24 de agosto de 2007

Os cornos da actualidade


O que procuro nos jornais, nas televisões? Talvez uma certa forma de, expeditamente, apanhar o que cai dos dias. Ou, dito de outro modo, uma certa forma de entrar pela «janela» da actualidade que deveria permitir olhar para lá do horizonte da informação dita «objectiva». Porque no jornalismo, como na literatura também, e não apenas, a questão é política e não pode ficar refém de uma pretensa comunicabilidade teoricamente insustentável, quando o que deveria estar em causa seria responder ao acontecimento através de estratégias discursivas capazes de levar aqueles que o apreendem através das janelas mediáticas a repensarem a actualidade sem a urgência imposta pelas máquinas mediáticas contemporâneas. Ora isso é cada vez menos possível nas novas paragens do discurso jornalístico que, caído no torvelinho da imanência, «come o pensamento», ignorando o papel crítico que lhe deveria estar reservado na constituição da experiência contemporânea. 

Já aqui falei de como os suplementos literários foram banidos dos jornais. Mas não apenas. Que pensamento se encontra hoje no Público, no DN ou mesmo no Expresso? E nos vários telejornais? Apenas um vazio prenchido pelo lisonjeamento de uma comunicação sujeita a retóricas que pouco ou nada têm a ver com o processamento crítico da actualidade. Neste começo de século, tal como no princípio do século vinte, o «jornalismo come o pensamento», como dizia Karl Kraus. 

E, no entanto, é possível, ainda, um jornalismo (como uma literatura) empenhado em apanhar o que cai dos dias, isto é, empenhado em apanhar a actualidade «pelos cornos», sem nos coagir, antes levando-nos a agir contra uma certa forma de nihilismo pós-moderno que nos torna cada vez mais passivos, indiferentes, espectadores mais ou menos obscenos de um mundo sem remissão caminhando para um «apocalipse alegre», conforme a fórmula aparentemente catastrofista com que Hermann Broch descrevia o nihilismo austríaco das primeiras décadas do século passado. Trata-se de um jornalismo que, mais do que informar «objectivamente», joga a sua essencialidade na forma como mostra o acontecimento, isto é, como retraça a actualidade através de uma escrita que não rejeita, antes afirma o exercício do juízo e da tomada de posição contra a vacuidade dos «livros de estilo» e da lisonja da comunicação. 

Mas esse jornalismo é hoje excepção, já não define padrões, muito menos serve de modelo, como  diz Rui Bebiano em resposta a um comentário que lhe deixei no seu próprio comentário ao livro A Face da Guerra, de Martha Gellhorn que a Dom Quixote acaba de publicar, também ela uma jornalista de excepção, «que não receia a polémica, que informa mas também se emociona e toma partido – e não engana o leitor, pois assume que o faz –, [um jornalismo, portanto] que se distingue e permanece para além do instante», escreve Bebiano. E, claro, há mais excepções  contra o mercantilismo jornalístico vigente e este texto teria um tom vagamente nihilista se não convocasse para aqui uma dessas excepções que, às vezes, quando menos se espera vêm assaltar as nossas convicções.

Por exemplo, a reportagem de Clara Ferreira Alves, publicada na Única (in Expresso, de 21 de Julho de 2007), com o título Vidas Ocupadas. O que faz, então, CFA de quem me habituei a ler,  semanalmente, com proveito, a sua Pluma Caprichoa, nessa reportagem sobre a «muralha» de ódio que vai rasgando a paisagem bíblica da Palestina, espartilhando judeus e árabes? Desde logo, a reportagem diz menos do que mostra. E ao preocupar-se com o mostrar responde expeditamente ao «acontecimento» que é a construção da «muralha» de mil quilómetros de comprimento por oito de altura que se vai fechando sobre as vidas de 300 mil palestinianos. CFA mostra-nos a mesma Jerusalém que Amos Oz descreveu como «uma desordem mental muito arreigada… uma espécie  de “síndrome de Jerusalém”: uma pessoa chega, inala o ar puro e maravilhoso da montanha e, de repente, inflama-se e pega fogo a uma mesquita, a uma sinagoga ou a uma igreja». 

