25 de julho de 2007

Avignon: sob o sol de Jean Vilar e René Char


Sob o «azul ameno» do céu provençal é toda uma cidade à medida do homem que celebra numa cena multiplicada até à exaustão a festa do teatro. 60 anos depois, sob o mesmo sol de René Char e Jean Vilar, «l´acte este vierge, même répeté», transformando Avignon num lugar de encontro de uma vasta comunidade de artistas e espectadores que se cruzam no emaranhado de ruas e ruelas do casco histórico, celebrando o olhar, o desejo e a imaginação. 

Protegidos da tundra suburbana das paisagens indiscriminadas que toldam, hoje, o olhar e o pensamento, deixamo-nos levar na tranquiula corrente humana que flui como um rio manso a partir da Place de l´Horloge em todas as direcções, para depois aportar, aqui e ali, num qualquer palco que nos convida a entrar como se fossemos os hóspedes esperados. E porque por ali deambulamos, distraídos e atentos, absortos e disponíveis para o teatro, facilmente nos apercebemos da aura de um qualquer espectáculo que nos é proposto. Somos atraídos pela natureza insólita dos espaços transformados em salas de teatro de todas as dimensões e feitios: uma capela gótica desactivada, um claustro românico, um velho armazém abandonado, uma antiga fábrica de fósforos, um pátio de um liceu, uma cave de um hotel, um jardim interior, uma garagem, um ginásio, tudo serve como espaço para retraçar as novas figuras do teatro contemporâneo, através de novas linguagens e escritas do corpo, do espaço, da imagem e da palavra. São, sobretudo, lugares vividos, polarizados afectivamente, onde reina uma certa féerie própria dos «espaços liminares» onde o segredo e a descoberta se encontram inscritos em cada canto e recanto de uma paisagen cénica multiplicada na cidade até à exaustão. E há, ainda, nomes que convidam a entrar: Chapelle des Pénitents Blancs, Chapelle du Verbe Incarnée, Théatre du Chien Qui Fume, Le Funambule, L´Étincelle, Le Lucernaire... Ao todo são mais de 130 palcos atravessados por quase 1000 espectáculos diferentes, entre os que integram o festival In e os que fazem parte do Off. Talvez aqui uma contradicção incomprensível ou, então, a formula encontrada para o mercado não ficar de fora, fazendo do festival uma espécie de montra das artes cénicas francesas em cada ano. E são ainda as manifestações paralelas, leituras, exposições, debates... este ano, sobretudo, em torno de René Char, essa espécie de «sentinela solar», que nos ofereceu o mais belo cântico da Resistência em Feuillets d´Hypnos, levado à cena por Frédéric Fisbach, na mítica Cour d´Honneur du Palais des Papes. Ou do poeta e pintor Valère Novarina. Mas há também Jean Vilar - principal mentor do festival, em 1947, segundo a fórmula: «faire d´Avignon le Bayreuth français» - e a sua Casa-Museu.

Durante quatro dias vivi Avignon como uma personagem cénica à procura dos seus palcos, auxiliado pelos programas do festival, os do In e os do Off, quais tábuas de orientação na paisagem labiríntica de ruas e ruelas da cidade muralhada e no dédalo de propostas cénicas em que nos perdemos, onde o mistério e a descoberta se encontram inscritos em todos os cantos e recantos, cruzando-me com múltiplos rostos, parando diante das pequenas salas de teatro, lendo cartazes, críticas, escapando-me em seguida para a porta ao lado onde também se faz teatro, comparando, recusando, escolhendo numa atitude solta, disponível, o espectáculo para aquele momento, para depois, no final, correr para outro mas ficar no caminho, surpreendido com uma nova proposta irrompendo numa esquina. Sim, porque mesmo que levemos connosco todos os programas, há sempre uma qualquer bifurcação que nos faz mudar de trajecto. Porque -escreveu René Char - «les mots qui vont surgir savent de nous des choses que nous ignorons d´eux». Assim se é espectador em Avignon, procurando num teatro qualquer as palavras que ignoramos ainda, mas que depois nos ajudam a compreender o mundo. E isso é o teatro.

Claro que não houve bifurcação que me desviasse de Angeles in America, do encenador polaco Krzysztof Warlikowski, que utiliza a metáfora da sida como revelador de todos os medos de hoje, a sociedade abandonada por Deus que deixou aos anjos a tarefa de cuidar do mundo como funcionários zelosos que apenas se aguentam à base de valium. Ou da estranha e angustiante coreografia de Raimund Hoghe, 36, Avenue George Mandel, que sob um fundo de árias de ópera de Callas nos leva ao mundo dos sem abrigo. Mas o resto, o resto foi resultado do acaso: um nome de um teatro, de uma companhia, um autor, uma oportunidade de horário, um encontro na rua com um actor ou mesmo com o encenador, uma conversa de circunstância com alguém na mesa ao lado numa esplanada... Foi assim que assisti a Hansel et Gretel: um casamento, um pesado segredo, em que os convidados são virtuais; ou a Le Visiteur: Viena, 1938, os nazis invadiram a Austria e perseguem os judeus, Freud, desesperado, recebe uma estranha visita; e a outros tantos espectáculos, angustiantes, comoventes, ácidos, vibrantes...

«Joue et dors», dizia René Char em 1950. Talvez, hoje, dizer, joue et trouble le monde.

13 de julho de 2007

Projecto para uma roda de leitura perigosa

Intrometo-me no book crossing que anda por aí e atrevo-me a propor alguns livros para serem postos a  girar, este Verão, numa Roda da Leitura como a que a imagem acima reproduz [cf. Agostino Ramelli: projecto para uma roda de leitura. Paris, 1588]. Basta colocá-los na roda, carregar no pedal e, depois, ir lendo ou relendo os cinco livros que aqui recomendo contra a rasura das novidades. Cinco livros que fazem uma pequena biblioteca giratória, intensiva e transportável, escolhida para levar para férias, com o mar do sul ao fundo, procurando novos caminhos bifurcados em páginas talvez já lidas mas sempre à espera de serem de novo abertas, manipuladas, perseguidas por gente que acredita que nelas se espelham mundos. Que cumplicidades tecem, então, estes livros entre si? Desde logo, o facto de partilharem, na minha biblioteca pessoal, a mesma prateleira. E também a circunstância dos seus autores pertencerem a uma certa geografia, a da Mitteleurope que mais do que uma condição espacial corresponde, sobretudo, a uma certa ideia de literatura. Depois, porque são autores que ocultam a sua biografia para melhor poderem afirmar a sua obra. E, ainda, porque todos  habitaram de uma forma ou de outra «as regiões do destino onde reina a solidão».

