20 de abril de 2007

Doutor Pasavento (I)


Ainda ontem escrevia aqui sobre a natureza deste blogue como construção do eu e marcação do autor, motivação que, mesmo admitindo sem qualquer presunção que outros também aqui poderão ler o que eu tenho para dizer, interessará, sobretudo a mim mesmo, correspondendo à assunção deste espaço de anotação do que sobra dos dias, dos meus dias, como uma certa cartografia pessoal. 

Remete isto, desde logo, para a noção deste blogue como itinerário onde mais do que dizer, pretendo mostrar parcelas do que me cai dos dias que. Haverá nessa mostra algo de montagem literária, mas entendida tão só da forma que referi no post fundador deste blogue, isto é, algo ficcional, na medida em que, embora assuma este blogue como espaço de anotação de matéria recuperável no futuro, também eu procuro emergir lá mais para a frente com a confiança de que, por acréscimo à construção de uma memória pessoal, tenho algo a dizer, algo que deve ser dito. 

Embora com o risco de me repetir, se retomo o meta-discurso sobre a natureza deste blogue é por me sentir confrontado com as primeiras páginas do livro de Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento, cuja leitura iniciei hoje. Confrontado eu, não o blogue que não tem substância para isso, nem aspira a qualquer confrontação dessa natureza com esta ou com qualquer outra matéria que aqui venha a ser mostrada como despojo de um dia qualquer. Enquanto neste blogue, onde se acumula a espuma dos dias de um sujeito que procura desse modo estar presente, dizendo o que tem para dizer a quem aqui vier ou, pelo menos, a esboçar uma cartografia pessoal da recepção de certos despojos desses dias, se procura deliberadamente uma certa inscrição do sujeito, nem que seja apenas no confronto consigo mesmo, no livro de Vila-Matas alguém procura insistentemente desaparecer.  

Donde vem essa tua paixão por desapareceres? é a pergunta repetida que institui o tema desta espécie de meta-romance-ensaio que desde o início parece rejeitar qualquer classificação canónica. Paradoxalmente, vai-se percebendo que, afinal, este discurso do despojamento encerra uma tentativa de afirmação do sujeito através da literatura, cuja essência é escapar a qualquer vontade de estabilização e de controlo. Montagem literária, portanto, em que se mostra a figura ficcional do desaparecimento, levada ao extremo de se reflectir, a partir de Blanchot, sobre o desaparecimento da própria literatura, ou sobre o grau zero do autor, existindo apenas no universo da criação literária, isto é, sem biografia, nem reconhecimento. 

Mas tarefa impossível, parece-me, porque a literatura convoca sempre a figura do autor, sobretudo quando este utiliza a subjectividade ensaística que recusa a neutralidade aparente da terceira pessoa, como é o caso deste meta-romance-ensaio de contornos biográficos, o que, ainda, o torna mais paradoxal, face ao projecto de desaparecimento anunciado e enunciado desde as primeiras páginas e para o qual são convocadas como referências histórico-literárias, sobretudo, Robert Walser e, depois, W. G. Sebald, expoentes de uma poética da extinção que o autor parece perseguir, mas apenas como topos literário e não como projecto moral, o que, aliás, viria, ironicamente, a ser negado com a atribuição do prémio para o melhor romance publicado em Espanha em 2006, o que constitui um acontecimento, não sei se procurado ou não pelo autor, para a afirmação do sujeito que dizia querer desaparecer. 

Para já, primeiras páginas brilhantes de um artefacto literário experimental, carregado de ironia e excentricidade, com que se vai construindo um simulacro da biografia do autor, enredando a ficção na realidade. De outros despojos deste Doutor Pasavento, certamente, voltarei a falar.

