Por analogia com o seu homónimo que procurava o desaparecimento, o eclipse, este Walser [O Senhor Walser, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2006] é mais dado ao recato que os primeiros povoadores do Bairro. Por isso, manda construir a sua casa «a uns bons quilómetros do bairro mais próximo», no que se assemelha ao Walser-outro, também ele instalado numa casa nos arredores de Herisau, durante vinte e oito anos, apenas saindo, aos domingos, para dar longos passeios no bosque circundante, com o seu amigo e editor Carl Seeling. Eis, agora, então, o Senhor Walser, na sua nova casa: «Mal se abre a porta de sua casa — sente ele — entra-se noutro mundo. Como se não fosse apenas um movimento físico no espaço — dois passos que se dão — mas também uma deslocação — bem mais intensa — no tempo. [...] Quando fechava a porta atrás de si, Walser sentia virar as costas à inumana bestialidade (de que saíra, é certo, há biliões de anos atrás, um ser dotado de uma inteligência invulgar — esse construtor solitário que era o Homem) e entrar em cheio nos efeitos que essa ruptura entre a humanidade e a restante natureza provocara; uma casa no meio da floresta, eis uma conquista da racionalidade absoluta” (p. 13). Todo o seu mundo está agora ali dentro daquela casa, fora do mundo, onde a «racionalidade absoluta» tudo incorpora. Por isso, Walser, ao contrário dos outros senhores, não se enreda em pensamentos, em raciocínios que desembocam quase sempre no absurdo. E a sua ingenuidade não o leva a agir, mesmo quando o mundo exterior invade a sua casa contra a «racionalidade absoluta» ou por causa dela. Mesmo nessa situação, limita-se a esperar e a ter expectativas. «Não estou aqui para escrever, mas para enlouquecer», escreveu Robert Walser no mais curto micrograma de sempre. «Não estou aqui para agir, mas para ter expectativas», escreveria o Senhor Walser se fosse dado à escrita.
9 de agosto de 2007
No Bairro portátil do senhor Tavares (III): licores fortes
Agora a taberna. O Senhor Henri [Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2003]. O absinto. O álcool como estímulo, fonte de inspiração literária. Pessoa bebendo um copo de aguardente no Abel Pereira da Fonseca. O vinho de Goethe. A tequilla de Malcolm Lowry. O whisky de José Cardoso Pires. «É preciso estar absolutamente bêbado», declarou Baudelaire. E Rimbaud que dizia «sobretudo, beber licores fortes como metal fundido». E Kafka que escreveu um Colóquio do Bêbado. Mas, hoje, parece, os escritores já não bebem. Já não se embriagam. Passam ao lado dos paraísos artificiais. E disso, ressente-se a literatura. Vai um copo de absinto? «Énivrez-vous!»
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No Bairro portátil do senhor Tavares (II): contra a filosofia
As historietas protagonizadas pelos inquilinos do Bairro parecem apropriadas para crianças. E são. Para as crianças que ocultamos em nós. Mas são mais do que isso se acreditarmos, como Paul Valéry, que o «infinito é bem pouca coisa; é uma questão de escrita [e que] o universo só existe no papel». Em O Senhor Valéry [Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2002], talvez seja possível descortinar uma genealogia de escritores e filósofos lidos pelo Valéry homónimo. Talvez Diderot. Seguramente Wittgenstein (que virá ainda, segundo desvenda o autor, habitar o bairro) também lido pelo nosso Bernardo Soares de quem se aproxima através da «estética do movimento». E, no outro lado do espelho, isto é, colorindo as entrelinhas do texto, o mundo fantasioso de Lewis Carrol (também, consta, com contrato-promessa já assinado para vir morar no bairro). Ao mesmo tempo convoca o cinegrafismo de Buster Keaton e a esperteza saloia de Jacques Tati. E, claro, retraça Paul Valéry ele-mesmo que se interrogava: «como não arredondar, colorir, procurar tornar [tudo] mais nítido, mais perturbador, mais íntimo? [...] Em literatura o verdadeiro não é concebível». Não é isso que também persegue o Senhor Valéry?