Finalmente, porque talvez encaixem na categoria de livros a que Robert Walser se referia quando escreveu n´O Salteador (Relógio d´Água, 2003): «Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deviam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável?»

Talvez a vida destes escritores tenha sido «doentia», mas não os seus livros que parecem substituir a vida que não tiveram por uma espécie de duplicação do mundo. E não será, afinal, esta a vocação de toda a literatura?

1. Robert Musil, As perturbações do  Jovem Törless [1906] (Dom Quixote, 2006), uma quase autobiografia da juventude do autor, uma espécie de Werther pessoal e uma «necrologia profética»;

2. Robert Walser, Jacob von Gunten [1909] (Assírio e Alvim, 2005), o extravagante escritor suíço que escrevia lápis para melhor poder ausentar-se;

3. Kafka, O desaparecido [1927] (Relógio d´Água, 2004), onde se persegue o sonho de um emigrante preso numa engrenagem donde cada vez mais é impossível escapar;

4. Bruno Schulz, As Lojas de Canela [1933] (Assírio e Alvim, 1987), cujos contos transfiguram a pequena cidade de Drohobycz numa espécie de Macondo polaca onde se respira o ardor intenso da fantasia e das metamorfoses  contra a colmeia de nevroses e de loucura onde o autor se encontra encerrado;

 5. Joseph Roth, A Lenda do Santo Bebedor [1939] (Assírio e Alvim, 1997), outro polaco, da Galitzia, que aqui narra a vida e a «morte suave e bela» do seu Santo Bebedor, tão contrária à sua própria morte.

[Deixo o desafio a todos os que por aqui passarem para pôrem a andar nos comentários a sua Roda de Leitura]

11 de julho de 2007

Petra, cidade perdida


O crepúsculo, esplendoroso, de tonalidades avermelhadas, derrama-se suavemente sobre a estranha formação rochosa, espécie de abrigo contra a aridez circundante e, ao mesmo tempo, encruzilhada no coração do deserto de Wadi Araba e formidável posto de vigia das caravanas de seda, incenso e outras especiarias que vinham do sul da Arábia desafiando a aridez dos caminhos em direcção ao Egipto e ao sul da Europa. Na antecâmara do estreito desfiladeiro que conduz à misteriosa cidade escavada na rocha num vale entre duas montanhas, já não são os nómadas Nabateus que nos vêm cobrar a passagem ou vender os seus serviços de escolta, mas sim um grupo de beduínos que efusivamente nos propõe o aluguer de cavalos que trotam diante de nós. Recusamos os animais e fazemo-nos à estreita garganta que conduz à cidade perdida de Petra. Nas paredes rochosas do Siq saboreamos a lenta transformação das cores - vermelho, rosa, verde, azul -, recortando no caminho uma fresca tranquilidade que incita e excita os sentidos e a imaginação. Numa curva, parece projectar-se nas paredes de grès vermelho que se erguem em ambos os lados a sombra de uma caravana de camelos guiada por homens de turbante. Alguns pombos assomam em ninhos inexpugnáveis. E de repente, na moldura pétrea do Siq, como uma revelação inesperada após um ritual de passagem, magnificamente escavado na rocha de tonalidades vermelhas e rosa, o primeiro monumento, o Khazneh, testemunhando a antiga prosperidade dos Nabateus. Mas são ainda os beduínos que nos propõem que continuemos de camelo ou de burro. E é de burro que atravessamos o vale onde se encontra o Grande Templo e o principal núcleo de grutas outrora habitadas pelos Nabateus e subimos, depois, os mais de novecentos degraus até Jabal al Deir, como se atravessássemos uma monumental escultura equivalente a toda uma cidade, sempre observados na nossa subida por beduínos que irrompem subitamente dos lugares mais recônditos.

[P.S. Petra viu há dias, em Lisboa, ser-lhe merecidamente atribuída a menção de uma das sete maravilhas do mundo. Para saber mais sobre a história desta misteriosa cidade eregida no coração do deserto, ver em Petra, cidade perdida .]

9 de julho de 2007

Passagens de Damasco


O souk al-Hamidia, com a sua passagem coberta por um telhado metálico com inúmeras aberturas que deixam penetrar os raios de sol criando o efeito de um céu estrelado na penumbra interior, revela-se demasiado irresistível, oferecendo-me a possibilidade de refúgio face ao caos das ruas circundantes. Vejo-me num tipo de passagem feérica que me é oferecida como uma rosa damascena, onde se concentra todo um imaginário que fui construindo nos últimos dias, desde que a «ameaça síria» se tornou mais do que um motivo de retórica romanesca e foi caindo nos meus dias sem que eu desse por isso. Mas, agora, à medida que, como um flâneur nostálgico, me adentro na passagem, a «ameaça» que pela manhã começara por manifestar-se na forma das incontornáveis formalidades fronteiriças para obtenção de visto, na arrogância policial, nas manigâncias da pequena máfia dos taxistas e na presença em todas as vitrines e fachadas dos edifícios da moldura asfixiante do presidente Assad trajando uniforme militar, como que desaparece deixando trabalhar livremente o olhar.

