19 de outubro de 2009

Caminhos cruzados



Pergunta-se W. G. Sebald no micro-ensaio «Uma tentativa de restituição» (in Campo Santo) «quais são as relações invisíveis que determinam a nossa vida, como se estendessem os fios» entre acontecimentos distantes ditados por uma estranha lei que nos escapa. O que liga a prosa anímica do caminhante Sebald ao rasto já há muito extinto do passeante Robert Walser, mas que continua visível no papel? Onde se cruzam as suas biografias? Talvez no facto de Sebald ter vivido toda a sua infância com o avô materno, que não só tinha o hábito das grandes caminhadas como Walser, como, ainda, era muito parecido fisicamente com ele e, se não bastasse essa coincidência, ter também ele morrido na neve enquanto passeava solitário numa paisagem semelhante àquela em que Walser sucumbiu fulminado e que distava apenas cem quilómetros de Herisau e, ao que parece, no dia anterior ao do último aniversário do escritor suíço. Talvez, depois, ainda, na circunstância de ambos remeterem para uma espécie de poética da extinção; em Walser através de elegantes fantasias poéticas que vai traçando, tenuamente, a lápis no papel para melhor desaparecer, uma frase fazendo sempre esquecer a anterior; e em Sebald sedimentada em camadas de esquecimento nos escombros que ele vai escavando através de uma prosa pausada e cadenciada para melhor dar conta do desvanecimento da história. Talvez, ainda, porque, um e outro, entreviam o mundo envolto numa estranha quitetude; Walser caminhando solitário sob a luz cristalina da manhã em busca do espírito da montanha; Sebald procurando resgatar uma moral da natureza. Um e outro procurando uma cintilação qualquer no tecido puído do tempo.

Seriam estas as causualidades que levaram Sebald, em 1997, na primeira sessão do ciclo de lições que proferiu na Universidade de Zurique, a evocar o passeio de Carl Seeling com Walser, nos arredores do manicómio de Herisau, no Verão de 1943 – passeio que aquele, depois, relataria na biografia que lhe dedicou -, precisamente no mesmo dia do bombardeamento de Hamburgo descrito em História natural da destruição? «Não são casualidades – diria Sebald se lhe perguntassem sobre o que o liga a Walser – trata-se apenas de existir algures uma relação que de quando em quando cintila por entre um tecido puído».

Como também não é casualidade eu ter terminado de ler os ensaios literários de Campo Santo e me ter interrogado por não encontrar ali qualquer referência Walser – como se a sua biografia fosse tão delicada e a sua prosa tão leve que tornasse quase impossível seguir-lhe o rasto, mesmo para alguém como Sebald tão habituado em fazer incursões fantásticas nos territórios dos excêntricos cujos sedimentos vasculha nas camadas de esquecimento para onde os seus passos de caminhante solitário e de narrador interpelante o levam sempre que se dispõe a ir por aí, entre ruínas – e, agora, chegar às livrarias portuguesas um ensaio do caminhante alemão sobre o caminhante suíço - e que na tradução portuguesa dá nome ao livro - O caminhante solitário (Teorema) [traduzido de Logis in einem Landhaus, Carl Hanser Verlag, 1998], e onde Sebald vai por ali, sem mapa, perseguindo, desde o ponto de vista da fugacidade – a sua e a de Walser -, a prosa dançante de repente levantada como uma poeira trágica do tempo incapaz de escapar ao seu destino de, uma e outra vez, continuar a ser lida por Sebald e, agora que Sebald também já cá não está, por todos aqueles que se adentram numa literatura de consternação.

