17 de outubro de 2007

Lisboa entre o azul e o negro



«Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo», escreveu Álvaro de Campos, que dizia viver em Lisboa como um fósforo sem chama enquanto pelas paredes das casas escorriam lágrimas amargas que humedeciam o seu sonho. «Outra vez te revejo, / cidade da minha infância pavorosamente perdida / cidade triste e alegre, outra vez te sonho aqui». Eis Lisboa, ainda, apesar de tudo, apesar das avenidas transfiguradas e do vazio da baixa, à noite; apesar do Tejo estar agora mais distante no Cais das Colunas e de Bernardo Soares, se ali regressasse, já não poder passar «horas, às vezes, no Terreiro do Paço, na margem do rio, meditando em vão». Eis Lisboa onde no fim de semana passado tracei uma certa cartografia da felicidade, adentrando-me colinas adentro, subindo ao Alto da Graça, olhando o Tejo lá em baixo com os seus grandes navios atravessando a paisagem; descendo depois à bolina até ao Rossio, para logo voltar a subir ao Bairro Alto, perseguindo a rota dos alfarrabistas. E, a seguir, rumar até ao Museu de Arte Antiga onde se mostram uns proféticos painéis de Nuno Gonçalves que anteciparam a gesta dos descobrimentos. Lisboa tão diferente de Madrid, por onde deambulei no fim de semana passado, imersa umas vezes na mais profunda tristeza, outras na mais radical felicidade.

E felicidade que pode ser encontrada naquela pequena livraria de novos e usados, na Calçada do Combro - Letra Livre - onde finalmente consegui encontrar o Fogo Pálido, a obra mais engenhosa de Nabokov. Ou um pouco mais à frente, num alfarrabista que tinha na montra a versão brasileira de O Homem sem Qualidades, de Musil. E também na FNAC, do Chiado, onde comprei o livro da Alexandra Lucas Coelho, Oriente próximo [Relógio d´Água, 2007], uma cartografia estremecedora dos territórios palestinianos ocupados, um jornalismo que não devora, antes alimenta o pensamento;  e, ainda outro livro que ali encontrei, Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry [Relógio d´Água, 2007], que nos devolve uma espécie de insurrecta nostalgia de um México que já não existe, mas cuja alma profunda José Agostinho Baptista captou num pequeno livro que generosamente me ofereceu há dias, intitulado Debaixo do Azul Sobre o Vulcão [E.A., 1995] e que, definitivamente, colocou o México na rota da próxima Atlântica. Lugar de felicidade, embora mais prosaica, também o pequeno restaurante da rua Rua da Atalaia, onde o empregado, respeituoso, me pergunta num português que cada vez menos gente usa: «Ides beber um vinho? E, no final da refeição: «Haveis terminado?».

E depois, felicidade nalguns lugares da modernidade lisboeta por onde errei, guiado pela  Time Out Lisboa que já cá fazia falta. Desde logo, a exposição um Atlas de Acontecimentos [Gulbenkian, 07 Out a 30 de Dez], onde vários artistas oriundos de diferentes lugares do mundo, mas com uma mesma visão nihilista dos acontecimentos - «no nevoeiro da guerra, nada podia estar a salvo», lê-se na legenda de uma réplica em papel de um artefacto pilhado do Museu Nacional Iraquiano -, perseguem uma resposta oblíqua ao estado do mundo actual, enquanto esperamos a catarse libertadora. Também as duas exposições, na Culturgest, Atlas Group (1984-2004) - que pode ser lida como um enfoque particular da exposição Gulbenkian, uma investigação de Walid Raad sobre a história contemporânea do Líbano -, e Jean-Luc Moulène, sobretudo aqueles trinta e nove objectos de greve de um tempo onde a greve ainda não fazia greve. Três exposições que, dentro do nihilismo cinzento circundante, constituem outras tantas brechas contra «o súbito aparecer do informe», contra o apagamento da História, contra, enfim, a desmobilização geral num mundo moldado pela impotência. E o mesmo se poderá dizer da tela gigante contra a «banalidade do mal», do pintor surrealista chileno Roberto Matta que integra a Colecção Berardo, no CCB. E de reacção contra a impotência foi também a proposta de Les Ballets C. de la B. / Koen Augustijnen, com a Import Export [Culturgest, 12 e 13 de Outubro]. E o belíssimo espectáculo A Trilogia dos Dragões, de Robert Lepage, uma saga de uma China imaginada por imigrantes dos bairros chineses de Quebeque, Toronto e Vancôver numa viagem que passa ainda por Hong Kong, Tóquio, Hiroxima e pela China maoísta, entre 1910 e 1985.

Lisboa, às vezes, tem destas coisas. As suas calçadas conduzem-nos a lugares de felicidade, que acrescentam «azul de muitas cores / ao outro azul que os vossos olhos vêem» [Pedro Tamen], mesmo quando nesse azul se espelha a negro a devastação do mundo, como é o caso das exposições visitadas. E que melhor lugar para encontrar o negro no azul e o azul no negro que Lisboa, a «cidade [...] pavorosamente perdida / [a] cidade triste e alegre» de Pessoa?

14 de outubro de 2007

Madrid é uma festa



Num conto breve de Kafka, intitulado A partida, alguém pergunta: - «Conheces, então, a tua meta?». -«Sim [foi a resposta]. Já disse. Sair daqui: esta é minha meta». No meu plano de evasão constantemente renovado, Madrid foi a minha meta no último fim de semana prolongado. Deixo aqui uma espécie de cartografia espiritual de um fim de semana que nunca se acaba, pois já se estende por outros que hão-de vir.