Eis a experiência de uma outra Damasco que alimenta o olhar, a memória e a imaginação prometidos n´As Mil e Uma Noites por Xerazade a Harun al-Raschid, num códice que circulou na Síria no século XIII e foi lido por califas, vizires, vendedores e mercadores. Como o flâneur baudelairiano de que fala Walter Benjamin, no meu passeio ocioso procuro, agora, «virar para fora o forro incandescente e colorido do tempo» e, momentaneamente liberto da «ameaça síria», praticar uma observação ao mesmo tempo distraída e atenta, absorta e disponível, celebrando o olhar como se o bazar otomano que percorro, construído em 1863 pelo sultão Abdulhamid, fosse o sujeito activo desta flânerie oriental que me vai revelando um mundo fervilhante de sensações adormecidas, paralelo ao caos ruidoso, incandescente e ameaçador das ruas exteriores.

Nesta rua salomónica, uma multidão de mulheres ávidas, astutas, activas e sensuais sob os véus islâmicos que as cobrem celebram o prazer da distracção, alimentado pelo olhar e pelo desejo suscitado pela imensidão de cores, púrpura, azul escuro, amarelo vivo e preto, dos vestidos beduínos bordados à mão, dos lenços de seda multicolores, dos algodões estampados, dos tapetes persas, das almofadas damascenas, dos cobres trabalhados, da joalharia; pelo perfume das especiarias e frutos secos; e pelas vozes misturadas dos vendedores de água, sumos, xaropes e café. Há nesta dobra do tempo uma aura que amplifica a imaginação. Não há aqui qualquer imposição para entrar nas minúsculas lojas da extensa passagem. E tudo é atraente, «aberto», contrastando com a ideia de fechamento imposto pela religião omnipresente e com a natureza monolítica do regime sírio pairando nas fachadas dos edifícios nas avenidas do exterior. Até mesmo o olhar de algumas mulheres de rosto velado, ciosamente encoberto, deixa transparecer o prazer das compras. Faço-me, por isso, também, comprador, percorrendo lojas, regateando preços de objectos cujo valor exacto nunca se conhece, como se o preço dito no início fosse apenas a ponta de um enigma que pode levar a preços finais tão conforme o desenrolar da  situação ou a nacionalidade do comprador; desvelando o mistério das coisas que se encontram à vista; penetrando na sedutora intimidade que há entre cada comerciante e os objectos expostos. Todos os sortilégios são permitidos até se chegar ao entendimento final, levando, depois, comigo uma toalha de seda bordada a fios de ouro daqui, um lenço de lã de camelo dali, um punhal otomano acolá, um darguilé mais além, cenas do livro de Xerazade pintadas à mão mais adiante; e, no final da rua, um gelado sírio de pistachio!

Chego ao final da passagem que se abre para a grande mesquita dos Omeyadas onde se respira tranquilidade das orações e fico com a impressão de, por momentos, ter atravessado o forro de um tempo suspenso à espera da próxima «ameaça» que parece não se encontrar na mesquita que me recebe com a hospitalidade devida ao estrangeiro, mas sim nos labirintos sombrios do fanatismo religioso e da arrogância norte-americana.

É tempo, talvez, de esquecer esta narrativa pré-corânica e evocar, agora, o poeta sírio-libanês Adónis, perguntando para onde vai a «arabidade do coração», esse «Yemen original, cujos souks eram veias e artérias de um corpo que não seria nem sonho nem realidade», antes a tentativa de encontro entre o reino de Salomão e o reino de Adão, perseguida pelos múltiplos narradores das Mil e Uma Noites. Parece que para o abismo para onde o empurram todos fundamentalismos: o islâmico e o do capitalismo glamoroso e desalmado do ocidente. Por isso, com Adónis, contra o fanatismo religioso ou capitalista, talvez perseguir uma terceira via.

5 de julho de 2007

Infatigável vagabundagem em Amã


A multidão humana que deambula ao ritmo estival pelos passeios intransitáveis da chamada Down Town, em Amman, parece acomodar-se pacificamente à degradação envolvente, exibida nas fachadas sujas dos edifícios, no amontoado de antenas parabólicas crescendo nos terraços, nas roupas pobres a secar nas varandas, na correria caótica do tráfego. Da varanda do Al Rasheed Court Café, enquanto fumo um darguillé como, aliás, o fazem quase todos os restantes clientes, dedico-me a observar, não sem algum cinismo de ocidental, uma chuma de gente carreando uma variedade de personagens que estoicamente desafiam um sol incandescente que se abate sobre o começo da tarde. Parece não haver ali naquela corrente humana que desce a rua Ali Bin Taleb qualquer espécie de ociosidade, antes a obstinação em chegar rapidamente a um destino mesmo que este se revele estéril. Desço, e como um passeante estóico sob um sol em fusão, faço-me à rua em direcção ao souk Al-Balad. Na minha vagabundagem infatigável, alheio à deterioração irreversível e à vetustez das habitações que mais parecem abrigos precários,  atravesso ruas secundárias deixadas ao abandono pelos serviços de conservação e limpeza criando um cenário de um pitoresco desastroso, e cruzo-me com iraquianos refugiados, emigrantes egípcios, palestinianos e população autóctone, numa ambiência perturbada pela avalanche de automóveis, táxis amarelos e pequenos autocarros completamente cheios, que um polícia de trânsito tenta, com dificuldade, controlar. Passo junto à grande Mesquita de Hussein, onde a voz dos pregadores difundida pelos altifalantes, como um rumor vindo do além, se confunde com as vozes dos vendedores de café e de sumos que atravessam a rua em passos suicidários fintando o trânsito, e com as vozes dos vendedores que se misturam entre as bancadas de azeitonas, especiarias, beringelas, cerejas, magníficos vestidos beduínos, lenços, panos de seda, objectos e artefactos utilitários e outras bagatelas de toda a espécie. Apesar do aparente caos reinante caminha-se por aqui em segurança sob o olhar condescendente e os gestos cordiais da população. Finalmente atingido pelo sol insuportável do meio da tarde, partilho um taxi com um refugiado iraquiano e regresso à outra Amman, ordenada, limpa, endinheirada, onde se encontra o meu hotel.