Quando CFA lá esteve a fazer esta reportagem era Outono e uma luz morna derramava-se sobre as torres, muros e minaretes da cidade como vergando-a ao peso das religiões. CFA mostra-nos tudo rigorosamente vigiado, polícias e soldados nas ruas, grupos de judeus ordodoxos conspirando nas esquinas contra uma parada gay que iria realizar no dia seguinte, uma tensão no ar prestes a explodir a qualquer momento; mostra-nos judeus às arrecuas diante do Muro das Lamentações que parecem saídos do qualquer «shtetl» de Varsóvia; mostra-nos a Esplanada das Mesquitas onde começou a terceira Intifada depois da provocação de Sharon; e, mostra-nos, sobretudo, uma muralha serpenteando como uma mancha na paisagem abandonada por Deus, cortando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, mas também feridas abertas, ódios acesos. Medo. «Sou contra, mas é eficaz», diz o poeta Israel Eliraz . Uma nova forma de roubar a terra e a água palestinianas, uma humilhação, dizem os palestinianos. E as duas respostas são verdadeiras, diz-nos CFA que nos mostra, ainda, que «quando o Muro estiver terminado, a Cisjordânia será dividida em bantustões». E mostra-nos o fraticídio entre a Fatah e o Hamas, transformando Nablus num lugar assustador, balas assobiando no ar, ambulâncias a recolher feridos. E muito dinheiro sujo. CFA mostra-nos o que viu saída de Nablus, ela uma mulher europeia identificada sofrendo nas «filas de mulheres e homens debaixo de um calor tórrido, gente de todas as idades aguardando como animais a passagem da cancela, e sendo tratadas de modo displicente pelos soldados israelitas, um bando de miúdos malcriados […] rapazolas humilhando mulheres mais velhas […] tocando-lhes como se fossem gado […], crueldade e medo».

Estes os sinais da actualidade que CFA leu na sua passagem por Jerusalém e pelos territórios ocupados. Sinais, sobretudo, de vidas ocupadas. Dos dois lados. Sim, mas mais do lado dos palestinianos, porque, dizia-me há semanas Fouad, um palestiniano que mora em Hebron e que conheci em Amann, «a paz sim, claro, quando nos devolverem os territórios». Mas também Amos Oz cuja História de Amor e Trevas me mostrou o outras possibilidades de pensar o conflito, sem afecção ao que até há pouco, para mim, era o politicamente correcto.

Eis o que também procuro nos jornais, nos noticiários das televisões. Um jornalismo que tome posição sem afecção pelo politicamente correcto, como esta reportagem de CFA, cujo ponto de vista não é seguramente o da «objectividade» jornalística que muitas vezes mais não é do que uma forma nihilista de não questionamento «acontecimento». Aqui, mais do que dizer o muro, o importante é «dinamitá-lo», mostrando o drama das mulheres da Palestina que intentam atravessá-lo. E a CFA estava lá e nós, leitores de jornais,com ela. E isso é o jornalismo ainda capaz de forçar a pensar. Porque mostra, retraça sinais, posiciona-se, ajuízam sem afecção pelo politicamente correcto e, nessa forma de mostrar o acontecimento mostra-se ela própria como jornalista capaz de apanhar os «cornos» da actualidade.

21 de agosto de 2007

Requiem, de Amos Oz

No bairro de Kerem Avraham, em Jerusalém, onde Amos Oz cresceu, muitos eram tolstoianos invertebrados, «barbas brancas ao vento», «tolstoischkis» caídos de um romance de Dostoievsky: «torturados, faladores [...], idealistas atormentados, mas todos trabalhavam efectivamente para Checov» (pág. 9). Eram funcionários, escritores, enfermeiras, utopistas, tradutores, pequenos comerciantes, bibliotecários, empregados de escritório, ideólogos, logistas, intelectuais constrangidos a executar trabalhos ingratos e vivendo no despojamento e com a paixão do estudo, velhos solitários que sobreviviam com magras economias... Quando a noite caía, as portadas das janelas eram fechadas, as portas eram trancadas e apenas a reverberação do luar derramava uma morna luminosidade nas ruas desertas. Havia também os pioneiros que viviam para lá dos montes escuros de Jerusalém, na Galileia, no Sharon, nos desertos das margens do Mar Morto, nas planícies costeiras; e «era lá que do miserável pó se fazia uma nação combatente» (pág. 11). E havia ainda Telavive, «cidade efervescente» cheirando a maresia, «como um projecto secreto e vital do povo judeu»(pág. 13). , onde havia mesmo «judeus bronzeados que sabiam nadar. Quem em Jerusalém sabia nadar?» (pág. 11). Ninguém. Seguramente não o sabiam aqueles tolstoianos e dostoievkianos que, refugiados em habitações minúsculas, discutiam num hebraico hesitante o destino de Israel, mas sonhavam ainda num iídiche que lhes recordava os tempos sombrios de um qualquer «shtetl» na Polónia, na Rússia ou na Roménia, onde imaginaram uma terra para lá do horizonte, «no outro lado do rio e da floresta, para onde deveriam partir em breve porque o tempo dos Judeus na Europa estava contado». Vinham cuspidos de uma Europa que os tratava como cidadãos de segunda, escapando aos pogroms primeiro, a Hitler depois e a Estaline mais tarde - um passado cheio de cadáveres - , à procura de uma terra prometida que «não existia e que talvez nunca tenha existido, a não ser [nos] sonhos de juventude»(pág. 332). Mas era para Odessa, para Vilnius, para Rovno que sempre viravam o olhar, como se aí se encontrasse a verdadeira «terra prometida e proibida, o lugar nostálgico dos campanários e das velhas praças empedradas, dos elécticos, das pontes e das torres das catedrais, das aldeias isoladas, das fontes termais, das florestas e dos prados cobertos de neve» (pág. 7).