Vivamerica. Madrid nunca se acaba, sobretudo num fim de semana carregado de palavras, sons, imagens e sabores vindos do outro lado do mar para celebrar a alma ibero-americana partilhada por mais de 400.000 milhões de falantes de espanhol e português em todo o mundo. Trata-se do Vivamerica que como uma enorme corrente atlântica se derrama por vários lugares da capital espanhola, deixando escutar a maresia do sul e, às vezes, olhar os abismos onde há muito tempo nos perdemos. Numa carta escrita a Pessoa falava Borges da «vaga gente sem geografia cumprindo em sua carne, obscuramente, seus hábitos». Hoje, outra vaga gente faz o caminho inverso e procura na Europa cumprir a sua carne, os seus hábitos que também já foram os nossos. Outras travessias, portanto, entre a saudade e a esperança de corações emigrantes navegando num mar em cujas águas verdes, azuis e negras se espelha a nossa alma antiga. Por isso, um emigrante equatoriano me dizia, enquanto esperávamos na Casa das Américas por Álvaro Mutis: «estamos aquí, por que vosotros estuvieran allá». E foi à procura dessa América inventada, imaginada, feita de encantos e desencantos que estive há uma semana em Madrid, escutando as palavras de Mutis, Juan Villoro, Pedro Juan Gutiérrez, Mario Delgado Aparain, Luis Sepúlveda, Inês Pedrosa, Fernando Pinto Amaral, entre outros; partilhando a experiência política de Rubén Blades como ministro do Panamá; ouvindo as sonoridades do gótico tropical de San Pascualito Rey. // Álvaro Mutis. A primeira vez que o encontrei, na Rue Vaneau, em Paris, pensei tratar-se de um seu duplo. Sempre a Rue Vaneau. Ou seria na página 293 de Doutor Pasavento [Teorema, 2007]? «Então pude ver que o homem não era parecido com Álvaro Mutis, mas sim o próprio Álvaro Mutis, o escritor colombiano». E agora ali estava ele de novo, com Juan Villoro ao lado, a abrir o festival Vivamerica. «O inventor da melancolia moderna», alguém disse já não sei se se referindo a Chateaubriand ou se a Mutis. O certo é que a conferência inaugural deste «maestro del descalabro» não andou longe do que pensaria o escritor francês se ali estivesse na Casa da América, transformada por instantes numa espécie de nau à deriva conduzida por um navegador do desassossego. «Jamás en su vida sobre la Tierra el hombre ha vivido más solo, más aislado de sus semejantes, más vejado por sus propios inventos, destinados a borrar en él hasta último rasgo de humanidad», afirmou o escritor de Los Elementos del Desastre [1953] perante a plateia que enchia a sala Gabriela Mistral. Lembro-me então da pergunta de Elias Canetti: «Regressará Deus quando a sua criação estiver destruída?». E como se escutasse o murmúrio do meu pensamento, Mutis responde que, haja o que houver, a poesia estará aí para contar o último suspiro do mundo. // Juan Villoro. Converso com Juan Villoro sobre a cidade do México, transformada agora na região menos transparente e no «único lugar donde he tenido miedo de perderme para siempre», como afirmou o escritor Claudio Magris. Digo-lhe que com a minha alma de passeante já lá estive uma vez, anónimo entre os seus quinze milhões de habitantes, perdendo-me num lugar para me reencontrar sempre noutro. Ofereço-lhe a revista Atlântica e peço-lhe cumplicidade na forma da escrita de texto a publicar no próximo número em preparação. Evoca Jaime Torres Bordet que já em 1957 escrevia: «Fuiste, ciudad. No eres. Te aplastaran/ tranvías, autos, noches al magnesio./ Para verter el paisaje/ ahora necessito un aparato/ preciso, lento, de radiografia./ Que enfermedad, tus árboles! Qué ruina/ tu cielo!». Ficou de me enviar uma crónica mexicana escrita sob un cielo artificial. // Rubén Blades. Pergunto a Rubén Blades como pode o cantor de Pablo pueblo passar de denunciante das injustiças a ministro do governo do Panamá. «Es pasar de escribir la denuncia, a una propuesta en la que vas a tratar de ayudar a mejorar las cosas a través de un proceso político», responde-me numa conversa que durou quase uma hora e que será publicada num próximo número da Atlântica. // San Pascualito Rey. Rock, rancheras, balada setentera, huapangos, música de congal e muita experimentação no terceiro disco deste grupo que veio do México.

Círculo de Belas Artes 1. Bruno Schulz. El pais tenebroso. Quem ousar entrar na sala Goya, no Círculo de Belas Artes, em Madrid, poderá precipitar-se num País tenebroso, exposição retrospectiva da obra plástica de Bruno Schulz. A memória da infância asfixiante na sua Drohobycz natal: cenografias de lojas sombrias, manequins de cera, mulheres anónimas, judeus errantes, fiacres nocturnos, seres deformados com feições caninas povoam a geografia de pesadelo de um Schulz que até ao fim de semana eu conhecia apenas desse extraordinário livro de contos que é As Lojas de Canela [Assírio & Alvim]. Trouxe comigo um belíssimo catálogo organizado por Monika Poliwka, comissária da exposição, com reproduções da sua obra plástica, postais antigos de Drohobycz, fotografias de família, alguns originais de correspondência trocada com Witold Gombrowicz. Restos de um pais tenebroso. // Ramón María del Valle-Inclán. Las Galas del Difunto. Ainda no Círculo de Belas Artes, o Teatro del Común, sob a direcção de Celia León, apresentou um texto pouco conhecido de Valle-Inclán, aquele «que se queixava de não lhe permitirem subir para um eléctrico com dois leões».

