a possibilidade redentora da espiritualidade e da religião, deixa no ar a tese heideggeriana de que «só um Deus nos pode salvar» que já reencontráramos na trilogia Matrix, dos irmãos Wachofsky.

Quanto ao estilo tavariano, é o que já conhecemos dos outros romances da tetralogia. Capítulos breves com títulos que evocam Musil, jogo de episódios onde entram personagens recorrentes com nomes alemães e centro-europeus, uma escrita límpida, quase clínica, que parece ela própria rasgada a bisturi como convém a um romance cortante, cirúrgico, o uso do itálico como marcação enfática nas frases mais cerebrais e, sobretudo, uma extrema economia de recursos - donde a ironia é convocada, não tanto a nível sintáctico, mas como procedimento de composição -, tudo conjugado para criar uma atmosfera de vertigem atravessada pela corda faustiana estendida sobre o abismo da técnica.

31 de dezembro de 2007

Spleen



Paris, 1857. Um homem caminha de olhos baixos por «uma nova avenida, ainda inacabada, ainda cheia de entulho [...] exibindo os seus inacabados esplendores». Ao lado, as ruínas dos velhos bairros - escuros, densos, assustadores - amontoadas no chão. Uma família andrajosa emerge do entulho à procura da nova luz da cidade moderna. No dobrar de uma esquina, o homem cruza um umbral que dá para um labirinto de ruas, arcadas, passages, onde se exibem os despojos do tempo que passa. Sobre as metamorfoses de Paris escrevera num livro que acaba de publicar: «Paris change! Mais rien dans ma mélancolie/ N'a bougé ! Palais neufs, échafaudages, blocs,/ Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie,/ Et mes chers souvenirs sont plus lourds que des rocs» [«Le Cygne»]. O homem que caminha à deriva soberbamente consciente da sua melancolia chama-se Charles Baudelaire, ensaísta e jornalista, tradutor de Edgar Allan Poe. E o livro onde escreveu estes versos chama-se Les fleurs du mal.

Com esse livro fundaria, também, a lírica urbana, maldita e anti-sentimental capaz de expressar um mundo em descida vertiginosa, cada vez mais para baixo, em direcção ao seu vórtice. E sobre esta visão desafiadora, fantasmagórica, insuperável e premonitória da vida nas grandes metrópoles, escreveria Walter Benjamin, outra alma saturnina que também se erraria, anos depois, pelas ruas de Paris: «C’est là le regard d’un flâneur, dont le genre de vie dissimule derrière un mirage bienfaisant la détresse des habitants futurs de nos métropoles»  [Walter Benjamin. Paris, capitale du XIXème siècle. 1955, Schriften I, pp. 406-422]. 

Mas mais do que os cento e cinquenta anos que agora lembro aqui, estas flores malditas têm uma outra idade, a de «l’horloge, dieu sinistre, effrayant impassible, dont le doigt nous menace et nous dit: Souviens-toi!» [«L´horloge»]. A aguda consciência da industrialização galopante que tudo arrastava no seu vórtice, uma amargura saturnina e, depois, o convite à viagem, a fugacidade... tudo aí se encontra plasmado de forma violentamente prosaica, estilhaçando os códigos de um tempo à deriva: «Je suis comme le roi d’un pays pluvieux, riche, mais impuissant, jeune et pourtant très-vieux...». E, ainda, «le poète est semblable au prince des nuées qui hante la tempête et se rit de l’archer; exilé sur le sol au milieu des huées, ses ailes de géant l’empêchent de marcher» [«L´albatroz»]. Baudelaire, o albatroz urbano, sobrevoou o seu tempo deixando-nos «rares fleurs mêlant leurs odeurs aux vagues senteurs de l’ambre» cujo perfume inebriante, radicalmente moderno, não cessa de nos dar a volta à cabeça.