P.S. Para que conste, regressei ontem Portugal, após a tentada e conseguida escapadela de Amã a Damasco.

27 de junho de 2007

Estrada de Damasco


Talvez por em Doutor Pasavento também ter frequentado a rue Vaneau, em Paris, onde «no [número] 20, se encontra a embaixada da Síria», quase sem dar por isso fui entrando em contacto com aquele país. Seria essa a «silenciosa ameaça», que pairava naquela rua como alguem avisou Vila-Matas? O que é certo é que desde a leitura de Pasavento, a Síria começou a insinuar-se nos meus dias sem que eu fizesse nada por isso. Muito menos imaginava que, algum tempo depois da invocação síria deVila-Matas, estaria a telefonar para o mesmo número 20 da rue Vaneau, para obter informações sobre vistos de entrada na Síria. E que sabia eu da Síria, antes? Como Pasavento sabia «apenas que a capital era Damasco, tinha-o aprendido na escola. E mais alguma coisa? Embora não conhecesse o seu nome, sabia como era fisicamente o presidente da Síria, tinha observado nas fotografias que usava bigode, era bastante alto e costumava vestir-se ao estilo ocidental. Mas era tudo o que sabia sobre a Síria» (pág.23). A isto acrescentaria eu, ainda, a guerra com Israel pela posse dos Montes Golã, conspirações contra o Líbano, a acusação americana de integrar um certo «eixo do mal» e outros episódios fronteiriços recentes. Depois, fui-me lembrando que por lá corria esse rio antigo, o Eufrates, em cujas margens nasceu a História; que as pedras romanas de Bosra e Palmiria lá permanecem para gáudio dos turistas, e que nas areias do deserto se erguem ruínas indecisas de castelos e igrejas mandadas eregir pelos cruzados, o mesmo deserto de pedras de sílex tantas vezes atravessado por T. E. Lawrence, com promessas de liberdade para os Árabes; que a Rota da Seda, vinda dos confins da China, atravessara o seu território até aos portos do Mediterrâneo onde navios de velas brancas esperavam as caravanas de camelos; que nos souks e ruelas de Alepo, onde abandonamos o corpo e a alma, ainda sopra o mesmo movimento de outrora . E que Damasco, com as suas madrassas, os seus palácios das mil e uma noites, a grande mesquita dos Omeyyadas,  foi  descrita, no século XII, pelo viajante Ibn Jubayr, como o «paraíso do Oriente».

Era esta Síria que, sem dar por isso, começara a cair nos meus dias, como que a preparar um certo terreno propício a uma certa decisão que eu próprio ignorava ainda. E, no entanto, havia outros outros acasos que prenunciavam, senão a ameaça síria, pelo menos uma intromissão árabe. Primeiro, através dos trilhos de Paul Bowles e, logo depois, de Albert Cossery, que me levaram desde Tânger, atravessando o Sahara, até às ruelas pobres da vagabundagem infatigável do Cairo dos anos 40. Sim, também o livro de Elias Canetti, Maraquexe, que comprei na Feira do Livro. E que dizer do meu interesse súbito por Adónis, o poeta rebelde sírio-libanês que comecei a ler depois da minha experiência na rue Vaneau» - e que ousou declarar que «o véu não cobre apenas o rosto, recobre também o cérebro»? Não se poderia ver aí outro sinal, ainda que os versos generosos de Adónis não colham a simpatia da Síria? Ou no livro de Pietro Citati, Israel e o Islão: as centelhas de Deus [Cotovia, 2005] - que estou a ler - e que fala do feérico reino de Salomão, da moldura das Mil e Uma Noites - cujo códice mais antigo que se conhece provém, precisamente, da Síria - com os seus califas, vizires, mercadores, as suas geografias fantásticas; que ilumina a Palavra dos Pássaros, do poeta Farid al-Din Attar que viveu na Pérsia, no século XII; e que, sobretudo, evoca a utopia de aproximação do reino de Adão ao reino de Salomão que sucessivos fundamentalismos, cristãos, judaicos e islâmicos enterraram, como diz Adónis, na «poeira de tinta vermelha» do deserto?

Só depois desta série de acasos é que irrompeu Amã em forma convite para uma reunião. E, no imediato, não pensei na Síria. A ideia seria permanecer uma semana na Jordânia, ir até Jerash e depois até ao Sul, a Petra, claro, e talvez a Wadi Rum seguindo o trilho de Lawrence da Arábia.

Por isso, eis-me agora numa Amã, aparentemente muito ocidentalizada, mas onde me "aproximei" esta tarde da estrada de Damasco, vagabundeando no caótico souk de Al-Balad, ladeado pela mancha branca do calcário das casas que descem as colinas e sempre acompanhado pela música das vozes que se misturam entre as bancadas de azeitonas, sumos, beringelas, cerejas, especiarias, panos de seda e outras bagatelas de toda a espécie.

Nao sei ainda se esta será mesmo a estrada de Damasco, pois a ideia é fazer uma escapadela de dois dias (dependerá do visto a pedir na fronteira). Entretanto, espera-me o Mar Morto e Petra de todas as cores, rosa, vermelha, verde, amarela e azul. Nomadismos.

26 de junho de 2007

Elogio da preguiça


Saint-Germain-des-Près foi para mim, durante os dois anos que vivi em Paris, o meu bairro artúrico [como a rua imaginada e percorrida por Rimbaud que, no final do seu trajecto, dava para o fim do mundo:«só pode ser o fim do mundo se avançarmos»], onde se concentrava toda uma mitografia que levei comigo, sedimentada nos lugares imaginados da minha atracção parisiense.

Neste bairro, que naquele tempo me foi oferecido como um pequeno território secreto, tracei com passos repetidos uma cartografia pessoal feita de ruas estreitas, passagens cobertas, pequenas livrarias, galerias de arte, estúdios de cinema, cafés, um mercado de rua, pequenos jardins... Era ainda o tempo em que, por exemplo, ao virar de uma esquina, podíamos encontrar os filhos do mundo que sonharam viver em Paris. 