Nesse tempo, o pequeno Amos «queria ser um livro quando fosse grande. Não um escritor, mas um livro. Por medo» (pág. 365). Medo dos tanques de Rommel que ameaçavam Israel. Medo que os britânicos não quisessem partir. E medo do aconteceria depois da sua partida, entregues à sede de vingança de milhares de muçulmanos inflamados contra os judeus. Por isso, «passava a vida perdido, às voltas em florestas virtuais, florestas de palavras, cabanas de palavras, prados de palavras» (pág. 173) que haveriam de revelar-se anos mais tarde através dos muitos livros (em Portugal, na ASA, encontram-se publicados A Terceira Condição, Não Chames à Noite Noite, Uma Pantera na Cave, O Meu Michael e O Mesmo Mar) que foi escrevendo até chegar a esta História de Amor e Trevas, escrita sessenta anos depois numa pequena casa, em Arad, à beira do deserto do Neguev, onde Oz vive actualmente. Um livro «muito proustiano», carregado de «cheiros, sons, imagens que ajudaram a lembrar» - como confessou numa entrevista ao ípsilon de 9 de Março passado -,  arrancados às pedras de «uma Jerusalém estranha, silenciosa, modesta e velada, etíope, muçulmana, cidade de peregrinos, otomana, missionária, indiferente, a cidade dos cruzados, dos templários, grega, arménia, italiana, cheia de intrigas, anglicana, ortodoxa, monástica, copta, católica, luterana, escocesa, sunita, xiita, sufi, alauita, dominada pelo som dos sinos e o chamamento dos muezins, com os seus pinhais, aterradora e ao mesmo tempo fascinante com os seus feitiços sombrios, o labirinto das suas ruelas proibidas e hostis mergulhadas nas trevas, uma cidade secreta, maléfica, prenhe de catástrofe« (pág. 413), rasgada agora por um muro da vergonha que serpenteia entre ruas, quintais, vizinhos, amizades, desconfianças, medos, angústias, esperanças, como uma serpente venenosa destilando cada vez mais veneno, mais ódio entre dois povos atiçados por toda a espécie de radicalismos.

Um livro sobre a criação do estado de Israel, uma nação criada pela força: «Nesse tempo, não se preocupavam muito com o destino das centenas de milhar de deslocados e refugiados palestinianos, muitos dos quais fugiram ou foram expulsos das cidades e das aldeias conquistadas pelo exército israelita» (pág. 468). Mas, sobretudo, ainda, uma promessa não cumprida, tal como os seus pais fundadores, sionistas socialistas como David Ben Gourion a sonharam: «Agora, passados os anos da euforia, entrávamos de repente no dia seguinte: cinzento, apagado, obscuro, tacanho e mesquinho» (pág. 471). Um livro que é uma espécie de Requiem por Israel só possível de compreender quando regressamos com Oz a esse mundo de antes onde os judeus askenazitas deixaram um pedaço de si, num tempo em que os muros diziam «Judeus para a Palestina» e não se ouvia ainda o grito «Judeus fora da Palestina», inscrito no novo muro que serpenteia na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando a «terra prometida» de árabes e judeus. Como foi possível chegar aqui, a esta muralha de ódio inútil separando judeus e palestinianos vivendo sob um mesmo céu sobre ruínas? Eis, talvez, a pergunta a que este livro procura dar resposta, na perspectiva de um israelita que defende «que acabar com a ocupação não só não enfraquece Israel como, pelo contrário, o fortalece. E que não é correcto ver em todo o lado apenas Shoah» (pág. 377).