18 de abril de 2007

O passageiro Walter Benjamin


Port Bou 1940. Em 25 de Setembro, após sete anos de exílio, Walter Benjamin atravessa os Pirenéus num esforço desesperado para escapar à ocupação da França pelos nazis. Pretende atravessar clandestinamente a fronteira e, através da Espanha franquista, chegar a Lisboa - por onde passaram também outros artistas e intelectuais em fuga, como Franz Werfel, Heirich Mann ou Alma Mahler -, com um visto para os Estados Unidos no bolso. Porém, uma trágica combinação de circunstâncias, entre as quais a conversão simbólica dos Pirinéus em muralha cultural e política, impede a sua entrada em Espanha. Benjamin vê-se, então, obrigado a pernoitar numa pensão de Port Bou, sob apertada vigilância de três polícias que têm ordens para deportá-lo para França na manhã seguinte. Nessa mesma noite, Benjamin inicia uma agonia que o levará à morte vinte e quatro horas mais tarde. A tese oficial é a de que se tratou de suicídio com uma overdose de morfina. Mas o relatório médico refere o caso como morte natural. O que terá acontecido realmente? Quién mató a Walter Benjamin? é um título de um documentário do realizador argentino David Mauas que passou na Culturgest em Fevereiro. A minha condição periférica não me permitiu na altura ver o filme. Tão pouco assistir ao debate que se seguiu, moderado por João Barrento, entre o realizador e o compositor José Júlio Lopes, cuja ópera W, com libretto sobre a morte de Benjamin, estreará, em Dezembro, na Culturgest.  Essa não a irei perder.

Mas, há dias, numa livraria de Portimão, encontrei um livro que narra as últimas horas do escritor e filósofo.  Sobre O Passageiro Walter Benjamin, de Ricardo Gaviria, escreve Enrique Vila-Matas, na contra-capa, que se trata de uma subtil e mui elegante recriação das últimas horas que precederam a morte do escritor... Cada vez gosto mais dos bons romances e menos de palavreado. Vou a meio do romance, que sem pretender ultrapassar  a biografia- o que seria muito pouco benjaminiano -, e convocando factos verídicos e outros recriados com afectação literária, faz-me entrar na derradeira morada de Benjamin, onde me vou embrenhando nos caminhos afectivos e intelectuais do escritor que, apesar das sombras que descem sobre o seu quarto de hotel, permanece lúcido na desgraça final. Benjamin viveu só e morreu só, sempre como um estrangeiro, mas quero acreditar que nesse último momento trágico viu, ainda, a luz da saudade que iluminou a sua vida, porque a paixão de estar despojado de tudo, a paixão da solidão que sempre o acompanhou e procurou na última morada, terá iluminado o instante em que soltou um suspiro de alívio e fechou pacificamente os olhos atrás dos seus grossos óculos de míope.

Portugal: um retrato social


Ontem passou na RTP1 o 4º episódio da série documental Portugal - Um retrato social, da autoria de António Barreto, com realização de Julia Pontes e pesquisa documental de Maria João Silva. Um programa que é uma raridade num serviço público que falha no essencial, apagando tudo aquilo que seria importante para ajudar a traçar rumos para o país ou, na melhor das hipóteses, atirando para horários impróprios tudo aquilo que é susceptível de informar, debater e aprofundar questões, como competiria a um verdadeiro serviço público de televisão. Mas não, o que sobra são concursos e telenovelas de fraca qualidade e telejornais que em todos os canais seguem o mesmo alinhamento, como se todos os critérios jornalísticos e editoriais fossem os mesmos. É, pois, excepção o programa de António Barreto, que não aparece, mas assina com a sua voz a locução "off", intercalando com entrevistas recentes ou antigas as sequências de imagens de arquivo ou filmadas para este documentário.