16 de outubro de 2009

Desaparecidos em trânsito



Desse caminhante solitário que ocupa um lugar muito particular na minha biblioteca de quarto escuro, W. G. Sebald, chega, agora, às livrarias portuguesas, Logis in einem Landhaus (1998) [Hospedagem numa casa de campo] que na edição da Teorema se apresenta com o título de um dos ensaios que integra o livro, O caminhante solitário, belíssima homenagem a outro caminhante solitário, Roberto Walser - seu vizinho no meu quarto escuro, ambos escritores sem qualidades que partiram em trânsito deste mundo, Sebald numa curva de uma estrada de Norwich, num dia de Dezembro de 2001, e Walser, também num dia de Dezembro de 1956, durante um passeio pela neve nos arredores do manicómio de Herisau onde se refugiara para desaparecer – a quem Sebald descreve como um ente querido que aos poucos se vai dissolvendo no ar «suavemente e sem ruído até um reino mais livre», ou como um familiar próximo que lhe recorda o seu avô Josef Egelhofer: «Walser sempre me acompanhou em todos os caminhos. Apenas necessito suspender um dia de trabalho quotidiano, para logo ver meu ao lado, nalgum lugar, [a sua] figura inconfundível […] olhando à sua volta».

12 de outubro de 2009

Bolañomanias



Anda por aí uma euforia à volta de Roberto Bolaño - uma espécie de hype a que em Espanha e nos EUA já deram o nome de bolañomania - que me parece ser mais incitada, e excitada (se bem que, é justo dizê-lo, editorialmente corajosa), por uma inusitada campanha de marketing para promover um escritor que, como descreveu o seu amigo e escritor Rodrigo Fresán, escrevia caoticamente, «sem rede e sem travões, [deitando] tudo cá para fora». Por isso, vou também desconfiando da verdadeira natureza da receptividade de Bolaño que, à partida, não convidaria a tamanho deslumbramento por não corresponder aos cânones. Mas desconfio, também, daqueles que, cinicamente, sem terem, ainda, lido 2006 (ou qualquer outro livro do escritor chileno) ou, o que será pior, sem pensarem alguma vez vir a lê-lo, se colocam do contra.

Mas, e a bolañomania? Embora incitada, e excitada, por uma causa justa, a de nos pôr a ler Bolaño, não será ela , paradoxal e visceralmente, anti-bolañiana? Quer me parecer que Bolãno, que nunca quis a unanimidade dos juízos críticos sobre a sua obra, nem a admiração massiva dos leitores, nem frequentou os salões e confrarias dos seus pares, certamente desdenharia de todo o estrépito mediático à volta do lançamento - que até teve direito a uma festa, pelo que me contam, pouco bolañiana, que meteu escritores, críticos, actrizes e margueritas - do seu derradeiro romance, que mais do que honrar o desonram, como diria Flaubert. Mas confesso, também eu lá teria estado se não fosse um leitor sem qualidades e periférico, contribuindo, então, também, para para a flaubertiana desonra do escritor chileno. É que, para Bolaño, fama e literatura eram «inimigas irreconciliáveis», como escreveu em 2666, o tremendo romance póstumo que, ironicamente, o transformaria num escritor da moda, visto por alguns como a versão latino-americana de Thomas Pynchon ou como uma espécie de um Paul Auster com cafeína.

Bolãno, que se julgava um solitário intrépido e um detective selvagem, preferia deambular por becos obscuros, cruzar praças desertas noite adentro, refugiar-se em casas vazias, cavar trincheiras debaixo de chuva, seguir através de auto-estradas que não conduzem a lado nenhum, atravessar desertos sob um sol escaldante. E sempre que era apanhado no turbilhão da fama, escrevia, então, um qualquer texto mordaz, onde fustigava, às vezes, cruel e injustamente, um qualquer seu par consagrado e, outras vezes, os seus próprios amigos, a fim de, achava ele, virar todos contra si e preservar, assim, a rebeldia. Por ironia do destino – ou por vontade dos «homens de negócios que editam livros, [dos] trapezistas do marketing, [dos] licenciados em economia», como escreve em O Mal de Montano outro seu amigo e escritor, Enrique Vila-Matas, Bolaño - tal como Kafka, o mais asocial dos escritores, que se tornou um ícone da moda em Praga – foi apanhado pela máquina editorial e a sua efígie anda por aí, colada ao peito, em pins promocionais, como se fosse um novo Harry Potter ou o último Dan Brown ou, o que será, talvez, mais apropriado em termos de uma mistificação editorialmente correcta, um Jim Morrison da literatura, a quem já vi comparado não me recordo onde.