Seria o mundo do seu tempo um jardim de flores do mal, conforme se interrogava Baudelaire num miserável quarto de hotel, em Bruxelas, onde, doente de sífilis, esperava a morte? Talvez seja o spleen, essa consciência distópica dos labirintos do flâneur melancólico que marca, ainda, a actualidade do seu livro fundacional, ligando o vazio do seu tempo à artificialidade deste nosso tempo, em que nós, transeuntes motorizados e alienados, nos vamos também perdendo através dos labirintos feéricos de uma pós-modernidade glamorosa, desalmada e sem redenção, fantasmagoricamente antecipada no seu livro sobre Baudelaire, por Walter Benjamin, talvez o mais saturnino dos flâneurs das grandes metrópoles da modernidade e aquele que melhor se deixou levar pelo inebriante perfume  das flores do mal.

E é através dessa pós-modernidade glamorosa e desalmada, ostentada nas vitrinas dos grands magasins do Boulevard Haussmann que, também eu, neste último entardecer do ano de 2007 - cento e cinquenta anos depois da sua construção, portanto, - vou caminhando sem rumo. E se fosse dado ao spleen, como um passeante solitário, talvez me detivesse agora no passeio onde uma chusma de transeuntes anónimos vai passando apressada com sacos que transportam os vinhos espumantes que à meia-noite afogarão o tédio. Mas não, não sou dado ao spleen, por isso aproveito, acompanhado, o privilégio supremo que me é oferecido enquanto forasteiro, que é o de participar da banalidade quotidiana desta cidade que nunca se acaba sem lhe sentir o peso, que é como quem diz, sem se deixar levar pelo aroma inebriante das flores do mal.

10 de dezembro de 2007

Escrita vegetal




Leio traçando a lápis, simultaneamente, linhas de fuga e de intromissão sob os labirintos de tinta embebidos das páginas dos livros, como diria Walter Benjamin. Deixo, assim, a presença fragmentária da minha mão no corpo do texto, como se cada página fosse um território por medir, por interpretar, à espera do rasto vegetal - madeira e carvão - que vou deixando no chão da escrita, também ele vegetal - papel -, incitado (e excitado) pela leitura que, lentamente umas vezes, sofregamente outras, avança através dos labirintos de tinta impressa. Aqui e acolá, escapo-me furtivamente para as margens, território virgem da página onde deixo impressões de leitura: anotações, remissões, indexações - espelhos quebrados do texto onde mais tarde regressarei para me rever como co-autor de um livro que não escrevi. Então, como o Agrimensor de Kafka [in O Castelo], também eu ando de margem em margem, e passo de uma anotação para outra, de um comentário para outro, adentrando-me nos trilhos vegetais que fui abrindo durante a primeira leitura.

Devo, portanto, ao lápis essa possibilidade infinita de não mais me perder nos labirintos de tinta embebidos, impressos, nas páginas dos livros. O lápis, então, como ferramenta preparadora de outros textos que hão-de vir em forma de pequeno ensaio ou de crónica de momento que convoca a paráfrase, a citação, preparadas transitoriamente pelo trilhar a lápis do pensamento que toda a leitura incita (e excita). Como esta crónica breve sobre a escrita a lápis que nasce da anotação vegetal o fabricante de lápis, na margem da página 17 de Fuga sem fim, de Joseph Roth [Acantilado, 2003]; ou a referência ao agrimensor K. suscitada por uma outra anotação à página 156 de O mal de Montano, de Enrique Vila-Matas [Teorema, 2002]. Sublinhar, anotar a lápis, então, não para desaparecer como pretendia Robert Walser com os seus microgramas, mas para abrir afluentes vegetais que hão-de embeber, depois, a tinta, os cadernos moleskine por vir.

Nos cadernos moleskine prefiro escrever a tinta, com caneta de aparo, uma art pen que me que me transforma momentaneamente no escritor húngaro Dezsó Kosztolány que num café, em Budapeste, enquanto escrevia Cotovia [Dom Quixote, 2006], em vez de pedir ao empregado um café, pedia tinta: - « Garçon - dizia - tinta, s´il vous plaît!».

A caneta de aparo como extensão da mão, do corpo, um fio de tinta, ziguezagueante, a embeber a página, com cheiro, e mudando de cor no rasto das oscilações da alma, deitando depois o pensamento no chão do caderno onde desaguam os afluentes vegetais que brotam das margens dos livros lidos. Como evocaria Kosztolány, primeiro a tinta e, depois, no computador, se como um agrimensor literário não tivesse antes deixado uma anotação vegetal na margem de Cotovia?