Museu Reina Sofia. Paula Rego, Retrospectiva. Uma trajectória artística que mostra a experiência do mundo de uma pintora indomável, inspirada nas recordações da sua solitária e mágica infância, como se Portugal inteiro, no seu melhor e no seu pior, estivesse agora ali diante de nós. Um Portugal que parece pintado por um Goya contemporâneo ou por Hogarth cuja influência Paula Rego reivindica. Momentos inebriados, festivos, violentos, lúdicos, teatrais, patéticos. E também os livros dentro dos quadros: As Criadas, inspirado na obra de Genet; Os Crimes do Padre Amaro, de Eça; Jane Eyre, de Charlotte Brontë; A Metamorfose, de Kafka; O Homem Almofada, inspirado em Martin McDonagh. Alegorias. Exposição visitadíssima, a mostrar que ainda há muitos portugueses que fazem quilómetros para ver arte. //Guernica. Picasso. «Escrever poesia depois de Auchswitz é bárbaro», afirmou Adorno diante da experiência do extermínio. E outros houve que emudeceram perante a «banalidade do mal». Mas Picasso, pelo contrário, pintou como ninguém essa banalidade, deixando-nos, isso sim, emudecidos diante da barbárie pintada do bombardeamento de Guernica. Uma pequena multidão olha o quadro em silêncio, como se ali qualquer outra semântica fosse redundante contra a banalidade do mal.

Museo del Prado. Demoro-me na pintura flamenga. Sobretudo Rubens, excessivo, apolíneo. A exuberância do nu feminino n´ As três Graças. O retorno à festa da vida n´ O jardim do amor e na Dança dos aldeões. Depois, detenho-me n´As Meninas, de Velásquez. E n´O jardim das delícias, de El Bosco. E depois, Goya, de quem Ortega y Gasset disse ser «um monstro... e o mais decidido monstro dos seus monstros». Talvez não, apesar de todos os seus fantasmas, vividos e pintados, e de oscilar sempre entre a luz da corte e a escuridão da alma. E de novo a «banalidade do mal», agora n´Os fusilamentos de três de Maio. // Patinir e a invenção da paisagem. A paisagem antes da destruição descrita por W. G. Sebald muito tempo depois. Um remador que lembra Erza Pound nos seus dias mais obscuros. Uma aragem lambendo a superfície líquida de um lago. A barca de Coronte transportando uma alma numa viagem sem retorno sob um céu azul, místico, nórdico, assim se anunciou num enorme painel colocado à entrada do Museu, a exposição do pintor flamengo que eu ainda não conhecia. Depois, lá dentro, 24 paisagens quase microcópicas, onde, ainda assim, cabemos todos, como se o próprio Patinir nos tivesse colocado aí como personagens secundários de outras tantas micro-narrativas enquadradas num fundo de paisagens submersas de azul, rochedos, bosques, torres, casarios, moinhos, uma fogueira, um bando de pássaros levantando voo e, no último plano, sempre um horizonte luminoso onde pairam densas e opressivas nuvens sobre imagens surreais de figurantes montados em bestas, monstros, matanças, calamidades.

Casa del Libro. Enrique Vila-Matas. Exploradores del Abismo [Anagrama, 2008]. Entro na livraria para comprar Exploradores del Abismo, o último Vila-Matas, de que já lera o conto «La modéstia». Abro-o ao acaso e leio em «La letra gorda», aquilo que me parece ser uma virtual declaração de princípios do livro: «La tensión más fuerte la provocaba el duro esfuerzo de contar historias de personas normales y tener a la vez quereprimir mi tendencia a divertirme con textos metaliterarios». Veremos se é outro ou o mesmo Vila-Matas que agora se dá a ler.// Vila-Matas portátil [Candaya, 2007]. Já se percebeu que sou um aficcionado do escritor catalão. « Tal vez en unos años la acumulación de ideas sobre el trabajo de Vila-Matasos permita descobrir con claridad las razones por las que nos commueve», escreveu o crítico mexicano Álvaro Enrique, em 1997. E dez anos e cinco livros depois? Compro o livro que reproduz o itinerário crítico e cronológico dos livros de Vila-Matas e que inclui testemunhos de Pitol, Bolaño, Villoro, Fresán, Cercas, Tabucchi e Loriga, entre outros que partilham a sua aventura shandy. // Joseph Roth. Fuga sin Fin. [Acantilado, 2003]. É o romance que Pasavento/Vila-Matas transportava na maleta vermelha que herdara da sua avó e que «leu de um só folgo», em Nápoles. Prometo a mim mesmo lê-lo também de um só folgo numa próxima viagem de ocultação. // Roberto Bolaño. Los detectives salvages [Anagrama, 1998]. O escritor chileno que se exilou no México, durante a ditadura, e que nas extravagantes 447 páginas de Los detectives salvages deixa fluir a sua alma nómada, misturando-a com todos os seres errantes que vivem à deriva nos arredores de si mesmos, instaurando uma espécie de «literatura por vir». // Sergio Pitol. El arte de la fuga [Anagrama, 1996]. Um livro que foge a qualquer classificação, que remove as fronteiras do género, parecendo, primeiro, um ensaio, mas logo depois uma narrativa, e depois uma crónica de uma vida, um testemunho de um viajante, ou anotações de um leitor hedonista, sempre como se o autor fosse uma criança deslumbrada diante da variedade do mundo.

Babelia. Tenho por hábito ler o suplemento do El Pais todos os sábados. Sento-me por isso na esplanada do Círculo de Artes, na Gran Via, e empreendo uma viagem através da literatura catalã que constitui o tema desta Babélia, transformando momentaneamente a Gran Via no Passeig de Gràcia. Um inquérito junto de mais de cem especialistas elege as 50 melhores obras catalães de sempre: Ramon Lull [1232-1316] («Implacável defensor de la lógica cristiana. Escribió en latin, catalán y árabe. Consciente de que existiria un Pierre Ménard reescribió de memoria algunos de sus libros perdidos en un naufragio»); Josep Pla [1897-1981] («incómodo y bellíssimo. Desconfiado, viajero, diletante, comodón, trabajador... es el paradigma de la literatura catalana»; Salvador Espriu [1914-1945] («Le compararon a Pablo Neruda, Rafael Alberti o Valle-Inclán. No se les parece en nada. Autor precoz, le tocó vivir con estoicismonlo peor de la história del siglo XX». Dos cinquenta títulos citados não li nenhum! Mas recordo o fundo cabalístico de Lull perseguido por Luisa Costa Gomes, em Vida de Ramón [Dom Quixote, 1991]. E li outros mais recentes, como Juan Marsé, Eduardo Mendoza, Javier Cercas, Carlos Ruiz Zafón e, claro, Enrique Vila-Matas. Nesta Babélia há ainda páginas sobre agentes literários, editores e livreiros de Barcelona que já não tive tempo de ler, pois alguém muito parecido com Che Guevara sentou-se na mesa ao lado. Pouso o jornal e regresso à Gran Via. Mais tarde, na Plaza del Sol, confirmaria tratar-se, efectivamente, de Che.