Em comum, estes senhores, duais na aparência e volúveis nos comportamentos, que vão sendo reagrupados no Bairro por Gonçalo M. Tavares, nutrem todos uma certa desconfiança pela filosofia e praticam a exaltação das expressões literárias expeditas. O que me faz pensar existir aqui uma conjura portátil vagamente shandiana.
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1 de agosto de 2007
No Bairro portátil do senhor Tavares (I): povoamento
Enrique Vila-Matas diz que se trata de «um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário que jamais arderá». Por isso, ao entardecer, decido-me passear, sem mapa, a partir da Baixa em direcção ao Chiado, observando a geométrica distribuição das ruas, os letreiros das lojas, o vendedor de castanhas, alheio à certeza de Pessoa já não andar por ali. «Amanhã» - escreveu - «também eu desaparecerei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros, sim, também eu amanhã serei aquele que deixou de passar por estas ruas, aquele que outros vagamente evocaram com um que terá sido feito dele. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte menos no quotidiano das ruas de uma qualquer cidade».
Mas se Pessoa já não anda por ali, anda agora Gonçalo M. Tavares, o escritor-povoador que vai desfiando nas intricadas ruas e pracetas bairro uma conjura portátil de escritores duplicados, volúveis e insolentes que formam, talvez, a sua genealogia literária. «E se um dia um viajante» - como diria Calvino - se perdesse na geometria caótica destas ruas que se bifurcam levando a um bairro onde se encontra a multiplicidade de possíveis que subtraem o bairro a qualquer tentativa de controlo racional e normalizador da matéria literária? É o que me disponho a fazer neste segundo entardecer lisboeta em que vou no encalço desta genealogia gráfico-literária que elogia a expressão breve e expedito da linguagem.
E em que geneologia se funda o povoamento do Bairro? Até porque o propósito do seu escritor-povoador será, talvez, declinar essa genealogia em personagens de estorietas que não escreveram, tornando-se pela sua própria natureza de «personagens de papel», sem biografia, portanto, que não seja a que é atribuída à sua nova condição ficcional, quem melhor poderá escapar a qualquer tentativa de explicação hermenêutica. Este,então, o bairro portátil [O Senhor Valéry (2002); O Senhor Henri (2003); O Senhor Brecht (2004); O Senhor Juaroz (2004); O Senhor Kraus (2005); O Senhor Calvino (2005); O Senhor Walser (2006) (Caminho)] que Gonçalo M. Tavares vem projectando, construindo e povoando como um empreendimento literário-imobiliário que visa a dessacralização da figura do autor, declinada na condição duplicada dos sete primeiros condóminos. E numa arquitectura literária que recorre a um subtil mimetismo temático-estilístico capaz de retraçar fugazmente figuras da sua genealogia literária, reinventando a possibilidade de multiplicação dos possíveis que escapam à coacção da figura do autor, perseguindo, assim, uma história pessoal ficcionada e abreviada da literatura portátil.
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27 de julho de 2007
Anjos caídos
A imagem que guardo de Beirute é a que me é oferecida pelo fotógrafo americano Spencer Platt que, em 15 de Agosto de 2006, primeiro dia do cessar-fogo no conflito entre o Hesbollah e Israel, fotografou o regresso a casa de milhares de libaneses. Um descapotável vermelho, impecável, com quatro jovens vestidos com roupas ocidentais, passando lentamente num cenário de destruição e ruína. «Demasiados edifícios ruíram, amontoou-se demasiado entulho, são intransponíveis os sedimentos», diria, talvez, W. G. Sebald se pudesse ver esta fotografia.