Pessoalmente, prefiro colocá-lo na minha biblioteca do quarto escuro, ao lado de outros escritores sem qualidades, como Cortázar e Borges - que Bolaño convidava a reler uma e outra vez -, ou como Walser, Kafka, Musil, Joseph Roth e Sebald, e outros, todos eles escritores que «viverem errando / na penumbra dos bosques / com a novela perigosa». Bolaño que também viveu errando na penumbra das cidades e que cultivou o romance perigoso, se ainda cá estivesse, observaria de longe a passagem desta fanfarra mediática à volta do seu nome, desdenharia das margueritas - antes beberia um mezcal - e, como um explorador de abismos, partiria, imperturbável e errante, por uma qualquer auto-estrada escura que não conduzisse a lado nenhum.

10 de outubro de 2009

Um investimento na paz


Ao texto sobre Obama que reeditei, aqui, ontem, acrescento, agora, o seguinte. É verdade que também a mim me surpreendeu este Nobel. Não é estranha, por isso, a estupefacção geral, sobretudo, porque Obama não teve tempo, ainda, de cumprir o anunciado programa de pacificação do mundo. Trata-se, então, de um Nobel que lhe foi atribuído não por aquilo que já fez, mas por aquilo que prometeu fazer e que foi - como escrevi no rescaldo da sua eleição - ter sido capaz de incitar, e excitar, a esperança de que, talvez, possa haver, ainda, outras possibilidades para o mundo. Uma espécie de «investimento» na paz, como declarou José Saramago.

Não foi, portanto, um reconhecimento dos méritos efectivos e tangíveis de Obama em favor da paz, mas sim dos méritos potenciais e intencionais de um homem sereno e determinado em ajudar uma parte da humanidade a encontrar a esperança para enfrentar a crise – a económica e a existencial – e à outra parte da humanidade a encontrar a esperança de vencer o terrível desafio da sobrevivência. Por isso, este Nobel constitui um compromisso que eleva a fasquia das expectativas do mundo relativamente ao cumprimento da «promesse de bonheur».

Eu que não lhe exijo tanto, apenas que não esqueça o seu programa contra a inabitabilidade do mundo, de que a Palestina continua a ser o vergonhoso paradigma, desejo ver nesta nomeação - não obstante, aqui e acolá, Obama já ter revelado algumas daquelas patologias da experiência política contemporânea responsáveis por alguns males do mundo - um incentivo a que faça «frente ao inafrontável», não como um super-homem, mas como alguém capaz, ainda, de evitar a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», tanto na América como no resto do mundo. Ora, isso é o que parece indignar o coro de inimigos, adversários - e alguns estúpidos - de todos os extremos que andam por aí alvoroçados contra este Nobel, desde os talibans e Hamas até aos falcões israelitas, os saudosistas de Bush, conservadores, neoconservadores e teoconservadores, de que, por cá, José Pacheco Pereira se revela como a mais acabada ilustração ao declarar a sua patética oposição ao Nobel atribuído Obama.

9 de outubro de 2009

Dar outras possibilidades ao mundo


Que significado tem a atribuição do Nobel da Paz a Obama, quando o seu programa de pacificação prometido ao mundo se encontra, ainda, por cumprir? Talvez, a reiteração da exigência de não falhar a ocasião de nos salvar da catástorphe, como diria Walter Benjamin). Por isso, porque continuo a acreditar na promessa anunciada com a eleição de Obama de perseguir outras possibilidades para o mundo e, talvez, a paz, congratulo-me com a sua inesperada nomeação e recupero um texto que escrevi no rescaldo da sua eleição.

No rescaldo da vitória de Barack Obama, ponho-me a pensar se, talvez, amanhã, tudo não será, outra vez, a mesma baixa política – que legitimou gente como Bush e Berlusconi ou continua a entronizar gente como Tony Blair, cada um, à sua maneira, aspirantes a Maquiavel -, e que este homem sem qualidades musilianas que veio do futuro para dar outras possibilidades ao mundo se deixe, também ele, contaminar pela infâmia dos interesses inconfessados, pela interiorização do cinismo e pela amoralidade e demais patologias da experiência política contemporânea que fizeram deslizar o mundo, não apenas para a crise económica profunda de que todos falam, mas, sobretudo, parece ter instalado uma crise sem precedentes da experiência, colocando a humanidade – na expressão de Zygmunt Bauman – «frente ao inafrontável», isto é, sem pontos de referência que nos tranquilizem e nos guiem pelas estradas perdidas que nós próprios vamos fazendo.