El tapeo. A idea é caminhar ao acaso desde a Puerta del Sol até à Plaza Mayor, passando pela Plaza de Santa Ana, ir descobrindo os rincones mais saborosos da cidade através do labirinto faustoso das mil tabernitas que há por ali e que nos convidam a entrar, fervilhando de gente que se pierde noche adentro, entre vinitos, cañas y bocadillos, la oreja, los torreznos, las anchoas, lo ibérico... y sobre todo con muchas ganas de vivir. Tapear es una arte y a Madrid la conocen como puede comprobar, tanto que ahora mismo se me huida la lengua para el castellano. Aqui fica a porta de entrada para a Venta El Buscón, um dos muitos abismos faustosos por onde me adentrei.  

11 de outubro de 2007

Retrato breve




Conheço pouco da obra de Doris Lessing, a laureada deste ano, mas gosto do seu olhar tranquilo, luminoso e, simultaneamente, distante. E mais do que a sua obra, desperta-me curiosidade a sua biografia. Uma mulher que nasce em Kermanshah, na Pérsia, e vai viver para África aos seis anos, que trabalha como telefonista em Salisbury, que é capaz de andar de país em país, deixando marido e filhos, escolhendo ser escritora, alguém sem formação académica e que mesmo assim constrói uma obra com a amplitude da sua, é com certeza mais interessante do que o cortejo de escreventes que publicam livros só porque ganharam um nome fora da escrita. Dela sei, ainda, que é uma escritora comprometida. Uma testemunha do seu tempo. «Uma contadora épica da experiência feminina [que] perscruta uma civilização dividida», como ouvi dizer a Lídia Jorge. Sei ainda que na sua autobiografia incompleta, a propósito de um saco que um dia uma portuguesa lhe ofereceu, escreveu que Portugal era «uma dessas regiões do mundo onde reina a graça do coração». E, há instantes, quando a vi noticiário, não pude deixar de pensar que também Agustina Bessa Luis merecia um prémio assim.

9 de outubro de 2007

Danças com Che



No passado sábado enquanto lia o suplemento literário do El Pais na esplanada do Círculo de Artes, em plena Gran Via, em Madrid, alguém, que me pareceu de imediato muito familiar, se sentou na mesa ao lado e pediu que lhe trouxessem um Habana Club com gelo. Durante algum tempo procurei recordar de onde conheceria eu aquele rosto. Ainda pensei tratar-se de Gael García Bernal ou Benicio del Toro ou, embora menos, de Antonio Banderas. Como não achava forma de me lembrar, entre um gole de rum e outro, ganhei coragem e acabei por lhe perguntar: - «Perdone? No nos conocemos?»Seguro que sí. Yo soy el Che Guevara», respondeu.

Pensei tratar-se de uma piada e esqueci-o. Contudo, à noite, enquanto caminhava pela Plaza del Sol, lá estava ele, agora plantado sobre um  caixote de plástico, vestido com camuflado militar e com a bóina do Che Guevara na cabeça. Com um livro aberto na mão, recitava um inflamado discurso contra o imperialismo, enquanto se deixava fotografar por grupos de turistas japoneses que lhe concediam, depois, alguns euros que atiravam para uma pequena caixa colocada aos seus pés. Não havia dúvida, era mesmo o Che que ali estava, competindo com um homem de mala de viagem, gabardina e chapéu de chuva revirados pela ventania imaginária que de repente se levantara naquela praça de Madrid mas que, estranhamente, parecia não afectar o revolucionário argentino. Contudo, não obstante a paixão que Che imprimia ao seu discurso, o homem da mala e gabardine ao vento atraía mais público e arrecadava mais moedas, retardando, assim, o financiamento da revolução por vir.

Na Calle de los Preciados, muito perto, portanto, do epicentro revolucionário da Plaza del Sol, na vitrina de uma loja de artigos de beleza de categoria duvidosa, expunha-se um kit completo de higiene revolucionária: um jogo de toalhas vermelhas com a efígie do Che e uma caixa de sabonetes, gel de banho e shampô, tudo com o selo do Che. E na vitrina da relojoaria, uns metros adiante, alguns relógios Swatch com a fotografia de Che no mostrador esperavam pulsos revolucionários. E na loja da FNAC havia um escaparate de novidades sobre o Che: Ernesto Guevara, también conocido como el Che, Paco Ignacio Taibo II, Booket; Os últimos dias de Che, Juan Ignacio Siles, Debate; Diarios de motocicleta, Ernesto Che Guevara, Ediciones B; El diablo cojuelo, Luis Veléz de Guevara, Cátedra; Che Guevara. Una vida revolucionaria, Jon Lee Anderson, Anagrama; El hombre que mató al Che Guevara, Magnus, Nuevas Fronteras del Arte. Perante tamanha profusão de comandantes, pensei que a revolução estaria iminente e que, talvez, fosse melhor deixar os sapatos Camper para outra ocasião, não fosse ser confundido com um simpatizante da globalização.