E só depois utilizo o computador. Pelas suas infinitas possibilidades de permuta e de substituição de palavras, de frases e de períodos; de cristalização sintáctica e morfológica da escrita. Enfim, de estabilização racional do pensamento ondulante no espelho quebrado do monitor onde vou colando citações, fragmentos, ecos de leituras a que acrescento frases e ideias próprias que me vão sendo incitadas  - e excitadas - pelo fio de anotações que foi brotando, primeiro a lápis e depois a tinta, como uma respiração de ideias fragmentárias no chão do caderno moleskine, para se cristalizar, finalmente, numa crónica autónoma, pessoal, mas onde se escutará sempre o eco inaugural da leitura.

 [Ilustração ao alto, de Rachael Caiano©]

27 de outubro de 2007

Diário chileno (II). Plano de evasão



«Perder-se numa cidade, tal como é possível acontecer num bosque requer instrução», diz Walter Benjamin. Por isso, quando partimos, não como turistas fortuitos, mas como viajantes intrépidos adentrando-nos por mapas por fazer, é útil prevenirmo-nos com um plano de evasão, recolhendo antecipadamente informação sob os territórios de fuga, mapeando percursos, inventariando paisagens e lugares a visitar, registando intenções, construindo ficções a habitar. Nesse plano - que no meu caso é quase sempre urbano - assinalo as «cidades nervosas» com os seus monumentos, as avenidas da moda cheias de gente convergindo em direcção ao centro. Museus, teatros, exposições e outras iluminações. E também os tugúrios míticos onde depois procurarei o aleph que todas as cidades escondem. A rua artúrica que apenas ao expedicionário é oferecida, mas que só será revelada quando ultrapassar o seu limiar perdido na floresta de banalidades urbanas circundante. 

Prodígios e raridades, portanto, levemente suspeitadas, para explorar mais tarde. Passagens. Lentidões. Cafés com mesas de mármore onde se sentaram escritores, licores fortes como o metal fundido, livrarias de livros estranhos, pequenos jardins de amantes sem dinheiro. E labirintos subterrâneos. Estações de metro, quando as há, porque o metro é sempre uma aventura na noite infinita donde nem todos os que nele penetram regressam à superfície. E também estradas espalhando em muitas direcções. E, ainda, advertências e obrigações. Fusos horários, a natureza do clima, câmbios, transacções, roamings.

Daqui resulta, às vezes, que a viagem começa por ser uma ficção com lugares, tempos, personagens e acções mesmo antes de se iniciar, com a intenção expressa de, uma vez o viajante no território a explorar, habitar a ficção previamente construída durante os dias que antecederam a partida, como um expedicionário que, ao mesmo tempo que vai confirmando no terreno os sinais previamente assinalados, procura nas dobras do novo mapa sobre o qual caminha as linhas de passagem que permitem perceber a cidade. Isto porque uma cidade que não se compreende caminhando é indecifrável.

E é nessa perdição procurada com instrução que reside todo o segredo da evasão. Mesmo que a cidade seja Santiago do Chile, poluída, híbrida, anárquica, com os restos da sua arquitectura colonial perdidos no meio de uma Litlle Manhattan austral de torres pós-modernas desafiando a cordilheira nevada. Como encontrar ali as linhas de passagem para o mapa por vir? Este o desafio que Santiago coloca ao expedicionário que talvez ali tenha de ser um detective selvagem à maneira de Arturo Belano e Ulises Lima, espécie de «poetas desesperados» e errantes do livro de Roberto Bolaño [Los detectives salvajes, Anagrama], bifurcando-se através de cenários contraditórios em busca do que lhes escapa.

Mais fácil será o expedicionário perder-se no «insólito porto sem portas» que é Valparaíso, hipnotizado pelo brilho nocturno da baía, ou num funicular louco galgando uma qualquer colina sobranceira ao Pacífico, ou nos labirintos de ruelas e becos ziguezagueantes perseguindo os passos de marinheiros antigos que ali naufragaram embalados por milongas tristes. Talvez ali baste ser como Cayetano Brulé, o detective do livro de Roberto Ampuero [Encontro no azul profundo, Temas e Debates, 2004], que mora no cerro Concepción e não precisa de metafísica nenhuma, pois «Valparaíso [já] é um lugar metafísico, um centro mágico da existência», como escreveu Sergio Vuskovic Rojo na última Atlântica.