[ver ainda post Contra o fanatismo]

18 de agosto de 2007

No bairro portátil do Senhor Tavares (V): literatura volúvel

Diz Enrique Vila-Matas que Gonçalo M. Tavares «vai criando como se estivesse sempre num permanente voo imaginativo: um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário onde compram pão e tomam o aperativo uma série de senhores muito curiosos, cada um habitante de um livro breve e próprio: o senhor Juarroz, o senhor Calvino, o senhor Valéry, o senhor Brecht, o senhor Kraus». São todos eles inquilinos de pequenos mundos ficcionais, lúdicos, irónicos, engenhosos e bem-humorados, em cujas ruas e pracetas se entrelaçam o real e o imaginário, sem que possamos distinguir entre o fora e o dentro, o direito e o seu anverso, desfiados, livrinho a livrinho, como historietas avulsas a qualquer enredo, através das quais se vai tecendo paulatinamente a genealogia literária do autor.   Apesar da pluralidade de propostas e visões que fazem a excentricidade do Bairro, existe nele uma harmonia que deve mais à possibilidade de excitar o leitor com múltiplas visões do mundo do que à hipotética partilha das preocupações e dos programas de escrita dos seus inquilinos. Um bairro em crescimento acelerado  «que cada vez mais me parece ser a personagem principal [...]. Uma espécie de história da literatura em ficção [...]. Um projecto interminável», admite Gonçalo M. Tavares.

Desses inquilinos, o mais recente, acabado de chegar a esse Bairro ficcional que poderia integrar a geografia improvável de uma qualquer cidade invisível de Italo Calvino, «feita só de excepções, impedimentos, contradições, incongruências, contra-sensos», mas ao mesmo tempo «contendo tudo o que corresponde à norma», é O Senhor Breton que mimetiza - numa auto-entrevista formulada em 10 perguntas que «complicam a realidade» - o escritor surrealista André Breton, trazido, talvez, ao Bairro por um qualquer «acaso objectivo» através do qual o arquitecto invisível Gonçalo M. Tavares vai manipulando a realidade inventada para melhor a observar.
Munido de um gravador, frente a «um enorme espelho na sala: a janela com a velocidade ideal», O Senhor Breton auto-entrevista-se, procurando respostas para algumas questões caras aos enunciados surrealistas, sobretudo aquelas que se apresentaram nos manifestos que André Breton assinou. Questionando os modos de expressão da realidade, as relações entre a estética e a filosofia ou os limites representacionais da linguagem,  O Senhor Breton percorre as mesmas passages que Breton, com o distanciamento ficcional a permitir ao duplo uma consciência aguda dos limites que o seu homónimo pretendia estilhaçar.  

Este livrinho portátil, não só pela sua leveza mas porque nele se descortinam «certos traços que eram considerados tipicamente shandys: [i. é, volúveis] ... ausência de propósitos [...] tensa convivência com a figura do duplo [...] e o culto da arte da insolência», logo capaz de figurar numa qualquer História Abreviada da Literatura Portátil, revista por Enrique Vila-Matas - porque passaria no teste concebido por Walter Benjamin, esse escritor-filósofo, estranho de passagem, cuja tendência para miniaturiziar a realidade o levou a inventar «essa máquina risonha de pesar livros que permitia detectar, com precisão absoluta, quais as obras literárias insuportáveis e, por isso, embora tentem dissimulá-lo, intransportáveis» -, é mais um singular exercício de estilo que se alimenta de poéticas concretas e prévias à sua construção e que escapa a qualquer tentativa de interpretação. De momento, são nove os livrinhos portáteis do Senhor Gonçalo, mas os que aí vêm já têm a mala, seguramente duchampeana, preparada.