Trata-se de uma narrativa que visa retratar a sociedade portuguesa contemporânea através do confronto entre o país actual e o das últimas décadas. Quem somos nós? Uma Nação velha e um Estado antigo. Um povo com um marcado sentimento de identidade  e uma viva consciência do seu passado e de uma grandeza pretérita. Mas, também, gente que vive com a convicção, desde finais do século XVIII e inícios do século XIX, de um atraso crónico e crescente relativamente aos outros países vizinhos.  Empobreceram-nos, escreveu um dia Jorge de Sena. Ainda assim, no final de cada programa, ficamos com a convicção de que o país mudou e, em muitos aspectos, para muito melhor. Os que viveram essa mudança sabem-no bem, embora, às vezes, pareçam esquecê-lo. Os mais novos ignoram muitas dessas mudanças. A emigração, a guerra colonial, uma revolução política e social, a fundação do Estado democrático, a descolonização, a adesão à União Europeia e a imigração foram alguns dos acontecimentos ou fenómenos históricos que marcaram as últimas quatro décadas e que provocaram ou aceleraram mudanças sociais profundas,  revelando a sociedade uma notável plasticidade.  Diminuição da mortalidade infantil, integração das mulheres na população activa, expansão do sistema escolar, aumento dos rendimentos familiares, terciarização, declínio das actividades agrícolas, abrandamento relativo das actividades industriais, desenvolvimento do Estado de protecção social..., eis algumas das mudanças mais visíveis. E contudo, não foi fácil libertar um país de tudo aquilo que o marcara durante décadas: a ignorância e a reverência, a delação e o medo, o autoritarismo e a repressão. Mas que o país mudou, que se aproximou dos padrões de vida e de comportamento europeus é um facto.

Na última década, contudo, renasceu a incerteza, a dúvida. A um período de crescimento e desenvolvimento seguiu-se um tempo de recessão ou de estagnação com efeitos psicológicos profundos que, ainda, estamos a sentir. Quem conheceu melhores tempos, quem viveu ritmos de progresso muito marcados, sente-se, agora, ameaçado pelo abrandamento, pelo esgotamento. Tornámo-nos um país a roçar a depressão bipolar. Tão depressa somos os "maiores", como rapidamente baixamos os braços e nos transfiguramos em incapazes, indiferentes. Por isso, contraditoriamente, no final da cada programa, ficamos, também, com um certo amargo de boca, pois continuamos a ser aquele país com medo de existir, incapaz de poder arrancar decidida e decisivamente no encalço dos nossos parceiros europeus. Não porque isso seja um destino ao qual não podemos escapar, mas, sobretudo, porque o nosso atraso é a consequência de muitos anos de políticas erradas e de uma forma de estar cada vez mais arreigada nos portugueses, que preferem atirar o lixo para debaixo do tapete, viver à margem da apreciação crítica, pactuar com a mediocridade e cultivar a inveja. Talvez um programa para ir vendo ao mesmo tempo que se lê o livro de Lídia Jorge, onde Portugal "se deita no divã".

17 de abril de 2007

Contra o fanatismo

Quando deixou de odiar os pais escreveu Uma história de amor e de trevas [ASA, 2007] que sendo um livro onde resgata a memória da sua família é, sobretudo, um espelho onde todos os judeus da Europa se podem rever. Um livro sobre a criação de Israel, erguida sobre uma terra queimada, cheia de pedras, primeiro as da intifada judaica contra os britânicos, depois, as da intifada palestiniana contra os judeus ocupantes. Um livro de reconstrução da memória pessoal de Amos Oz que é, simultaneamente, um livro da redenção de um combatente da terra prometida: Eu sonhava em segredo que eles me levariam um dia com eles e me transformariam em nação combatente. Que a minha vida se tornaria um poema novo, uma vida pura, recta e simples como um copo de água frio num dia de calor tórrido. Utopia falhada de uma nação cuspida pela velha Europa, que teria sido, talvez, a verdadeira terra prometida e proibida, o lugar nostálgico dos campanários e das velhas praças empedradas, dos eléctricos, das pontes e das torres das catedrais, das aldeias isoladas, das fontes termais, das florestas e dos prados cobertos de neve. A nostalgia de lugares longínquos, como se fossem personagens de Tchekov: Em algum lugar para para lá do horizonte estava a amada cidade de Moscovo, Moscovo... Mas essa Moscovo - que podia ser Berlim, Viena, Paris ou Varsóvia, ou qualquer outra -, "Moscovo para lá do horizonte", não amava aqueles judeus, lembrará Oz muitos anos depois.