Mas Sebald já cá não está, e por isso, nada dirá do descapotável vermelho avançando num cenário de fachadas e paredes calcinadas como se liberto do lastro de tragédia dos dias que passaram planasse agora num campo de ruínas. Nem dos rostos bonitos, das peles bronzeadas, da pose altiva da rapariga ao lado do condutor, espécie de anjo caído entre destroços. E toda a aura desta fotografia está nessa descontinuidade esplendorosa.
Quando há semanas estive perto da fronteira sírio-libanesa e me senti tentado a seguir pela estrada de Beirute confiando nas notícias dos que faziam o caminho inverso, era esta a imagem que eu guardava da cidade. Uma cidade em ruínas, mas pronta para todos os recomeços. Anjos pairando numa pausa da guerra. Há nesta fotografia uma espontaneidade prosaica, acidental, cujo efeito imediato é o de uma espécie de «congelamento» do real, de apaziguamento da violência, colando-se ao próprio referente, como se fosse este a «aderir» à fotografia e não o contrário [Roland Barthes, A Câmara Clara]. Trata-se aqui daquilo a que José Gil chama uma «imagem-nua», cuja descontinuidade temática a esvazia de todo o mimetismo, ganhando «uma existência em si, [que] já não circula como um simples reflexo, circula na experiência» [Roland Barthes, ibidem].
Ocorre-me, então, a antiga figura retórica da hipotipose que Kant definiu como «apresentação» [Crítica da Faculdade do Juízo]. Melhor seria dizer, talvez, «presentação» [como o francês «monstration», pois trata-se de mostrar marcas, traços, vestígios sob a aparência, isto é, em sentido literal, «pôr debaixo dos olhos» aquilo que, muitas vezes, só nos chega através do filtro das agências noticiosas. [«L´hypotypose est cette figure, telle que nous la trouvons dans la Rhétorique à Herennius, qui expose les choses d úne manière telle que l´affaire semble se dérouler et la chose se passer sous nos yeux» (Quintiliano, Retórica - ad Herennius -, livro IV, 68, cit por João Barrento, in Escrito a lápis].
Mas Sebald já cá não está, e por isso, nada dirá do descapotável vermelho avançando num cenário de fachadas e paredes calcinadas como se liberto do lastro de tragédia dos dias que passaram planasse agora num campo de ruínas. Nem dos rostos bonitos, das peles bronzeadas, da pose altiva da rapariga ao lado do condutor, espécie de anjo caído entre destroços. E toda a aura desta fotografia está nessa descontinuidade esplendorosa.
Quando há semanas estive perto da fronteira sírio-libanesa e me senti tentado a seguir pela estrada de Beirute confiando nas notícias dos que faziam o caminho inverso, era esta a imagem que eu guardava da cidade. Uma cidade em ruínas, mas pronta para todos os recomeços. Anjos pairando numa pausa da guerra. Há nesta fotografia uma espontaneidade prosaica, acidental, cujo efeito imediato é o de uma espécie de «congelamento» do real, de apaziguamento da violência, colando-se ao próprio referente, como se fosse este a «aderir» à fotografia e não o contrário [Roland Barthes, A Câmara Clara]. Trata-se aqui daquilo a que José Gil chama uma «imagem-nua», cuja descontinuidade temática a esvazia de todo o mimetismo, ganhando «uma existência em si, [que] já não circula como um simples reflexo, circula na experiência» [Roland Barthes, ibidem].
Ocorre-me, então, a antiga figura retórica da hipotipose que Kant definiu como «apresentação» [Crítica da Faculdade do Juízo]. Melhor seria dizer, talvez, «presentação» [como o francês «monstration», pois trata-se de mostrar marcas, traços, vestígios sob a aparência, isto é, em sentido literal, «pôr debaixo dos olhos» aquilo que, muitas vezes, só nos chega através do filtro das agências noticiosas. [«L´hypotypose est cette figure, telle que nous la trouvons dans la Rhétorique à Herennius, qui expose les choses d úne manière telle que l´affaire semble se dérouler et la chose se passer sous nos yeux» (Quintiliano, Retórica - ad Herennius -, livro IV, 68, cit por João Barrento, in Escrito a lápis].