9 de agosto de 2007

No Bairro portátil do senhor Tavares (IV): periferias


Por analogia com o seu homónimo que procurava o desaparecimento, o eclipse, este Walser [O Senhor Walser, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2006] é mais dado ao recato que os primeiros povoadores do Bairro. Por isso, manda construir a sua casa «a uns bons quilómetros do bairro mais próximo», no que se assemelha ao Walser-outro, também ele instalado numa casa nos arredores de Herisau, durante vinte e oito anos, apenas saindo, aos domingos, para dar longos passeios no bosque circundante, com o seu amigo e editor Carl Seeling. Eis, agora, então, o Senhor Walser, na sua nova casa: «Mal se abre a porta de sua casa — sente ele — entra-se noutro mundo. Como se não fosse apenas um movimento físico no espaço — dois passos que se dão — mas também uma deslocação — bem mais intensa — no tempo. [...] Quando fechava a porta atrás de si, Walser sentia virar as costas à inumana bestialidade (de que saíra, é certo, há biliões de anos atrás, um ser dotado de uma inteligência invulgar — esse construtor solitário que era o Homem) e entrar em cheio nos efeitos que essa ruptura entre a humanidade e a restante natureza provocara; uma casa no meio da floresta, eis uma conquista da racionalidade absoluta” (p. 13). Todo o seu mundo está agora ali dentro daquela casa, fora do mundo, onde a «racionalidade absoluta» tudo incorpora. Por isso, Walser, ao contrário dos outros senhores, não se enreda em pensamentos, em raciocínios que desembocam quase sempre no absurdo. E a sua ingenuidade não o leva a agir, mesmo quando o mundo exterior invade a sua casa contra a «racionalidade absoluta» ou por causa dela. Mesmo nessa situação, limita-se a esperar e a ter expectativas. «Não estou aqui para escrever, mas para enlouquecer», escreveu Robert Walser no mais curto micrograma de sempre. «Não estou aqui para agir, mas para ter expectativas», escreveria o Senhor Walser se fosse dado à escrita.

No Bairro portátil do senhor Tavares (III): licores fortes


Agora a taberna. O Senhor Henri [Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2003]. O absinto. O álcool como estímulo, fonte de inspiração literária. Pessoa bebendo um copo de aguardente no Abel Pereira da Fonseca. O vinho de Goethe. A tequilla de Malcolm Lowry. O whisky de José Cardoso Pires. «É preciso estar absolutamente bêbado», declarou Baudelaire. E Rimbaud que dizia «sobretudo, beber licores fortes como metal fundido». E Kafka que escreveu um Colóquio do Bêbado. Mas, hoje, parece, os escritores já não bebem. Já não se embriagam. Passam ao lado dos paraísos artificiais. E disso, ressente-se a literatura. Vai um copo de absinto? «Énivrez-vous!»

No Bairro portátil do senhor Tavares (II): contra a filosofia


As historietas protagonizadas pelos inquilinos do Bairro parecem apropriadas para crianças. E são. Para as crianças que ocultamos em nós. Mas são mais do que isso se acreditarmos, como Paul Valéry, que o «infinito é bem pouca coisa; é uma questão de escrita [e que] o universo só existe no papel». Em O Senhor Valéry [Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2002], talvez seja possível descortinar uma genealogia de escritores e filósofos lidos pelo Valéry homónimo. Talvez Diderot. Seguramente Wittgenstein (que virá ainda, segundo desvenda o autor, habitar o bairro) também lido pelo nosso Bernardo Soares de quem se aproxima através da «estética do movimento». E, no outro lado do espelho, isto é, colorindo as entrelinhas do texto, o mundo fantasioso de Lewis Carrol (também, consta, com contrato-promessa já assinado para vir morar no bairro). Ao mesmo tempo convoca o cinegrafismo de Buster Keaton e a esperteza saloia de Jacques Tati. E, claro, retraça Paul Valéry ele-mesmo que se interrogava: «como não arredondar, colorir, procurar tornar [tudo] mais nítido, mais perturbador, mais íntimo? [...] Em literatura o verdadeiro não é concebível». Não é isso que também persegue o Senhor Valéry?

Em comum, estes senhores, duais na aparência e volúveis nos comportamentos, que vão sendo reagrupados no Bairro por Gonçalo M. Tavares, nutrem todos uma certa desconfiança pela filosofia e praticam a exaltação das expressões literárias expeditas. O que me faz pensar existir aqui uma conjura portátil vagamente shandiana.

1 de agosto de 2007

No Bairro portátil do senhor Tavares (I): povoamento


Enrique Vila-Matas diz que se trata de «um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário que jamais arderá». Por isso, ao entardecer, decido-me passear, sem mapa, a partir da Baixa em direcção ao Chiado, observando a geométrica distribuição das ruas, os letreiros das lojas, o vendedor de castanhas, alheio à certeza de Pessoa já não andar por ali. «Amanhã» - escreveu - «também eu desaparecerei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros, sim, também eu amanhã serei aquele que deixou de passar por estas ruas, aquele que outros vagamente evocaram com um que terá sido feito dele. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte menos no quotidiano das ruas de uma qualquer cidade».

Mas se Pessoa já não anda por ali, anda agora Gonçalo M. Tavares, o escritor-povoador que vai desfiando nas intricadas ruas e pracetas bairro uma conjura portátil de escritores duplicados, volúveis e insolentes que formam, talvez, a sua genealogia literária. «E se um dia um viajante» - como diria  Calvino - se perdesse na geometria caótica destas ruas que se bifurcam levando a um bairro onde se encontra a multiplicidade de possíveis que subtraem o bairro a qualquer tentativa de controlo racional e normalizador da matéria literária? É o que me disponho a fazer neste segundo entardecer lisboeta em que vou no encalço desta genealogia gráfico-literária que elogia a expressão breve e expedito da linguagem.