E em Israel, em vez dos campanários, das fontes e dos prados da memória, apenas uma terra incendiada por ódios, guerras, atentados, retaliações e um fanatismo sem limites: uma desordem mental muito arreigada... uma espécie  de "síndrome de Jerusalém": uma pessoa chega, inala o ar puro e maravilhoso da montanha e, de repente, inflama-se e pega fogo a uma mesquita, a uma sinagoga ou a uma igreja. O fanatismo sempre a incendiar os templos dos homens em nome de Deus, atirando-os uns contra os outros, apenas porque são diferentes ou querem ambos a mesma terra. Sim, porque é a questão dolorosa da posse da terra que explica o conflito israelo-palestiniano. Como sempre aconteceu no passado. De quem é a terra?, eis a pergunta sem resposta que Oz coloca, sabendo, no entanto, que a terra pode ser trocada por paz, mesmo que isso signifique um compromisso doloroso.

O futuro não é seguro e o passado está cheio de cadáveres, afirmou Oz numa entrevista recente ao Público, denunciando o devir sem futuro de Israel, mas ao tempo, o lado mais sombrio da modernidade, com os seus totalitarismos, chauvinismos, fundamentalismos religiosos e desastes ambientais. Há que denunciar não só a ocupação da Palestina que enfraquece Israel, mas também todo o fanatismo que é mais velho que o Islão, do que o Cristianismo, do que o Judaísmo. Esse o compromisso de Oz face ao tempo, ao sofrimento, ao preconceito, à tragédia, à perda e à derrota. (...) Comprometo-me, escrevo artigos, escrevo histórias e nunca misturo uma coisa com a outra, mesmo haja nos romances uma mensagem metapolítica.

Não, nem as mulheres nem os árabes têm cauda e cornos, como acreditava, Profi (que poderia ser Oz), o rapaz do romance Uma pantera na cave, eis o que se pode ler, ainda, no pequeno livro que hoje o Público oferece aos seus leitores. Originalmente publicado sob o título Help us to divorce, Contra o fanatismo é um relâmpago que ilumina as trevas onde mergulha o conflito israelo-palestianiano. Um apelo à paz feito por alguém que confessa que, também ele, quando muito jovem, era um pequeno fanático de cérebro lavado, que viu, depois, derramar-se num dia de calor tórrido o copo de água fria que poderia matar a sede aos dois povos. Para matar a sede de paz daqueles que verdadeiramente a procuram nos dois lados, talvez seja agora preciso encher de água dois copos diferentes, um compromisso doloroso, um divórcio que separe quem não consegue partilhar o mesmo copo de água fria num dia de calor tórrido, mas que uma vez consumado divórcio e a partilha, pensa Oz, Israelitas e Palestinianos poderão, então, saltarem por cima da terra repartida para beberem juntos dois copos de água fria.

16 de abril de 2007

Sebald: viagem entre ruínas

Será possível, ainda, a grandeza literária? Ante a decadência implacável da ambição literária, a convergente ascensão de desengano, a verborreia e a crueldade insensível como assuntos normativos da ficção ?... interrogava-se Susan Sontag a propósito da obra de W. G. Sebald. Uma literatura capaz de exprimir a consternação do mundo tão cheio de falsas representações, tão fútil?

Acabo de ler Os anéis de Saturno e parece-me que sim, que é possível, apesar de tudo, uma literatura sedimentada como uma paisagem cuja topografia nos sacode, nos interpela, propondo-nos uma meditação sobre as ruínas que vamos deixando para trás. Essa a paisagem, literal e metafórica, que percorremos com Sebald em Os anéis de saturno, livro inclassificável (romance, ensaio-diário de viagem, autobiografia, enciclopédia ou tudo isso ao mesmo tempo, encadeado?...) sobre a melancolia do mundo. Meditação entre ruínas, alternada com breves ensaios sobre biografias obscuras, sobre o ciclo de vida dos arenques, a criação de bichos da seda, a natureza das guerras, a destruição das grandes florestas... eis alguns acidentes topográficos de uma cartografia que oscila entre a realidade e a ficção, rejeitando a normatividade temática, moral e literária.

Sebald, o narrador a quem o autor empresta o seu nome, é uma construção literária do promeneur solitaire, romântico, que empreende uma viagem como intromissão, como indagação através de uma paisagem real, com nomes, toponímias, datas, ilustrações que o narrador convoca criando um extraordinário efeito de verosimilhança: Em Agosto de 1992, quando os dias do Cão estavam a chegar ao fim, empreendi uma viagem a pé pelo condado de Suffolk, leste de Inglaterra, na esperança de pôr fim ao vazio que me invade sempre que termino um trabalho de fôlego.