Levo comigo um plano de evasão que esconde dunas movediças, abismos inesperados cujos umbrais luminosos cruzarei à procura do aleph borgesiano que encerra tanto os segredos da cidade da cordilheira como os da cidade do paraíso e, talvez, ainda aqueles que se escondem nas estradas que se espalham desde Santiago em direcção aos Andes, ao Aconcágua e a Mendoza, na Argentina.

Entretanto, para lá chegar, primeiro um estranho roteiro que passará sobre a montanha mágica de Thomas Mann e de Robert Walser perto da qual, em Zurique, tomarei o avião que me levará até ao outro lado do mar e, depois, até ao outro lado do continente, banhado aí pelo Pacífico.

20 de setembro de 2007

Políticas da literatura


Nalguns textos anteriores aqui inscritos (Da literatura Sebald: viagem entre ruínas), tenho procurado interrogar o papel da literatura enquanto expressão necessária da consternação de um mundo «tão cheio de falsas representações, tão fútil, onde tudo se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História se desvanece», como escreveu W. G. Sebald, em Os Anéis de Saturno.  Mas que literatura «ante a decadência implacável da ambição literária, a convergente ascensão de desengano, a verborreia e a crueldade insensível como assuntos normativos da ficção»? questionava Susan Sontag. Que literatura perante este mal endémico que corrói, hoje, as estantes das livrarias?

Demasiadas interrogações que vêm alimentar um debate em múltiplas direcções, actualizando a questão da definição do papel da literatura, questionamento que poderá constituir não apenas um sinal de indecisão acentuada, mas também uma aproximação à complexidade processual da literatura. Ante o espectro da síndrome do código [...de Da Vinci] e das suas múltiplas reprises, poderá a literatura, ainda, continuar a produzir uma interrogação sobre o mundo, revelando os territórios da dominação que se escondem atrás da vida de todos os dias e, assim, cumprir o seu papel na sobrevivência da memória? Ou será cada vez mais a literatura uma mercadoria que se expõe nas livrarias à espera de um leitor passivo e pouco exigente, uma raça de «analfabetos altivos» que «em vez de ler o melhor que se produziu nas diferentes épocas, se resume a ler as novidades, afundando-se cada vez mais no próprio lodo», como antecipou Schopenhauer?  Na verdade, o que cada vez há mais nas livrarias são apenas livros e pouca literatura, contribuindo para o simulacro de uma cultura que se esvanece perante a histeria tranquila que invade os escaparates livreiros, transformando o leitor num consumidor passivo, marcado pela fraqueza e pela impotência face à mercadoria exposta ali por «todos esses homens de negócios que editam livros, directores de departamento, líderes de mercado, trapezistas do marketing e licenciados em economia», como denuncia Enrique Vila-Matas nesse desassossegante libelo contra os inimigos do literário que é O Mal de Montano.

«A rasura total da literatura» ou «o horror do estilo», segundo João Barrento ou o «realismo urbano total», como classificou Miguel Real esta literatura achatada, e quase sempre vazia, que espelha o mundo que aí está e que muitos chamam de pós-moderno, correspondendo à «historicidade imanente» de que falava Theodoro W. Adorno.  Uma literatura que não é mais do que a manifestação epifânica de um mundo carregado de sombras ocultas sob a fogueira da técnica e do mercado que nos atrai como borboletas de asas trémulas. A literatura perdida no meio dos livros e nós doentes da literatura como mariposas errantes no meio deles. Estará a «arte de contar em vias de se perder», como afirmou Walter Benjamin? E não será isso uma consequência da crise da experiência moderna, onde o fragor da técnica emudeceu a fala dos homens e dos escritores apanhados pela mesma teia da contingência? Paul Auster afirma na sua Trilogia de Nova Iorque que «o caso é que as nossas palavras já não correspondem ao que se passa no mundo. [...]  Pouco a pouco [as] coisas fragmentaram-se, espalharam-se, caíram num caos. E, contudo, as palavras permaneceram as mesmas», tornando-se incapazes de dar lógica à trama da vida.