Mas hoje ainda não é amanhã, e o que vi na madrugada das eleições – e continuo a ver em vídeos no You Tube - é, entretanto, a imagem de um homem sereno e determinado a ajudar a encontrar o mapa que o mundo precisa para atravessar este deserto do mundo em que se tornou a modernidade fracassada, trazendo a uma parte da humanidade a esperança para enfrentar a crise – a económica e a existencial – e à outra parte da humanidade a esperança de vencer o terrível desafio da sobrevivência. Vi – vejo ainda – «um Presidente que tem uma cara em vez de um esgar e que usa a fala em lugar do balbucio», como escreveu José Manuel dos Santos, na sua crónica semanal na revista Actual/Expresso. Alguém, talvez, ainda, capaz de usar o mandato político que lhe foi oferecido nas urnas para desenterrar do pântano a ética para ali atirada pela iniquidade que transformou a América dos pobres num deserto sem mapa. Talvez – quem sabe? – capaz, ainda, de evitar a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», tanto na América como no resto do mundo.

Por isso, recuso o pensamento mesquinho que me assaltou por instantes. E o desconforto nihilista de pensar que à arrebatadora ilusão deste triunfo que anuncia outras possibilidades para mundo, poderá suceder a rápida e melancólica desilusão da sua impotência diante da política de bastidores e de alianças de conveniência. Escolho, então, definitivamente, a audácia de pensar que, mesmo que as contradições do tempo por vir venham a arrefecer o fogo sereno das palavras que cobriram o mundo na noite da vitória, uma coisa que Obama deu à América e que, nos tempos mais próximos, ninguém poderá retirar, foi a de pôr o pensamento a pensar, isto é, de ter incitado, e excitado, o pensamento de que, talvez, possa haver, ainda, outras possibilidades para o mundo.

E a melhor prova disso, dessa rebelião contra a vertigem do vazio da política pós-moderna – mais ainda do que a sua oratória, simultaneamente, emotiva e serena, arrebatadora e racional, disciplinada e inteligente – foi a possibilidade consumada de um militante afro-americano, um advogado dos destituídos, um agitador social e político ter decidido ser Presidente da América para dar outras possibilidades ao mundo, fazendo do seu próprio itinerário vital, da sua vida transformada em narrativa, o seu principal trunfo.

Posto isto, o que poderá «um mundo de qualidades sem homem» (Jean-François Peyret) pedir ao homem sem qualidades musilianas que é Obama? Talvez não aquilo que nem ele nem ninguém jamais poderá devolver ao mundo, isto é, a remissão da nossa vida fragmentada, e muito menos qualquer «promesse de bonheur» (Stendhal). Talvez exigir-lhe, apenas, não falhar a ocasião de nos salvar da catástorphe (Walter Benjamin). E isso já será um programa absoluto contra a inabitabilidade do mundo e o desesperante nihilismo reinante.

6 de outubro de 2009

Um Bolaño menor?



À medida que vou lendo Una novelita lumpen de Roberto Bolaño - que comprei, ontem, na Casa del Libro, em Sevilha - mais esta se vai parecendo com um capítulo perdido de Os detectives selvagens, só que - também me vai parecendo - menos conseguido. Mas o que me parece, apesar de tudo, mais evidente, é a semelhança das personagens do bolonhês e do líbio com as de Belano e Lima, já que ambas as parelhas poderiam vagabundear indistintamente entre Roma e Mexico D.F. sem que nos apercebêssemos qual o seu território ficcional de origem. E, tal como em Os detectives selvagens, não há aqui melodrama nem ambição redentora, a não ser a da ilusão de sobrevivência. Existe sim, o prenúncio de um Bolaño que haveríamos de conhecer, depois, em Os detectives selvagens e em 2666: o Bolaño da piedade difusa, das vidas amarguradas, das frustrações veladas, embora tudo seja aqui, ainda, comedido, subtil, sem a desmesura apocalítica dos seus romances póstumos.