Reconhecemos aqui um processo narrativo semelhante ao utilizado pelo narrador-autor das Viagens na minha terra. Porém, enquanto em Almeida Garrett a viagem nos aproximava da natureza romântica, em Sebald ela não é mais do que um artifício para nos desvendar segredos de vidas obscuras: especulando se Sir Thomas Browne, na sua visita à Holanda, teria assistido à lição de anatomia pintada por Rembrandt; recordando um interlúdio romântico de Chateaubriand durante o seu exílio em Inglaterra; evocando os esforços de Roger de Casement para denunciar a infâmia do colonialismo belga no Congo; narrando as primeiras aventuras no mar de Joseph Conrad... E, sobretudo, para mostrar a devastação contemporânea da natureza (desaparece um bosque atrás do outro, as valas na orla dos caminhos onde a seu tempo floresciam primaveras e violetas são lavradas e terraplenadas... ); ou os escombros da guerra (vêem-se cidades francesas reduzidas a escombros e cinzas, cadáveres a apodrecer na terra de ninguém entre trincheiras, arvoredo abatido pelo fogo de artilharia, navios de guerra afundando-se no meio de nuvens negras de petróleo, colunas militares em marcha, intermináveis torrentes de fugitivos e zepelins rachados...),  ou a desolação do mundo (nesse lugar de armazenagem não vejo uma só pessoa, só tijolos, milhões de tijolos...), na tentativa inútil de pôr fim ao vazio que o invade.

Ao vazio, afinal, deixado pelo lado sombrio de uma modernidade que esqueceu as promessas para nos oferecer, somente, a paisagem em ruínas por onde o autor deambula procurando a redenção do mundo através da memória. A escrita, portanto, como única maneira de [se] defender das recordações que tantas vezes e tão inesperadamente [o] afectam e que aqui se mostram através de uma visão fatalista da História, como tragédia humana roçando o abismo, que um caminhante solitário nos  dá a ver à hora do crepúsculo...  sob um céu cor de tinta que cobre as nossas peregrinações pessoais através do litoral da própria melancolia onde se amontoam, também, recordações, sonhos, genealogias, naufrágios que Sebald faz libertar.

22 de março de 2007

Filologia do inútil



Ler, então, para ir construindo a minha biblioteca de quarto escuro. Aquela onde gosto de me perder como quem se perde numa cidade ou numa floresta, mas «com educação», como diria Walter Benjamin - que é como quem diz, com o propósito íntimo de, mais tarde, dar conta de uma qualquer leitura singular, acidental, arbitrária como deve ser toda a leitura «doméstica e privada», já dizia Montaigne. A biblioteca obscura onde reúno as minhas afinidades electivas e, por isso, uma biblioteca limitada, correspondendo à ideia de Mallarmé de que deveria bastar-nos apenas um livro, já que, a partir da sua leitura, se poderia escrever todos os outros livros por vir.

Na escuridão, pegar, às vezes, ao acaso, num livro, e deixar-me ir por ali através daquele labirinto vegetal embebido na tinta dos livros, «perseguindo uma imagem, somente», como Gerard de Nerval. Leitura tangencial, mas que me leva ao centro, ao nó de rizoma. Ponto e ponte de fuga donde me escapo furtivamente para as margens, expandindo o texto na geografia virgem da página. Reconfigurações ao acaso, cruzamentos, bifurcações. Citações, glosas, anotações, remissões, indexações, comentários, enfim, toda uma trama alheia, fragmentária, labiríntica que traz em si não apenas o estigma dos cruzamentos e da enxertia, mas também a nostalgia do todo de onde saltou e de que me apropriarei, depois, como um filólogo do inútil, para formar a trama híbrida de um novo texto, assumindo um destino de princípe de que tudo o que escreverei aprendi nos livros.