Regressei de Madrid sem que tenha notado qualquer mudança revolucionária. Talvez porque os turistas tivessem preferido o homem da mala e gabardina ao vento ao inflamado Che da Plaza del Sol. Mas hoje, por ocasião do quadragésimo aniversário da sua morte, ao procurá-lo no Google voltei a encontrá-lo nos lugares mais insólitos: tatuado no braço de Maradona, desenhado em t-shirts, impresso em posters para quartos de adolescentes, bordado em roupa interior feminina, pintado em bolas de futebol, gravado em caixas de chocolates, inscrito em notas de um dólar, difundido através de pins, de gadgets. Che para todos os gostos e idades, como estratégia de marketing, trabalhada a partir da velha fotografia de Alberto Korda como denuncia Trisha Ziff em Che: Market and Revolution: para estudantes e para a terceira idade, para enfermeiras e empresários, para intelectuais nihilistas e alienados consumistas. Adorado como um santo na Bolívia e odiado como um assassino em Miami.

Como explicar esta espécie síndrome guevariano?.Talvez porque Che morreu jovem, guapissimo, como me disse uma amiga argentina, mais ainda do que os seus duplos  actuais, Gael García Bernal ou Benicio del Toro. Talvez para nos fazer esquecer a imagem patética de Fidel calçando uns chinelos Adidas num hospital cubano. Ou os discursos bolivarianos de Chávez. Talvez porque vivemos num mundo sem redenção.

Talvez por isso, também, a única imagem que gostaria de evocar agora, não é a mítica fotografia de Alberto Korda, tirada em 1960, e que o Instituto Maryland de Arte viria considerar «a mais famosa fotografia no mundo e símbolo do século XX», mas aquela outra, muito menos conhecida, que mostra duas mulhers dançando por ocasião do seu aniversário, em Santa Coloma de Gramanet. Não porque haja ali qualquer pulsão revolucionária, e muito menos o sentimento nihilista contemporâneo que o transformou, nas décadas de sessenta e setenta num ícone de uma juventude rebelde com causa, depois na ténue bandeira de nostálgicos guerrilheiros urbanos, e mais recentemente num símbolo do movimento anti-globalização, mas porque essa é uma imagem sem rosto, a única que lhe pertence desde que lhe atribuiram uma biografia romântica, mitificando-o como um justiceiro solitário e um revolucionário generoso, abatido traiçoeiramente no final da história.

A questão a saber é se poderá ainda atribuir-se algum significado político à sobrevivência mercantilizada de Che. Em artigo publicado no El Pais [Che "versus" fetiche], Iván de la Nuez, um ensaísta cubano que vive em Barcelona, considerava a propósito que «para la izquierda radical, el fetiche del Che significa una victoria cultural después de una derrota política. Para la derecha radical, el fetiche del Che significa una derrota cultural después de una victoria política». Será? E será que «a sua auréola de idealista e de herói, a capacidade de sedução de alguns dos valores que orientaram a sua intervenção, a própria noção da violência revolucionária como necessidade», ligadas à utopia guevarista ainda fazem sentido, como questiona Rui Bebiano em O capitão Wiesler e o doutor Guevara?

[Obrigatório passar por http://www.personalche.com/ e ver o trailer de dois jovens cineastas Douglas Duarte (Brasil) e Adriana Mariño (Colômbia) também em: www.youtube.com/watch?v=1nyBxg32Wd0]

8 de outubro de 2007

Espião casual



Diz António Trabucchi que todos os escritores são um pouco voyeurs, todos olham para lá das portas que abrem para os abismos de todos os dias, procurando roubar a experiência de outras vidas. Enrique Vila-Matas confessa esse pecado dizendo que tem por hábito fazer de espião casual no autocarro nº 24 que percorre «la calle Mayor de Gracia», em Barcelona, retirando dessa observação disfarçada a matéria impura dos seus livros: «Tenho em casa um arquivo de gestos, frases e conversas escutadas através do tempo nesse trajecto de autocarro, e até creio que poderia escrever um romance tão infinito como aquele que queria fazer Joe Gould sobre Nova Iorque, pois roubei e registei todo o tipo de frases soltas, conversas estranhas, disparatadas situações». Ficamos, então, a saber que o conto La Modestia [in Exploradores del abismo, Anagrama, 2007] é um produto de uma espionagem literária da realidade de todos os dias, feita de mundos ficcionais paralelos que às vezes se confundem, sem que os seus protagonistas o saibam, como aconteceu com «aquela mulher toda vestida de cinzento como a mãe de Nerval», saída, talvez, de um quadro de Fragonard para entrar no autocarro da carreira nº 24. É que numa carreira diária de um qualquer autocarro, se observarmos bem à nossa volta, talvez encontremos a porta que se abre para o abismo da dura realidade daqueles que, incógnitos, viajam connosco. O problema é que, depois, como diria Canetti, quando a porta se fecha já não sabemos como regressar desse mapa onde, entre uma paragem e outra, nos perdemos.

1 de outubro de 2007

Madame Bovary e os seus duplos

«E como eram as ligas de Madame Bovary?», interroga-se Francisco Umbral no retrato que traça da personagem de Flaubert num pequeno livro que toma por título precisamente essa interrogação [Campo das Letras, 2005]. É que apesar da miniaturização estética do romance esse pormenor nunca nos é revelado, muito menos  no final daquele passeio de fiacre, ao ritmo ofegante do cavalo e à deriva através das ruas de Rouen, vedado aos ollhares indiscretos dos transeuntes e, sobretudo, ao voyeurismo dos leitores, pelas cortinas descidas: «E no cais, no meio de carroças e de barricas, e pelas ruas, sobre os bancos de pedra, os burgueses arregalavam os olhos perante aquela coisa extraordinária na província: uma carruagem com os estores descidos aparecendo assim constantemente, mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio». Mas as ligas literárias, se é que Emma as usava, ficarão para sempre no segredo daquele fiacre, deixando ao leitor apenas a possibilidade de as imaginar descaídas sobre as carnes brancas de Emma enquanto esta se entregava ao amante. Mesmo sem ter mostrado as ligas, Flaubert não se livraria de ir a tribunal, em 1957 - já depois da edição de Michel Lévy -, acusado de ofensa à moral e à religião por causa de Madame de Bovary publicado, primeiro, em fascículos quinzenais na Revue de Paris [1956-1957], donde fora eliminada a pedido de Maxime du Camp, editor da Revue, a cena do fiacre: «A tua cena do fiacre é impossivel, não para nós que nos estamos nas tintas, não para mim que sou responsável pela edição, mas para a polícia de costumes que nos condenaria sem apelo». Contudo, embora publicando a cena do fiacre em 1857, Flaubert sucumbiria à moral burguesa «assassinando» Emma em 1857, tal como Eça «assassinaria» Luísa duas décadas mais tarde.