Que outra via, então, para a literatura? Isto é, entre a mercadorização, a alienação e o engagement será possível ainda uma literatura capaz de, para além dos propósitos do autor, perturbar o universo do sensível, os modos como percepcionamos o mundo, autonomizada, mas sem cair no vazio ou no ensimesmamento.  Como contrariar a profecia hegeliana sobre o devir da «prosa do mundo» que ao perder o seu sentido teológico perdeu também a sua literariedade, tornando-se num «objecto verbal laborioso e inútil», como já a sentia Jorge Luís Borges? Trata-se, agora, de resolver a oposição radical entre a passividade e a actividade do leitor, como propõe Jacques Rancière, em Politique de la littérature. Que novas figuras de esperança, sem cair na tentação panfletária, poderá ainda a literatura convocar neste crepúsculo das ideologias? Diz Rancière que «a força da arte é, precisamente, sair das figuras, das formas esperadas, para lhes dar um outro modo de presença». Não estamos diante de indivíduos, mas de personagens de papel - como escreveu Roland Barthes - através de cuja figuração estética o mundo impõe uma presença que apenas a distância nos permite abarcar. Mas «personagens com inteireza», segundo Lídia Jorge, capazes de dar à trama da vida uma outra lógica que lhe escapa e que só a literatura pode inventar, agitando éticas e estéticas conformistas. Uma literatura como simulação da vida, como escreveu Bernardo Soares no Livro do Desassossego: «Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa». Ir por aí, portanto, ultrapassando o velho paradigma modernista da distinção entre uma literatura engagée e uma literatura indiferente, mas recusando «uma espécie de pedagogia política voluntarista da arte» que não poderá constituir o contraponto ao vazio ou ensimesmamento literários.

Coloca-se, então, o problema da relação da política com a literatura, com a arte em geral. Qual o compromisso actual da literatura? Caberá à literatura e à arte produzir conhecimentos ou representações para a política, falhando a sua natureza ociosa? Ou, pelo contrário, não residirá o seu potencial emancipador, o seu fogo, precisamente, na sua aparente ociosidade? «Um romance não é significativo por ser, por exemplo, instrutivo, e expor-nos um destino estranho, mas porque esse destino estranho, com o fogo que lhe é atribuído, nos dá um calor que nunca somos capazes de conservar para o nosso próprio destino. O que empurra o leitor para a novela é a esperança de poder abrigar a sua própria vida tiritante face a uma morte sobre a qual se lê», e «não é por comunicar conteúdos, mas por trazer à luz da maneira mais límpida a sua dignidade e a sua essência que a a literatura se mostra eficaz», escreveu Walter Benjamin em momentos distintos.  Esta a essência da literatura, isto é, a sua capacidade de escapar a toda a determinação essencial, a toda a acção estabilizadora, diz Blanchot. Também Rancière afirma que a literatura  «produz ficções ou dissenções, agenciamentos de relações de regimes heterogéneos, mas não os produz para a acção política, mas sim no seio da sua própria política, criando um duplo movimento que por um lado conduz à sua própria supressão, e por outro, aprisiona a política da arte na sua solidão, recortando o espaço do sensível e da redistribuição das relações entre a actividade e a passividade, o singular e o comum, a aparência e a realidade, que são os espaços-tempos do teatro ou da projecção, do museu ou da página lida».

Ora, é nesta reconfiguração da experiência que a literatura poderá, então, suscitar novas formas de subjectivação política e nesse sentido levar à superação do binómio política/literatura a cuja indistinção Rancière dá o nome de ética. Ou como dizia Lídia Jorge a propósito do seu último livro, uma literatura «com um assomo político», capaz de dar trama à vida de todos os dias. E de «corrigir a fortuna que é cega, com a alegria da natureza que é previdente», acrescentaria Agustina Bessa-Luís. Porque toda a ética da literatura reside no modo como ela se dá a ler. Ou, nas palavras de Giorgio Agamben, «como tu falas, isso é a ética».   