Naquele tempo, era possível, invariavelmente depois 14h30, hora a que fechavam as agências de emprego, cruzarmo-nos com Albert Cossery, o escritor egípcio que nos anos quarenta aqui desembarcara com pouco dinheiro e tendo como única bagagem uma selecção de contos, Os homens esquecidos de Deus, que Henry Miller acabava de publicar nos Estados Unidos e que o editor Edmond Charlot pretendia publicar em França. Não trazia outra ambição que não fosse a de escrever um livro de oito em oito anos, à média de uma frase por semana. Na rua de Seine, que começa perpendicular à rua de Saint Sulpice e desce até ao quai Malaquais, no quarto 58 do hotel La Louisiane cujas janelas davam sobre uma mercearia - frequentado na época por Gréco, Sartre, Beauvoir, Mouloudji... -, escolheu Cossery o seu único lugar de escrita, o espelho perfeito de alguém que apenas pretendeu gozar a vida, o reflexo de uma obra que elegeu o dandismo indolente como processo de reflexão permanente, povoada por mendigos filósofos, ladrões magníficos e preguiçosos impenitentes. 

Como Gohar, Gala ou Ossama, as suas personagens  rebeldes que cultivam a pobreza para não ter nada a perder, Cossery baniu da sua existência os bens mundanos e elegeu a preguiça como arte de vida e instrumento de resistência contra a vanidade dos seus contemporâneos: «Se eu tivesse guardado tudo o que me ofereceram, seria milionário. Quando Giacometti me dava um quadro, ele sabia que eu o venderia no dia seguinte. Isso permitia-me viver durante algum tempo». Porque um quarto de hotel não é uma casa, só ali, sem casa nem carro a atestar a sua presença sobre a terra - apenas alguns livros de Dostoievski, Nietzsche, Stendhal, Baudelaire, Rimbaud, Thomas Mann... - Cossery se sentia livre, praticando a indolência e a meditação que os seus livros celebram. «Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir. E é por isso que, no Oriente, isso se designa por filosofia oriental... A maior parte das pessoas tem tempo. Quanto mais se desce para sul, mais encontramos profetas, magos, pessoas que reflectiram sobre o mundo». E foi aí, nesse pequeno quarto de hotel na rua de Seine, que Cossery, iluminado pela gaia ciência de Nietzsche, escreveu com toda a ternura do mundo sobre as misérias insondáveis das vielas do Cairo, nos anos quarenta, cinquenta. Embora nunca mais tenha regressado ao Egipto - «O Egipto nunca me deixou» -reinventou-o mais verdadeiro que o verdadeiro, com os seus mendigos e altivos, desesperadamente pobres, preguiçosos e indolentes.

Terá sido em Paris que, talvez, me tenha cruzado um dia com este elegante profeta da contemplação, transportado dos cafés árabes do Cairo, onde a vida corria livremente, temperada com um pouco de haxixe. Claro que nos meus dias de Paris, Saint Germain já não era o que fora nos anos brasa de Cossery, embora a brasserie Lipp e todos os outros locais frequentados por Cossery ainda lá estivessem. Mas estava menos Cossery e, sobretudo, já não estavam os seus amigos, Camus, Genet, Louis Guillouxx, Mastroianni, Ferreri. Imaginei-o aí instalado com a sua corte, em frente dos azulejos do pai de Paul Fargue. Ou, no outro lado do boulevard, no Café de Flore. Ou sentado numa cadeira no Jardim do Luxembourg, observando a única coisa de que a sua língua viperina não poderia dizer mal, as árvores: «Eu não gosto do campo. Não posso dizer mal das árvores». 

Mas foi no Café de Flore, onde o procurei algumas vezes e por ironia nunca o encontrei que melhor o imaginei.  Nos anos oitenta, o Flore já tinha sido colonizado por uma fauna de turistas literatos nostálgicos que perscrutavam ansiosamente a mesa onde Sartre escreveu A náusea ou o canto onde Roland Barthes se refugiava a ler o Le Monde. Poucos procuravam a sombra de Cossery cuja existência ignoravam, e muito menos o seu estatuto de escritor deslocado, marcado pela heráldica do desapego e da indolência, e tão fora da gesticulação literária e mundana. Mas a mim, fascinava-me imaginar no meio da clientela extravagante alheia ao literário, a figura aristocrática de Cossery, contemplando a rua através da esplanada envidraçada do café, talvez meditando sobre o seu último livro que publicaria em 1999, As cores da infâmia, em que continuaria a denunciar implacavelmente «a  face ignóbil e grotesca dos poderosos da terra», o que levou Henry Miller a afirmar que a sua obra era «uma surpresa total. É o género de livros que precedem as revoluções e engendra a revolução, se é que as palavras possuem algum poder». Para mim que, recentemente, li quase de seguida alguns dos livros de Cossery [Mendigos e altivos, Mandriões do vale fértil, A violência e o escárnio, Uma conjura de saltimbancos, Os homens esquecidos de Deus, Uma ambição no deserto, As cores da infâmia, todos editados pela Antígona], as suas palavras sobre a gesta dos anti-heróis das ruas do Cairo, continuam a sinalizar as paragens do meu itinerário de leitura. Isto porque, tal como Ahmed Safra, o condutor de eléctricos de A casa da morte certa, que só se detinha nas paragens que lhe apetecia, também eu só me detenho em livros embebidos na tinta da vida e, por isso, capazes de agitar o pensamento.