E em que  geneologia se funda o povoamento do Bairro? Até porque o propósito do seu escritor-povoador será, talvez, declinar essa genealogia em personagens de estorietas que não escreveram, tornando-se pela sua própria natureza de «personagens de papel», sem biografia, portanto, que não seja a que é atribuída à sua nova condição ficcional, quem melhor poderá escapar a qualquer tentativa de explicação hermenêutica. Este,então, o bairro portátil [O Senhor Valéry (2002); O Senhor Henri (2003); O Senhor Brecht (2004); O Senhor Juaroz (2004); O Senhor Kraus (2005); O Senhor Calvino (2005); O Senhor Walser (2006) (Caminho)] que Gonçalo M. Tavares vem projectando, construindo e povoando como um empreendimento literário-imobiliário que visa a dessacralização da figura do autor, declinada na condição duplicada dos sete primeiros condóminos. E numa arquitectura literária que recorre a um subtil mimetismo temático-estilístico capaz de retraçar fugazmente figuras da sua genealogia literária, reinventando a possibilidade de multiplicação dos possíveis que escapam à coacção da figura do autor, perseguindo, assim, uma história pessoal ficcionada e abreviada da literatura portátil.

27 de julho de 2007

Anjos caídos


A imagem que guardo de Beirute é a que me é oferecida pelo fotógrafo americano Spencer Platt que, em 15 de Agosto de 2006, primeiro dia do cessar-fogo no conflito entre o Hesbollah e Israel, fotografou o regresso a casa de milhares de libaneses. Um descapotável vermelho, impecável, com quatro jovens vestidos com roupas ocidentais, passando lentamente num cenário de destruição e ruína. «Demasiados edifícios ruíram, amontoou-se demasiado entulho, são intransponíveis os sedimentos», diria, talvez, W. G. Sebald se pudesse ver esta fotografia.

Mas Sebald já cá não está, e por isso, nada dirá do descapotável vermelho avançando num cenário de fachadas e paredes calcinadas como se liberto do lastro de tragédia dos dias que passaram planasse agora num campo de ruínas. Nem dos rostos bonitos, das peles bronzeadas, da pose altiva da rapariga ao lado do condutor, espécie de anjo caído entre destroços. E toda a aura desta fotografia está nessa descontinuidade esplendorosa.

Quando há semanas estive perto da fronteira sírio-libanesa e me senti tentado a seguir pela estrada de Beirute confiando nas notícias dos que faziam o caminho inverso, era esta a imagem que eu guardava da cidade. Uma cidade em ruínas, mas pronta para todos os recomeços. Anjos pairando numa pausa da guerra. Há nesta fotografia uma espontaneidade prosaica, acidental, cujo efeito imediato é o de uma espécie de «congelamento» do real, de apaziguamento da violência, colando-se ao próprio referente, como se fosse este a «aderir» à fotografia e não o contrário [Roland Barthes, A Câmara Clara]. Trata-se aqui daquilo a que José Gil chama uma «imagem-nua», cuja descontinuidade temática a esvazia de todo o mimetismo, ganhando «uma existência em si, [que] já não circula como um simples reflexo, circula na experiência» [Roland Barthes, ibidem].

Ocorre-me, então, a antiga figura retórica da hipotipose que Kant definiu como «apresentação» [Crítica da Faculdade do Juízo]. Melhor seria dizer, talvez, «presentação» [como o francês «monstration», pois trata-se de mostrar marcas, traços, vestígios sob a aparência, isto é, em sentido literal, «pôr debaixo dos olhos» aquilo que, muitas vezes, só nos chega através do filtro das agências noticiosas. [«L´hypotypose est cette figure, telle que nous la trouvons dans la Rhétorique à Herennius, qui expose les choses d úne manière telle que l´affaire semble se dérouler et la chose se passer sous nos yeux» (Quintiliano, Retórica - ad Herennius -, livro IV, 68, cit por João Barrento, in Escrito a lápis].