E não será isto o fotojornalismo, na sua tentativa de captar, de dar a ler a actualidade, fazendo-nos participar na experiência dialéctica «mostrada» através da fotografia? Isto é - como diz Walter Benjamin n´O Livro das Passagens -, «a imagem lida, que o mesmo é dizer a imagem no Agora da sua possibilidade de ser conhecida, trazendo consigo, em alto grau, a marca do momento crítico e de perigo subjacente a toda a leitura» [Passagen -Werk, N 3, 1]. É que a relação desta fotografia com o momento histórico em que foi tirada é muito mais do que apenas temporal, é essencialmente imagética, e por isso susceptível de perdurar numa qualquer prega do vestido do tempo, sem outra retórica que não seja a do demonstratio da destruição assassina, e também a de uma certa «aura» imagética contra as reminiscências da guerra.
(P.S: Reflexão inspirada a partir de anotações de um ensaio alheio [João Barrento, in Escrito a Lápis] sobre a problemática da imagem)
Esta e as restantes fotografias da World Press Photo podem ser vistas em Portimão até ao dia 22 de Agosto.
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25 de julho de 2007
Avignon: sob o sol de Jean Vilar e René Char
Sob o «azul ameno» do céu provençal é toda uma cidade à medida do homem que celebra numa cena multiplicada até à exaustão a festa do teatro. 60 anos depois, sob o mesmo sol de René Char e Jean Vilar, «l´acte este vierge, même répeté», transformando Avignon num lugar de encontro de uma vasta comunidade de artistas e espectadores que se cruzam no emaranhado de ruas e ruelas do casco histórico, celebrando o olhar, o desejo e a imaginação.
Protegidos da tundra suburbana das paisagens indiscriminadas que toldam, hoje, o olhar e o pensamento, deixamo-nos levar na tranquiula corrente humana que flui como um rio manso a partir da Place de l´Horloge em todas as direcções, para depois aportar, aqui e ali, num qualquer palco que nos convida a entrar como se fossemos os hóspedes esperados. E porque por ali deambulamos, distraídos e atentos, absortos e disponíveis para o teatro, facilmente nos apercebemos da aura de um qualquer espectáculo que nos é proposto. Somos atraídos pela natureza insólita dos espaços transformados em salas de teatro de todas as dimensões e feitios: uma capela gótica desactivada, um claustro românico, um velho armazém abandonado, uma antiga fábrica de fósforos, um pátio de um liceu, uma cave de um hotel, um jardim interior, uma garagem, um ginásio, tudo serve como espaço para retraçar as novas figuras do teatro contemporâneo, através de novas linguagens e escritas do corpo, do espaço, da imagem e da palavra. São, sobretudo, lugares vividos, polarizados afectivamente, onde reina uma certa féerie própria dos «espaços liminares» onde o segredo e a descoberta se encontram inscritos em cada canto e recanto de uma paisagen cénica multiplicada na cidade até à exaustão. E há, ainda, nomes que convidam a entrar: Chapelle des Pénitents Blancs, Chapelle du Verbe Incarnée, Théatre du Chien Qui Fume, Le Funambule, L´Étincelle, Le Lucernaire... Ao todo são mais de 130 palcos atravessados por quase 1000 espectáculos diferentes, entre os que integram o festival In e os que fazem parte do Off. Talvez aqui uma contradicção incomprensível ou, então, a formula encontrada para o mercado não ficar de fora, fazendo do festival uma espécie de montra das artes cénicas francesas em cada ano. E são ainda as manifestações paralelas, leituras, exposições, debates... este ano, sobretudo, em torno de René Char, essa espécie de «sentinela solar», que nos ofereceu o mais belo cântico da Resistência em Feuillets d´Hypnos, levado à cena por Frédéric Fisbach, na mítica Cour d´Honneur du Palais des Papes. Ou do poeta e pintor Valère Novarina. Mas há também Jean Vilar - principal mentor do festival, em 1947, segundo a fórmula: «faire d´Avignon le Bayreuth français» - e a sua Casa-Museu.