20 de junho de 2007

A retórica do eclipse

Sou o Doutor Pasavento, assim se apresentou Enrique Vila-Matas, na Póvoa de Varzim/Correntes d´Escrita. Mas em qual Pasavento encarnou o escritor que ao longo do texto parece fundir-se em múltiplos sujeitos - Pasavento, Ingravallo, Pynchon - num processo narrativo em que o sujeito não é mais do que uma construção temporal e a identidade algo que o autor constrói e destrói permanentemente: havia tantos Pasaventos em palco que seria impossível localizar-me, perder-me-ia entre eles (pág. 273). Ou evocando, ainda, a construção heteronímica de Pessoa, também ele um escritor desaparecido de si próprio que reaparece, depois, multiplicado, nas suas máscaras. Trata-se de um processo narrativo que recorre a uma espécie de hipertextualidade circular em que a ocasionalidade de um encontro, por insignificante que seja, combina-se com o seguinte numa espécie de vasos comunicantes invisíveis, que interligam realidade e ficção que aqui não são mais entidades diferenciadas. De encontro em encontro, tal como Pessoa, também o meta-narrador-autor do Doutor Pasavento se desdobra em várias personalidades, vários lugares - Madrid, Sevilha, Nápoles e a fictícia Lokunowo -, para regressar sempre à enigmática rua Vaneau, em Paris, onde viveu Marx, e onde se cruza com outro escritor português, António Lobo Antunes, sem nunca, contudo, trocar a sua profissão de psiquiatra e vago escritor, mas inventando-lhes outras genealogias. Neste projecto de desaparecimento, enquanto o escritor ortónimo se desvanece, outros Pasaventos emergem  projectando as múltiplas personalidades de Vila-Matas (como ele próprio o confessaria em entrevista publicada recentemente no Notícias Magazine), sejam autobiográficas sejam ficcionais, reconstruídas, isto é, afectadas pelo seu labor literário. E por trágica ironia do destino, não viria, o próprio Vila-Matas, a estar quase a desaparecer por motivo de doença - o que levaria ao extremo a sua identificação enquanto autor com as suas personagens, vítimas do síndroma de Bartebly -, para renascer, diferente, noutro Vila-Matas herdeiro do Doutor Pasavento, como o próprio viria a confessar?


O personagem de Vila-Matas empreenderá uma viagem metaliterária de ocultação, hesitando constantemente entre o desejo de ser esquecido e a resistência a sê-lo. Se em Montaigne - que inventou o ensaio, esse género literário que, com o tempo, acabaria por se ligar à construção da subjectividade moderna -, convocado logo no início do livro, como que a querer afirmar outra dissolução - a do romance no ensaio -, o objectivo era o desejo de construção da sua identidade através do ensaio, pelo contrário, o que fascina em Pasavento é esse projecto inverso de desaparecimento do sujeito através da escrita, traduzido no acto de escrever a lápis como processo de apagamento progressivo da própria identidade: De repente, decidi que devia deixar-me de rodeios e desaparecer eu mesmo. Só que Pasavento experimenta uma contradição insanável ao afirmar que na história da desaparição do sujeito moderno, a paixão por desaparecer é ao mesmo tempo um desejo de afirmação do eu. Por isso, o escritor-psiquiatra debater-se-á no paradoxo insolúvel de estar e não estar sempre em cena. Donde vem essa tua paixão por desapareceres? É a pergunta repetida que institui o tema desta espécie de meta-romance-ensaio reinventado por Laurence Sterne a partir de Montaigne: Sterne fascinava-me, com esse romance que quase não parecia um romance mas sim um ensaio sobre a vida, um ensaio tecido com um fio ténue de narração, cheio de monólogos onde as recordações reais ocupavam muitas vezes o lugar dos acontecimentos fingidos, imaginados ou inventados.


Assim enuncia o autor, logo nas primeiras páginas do texto, o seu propósito moral, o desaparecimento, e o método literário a seguir, o meta- romance-ensaio. Paradoxalmente, vamos, contudo, percebendo que o discurso do apagamento do sujeito encerra, afinal, uma tentativa de afirmação do autor através da literatura, cuja essência é escapar a qualquer vontade de estabilização e de controlo. Neste exercício de montagem literária, portanto, em que se convoca a figura ficcional do eclipse do sujeito, levada ao extremo de reflectir, a partir de Maurice Blanchot, sobre o desaparecimento da própria literatura, ou sobre o grau zero do autor - que existiria apenas no universo da criação literária, isto é, sem biografia, nem reconhecimento -, o que Vila-Matas procura, afinal, é fugir, como se verá adiante, ao controlo institucional e mundano sobre si próprio enquanto autor. Ironicamente, a Doutor Pasavento seria atribuído o Prémio para o Melhor Romance publicado em Espanha em 2006 e o Prémio da Real Academia Espanhola, não escapando assim, o seu autor, a todas as mundanidades que acompanham esse reconhecimento.: Escrever para ser sobretudo fotografado, amargo destino (pág. 61). Logo, a ocultação como projecto impossível, porque, independentemente da vontade, a literatura convoca sempre a figura do autor,  sobretudo quando este utiliza a subjectividade ensaística que recusa a neutralidade aparente da terceira pessoa, como é o caso neste meta-romance-ensaio de contornos biográficos, o que, ainda, o torna mais paradoxal, face ao projecto de desaparecimento anunciado e enunciado desde as primeiras páginas e para o qual são chamados como referências literárias, sobretudo Robert Walser e W.G. Sebald, autores que remetem para uma espécie de poética da extinção, da consternação do escritor ao ver que tudo à sua volta se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História se desvanece.


Esta afectação ficcional, mesmo que confundida com a realidade, evoca, então, uma outra figura pessoana, a do fingimento, o que nos conduz a outra pergunta: será que este eclipse vilamatiano não é mais do que um fingimento para que o autor possa fechar a sua trilogia metaliterária (O mal de Montano, Bartebly & Companhia e Doutor Pasavento) onde reflecte sobre os mecanismos da criação literária através de um escrita culta, lúdica e irónica, em que partilha com Borges essa busca do leitor inteligente e cúmplice para quem a literatura é algo que não se encerra na teoria dos géneros?