18 de agosto de 2007

No bairro portátil do Senhor Tavares (V): literatura volúvel

Diz Enrique Vila-Matas que Gonçalo M. Tavares «vai criando como se estivesse sempre num permanente voo imaginativo: um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário onde compram pão e tomam o aperativo uma série de senhores muito curiosos, cada um habitante de um livro breve e próprio: o senhor Juarroz, o senhor Calvino, o senhor Valéry, o senhor Brecht, o senhor Kraus». São todos eles inquilinos de pequenos mundos ficcionais, lúdicos, irónicos, engenhosos e bem-humorados, em cujas ruas e pracetas se entrelaçam o real e o imaginário, sem que possamos distinguir entre o fora e o dentro, o direito e o seu anverso, desfiados, livrinho a livrinho, como historietas avulsas a qualquer enredo, através das quais se vai tecendo paulatinamente a genealogia literária do autor.   Apesar da pluralidade de propostas e visões que fazem a excentricidade do Bairro, existe nele uma harmonia que deve mais à possibilidade de excitar o leitor com múltiplas visões do mundo do que à hipotética partilha das preocupações e dos programas de escrita dos seus inquilinos. Um bairro em crescimento acelerado  «que cada vez mais me parece ser a personagem principal [...]. Uma espécie de história da literatura em ficção [...]. Um projecto interminável», admite Gonçalo M. Tavares.

Desses inquilinos, o mais recente, acabado de chegar a esse Bairro ficcional que poderia integrar a geografia improvável de uma qualquer cidade invisível de Italo Calvino, «feita só de excepções, impedimentos, contradições, incongruências, contra-sensos», mas ao mesmo tempo «contendo tudo o que corresponde à norma», é O Senhor Breton que mimetiza - numa auto-entrevista formulada em 10 perguntas que «complicam a realidade» - o escritor surrealista André Breton, trazido, talvez, ao Bairro por um qualquer «acaso objectivo» através do qual o arquitecto invisível Gonçalo M. Tavares vai manipulando a realidade inventada para melhor a observar.
Munido de um gravador, frente a «um enorme espelho na sala: a janela com a velocidade ideal», O Senhor Breton auto-entrevista-se, procurando respostas para algumas questões caras aos enunciados surrealistas, sobretudo aquelas que se apresentaram nos manifestos que André Breton assinou. Questionando os modos de expressão da realidade, as relações entre a estética e a filosofia ou os limites representacionais da linguagem,  O Senhor Breton percorre as mesmas passages que Breton, com o distanciamento ficcional a permitir ao duplo uma consciência aguda dos limites que o seu homónimo pretendia estilhaçar.  

Este livrinho portátil, não só pela sua leveza mas porque nele se descortinam «certos traços que eram considerados tipicamente shandys: [i. é, volúveis] ... ausência de propósitos [...] tensa convivência com a figura do duplo [...] e o culto da arte da insolência», logo capaz de figurar numa qualquer História Abreviada da Literatura Portátil, revista por Enrique Vila-Matas - porque passaria no teste concebido por Walter Benjamin, esse escritor-filósofo, estranho de passagem, cuja tendência para miniaturiziar a realidade o levou a inventar «essa máquina risonha de pesar livros que permitia detectar, com precisão absoluta, quais as obras literárias insuportáveis e, por isso, embora tentem dissimulá-lo, intransportáveis» -, é mais um singular exercício de estilo que se alimenta de poéticas concretas e prévias à sua construção e que escapa a qualquer tentativa de interpretação. De momento, são nove os livrinhos portáteis do Senhor Gonçalo, mas os que aí vêm já têm a mala, seguramente duchampeana, preparada.

2 de maio de 2007

A última passagem de Walter Benjamin


Suprema ironia a de acordar, na madrugada, com o apito seco e cortante de um comboio que, afinal, partiria sem ele deixando-o com a sua solidão no cais de embarque. «O primeiro comboio para Lisboa», tinha-lhe recomendado a senhora Fittko quando se despediu dele, em França. Mas, mais uma vez as suas asas incertas de borboleta nocturna tinham falhado, incapazes de o levarem para fora daquele quarto de hotel, na pequena localidade de Port Bou. Na escuridão do quarto sem janela, um sopro de luz irrompe sob a porta, acordando nele a recordação da Vista de Delft, de Vermeer. «Nesse momento, era o seu próprio pequeno pedaço de muro amarelo que pestanejava no seu quarto ... com a promessa de um descanso definitivo», como Bergotte, a personagem de Proust que depois de encontrar a luz palpitante no canto esquerdo do quadro exposto em Paris, teve uma epifania, a revelação de que aquela luz que continuava a brilhar há quatro séculos valia toda a sua obra de escritor. Como uma borboleta atraída pela luz, também Proust procurou a mesma mancha amarela. Seria a última vez que saiu de casa.