Durante quatro dias vivi Avignon como uma personagem cénica à procura dos seus palcos, auxiliado pelos programas do festival, os do In e os do Off, quais tábuas de orientação na paisagem labiríntica de ruas e ruelas da cidade muralhada e no dédalo de propostas cénicas em que nos perdemos, onde o mistério e a descoberta se encontram inscritos em todos os cantos e recantos, cruzando-me com múltiplos rostos, parando diante das pequenas salas de teatro, lendo cartazes, críticas, escapando-me em seguida para a porta ao lado onde também se faz teatro, comparando, recusando, escolhendo numa atitude solta, disponível, o espectáculo para aquele momento, para depois, no final, correr para outro mas ficar no caminho, surpreendido com uma nova proposta irrompendo numa esquina. Sim, porque mesmo que levemos connosco todos os programas, há sempre uma qualquer bifurcação que nos faz mudar de trajecto. Porque -escreveu René Char - «les mots qui vont surgir savent de nous des choses que nous ignorons d´eux». Assim se é espectador em Avignon, procurando num teatro qualquer as palavras que ignoramos ainda, mas que depois nos ajudam a compreender o mundo. E isso é o teatro.
Claro que não houve bifurcação que me desviasse de Angeles in America, do encenador polaco Krzysztof Warlikowski, que utiliza a metáfora da sida como revelador de todos os medos de hoje, a sociedade abandonada por Deus que deixou aos anjos a tarefa de cuidar do mundo como funcionários zelosos que apenas se aguentam à base de valium. Ou da estranha e angustiante coreografia de Raimund Hoghe, 36, Avenue George Mandel, que sob um fundo de árias de ópera de Callas nos leva ao mundo dos sem abrigo. Mas o resto, o resto foi resultado do acaso: um nome de um teatro, de uma companhia, um autor, uma oportunidade de horário, um encontro na rua com um actor ou mesmo com o encenador, uma conversa de circunstância com alguém na mesa ao lado numa esplanada... Foi assim que assisti a Hansel et Gretel: um casamento, um pesado segredo, em que os convidados são virtuais; ou a Le Visiteur: Viena, 1938, os nazis invadiram a Austria e perseguem os judeus, Freud, desesperado, recebe uma estranha visita; e a outros tantos espectáculos, angustiantes, comoventes, ácidos, vibrantes...
«Joue et dors», dizia René Char em 1950. Talvez, hoje, dizer, joue et trouble le monde.
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13 de julho de 2007
Projecto para uma roda de leitura perigosa
Intrometo-me no book crossing que anda por aí e atrevo-me a propor alguns livros para serem postos a girar, este Verão, numa Roda da Leitura como a que a imagem acima reproduz [cf. Agostino Ramelli: projecto para uma roda de leitura. Paris, 1588]. Basta colocá-los na roda, carregar no pedal e, depois, ir lendo ou relendo os cinco livros que aqui recomendo contra a rasura das novidades. Cinco livros que fazem uma pequena biblioteca giratória, intensiva e transportável, escolhida para levar para férias, com o mar do sul ao fundo, procurando novos caminhos bifurcados em páginas talvez já lidas mas sempre à espera de serem de novo abertas, manipuladas, perseguidas por gente que acredita que nelas se espelham mundos. Que cumplicidades tecem, então, estes livros entre si? Desde logo, o facto de partilharem, na minha biblioteca pessoal, a mesma prateleira. E também a circunstância dos seus autores pertencerem a uma certa geografia, a da Mitteleurope que mais do que uma condição espacial corresponde, sobretudo, a uma certa ideia de literatura. Depois, porque são autores que ocultam a sua biografia para melhor poderem afirmar a sua obra. E, ainda, porque todos habitaram de uma forma ou de outra «as regiões do destino onde reina a solidão».