Não sei se esta novelita me revelará, no final, um Bolaño menor, mas sei que a vou lendo com a lealdade que Bolaño me merece e que exige que sejamos capazes de distinguir entre as suas obras perfeitas (Estela distante), interessantes (Monsieur Pain), vertiginosas (Os detectives selvagens), monumentais (2666) e esta novelita lumpen que me vai parecendo, talvez, o seu livro menos conseguido. E, seguramente, seria esta a atitude que Bolaño - que desconfiava da unanimidade crítica - exigiria aos seus leitores mais cúmplices. Que o lessem sem contemplações.

25 de setembro de 2009

Jantando com Bolaño


Do meu diário chileno, recupero um jantar com Bolaño, e assim me (re)compenso da minha ausência, logo à noite, na Ler Devagar (Lx Factory), na festa de lançamento do "2666".

Segundo dia numa Santiago radiante apesar dos colegiais fardados, dos carabineros de olhar distante, da mesma matilha de cães vadios errando na Alameda. E as mulheres formosas de olhos de uva, essas ainda não as vi. Mas comecemos pelo princípio. Ontem, ao jantar, esbocei com Daniel um arrojado plano de evasão rumo ao sul, no rasto de Chatwin. Não ao sul profundo dos páramos gelados, mas aonde seria possível ir nos dois dias que destinaria para isso. Talvez Pucón ou Puerto Mont ou Coyhaique. Hoje, descobri que todos os voos estavam esgotados. Os lagos, os vulcões, as florestas araucanianas terão de ficar para outra evasão.

Vou, por isso, a Bellavista, o bairro boémio de Santiago, dizem. Compro algumas jóias em lápislazuli. Visito a casa de Neruda, La Chascona. Depois, imitando um conto instantâneo de Bolaño que caminha ao meu lado, ao último atardecer en la tierra, atravesso uma Santiago provinciana, cruzo ruas de casas ajardinadas, evito umbrais de bares coloridos, ignoro esplanadas nervosas na calçada. E escolho o Galindo para jantar com este companheiro fortuito politicamente incorrecto que, à medida que o vou conhecendo, se revela mais mexicano e, sobretudo, mais latino-americano que chileno. Mas é sobre o nocturno chileno que ele abandonou em 1974, depois de sair de uma prisão de Pinochet, que falamos.

Entretanto, trazem-me uma paila marina escaldante e é como se tivesse todo o Pacífico à minha mesa, com uma fauna de mariscos conhecidos e outros cuja identidade não ouso adivinhar. Através das janelas atravessa um segundo entardecer menos nervoso que o de ontem. Bolaño conta-me agora dos novos escritores chilenos que obstinadamente procuram escapar à sombra tutelar de Huidobro, de Neruda, de Gabriela Mistral, de Violeta Parra. E menos de Nicanor Parra que não é um fantasma. E sobre Isabel Allende diz-me que "no es una escritora, sino na escribidora"; e Skármeta, “un personaje de televisión“. Espero não vir a ler, um destes dias, na revista catalã Ajoblanco, uma crítica desapiedada sobre este jantar, como retribuiu Bolaño a Diamela Eltit que o convidara para jantar em sua casa. Julgo que o facto de ter viajado no avião para o Chile com os seus detectives salvajes jogará a meu favor. E também o meu interesse súbito pela modernidade visceral do nocturno chileno e das ruas do exílio mexicano. Por isso, conta-me, ainda, el secreto del mal, evocando o eterno diálogo com a literatura argentina, Arlt, Piglia, os fantasmas de Borges, as vanidades literárias. E também la canalla sentimental. Mas da vanidade do tempo não me apercebi eu.