E como eram as ligas de Luísa? «Ajoelhou-se, tomou-lhe os pezinhos entre as mãos e beijou-lhos; depois, dizendo mal das ligas tão feias, com fechos de metal, beijou-lhe respeitosamente os joelhos» [O Primo Basílio]. Aqui não haveria processo, talvez por tudo se passar num quarto de hotel e não num fiacre de «estores descidos«, «aos solavancos», mas a revelação das ligas seria apenas o primeiro mostrar de um detalhe da roupa interior de Luísa, num romance que persegue o modelo de adultério de Flaubert (ou, mais exactamente, dos romances de adultério do século XIX, de Ana Karenina de Tolstoi a Effi Brist de Fontane), mas que mostra detalhes que Flaubert preferiu esconder atrás dos estores descidos de um fiacre. Talvez por isso Borges tenha afirmado: «Eça de Queirós li e reli. Parece-me que só agora está a ser reconhecido. Mas Zola já havia dito que O Primo Basílio era muito superior a Madame Bovary». Contudo, a ruptura de Eça com o seu modelo flaubertiano só surgiria em Alves & Cª, ao poupar à morte, numa história de adultério feminino, a protagonista. Menos sorte tiveram Emma e Luísa, vítimas do fatalismo flaubertiano.

E que dizer da Ema de Vale Abraão, de Manoel de Oliveira? A atracção pelo luxo, as ilusões, o desejo que inspira aos homens, valem-lhe a epíteto de Bovarinha. Conhecerá três amantes, mas esses amores sucessivos não conseguem suster um crescente sentimento de desilusão, que a leva a dizer que vive num «estado de alma em balouço». Também Ema morrerá - acidentalmente? - num dia de sol luminoso, depois de se ter vestido, com ligas, como se fosse para ir a um baile... Talvez, no filme de Manoel de Oliveira, baseado no romance homónimo de Agustina Bessa-Luís, a morte não seja uma expiação da culpa, porque tudo o que aí acontece é colocado, do princípio ao fim, sob o signo do feminino, de um olhar feminino pousado sobre o mundo, ao contrário da outra Emma que a androgenia de Flaubert proíbe de olhar à sua volta. Não, até porque Vale Abraão, mais do que uma adaptação, é uma reescrita do romance de Flaubert, questionando a sua própria matéria romanesca, preferindo a possibilidade de emancipação face à fatalidade da condição feminina. Talvez um outro mostrar de ligas, diferente, também, daquele de Luísa, do Primo Basílio. «Eu não Madame Bovary», diz Ema no filme.

E vem tudo isto a propósito de Madame de Bovary, de Flaubert, que releio não tanto para apreciá-lo enquanto modelo do romance de época, mas sobretudo para confrontá-lo - o que penso fazer a seguir - com essa espécie de «enciclopédia da estupidez humana», segundo o próprio Flaubert, que é Bouvard e Pecuchet (admirado por Borges que não se cansou de o elogiar: «É um dos livros mais fortes que conheço.») -, publicado em 1881,  precisamente para dinamitar, despedaçar (Enrique Vila-Matas) aquela perfeição naturalista.

24 de setembro de 2007

O Senhor Kraus ortónimo


Não podendo Kraus, o verdadeiro, ser declarado shandiano - seja porque as insuportáveis 525 gramas de peso de Os últimos dias da humanidade não passariam, por certo, no teste da máquina de pesar livros de Walter Benjamin, seja porque as 209 cenas dessa peça de teatro são de uma densidade absoluta, seja, ainda, por ser um homem de grande severidade e por praticar uma disciplina absoluta, seja, finalmente, porque nesse grosso volume terminal nada é excêntrico, antes tudo participa num propósito de exibição e denúncia dos estados inaceitáveis do mundo -, ainda assim, talvez, por se ter cruzado nas ruas de Viena com algum dos 27 membros da sociedade secreta que por volta do mês de Março de 1925 ali acorreram  para uma festa shandy, também este Kraus ortónimo, embora de maneira distinta da sociedade shandiana, foi um homem sem qualidades, um estranho de passagem entre duas guerras, um escritor secreto que enfrentou os paradoxos terminais da modernidade e que, às vezes, servindo-se de uma ácida ironia shandiana dizia que «o jornalismo come o pensamento» e que «os jornais têm mais ou menos a mesma relação com a vida que a cartomante com a metafísica».

Se tudo resto afasta o crítico apocalíptico Karl Kraus daqueles escritores shandys guiados por princípios fúteis e vagos, mas ao mesmo tempo em permanente conspiração, pelo menos com eles partilha o estranhamento do mundo. Talvez, por isso, o seu duplo, se tenha retirado, sem mala, para o Bairro portátil de Gonçalo M. Tavares, onde, agora, travestido de Senhor Kraus heterónimo reaparece rejuvenescido, volúvel, praticando um jornalismo de um humor delirante, desconcertante, shandiano, sem outro propósito que não seja o de apanhar o dia de modo expedito.

20 de setembro de 2007

Políticas da literatura


Nalguns textos anteriores aqui inscritos (Da literatura Sebald: viagem entre ruínas), tenho procurado interrogar o papel da literatura enquanto expressão necessária da consternação de um mundo «tão cheio de falsas representações, tão fútil, onde tudo se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História se desvanece», como escreveu W. G. Sebald, em Os Anéis de Saturno.  Mas que literatura «ante a decadência implacável da ambição literária, a convergente ascensão de desengano, a verborreia e a crueldade insensível como assuntos normativos da ficção»? questionava Susan Sontag. Que literatura perante este mal endémico que corrói, hoje, as estantes das livrarias?