Finalmente, porque talvez encaixem na categoria de livros a que Robert Walser se referia quando escreveu n´O Salteador (Relógio d´Água, 2003): «Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deviam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável?»
Talvez a vida destes escritores tenha sido «doentia», mas não os seus livros que parecem substituir a vida que não tiveram por uma espécie de duplicação do mundo. E não será, afinal, esta a vocação de toda a literatura?
1. Robert Musil, As perturbações do Jovem Törless [1906] (Dom Quixote, 2006), uma quase autobiografia da juventude do autor, uma espécie de Werther pessoal e uma «necrologia profética»;
2. Robert Walser, Jacob von Gunten [1909] (Assírio e Alvim, 2005), o extravagante escritor suíço que escrevia lápis para melhor poder ausentar-se;
3. Kafka, O desaparecido [1927] (Relógio d´Água, 2004), onde se persegue o sonho de um emigrante preso numa engrenagem donde cada vez mais é impossível escapar;
4. Bruno Schulz, As Lojas de Canela [1933] (Assírio e Alvim, 1987), cujos contos transfiguram a pequena cidade de Drohobycz numa espécie de Macondo polaca onde se respira o ardor intenso da fantasia e das metamorfoses contra a colmeia de nevroses e de loucura onde o autor se encontra encerrado;
5. Joseph Roth, A Lenda do Santo Bebedor [1939] (Assírio e Alvim, 1997), outro polaco, da Galitzia, que aqui narra a vida e a «morte suave e bela» do seu Santo Bebedor, tão contrária à sua própria morte.
[Deixo o desafio a todos os que por aqui passarem para pôrem a andar nos comentários a sua Roda de Leitura]
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11 de julho de 2007
Petra, cidade perdida
O crepúsculo, esplendoroso, de tonalidades avermelhadas, derrama-se suavemente sobre a estranha formação rochosa, espécie de abrigo contra a aridez circundante e, ao mesmo tempo, encruzilhada no coração do deserto de Wadi Araba e formidável posto de vigia das caravanas de seda, incenso e outras especiarias que vinham do sul da Arábia desafiando a aridez dos caminhos em direcção ao Egipto e ao sul da Europa. Na antecâmara do estreito desfiladeiro que conduz à misteriosa cidade escavada na rocha num vale entre duas montanhas, já não são os nómadas Nabateus que nos vêm cobrar a passagem ou vender os seus serviços de escolta, mas sim um grupo de beduínos que efusivamente nos propõe o aluguer de cavalos que trotam diante de nós. Recusamos os animais e fazemo-nos à estreita garganta que conduz à cidade perdida de Petra. Nas paredes rochosas do Siq saboreamos a lenta transformação das cores - vermelho, rosa, verde, azul -, recortando no caminho uma fresca tranquilidade que incita e excita os sentidos e a imaginação. Numa curva, parece projectar-se nas paredes de grès vermelho que se erguem em ambos os lados a sombra de uma caravana de camelos guiada por homens de turbante. Alguns pombos assomam em ninhos inexpugnáveis. E de repente, na moldura pétrea do Siq, como uma revelação inesperada após um ritual de passagem, magnificamente escavado na rocha de tonalidades vermelhas e rosa, o primeiro monumento, o Khazneh, testemunhando a antiga prosperidade dos Nabateus. Mas são ainda os beduínos que nos propõem que continuemos de camelo ou de burro. E é de burro que atravessamos o vale onde se encontra o Grande Templo e o principal núcleo de grutas outrora habitadas pelos Nabateus e subimos, depois, os mais de novecentos degraus até Jabal al Deir, como se atravessássemos uma monumental escultura equivalente a toda uma cidade, sempre observados na nossa subida por beduínos que irrompem subitamente dos lugares mais recônditos.