E não será isto o fotojornalismo, na sua tentativa de captar, de dar a ler a actualidade, fazendo-nos participar na experiência dialéctica «mostrada» através da fotografia? Isto é - como diz Walter Benjamin n´O Livro das Passagens -, «a imagem lida, que o mesmo é dizer a imagem no Agora da sua possibilidade de ser conhecida, trazendo consigo, em alto grau, a marca do momento crítico e de perigo subjacente a toda a leitura» [Passagen -Werk, N 3, 1]. É que a relação desta fotografia com o momento histórico em que foi tirada é muito mais do que apenas temporal, é essencialmente imagética, e por isso susceptível de perdurar numa qualquer prega do vestido do tempo, sem outra retórica que não seja a do demonstratio da destruição assassina, e também a de uma certa «aura» imagética contra as reminiscências da guerra.

(P.S: Reflexão inspirada a partir de anotações de um ensaio alheio [João Barrento, in Escrito a Lápis] sobre a problemática da imagem)

Esta e as restantes fotografias da World Press Photo podem ser vistas em Portimão até ao dia 22 de Agosto.

25 de julho de 2007

Avignon: sob o sol de Jean Vilar e René Char


Sob o «azul ameno» do céu provençal é toda uma cidade à medida do homem que celebra numa cena multiplicada até à exaustão a festa do teatro. 60 anos depois, sob o mesmo sol de René Char e Jean Vilar, «l´acte este vierge, même répeté», transformando Avignon num lugar de encontro de uma vasta comunidade de artistas e espectadores que se cruzam no emaranhado de ruas e ruelas do casco histórico, celebrando o olhar, o desejo e a imaginação. 

Protegidos da tundra suburbana das paisagens indiscriminadas que toldam, hoje, o olhar e o pensamento, deixamo-nos levar na tranquiula corrente humana que flui como um rio manso a partir da Place de l´Horloge em todas as direcções, para depois aportar, aqui e ali, num qualquer palco que nos convida a entrar como se fossemos os hóspedes esperados. E porque por ali deambulamos, distraídos e atentos, absortos e disponíveis para o teatro, facilmente nos apercebemos da aura de um qualquer espectáculo que nos é proposto. Somos atraídos pela natureza insólita dos espaços transformados em salas de teatro de todas as dimensões e feitios: uma capela gótica desactivada, um claustro românico, um velho armazém abandonado, uma antiga fábrica de fósforos, um pátio de um liceu, uma cave de um hotel, um jardim interior, uma garagem, um ginásio, tudo serve como espaço para retraçar as novas figuras do teatro contemporâneo, através de novas linguagens e escritas do corpo, do espaço, da imagem e da palavra. São, sobretudo, lugares vividos, polarizados afectivamente, onde reina uma certa féerie própria dos «espaços liminares» onde o segredo e a descoberta se encontram inscritos em cada canto e recanto de uma paisagen cénica multiplicada na cidade até à exaustão. E há, ainda, nomes que convidam a entrar: Chapelle des Pénitents Blancs, Chapelle du Verbe Incarnée, Théatre du Chien Qui Fume, Le Funambule, L´Étincelle, Le Lucernaire... Ao todo são mais de 130 palcos atravessados por quase 1000 espectáculos diferentes, entre os que integram o festival In e os que fazem parte do Off. Talvez aqui uma contradicção incomprensível ou, então, a formula encontrada para o mercado não ficar de fora, fazendo do festival uma espécie de montra das artes cénicas francesas em cada ano. E são ainda as manifestações paralelas, leituras, exposições, debates... este ano, sobretudo, em torno de René Char, essa espécie de «sentinela solar», que nos ofereceu o mais belo cântico da Resistência em Feuillets d´Hypnos, levado à cena por Frédéric Fisbach, na mítica Cour d´Honneur du Palais des Papes. Ou do poeta e pintor Valère Novarina. Mas há também Jean Vilar - principal mentor do festival, em 1947, segundo a fórmula: «faire d´Avignon le Bayreuth français» - e a sua Casa-Museu.

Durante quatro dias vivi Avignon como uma personagem cénica à procura dos seus palcos, auxiliado pelos programas do festival, os do In e os do Off, quais tábuas de orientação na paisagem labiríntica de ruas e ruelas da cidade muralhada e no dédalo de propostas cénicas em que nos perdemos, onde o mistério e a descoberta se encontram inscritos em todos os cantos e recantos, cruzando-me com múltiplos rostos, parando diante das pequenas salas de teatro, lendo cartazes, críticas, escapando-me em seguida para a porta ao lado onde também se faz teatro, comparando, recusando, escolhendo numa atitude solta, disponível, o espectáculo para aquele momento, para depois, no final, correr para outro mas ficar no caminho, surpreendido com uma nova proposta irrompendo numa esquina. Sim, porque mesmo que levemos connosco todos os programas, há sempre uma qualquer bifurcação que nos faz mudar de trajecto. Porque -escreveu René Char - «les mots qui vont surgir savent de nous des choses que nous ignorons d´eux». Assim se é espectador em Avignon, procurando num teatro qualquer as palavras que ignoramos ainda, mas que depois nos ajudam a compreender o mundo. E isso é o teatro.