E, então, finalmente, contaminação suprema, escrever um livro a partir do enamoramento com os livros da minha biblioteca de quarto escuro. Será isto a leitura? Será isto o ensaio - o livro de ensaios por vir- cujo rasto persigo, primeiro, nas margens anotadas dos livros da biblioteca de quarto escuro e, depois, na geografia do acaso dos meus cadernos?

18 de março de 2007

O livro por vir


Perguntar-me-ão, agora - ao quarto post -, aqueles que nestes dias aqui têm vindo se, contrariando a ideia expressa de apenas querer mostrar formulações alheias, não terei, também, algo a dizer, isto é, o desejo efectivo de perseguir uma formulação ficcional pessoal através da qual o «fait accompli» dos textos que aqui for deixando, porque controlados por uma certa diegese, todos somados - ver-se-á mais adiante -, mais do que mostrar, não corresponderão antes a uma tentativa de construção do ego, não direi de um escritor, mas de um escrevente que se mostra, ele sim, através de uma escrita confessional forjada numa leitura entendida como substância autobiográfica deste leitor sem qualidades. E mesmo que não tivesse nada a dizer, será que isso seria impeditivo de escrever? «Quem decidiu que se deve escrever só quando se tem alguma coisa que dizer?», escreveu Gombrowicz que não tendo nada para dizer escolheu escrever o imprevisto.

Por isso, não escondo uma certa veleidade, não de me confundir com esse escritor, mas pelo menos, circunstancialmente, de me mostrar como uma espécie de ladrão na noite cuja autobiografia fragmentada se vai construindo através da montagem literária de citações alheias roubados de infindáveis bibliotecas que, depois, assomam aqui com sentidos diferentes. Este o método ou a estratégia metaficcional que também persigo. Então, talvez, se vislumbre, aqui, uma estimulante travessia através dos territórios da leitura. Desconfiando da superfície brilhante das palavras, ir livros adentro, escavando em profundidade como um bibliotecário furtivo que vai coleccionando vastas citações, glosas e comentários, até ao momento em que alguma epifania suprema (e haverá sempre uma epifania à espera do leitor) as chame para as inscrever com sentidos diferentes num novo texto.

E não será essa a «arte» menardiana que todo o leitor sem qualidades deve perseguir? - «a arte retardada e rudimentar da leitura: a técnica do anacronismo deliberado e das atribuições erróneas» (Jorge Luis Borges, Pierre Menard, autor de Quixote). A apropriação das palavras alheias para «purificar o sentido das palavras da tribo», segundo Mallarmé. Ou, perseguir - como o caminhante Sebald - «o rasto já há muito extinto no ar ou na água» para depois - tentação de escrevente -, torná-lo visível, primeiro, no ecrã e, depois -(quem sabe?) - revelando um inconfessado programa de escrita - num livro por vir?

15 de março de 2007

Da literatura


A literatura como «uma tentativa de tornar real a vida», escreveu Pessoa. Ignorava o poeta que algumas décadas mais tarde Enrique Vila-Matas haveria de fazer da possibilidade de introduzir o real na ficção uma marca do seu estilo pessoal através da qual a aparência de verdade levada até ao extremo converte aquilo que no início é apenas verosímil numa nova forma de realidade que não necessita de nenhuma outra explicação a não ser a da evidência da ficção; e de uma ficção que questiona o nosso limitado conceito de verosimilhança e nos transforma em exploradores mentais de mapas obscuros em cuja cartografia abismal nos adentramos para nos aproximarmos mais da verdade.

Trata-se, então, de um conceito de verosimilhança que remete não tanto para aquilo que verdadeiramente entendemos por realidade, isto é, aquilo que acontece, mas mais para aquilo que poderia ter acontecido, que poderá acontecer, introduzindo, assim, na ficção «um sentido de possibilidade» musiliano que transforma as personagens «correntes e vulgares», como, por exemplo, as que atravessam a cartografia vilamatiana de Exploradores de abismos, em expedicionários de mundos paralelos, protagonistas de vivências nunca experimentadas que sobrepõem ao tédio quotidiano com a insolência de quem possui a fórmula mágica que o há-de esconjurar.