[P.S. Petra viu há dias, em Lisboa, ser-lhe merecidamente atribuída a menção de uma das sete maravilhas do mundo. Para saber mais sobre a história desta misteriosa cidade eregida no coração do deserto, ver em Petra, cidade perdida .]
9 de julho de 2007
Passagens de Damasco
O souk al-Hamidia, com a sua passagem coberta por um telhado metálico com inúmeras aberturas que deixam penetrar os raios de sol criando o efeito de um céu estrelado na penumbra interior, revela-se demasiado irresistível, oferecendo-me a possibilidade de refúgio face ao caos das ruas circundantes. Vejo-me num tipo de passagem feérica que me é oferecida como uma rosa damascena, onde se concentra todo um imaginário que fui construindo nos últimos dias, desde que a «ameaça síria» se tornou mais do que um motivo de retórica romanesca e foi caindo nos meus dias sem que eu desse por isso. Mas, agora, à medida que, como um flâneur nostálgico, me adentro na passagem, a «ameaça» que pela manhã começara por manifestar-se na forma das incontornáveis formalidades fronteiriças para obtenção de visto, na arrogância policial, nas manigâncias da pequena máfia dos taxistas e na presença em todas as vitrines e fachadas dos edifícios da moldura asfixiante do presidente Assad trajando uniforme militar, como que desaparece deixando trabalhar livremente o olhar.
Eis a experiência de uma outra Damasco que alimenta o olhar, a memória e a imaginação prometidos n´As Mil e Uma Noites por Xerazade a Harun al-Raschid, num códice que circulou na Síria no século XIII e foi lido por califas, vizires, vendedores e mercadores. Como o flâneur baudelairiano de que fala Walter Benjamin, no meu passeio ocioso procuro, agora, «virar para fora o forro incandescente e colorido do tempo» e, momentaneamente liberto da «ameaça síria», praticar uma observação ao mesmo tempo distraída e atenta, absorta e disponível, celebrando o olhar como se o bazar otomano que percorro, construído em 1863 pelo sultão Abdulhamid, fosse o sujeito activo desta flânerie oriental que me vai revelando um mundo fervilhante de sensações adormecidas, paralelo ao caos ruidoso, incandescente e ameaçador das ruas exteriores.
Nesta rua salomónica, uma multidão de mulheres ávidas, astutas, activas e sensuais sob os véus islâmicos que as cobrem celebram o prazer da distracção, alimentado pelo olhar e pelo desejo suscitado pela imensidão de cores, púrpura, azul escuro, amarelo vivo e preto, dos vestidos beduínos bordados à mão, dos lenços de seda multicolores, dos algodões estampados, dos tapetes persas, das almofadas damascenas, dos cobres trabalhados, da joalharia; pelo perfume das especiarias e frutos secos; e pelas vozes misturadas dos vendedores de água, sumos, xaropes e café. Há nesta dobra do tempo uma aura que amplifica a imaginação. Não há aqui qualquer imposição para entrar nas minúsculas lojas da extensa passagem. E tudo é atraente, «aberto», contrastando com a ideia de fechamento imposto pela religião omnipresente e com a natureza monolítica do regime sírio pairando nas fachadas dos edifícios nas avenidas do exterior. Até mesmo o olhar de algumas mulheres de rosto velado, ciosamente encoberto, deixa transparecer o prazer das compras. Faço-me, por isso, também, comprador, percorrendo lojas, regateando preços de objectos cujo valor exacto nunca se conhece, como se o preço dito no início fosse apenas a ponta de um enigma que pode levar a preços finais tão conforme o desenrolar da situação ou a nacionalidade do comprador; desvelando o mistério das coisas que se encontram à vista; penetrando na sedutora intimidade que há entre cada comerciante e os objectos expostos. Todos os sortilégios são permitidos até se chegar ao entendimento final, levando, depois, comigo uma toalha de seda bordada a fios de ouro daqui, um lenço de lã de camelo dali, um punhal otomano acolá, um darguilé mais além, cenas do livro de Xerazade pintadas à mão mais adiante; e, no final da rua, um gelado sírio de pistachio!