E porque ligar essa reflexão metaliterária à ocultação do sujeito no manicómio? O que atrai Pasavento ao manicómio de Herisau, a sua Patagónia pessoal? E a outros manicómios? Primeiro, na evocação do hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, onde António Lobo Antunes escreve em formulários de prescrição médica; depois, no lar para loucos em Nápoles, onde Morante escreve microtextos; e, finalmente, em Herisau. Com uma frase de Robert Walser, internado no manicómio de Herisau, Pasavento constrói o microtexto mais curto da história da literatura: não estou aqui para escrever, mas para enlouquecer. É que este romance-ensaio é também uma contínua reflexão sobre a loucura como forma de desaparecimento, sobre a relação entre a loucura e a criação artística e, como afirmou Canetti, como fuga possível para os escritores cansados de habitar esse circo de vaidades e vanidades que é muitas vezes a mundanidade literária, confirmada por Pasavento ao afirmar que Robert Walser não estava louco, mas que simplesmente tinha decidido viver tranquilo no manicómio, imitando a mesma escolha dos supostamente loucos Holderlin, Nietzsche, Artaud que não o eram, mas sim excêntricos discursos literários que escolheram um modo de se comunicar pouco comum, mais lúcido provavelmente (pág. 181). O que é, então, o manicómio para Pasavento? Enquanto refúgio evoca a concepção de manicómio de Foucault como simulacro do mundo exterior e, ao mesmo tempo, do louco como autor consciente do seu próprio desaparecimento de um mundo irracional que tende a asfixiá-lo. Daí, o desejo de desaparecer, eclipsar-se para não ter que viver no meio das desesperantes intrigas do mundo literário. 


No final, fica um meta-romance-ensaio onde se respira a mesma ironia shandiana dos livros anteriores de Vila-Matas, agora utilizando um estilo mais sóbrio, menos impertinente, através do qual reflecte sobre a desconstrução do autor, concluindo a sua trilogia metaliterária, e ao mesmo tempo, nos convida a viajar, seja ao fim do mundo, a uma Patagónia imaginada, seja às regiões inferiores de Robert Walser, que escrevia a lápis para estar mais perto do desaparecimento, do eclipse (pág. 14), de Emmanuel Bove, que parecia estar sempre à espera que o esquecessem (pág. 339), de Thomas Pynchon, que se esconde em Nova Iorque (pág. 353), de Kafka, que queria era continuar a existir sem ser incomodado (pág. 271), de Salinger, o escritor que vive em paz, oculto (pág. 61), de W. G. Sebald, para quem o desaparecimento sempre existiu (pág. 40), de Joseph Roth, que narra a viagem de errática de um desaparecido (pág. 80), na sua própria viagem de ocultação enquanto autor.

18 de junho de 2007

Fascismo de entretenimento




«Há uma organização terrorista europeia, sedeada na Holanda e que actua a coberto do disfarce de produção de conteúdos televisivos. Chama-se Endemol, foi fundada por um holandês, comprada pela Telefonica espanhola e acaba de ser vendida ao muito recomendável senhor Berlusconi», denunciava há duas semanas, com a agudeza crítica que se lhe reconhece, Miguel Sousa Tavares, na sua crónica no Expresso . E fundamentava: «com um catálogo sempre renovável de programas televisivos todos inspirados nos vícios, nas fraquezas e nas misérias humanas, é difícil imaginar alguma organização ou ideologia que, por si só, tenha conseguido causar maiores danos à cultura, à educação e à formação cívica dos povos europeus do que esta sinistra Endemol».

A oportuna denuncia de MST incita-me a reflectir sobre o papel da televisão enquanto estratégia de manipulação do pensamento, perseguindo objectivos inconfessáveis de substituição da experiência do mundo por simulacros da realidade extraídos de uma imanência alienada e pervertida, em que é a próprio «estado do mundo como jogo permanente» que se confunde já com o modo como a televisão nos dá a ver o mundo. Ou «a vida como televisão», como escrevia Eduardo Lourenço no último JL. E se no princípio era a «principialidade das imagens» [Eduardo Prado Coelho] em movimento, hoje essa luz original apagou-se, arrastando o telespectador no torvelinho indiferenciado e indiferente das imagens pelas imagens, já sem ligação com as palavras, elas próprias transformadas em imagens de uma sociedade infinitamente anónima transportada dia e noite para o desaconchego das nossas casas.  Que diria Kafka sobre televisão, se sobre o cinema já dizia que aí nunca é o olhar que escolhe as imagens, mas que são elas quem escolhe o olhar?

Hoje, em televisão, pelo menos numa certa televisão que tem vindo a colonizar o espaço televisivo europeu e, claro está, e muito, também Portugal, tudo vale para aumentar as audiências, sobretudo se nesse vórtice de lixo televisivo se afundar qualquer hipótese de cultura, de educação, de ética. A programação televisiva lê na mesma cartilha do capitalismo pós-moderno, cujo dado principal já não é a Terra girar à volta do Sol, mas o dinheiro girar à volta da Terra, como afirma Peter Sloterdijk, um filósofo alemão de estirpe nietzchiana. E neste vórtice televisivo que tudo arrasta na procura do lucro, parece que com programas como os da Endemol é a própria televisão que enlouqueceu, não deixando lugar àquilo que ela poderia ser em termos de entretenimento inteligente, antes procurando a obscenidade do espectador. 

Longe vão os anos em que Karl Kraus proclamava que o «jornalismo come o pensamento». E, no entanto, essa visão aplicada aos media de hoje parece mais actual do que nunca. Tanto assim que a questão do funcionamento dos media tem vindo a ocupar um lugar central no empreendimento filosófico de Sloterdijk, comparando-os a uma versão contemporânea da arena romana e, logo, reponsáveis por aquilo a que ele chama de «fascismo de entretenimento». Os noticiários, quase todos idênticos, e logo sem atributos que os diferenciem, caíram na imanência do quotidiano filtrado pela máquina televisiva, do qual não conseguem nunca distanciar-se reflexivamente, antes preferindo promover a vulgaridade opinativa, o escândalo obsoleto, o ruído informativo em lugar da realidade autêntica, por exemplo a da miséria inamovível do mundo continuamente sublimada pelo seu tratamento «espectacular». 