Agora era a vez de Walter Benjamin que filtrando a memória daquela luz vista por outros, «sem se deixar levar pelas asas incertas da mariposa», caminhava pelo cais do seu último embarque, escapando aos «rabos de ratazana da Europa». A mariposa de Schiller já não estava ali. Apenas um filósofo que descobrira o secreto esplendor que a sua solidão irredutível produziu nas trevas e a paixão de ter sido estrangeiro sempre e de não ter tido nunca nada, a não ser a mala preta pousada no chão ao lado da mesa de cabeceira, onde guardava os últimos «labirintos de tinta embebidos nos seus cadernos». Afinal, não chegara tarde a esta última fronteira onde já não lhe exigiriam nenhum salvo-conduto «e, com a mesma alegria de quem verifica que, apesar de todos os contratempos, não tinha chegado tarde ao encontro, soltou um suspiro de alívio e fechou pacificamente os olhos atrás dos  seus grossos óculos de míope».

18 de abril de 2007

O passageiro Walter Benjamin


Port Bou 1940. Em 25 de Setembro, após sete anos de exílio, Walter Benjamin atravessa os Pirenéus num esforço desesperado para escapar à ocupação da França pelos nazis. Pretende atravessar clandestinamente a fronteira e, através da Espanha franquista, chegar a Lisboa - por onde passaram também outros artistas e intelectuais em fuga, como Franz Werfel, Heirich Mann ou Alma Mahler -, com um visto para os Estados Unidos no bolso. Porém, uma trágica combinação de circunstâncias, entre as quais a conversão simbólica dos Pirinéus em muralha cultural e política, impede a sua entrada em Espanha. Benjamin vê-se, então, obrigado a pernoitar numa pensão de Port Bou, sob apertada vigilância de três polícias que têm ordens para deportá-lo para França na manhã seguinte. Nessa mesma noite, Benjamin inicia uma agonia que o levará à morte vinte e quatro horas mais tarde. A tese oficial é a de que se tratou de suicídio com uma overdose de morfina. Mas o relatório médico refere o caso como morte natural. O que terá acontecido realmente? Quién mató a Walter Benjamin? é um título de um documentário do realizador argentino David Mauas que passou na Culturgest em Fevereiro. A minha condição periférica não me permitiu na altura ver o filme. Tão pouco assistir ao debate que se seguiu, moderado por João Barrento, entre o realizador e o compositor José Júlio Lopes, cuja ópera W, com libretto sobre a morte de Benjamin, estreará, em Dezembro, na Culturgest.  Essa não a irei perder.

Mas, há dias, numa livraria de Portimão, encontrei um livro que narra as últimas horas do escritor e filósofo.  Sobre O Passageiro Walter Benjamin, de Ricardo Gaviria, escreve Enrique Vila-Matas, na contra-capa, que se trata de uma subtil e mui elegante recriação das últimas horas que precederam a morte do escritor... Cada vez gosto mais dos bons romances e menos de palavreado. Vou a meio do romance, que sem pretender ultrapassar  a biografia- o que seria muito pouco benjaminiano -, e convocando factos verídicos e outros recriados com afectação literária, faz-me entrar na derradeira morada de Benjamin, onde me vou embrenhando nos caminhos afectivos e intelectuais do escritor que, apesar das sombras que descem sobre o seu quarto de hotel, permanece lúcido na desgraça final. Benjamin viveu só e morreu só, sempre como um estrangeiro, mas quero acreditar que nesse último momento trágico viu, ainda, a luz da saudade que iluminou a sua vida, porque a paixão de estar despojado de tudo, a paixão da solidão que sempre o acompanhou e procurou na última morada, terá iluminado o instante em que soltou um suspiro de alívio e fechou pacificamente os olhos atrás dos seus grossos óculos de míope.