Demasiadas interrogações que vêm alimentar um debate em múltiplas direcções, actualizando a questão da definição do papel da literatura, questionamento que poderá constituir não apenas um sinal de indecisão acentuada, mas também uma aproximação à complexidade processual da literatura. Ante o espectro da síndrome do código [...de Da Vinci] e das suas múltiplas reprises, poderá a literatura, ainda, continuar a produzir uma interrogação sobre o mundo, revelando os territórios da dominação que se escondem atrás da vida de todos os dias e, assim, cumprir o seu papel na sobrevivência da memória? Ou será cada vez mais a literatura uma mercadoria que se expõe nas livrarias à espera de um leitor passivo e pouco exigente, uma raça de «analfabetos altivos» que «em vez de ler o melhor que se produziu nas diferentes épocas, se resume a ler as novidades, afundando-se cada vez mais no próprio lodo», como antecipou Schopenhauer?  Na verdade, o que cada vez há mais nas livrarias são apenas livros e pouca literatura, contribuindo para o simulacro de uma cultura que se esvanece perante a histeria tranquila que invade os escaparates livreiros, transformando o leitor num consumidor passivo, marcado pela fraqueza e pela impotência face à mercadoria exposta ali por «todos esses homens de negócios que editam livros, directores de departamento, líderes de mercado, trapezistas do marketing e licenciados em economia», como denuncia Enrique Vila-Matas nesse desassossegante libelo contra os inimigos do literário que é O Mal de Montano.

«A rasura total da literatura» ou «o horror do estilo», segundo João Barrento ou o «realismo urbano total», como classificou Miguel Real esta literatura achatada, e quase sempre vazia, que espelha o mundo que aí está e que muitos chamam de pós-moderno, correspondendo à «historicidade imanente» de que falava Theodoro W. Adorno.  Uma literatura que não é mais do que a manifestação epifânica de um mundo carregado de sombras ocultas sob a fogueira da técnica e do mercado que nos atrai como borboletas de asas trémulas. A literatura perdida no meio dos livros e nós doentes da literatura como mariposas errantes no meio deles. Estará a «arte de contar em vias de se perder», como afirmou Walter Benjamin? E não será isso uma consequência da crise da experiência moderna, onde o fragor da técnica emudeceu a fala dos homens e dos escritores apanhados pela mesma teia da contingência? Paul Auster afirma na sua Trilogia de Nova Iorque que «o caso é que as nossas palavras já não correspondem ao que se passa no mundo. [...]  Pouco a pouco [as] coisas fragmentaram-se, espalharam-se, caíram num caos. E, contudo, as palavras permaneceram as mesmas», tornando-se incapazes de dar lógica à trama da vida.

Que outra via, então, para a literatura? Isto é, entre a mercadorização, a alienação e o engagement será possível ainda uma literatura capaz de, para além dos propósitos do autor, perturbar o universo do sensível, os modos como percepcionamos o mundo, autonomizada, mas sem cair no vazio ou no ensimesmamento.  Como contrariar a profecia hegeliana sobre o devir da «prosa do mundo» que ao perder o seu sentido teológico perdeu também a sua literariedade, tornando-se num «objecto verbal laborioso e inútil», como já a sentia Jorge Luís Borges? Trata-se, agora, de resolver a oposição radical entre a passividade e a actividade do leitor, como propõe Jacques Rancière, em Politique de la littérature. Que novas figuras de esperança, sem cair na tentação panfletária, poderá ainda a literatura convocar neste crepúsculo das ideologias? Diz Rancière que «a força da arte é, precisamente, sair das figuras, das formas esperadas, para lhes dar um outro modo de presença». Não estamos diante de indivíduos, mas de personagens de papel - como escreveu Roland Barthes - através de cuja figuração estética o mundo impõe uma presença que apenas a distância nos permite abarcar. Mas «personagens com inteireza», segundo Lídia Jorge, capazes de dar à trama da vida uma outra lógica que lhe escapa e que só a literatura pode inventar, agitando éticas e estéticas conformistas. Uma literatura como simulação da vida, como escreveu Bernardo Soares no Livro do Desassossego: «Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa». Ir por aí, portanto, ultrapassando o velho paradigma modernista da distinção entre uma literatura engagée e uma literatura indiferente, mas recusando «uma espécie de pedagogia política voluntarista da arte» que não poderá constituir o contraponto ao vazio ou ensimesmamento literários.

Coloca-se, então, o problema da relação da política com a literatura, com a arte em geral. Qual o compromisso actual da literatura? Caberá à literatura e à arte produzir conhecimentos ou representações para a política, falhando a sua natureza ociosa? Ou, pelo contrário, não residirá o seu potencial emancipador, o seu fogo, precisamente, na sua aparente ociosidade? «Um romance não é significativo por ser, por exemplo, instrutivo, e expor-nos um destino estranho, mas porque esse destino estranho, com o fogo que lhe é atribuído, nos dá um calor que nunca somos capazes de conservar para o nosso próprio destino. O que empurra o leitor para a novela é a esperança de poder abrigar a sua própria vida tiritante face a uma morte sobre a qual se lê», e «não é por comunicar conteúdos, mas por trazer à luz da maneira mais límpida a sua dignidade e a sua essência que a a literatura se mostra eficaz», escreveu Walter Benjamin em momentos distintos.  Esta a essência da literatura, isto é, a sua capacidade de escapar a toda a determinação essencial, a toda a acção estabilizadora, diz Blanchot. Também Rancière afirma que a literatura  «produz ficções ou dissenções, agenciamentos de relações de regimes heterogéneos, mas não os produz para a acção política, mas sim no seio da sua própria política, criando um duplo movimento que por um lado conduz à sua própria supressão, e por outro, aprisiona a política da arte na sua solidão, recortando o espaço do sensível e da redistribuição das relações entre a actividade e a passividade, o singular e o comum, a aparência e a realidade, que são os espaços-tempos do teatro ou da projecção, do museu ou da página lida».