De fora fica quase sempre a pedagogia informativa que devia ser a razão dos noticiários. E, sobretudo, o «sentido da possibilidade» aberta aos muitos mundos do mundo, prometida pela luz inicial, mas que, hoje, só talvez a literatura poderá ainda proclamar. E mesmo aqueles programas que se apresentam vestidos com uma roupagem de maior seriedade, mais não fazem do que celebrar um tempo cada vez mais cheio das mesmas «qualidades» [daí a actualidade desse extraordinário romance-ensaio de Robert Musil, O homem sem qualidades, que a Dom Quixote prometeu reeditar este ano] que há muito tempo Walter Benjamin exorcizou. 

Quanto ao entretenimento, exceptuando alguma nova serialidade televisiva, um filme ou outro fora de horas e intervalado por longos momentos de publicidade invasiva, somos arrastados num mesmo vórtice de telenovelas e de reality shows  que encenam a trivialidade bacoca de um quotidiano de indivíduos anónimos temporariamente promovidos ao estrelato de ficção. Ou pior ainda, promovem uma descida ao Maelstrom da indignidade com programas como os produzidos pela Endemol. A mais recente indignidade desta «Al-Qaeda televisiva» como lhe chama MST, é o novo programa em que doentes terminais fazem doacções de órgãos em directo a outros doentes que vão entre si disputar os fígados ou os rins de que precisam para sobreviver.

Dir-se-á que sempre podemos escolher entre o que nos é oferecido. Talvez. E muitos de nós escolhem, quanto mais não seja apagando o televisor. Mas, e a maioria que é incitada (ou excitada) pela máquina televisiva, não será mais escolhida do que escolhedora? Já em 1928, Heinrich Mann escrevia que «é possível habituar todas as grandes massas ao kitsch. E depois é fácil afirmar que elas não entendem nem querem mais nada». Dizer que as massas apenas respondem às luzes incandescentes do divertimento bacoco e daí baixar cada vez mais os padrões de qualidade na programação televisiva é um sofisma perverso. Por isso, o dever de regulação, no respeito pela inteligência, contra a devassa e a iniquidade televisivas, e pela restauração da aura que esmorece perante o influxo de luz incandescente do ecrã caseiro.

13 de junho de 2007

Bartebly ou o eclipse da palavra


«Escrever poesia depois de Auchswitz é bárbaro», afirmou Adorno. E Paul Celan, que viveu em carne viva a experiência do extermínio, repetiu até à própria laceração de si mesmo, até ao emudecimento total, a mesma promessa angustiante: «Se viesse, / se viesse um homem / se viesse um homem ao mundo, hoje, com / a barba de luz dos / patriarcas: só poderia, / se falasse deste tempo, só / poderia balbuciar, balbuciar / sempre sempre / só só». Caídos neste torvelinho de terrível impotência, num tempo de silêncio e destruição, a que Hanna Arendt chamou a «banalidade do mal», escritores houve que sucumbiram à derrocada da razão e da linguagem, calando a sua fala, negando-se a escrever, abraçando o silêncio depois de ter proferido palavras de um modo que anunciava a promessa de novas palavras, como um rio que de repente tivesse secado deixando apenas no leito pedregoso a nostalgia do nunca mais dito. Como se escrever, acrescentar mais alguma semântica à desordem do mundo, mais não fizesse do que aumentar a catástrofe.

Hoffmansthal abriu o vertiginoso século XX mostrando o seu próprio desconcerto face à impossibilidade da comunicação através da escrita, prometendo na sua Carta de Lord Chandos, em 1902, nunca mais escrever. Kafka alude, depois, à impossibilidade da literatura, sobretudo nos seus Diários. Borges cita o poeta argentino Enrique Banchs, de quem diz: «Na cidade de Buenos Aires, em 1911, Enrique Banchs publica La urna, o melhor dos seus livros, e um dos melhores da literatura argentina: depois, misteriosamente, emudece. Há vinte e cinco anos que emudeceu». Seriam, afinal, cinquenta e sete anos. E essa mesma experiência de impotência e renúncia, desencanto e ocultação é sucessivamente reiterada ao longo do século por escritores com medo de existir diante da anormalidade da escrita: Robert Walser, Robert Musil, Bruno Schulz, Juan Rulfo, J. D. Salinger, Henri Roth... Tal como os seus antepassados Hölderlin, Joseph Joubert, Rimbaud. Rimbaud cuja insensata santidade o levou a pronunciar o mais belo manifesto de vida: «sobretudo fumar, beber licores fortes como o metal fundido» e, com uma singular precocidade, a escrever toda a sua obra até aos dezanove anos para depois partir para a aventura abissínia.

A interrupção da escrita, o silêncio, a renúncia da palavra de «um sector importante da literatura ocidental moderna», eis o que rastreia Enrique Vila-Matas em Bartleby & Companhia [Assírio & Alvim, 2001], uma espécie de catálogo de instantes fulgurantes dessa «pulsão negativa ou atracção pelo nada que faz com que certos criadores [...] renunciem à escrita [...] e fiquem, um dia, literalmente paralizados para sempre». Tendo como base Bartleby, o escriturário - o personagem do conto de Herman Melville - que, quando alguém pretendia encarregá-lo de alguma tarefa, respondia invariavelmente «Preferia não o fazer» - espécie formulação não exaltante na negatividade moderna -, Vila-Matas oferece-nos um caderno de notas de pé de página, «notas sem texto», como ele lhe chama, sobre o síndroma de Bartebly, esse «mal endémico das letras contemporâneas», uma espécie de fresco onde se respira um humor shandiano cuja principal virtude é a de avivar-nos a memória e o desejo de revisitar as paisagens literárias que vai povoando e seguir no rasto de Rimbaud, Walser, Roth e tantos outros escritores que formam a nossa biblioteca obscura.

Entretanto, se alguém quiser adentrar-se mais no significado desta renúncia bartlebyana deverá visitar os ensaios de Giorgio Agamben [Bartebly o della contigenza, Macerata, 1993] ou Gilles Deleuse ["Bartleby ou la formule", in Critique et Clinique, Les Éditions de Minuit, Paris, 1993].