Chego ao final da passagem que se abre para a grande mesquita dos Omeyadas onde se respira tranquilidade das orações e fico com a impressão de, por momentos, ter atravessado o forro de um tempo suspenso à espera da próxima «ameaça» que parece não se encontrar na mesquita que me recebe com a hospitalidade devida ao estrangeiro, mas sim nos labirintos sombrios do fanatismo religioso e da arrogância norte-americana.
É tempo, talvez, de esquecer esta narrativa pré-corânica e evocar, agora, o poeta sírio-libanês Adónis, perguntando para onde vai a «arabidade do coração», esse «Yemen original, cujos souks eram veias e artérias de um corpo que não seria nem sonho nem realidade», antes a tentativa de encontro entre o reino de Salomão e o reino de Adão, perseguida pelos múltiplos narradores das Mil e Uma Noites. Parece que para o abismo para onde o empurram todos fundamentalismos: o islâmico e o do capitalismo glamoroso e desalmado do ocidente. Por isso, com Adónis, contra o fanatismo religioso ou capitalista, talvez perseguir uma terceira via.
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5 de julho de 2007
Infatigável vagabundagem em Amã
A multidão humana que deambula ao ritmo estival pelos passeios intransitáveis da chamada Down Town, em Amman, parece acomodar-se pacificamente à degradação envolvente, exibida nas fachadas sujas dos edifícios, no amontoado de antenas parabólicas crescendo nos terraços, nas roupas pobres a secar nas varandas, na correria caótica do tráfego. Da varanda do Al Rasheed Court Café, enquanto fumo um darguillé como, aliás, o fazem quase todos os restantes clientes, dedico-me a observar, não sem algum cinismo de ocidental, uma chuma de gente carreando uma variedade de personagens que estoicamente desafiam um sol incandescente que se abate sobre o começo da tarde. Parece não haver ali naquela corrente humana que desce a rua Ali Bin Taleb qualquer espécie de ociosidade, antes a obstinação em chegar rapidamente a um destino mesmo que este se revele estéril. Desço, e como um passeante estóico sob um sol em fusão, faço-me à rua em direcção ao souk Al-Balad. Na minha vagabundagem infatigável, alheio à deterioração irreversível e à vetustez das habitações que mais parecem abrigos precários, atravesso ruas secundárias deixadas ao abandono pelos serviços de conservação e limpeza criando um cenário de um pitoresco desastroso, e cruzo-me com iraquianos refugiados, emigrantes egípcios, palestinianos e população autóctone, numa ambiência perturbada pela avalanche de automóveis, táxis amarelos e pequenos autocarros completamente cheios, que um polícia de trânsito tenta, com dificuldade, controlar. Passo junto à grande Mesquita de Hussein, onde a voz dos pregadores difundida pelos altifalantes, como um rumor vindo do além, se confunde com as vozes dos vendedores de café e de sumos que atravessam a rua em passos suicidários fintando o trânsito, e com as vozes dos vendedores que se misturam entre as bancadas de azeitonas, especiarias, beringelas, cerejas, magníficos vestidos beduínos, lenços, panos de seda, objectos e artefactos utilitários e outras bagatelas de toda a espécie. Apesar do aparente caos reinante caminha-se por aqui em segurança sob o olhar condescendente e os gestos cordiais da população. Finalmente atingido pelo sol insuportável do meio da tarde, partilho um taxi com um refugiado iraquiano e regresso à outra Amman, ordenada, limpa, endinheirada, onde se encontra o meu hotel.
P.S. Para que conste, regressei ontem Portugal, após a tentada e conseguida escapadela de Amã a Damasco.
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