Ora, é nesta reconfiguração da experiência que a literatura poderá, então, suscitar novas formas de subjectivação política e nesse sentido levar à superação do binómio política/literatura a cuja indistinção Rancière dá o nome de ética. Ou como dizia Lídia Jorge a propósito do seu último livro, uma literatura «com um assomo político», capaz de dar trama à vida de todos os dias. E de «corrigir a fortuna que é cega, com a alegria da natureza que é previdente», acrescentaria Agustina Bessa-Luís. Porque toda a ética da literatura reside no modo como ela se dá a ler. Ou, nas palavras de Giorgio Agamben, «como tu falas, isso é a ética».   

10 de setembro de 2007

No bairro portátil do senhor Tavares (VII): um cacaniano aposentado

«O Senhor Kraus saiu do jornal bem-disposto. Sabia que nos tempos que corriam (para trás?, para o lado?) a única forma objectiva de comentar a política era a sátira». O Senhor Kraus é uma personagem vagamente shandiana. E digo vagamente porque, não obstante a funda ironia e a ácida insolência que caracteriza o seu estilo jornalístico, além da, claro está, sustentável leveza do 5º livrinho deste Bairro portátil que vou revisitanto, não consigo fazer descolar a sua figura da seu severo homónimo Karl Kraus que numa Viena em apocalipse alegre escrevia e publicava sozinho a revista  Die  Fackel, com tal escrupulosidade que não só nunca lhe escapava a denuncia de tudo o que era podre e falso como nunca falhava, sequer, a colocação da vírgula menos pertinente.

O Senhor Kraus mimetiza o visionário nihilista e impiedoso crítico seu homónimo que - como escreveu Roberto Calasso, em Os quarenta e nove degraus -,  tendo antecipado que «se encontrava numa época que esvazia a noção discursiva e teatral de adversário, estendendo-a a tudo, dissipando-a em névoa, tornando qualquer um facilmente inimigo de si mesmo», se retirou para a vida privada do Bairro de Gonçalo M. Tavares. Ao contrário do seu duplo cacaniano que achava que «o jornalismo comia o pensamento», o Senhor Kraus é um jornalista shandy que apanha o acontecimento político de modo expedito, sem estar preocupado com qualquer refinamento estilístico.

Antecipando as causas da crise por vir, o Senhor Kraus apanhou de cernelha um acontecimento raro: «Uma enorme comitiva de economistas entrou nos aposentos centrais. Traziam um relatório gigante. Era o diagnóstico; o estado da economia do país ali estava, ao pormenor. Três meses de trabalho envolvendo mais de 32 mil economistas. Bem remunerados, mas era merecido: o relatório tinha mais de seiscentas páginas. E um índice. Foi no índice que o Chefe pegou». Às vezes, a realidade imita a ficção.

Afinal, a leveza destes livrinhos portáteis só o será aparentemente. Diria, antes, que são de uma insustentável leveza em matéria de expressão literária breve e despretenciosa para apanhar o quotidiano sem estar a coberto de qualquer propósito moralizador.

7 de setembro de 2007

No bairro portátil do Senhor Tavares (VI): no café com Calvino


O Senhor Calvino é uma personagem que gosta de dar longos passeios e coloca constantemente desafios existenciais a si próprio, tais como transportar pelo bairro uma barra metálica paralela ao solo, ou levar 10 kg de terra de um local para outro, utilizando uma colher de chá -  para treinar a paciência. O Senhor Calvino esteve no Café do TEMPO, no Sábado passado - onde a Gaveta - e o Sandro Junqueira, um jovem talentoso de Portimão, fantasiado de Karl Kraus, esse escritor severo que viveu numa Viena à beira do apocalipse alegre  - montou um radioso Bairro portátil para os curiosos que se escaparam no final da cruel versão teatral de Jerusalém, recriado por João Brites no auditório situado na cave do teatro -, e vimo-lo atirar-se do alto de mais de trinta andares em perseguição dos seus sapatos e gravata que alguém atirara pela janela: «Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores. Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessários para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: chega ao chão, impecável».

O Senhor Calvino sentou-se, depois, tranquilamente,  à minha mesa e, à falta de absinto - essa bebida esverdeada e opiácea que parece também ela ter sido desenhada por Gonçalo Tavares, ele próprio uma espécie de escritor-funâmbulo, umas vezes, em equilíbrio sobre os abismos da realidade dos seus livros negros, e outras vezes, planando em permanente «voo imaginativo» sobre um bairro portátil» para onde se escapa como se fosse, também ele, um senhor desenhado posto ali em andamento para nos fazer esquecer a realidade (e que, por certo, o volúvel Senhor Henri -, talvez o mais shandiano de todos os habitantes do bairro, bastante afeiçoado ao absinto e muito entendido nestas coisas de estímulos, fontes de inspiração e coisas assim - se por ali andasse, não deixaria de nos servir, ) - bebemos um whisky.

E, por um tempo breve, mesmo sem absinto para misturar com realidade, mas com os deliciosos livrinhos gráfico-literários inventados por Gonçalo M. Tavares ao fundo, numa biblioteca transportável, obtivemos uma realidade melhor depois de, momentos antes, termos andado à deriva entre cachos esbogoados de uma vindima longínqua, esqueletos de uvas amassadas lembrando ossaturas humanas, à semelhança de uma história normalizada do horror. Bipolaridades. Ou não fosse Gonçalo M. Tavares, «um autor que - como diz Enrique Vila-Matas - à segunda-feira se confunde com Michaux, à quinta com Thomas Mann, assemelhando-se todos os domingos a Fernando Pessoa.


[para uma descida aos malstroms tavarianos ler: Ensaio sobre a loucura e Da banalidade do mal]