Claro que não houve bifurcação que me desviasse de Angeles in America, do encenador polaco Krzysztof Warlikowski, que utiliza a metáfora da sida como revelador de todos os medos de hoje, a sociedade abandonada por Deus que deixou aos anjos a tarefa de cuidar do mundo como funcionários zelosos que apenas se aguentam à base de valium. Ou da estranha e angustiante coreografia de Raimund Hoghe, 36, Avenue George Mandel, que sob um fundo de árias de ópera de Callas nos leva ao mundo dos sem abrigo. Mas o resto, o resto foi resultado do acaso: um nome de um teatro, de uma companhia, um autor, uma oportunidade de horário, um encontro na rua com um actor ou mesmo com o encenador, uma conversa de circunstância com alguém na mesa ao lado numa esplanada... Foi assim que assisti a Hansel et Gretel: um casamento, um pesado segredo, em que os convidados são virtuais; ou a Le Visiteur: Viena, 1938, os nazis invadiram a Austria e perseguem os judeus, Freud, desesperado, recebe uma estranha visita; e a outros tantos espectáculos, angustiantes, comoventes, ácidos, vibrantes...

«Joue et dors», dizia René Char em 1950. Talvez, hoje, dizer, joue et trouble le monde.

13 de julho de 2007

Projecto para uma roda de leitura perigosa

Intrometo-me no book crossing que anda por aí e atrevo-me a propor alguns livros para serem postos a  girar, este Verão, numa Roda da Leitura como a que a imagem acima reproduz [cf. Agostino Ramelli: projecto para uma roda de leitura. Paris, 1588]. Basta colocá-los na roda, carregar no pedal e, depois, ir lendo ou relendo os cinco livros que aqui recomendo contra a rasura das novidades. Cinco livros que fazem uma pequena biblioteca giratória, intensiva e transportável, escolhida para levar para férias, com o mar do sul ao fundo, procurando novos caminhos bifurcados em páginas talvez já lidas mas sempre à espera de serem de novo abertas, manipuladas, perseguidas por gente que acredita que nelas se espelham mundos. Que cumplicidades tecem, então, estes livros entre si? Desde logo, o facto de partilharem, na minha biblioteca pessoal, a mesma prateleira. E também a circunstância dos seus autores pertencerem a uma certa geografia, a da Mitteleurope que mais do que uma condição espacial corresponde, sobretudo, a uma certa ideia de literatura. Depois, porque são autores que ocultam a sua biografia para melhor poderem afirmar a sua obra. E, ainda, porque todos  habitaram de uma forma ou de outra «as regiões do destino onde reina a solidão».

Finalmente, porque talvez encaixem na categoria de livros a que Robert Walser se referia quando escreveu n´O Salteador (Relógio d´Água, 2003): «Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deviam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável?»

Talvez a vida destes escritores tenha sido «doentia», mas não os seus livros que parecem substituir a vida que não tiveram por uma espécie de duplicação do mundo. E não será, afinal, esta a vocação de toda a literatura?

1. Robert Musil, As perturbações do  Jovem Törless [1906] (Dom Quixote, 2006), uma quase autobiografia da juventude do autor, uma espécie de Werther pessoal e uma «necrologia profética»;

2. Robert Walser, Jacob von Gunten [1909] (Assírio e Alvim, 2005), o extravagante escritor suíço que escrevia lápis para melhor poder ausentar-se;

3. Kafka, O desaparecido [1927] (Relógio d´Água, 2004), onde se persegue o sonho de um emigrante preso numa engrenagem donde cada vez mais é impossível escapar;

4. Bruno Schulz, As Lojas de Canela [1933] (Assírio e Alvim, 1987), cujos contos transfiguram a pequena cidade de Drohobycz numa espécie de Macondo polaca onde se respira o ardor intenso da fantasia e das metamorfoses  contra a colmeia de nevroses e de loucura onde o autor se encontra encerrado;

 5. Joseph Roth, A Lenda do Santo Bebedor [1939] (Assírio e Alvim, 1997), outro polaco, da Galitzia, que aqui narra a vida e a «morte suave e bela» do seu Santo Bebedor, tão contrária à sua própria morte.

[Deixo o desafio a todos os que por aqui passarem para pôrem a andar nos comentários a sua Roda de Leitura]