Lembram estes exploradores vilamatianos, «esses homens [musilianos] do possível [que] vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos» que constituem simulacros de sentido num mundo que Musil sabe sem sentido, mas que insiste em narrar em O homem sem qualidades (Dom Quixote) apesar de «tudo ter deixado de ser narrável e não seguir já nenhum fio» (p. 827). Por isso, terá inventado «um novo modo de narrar que se constitui em permanente ensaio da vida» e que «abriu, sem fechar, o mais amplo horizonte que se oferece ao romance moderno», respondendo (tal como Hermann Broch) àquilo a que Kundera classificou como o apelo do pensamento, «não para transformar o romance em filosofia, mas para mobilizar, com base narrativa, todos os meios, racionais e irracionais, narrativos e meditativos, susceptíveis de esclarecer o ser do homem; de fazer do romance a suprema síntese intelectual».

Um convite, então, não para um passeio romanesco ao passado, mas para uma longa expedição através dos mapas obscuros do «apocalipse alegre» (expressão que sintetiza, segundo Broch, a forma como os austríacos viveram nihilismo de fin de siècle), cujos abismos cacanianos me disponho agora a explorar num programa de leitura para afrontar o vazio deste «mundo de qualidades sem homem» em que vou vivendo sem nele me despenhar. Isto é, escolhendo a qualidade de leitor sem qualidades, logo, aberto a toda contingência, a toda a possibilidade de leitura que pode surgir numa qualquer dobra das duas mil páginas da monumental edição da Dom Quixote, numa autorizada tradução de João Barrento.

13 de março de 2007

Da escrita


No Diário de Susan Sontag leio uma passagem que me faz retomar a breve reflexão do post sobre o método deste blogue: «Por que é importante escrever? Sobretudo por egoísmo, suponho. Porque quero ser essa personagem, um[a] escritor[a], e não porque haja algo que deva dizer. Mas por que não também por isso? Com um pouco de construção do ego – como mostra o “fait accompli” destes [blogues] – emergirei lá mais para a frente com a confiança de que tenho algo a dizer, algo que deve ser dito».

Descontando qualquer veleidade literária, pois não pretendo confundir-me com essa personagem, esse escritor, talvez, apenas, com o escrevente de que falava Roland Barthes, se adoptar esta anotação de Susan Sontag, estarei, afinal, a dizer que, apesar de só querer mostrar, também desejo ter algo a dizer. Mas um dizer que é feito do que cai dos livros, perseguindo, como escreveu W. G. Sebald, «um rasto já há muito extinto no ar ou na água [mas que continua] visível, aqui, no papel». Portanto, montagem literária, como construção do ego, mas que só valerá a pena se for reconhecida a sua pertinência, em termos de aproximação aos que me poderão ler, sobretudo os amigos, e como marcação quase diarística de um leitor sem qualidades.

12 de março de 2007

Do método



Haverá um método para a escrita de um blog que se pretende metaliterário? Não um método entendido na sua acepção positivista, isto é, sujeito a uma qualquer tentação hermenêutica e a uma vontade de tudo explicar, mas sim como expressão de uma errância através dos labirintos benjaminianos embebidos na tinta dos livros. Esta, portanto, a natureza do método que persigo, enquanto formulação mais ou menos ficcional da minha forma pessoal de me adentrar nos livros que vou lendo e de partilhar com aqueles que por aqui passarem uma certa volúpia que toda a leitura encerra.

Talvez, por isso, o método que Walter Benjamin propõe no seu Livro das passagens seja, também para mim, uma boa escolha para me aventurar blogue adentro: «O método deste trabalho: montagem literária. Não tenho nada para dizer. Apenas para mostrar. Não escamotearei nada de valioso nem me apropriarei de formulações espirituosas. Mas os farrapos, o que cai dos dias: esses não vou inventá-los. Vou deixar que afirmem os seus direitos da única forma possível: dando-lhes uso» (W. Benjamin, Das Passagenwerk, fragmento N1a,8).

Formulação ficcional, portanto, porque controlada por uma certa diegese, mas sem pretensões de literatura. Tão só comentários, representações, citações, histórias, imaginários inscritos em anotações, apontamentos ancorados, sobretudo, nos livros que ando a ler e na vida que neles se espelha. Auto-ficções, portanto.