Saio, então, para rua e reparo que o personagem de Soldados de Salamina, de Javier Cercas, já não caminha ao meu lado, na noite infrarrealista de Bellavista. Apenas grupos de jovens escondidos atrás de enormes garrafas de cerveja Escudo como se estivessem numa estação do inferno. Uns riem-se como se soubessem que o mundo está para acabar e só eles suspeitam desse destino quebrado. Outros olham as mesas vermelhas, flutuando sobre abismos duvidosos. Não vejo ali nenhum dos rostos que conheci nas filas das cabines telefónicas de Estocolmo. E ficam felizes, indiferentes aos meus passos incertos, agora que Bolaño me deixou só nesta parcela do nocturno chileno.

22 de setembro de 2009

Fazendo a mala com Bolaño



Porque anda por aí uma certa bolañomania , recupero um excerto do meu diário chileno que me caiu dos dias:


(...) Levo Bolãno na minha mala transatlântica. E porquê Bolaño? Porque depois dos abismos de Vila-Matas que acabo de explorar, este livro é um precipício azul que abre para a nova literatura latino-americana depois do boom do realismo mágico, contrariado pela Rayuela, de Cortázar, de que este romance é, ironicamente, o mais perfeito «contrário». E porque Los Detectives Salvajes é, escreve Vila-Matas, «uma brecha que abre para o mundo infernal de uma geração agrilhoada», a nossa. E porque Bolaño, que já cá não está, ocupa agora a minha «biblioteca do quarto escuro», ao lado de Bioy Casares, um autor do seu universo literário, também aqui hoje chamado para a elaboração deste plano de evasão. E porque quando estiver em Santiago do Chile, irei eu próprio, como um detective selvagem, procurá-lo «na rua Banderas, esquina Ahumada», onde Vila-Matas diz que «parece tê-lo visto observando esse mendigo que ali está sempre e se diz neto de Léon Tolstoi», embora isso seja inverosímil porque àquela data já Bolaño teria ido «embora deste mundo em silêncio».

17 de setembro de 2009

Bolaño no seu labirinto



Às vezes tenho a sensação de que A invenção de Morel, de Bioy Casares, continua funcionando nalguma dobra recôndita do mapa bolañiano onde a realidade e a ficção se bifurcam. E que Ulisses Lima perdido, sem mapa, em Cauquenes, segue no encalço de Arturo Belano… e que um e outro são, afinal, o fantasma de Mário Santiago e o alter ego de Bolaño que já cá não estão, porque foram, talvez, reunir-se com Cesárea Tinajero nos desertos de Sonora, continuando a epopeia realista visceral de Los detectives salvajes, e que eu -, que comecei a descobrir Roberto Bolaño no avião que que, não há muito tempo, me levou ao Chile e o procurei, primeiro, como um «detective selvagem», em Santiago, seguindo as indicações de Enrique Vila-Matas, «na rua Banderas, esquina Ahumada», onde o escritor catalão disse que lhe pareceu «tê-lo visto observando esse mendigo que ali está sempre e se diz neto de Léon Tolstoi» e, depois, nas suas palavras testamentárias, reunidas em pequenos ensaios, apontamentos, entrevistas que trouxe na minha mala de viagem chilena, - me vou transformando num expedicionário do mapa bolañiano que me foi estendido por pelo escitor catalão. São livros póstumos, El secreto del mal, La Universidad desconocida, Entre paréntesis, Bolaño por el mismo, que me chegam, não por acaso, porque, diz Bolaño, «a la literatura nunca se llega por azar. Nunca, nunca. Que te quede bien claro. Es, digamos, el destino, ¿sí? Un destino oscuro, una serie de circunstancias que te hacen escoger. Y tú siempre has sabido que ese es tu camino».

Um destino obscuro de leitura, eis para onde me conduzem os caminhos bifurcados desta estranha cartografia literária que, a avaliar pelo que circula na net, no youtube, na blogosfera, em sites sobre o autor chileno (talvez mais mexicano que chileno), vem secundado por um efeito Bolaño que vai transformando os leitores ocasionais em seguidores fiéis de uma obra tragicamente inconclusa, fragmentária, testamentária - a cujos segredos vão acedendo postumamente, como se escutassem na caixa negra de um avião acidentado uma voz derradeira atravessando com inteireza as turbulências da viagem final. Vão em busca, talvez, de um Bolaño que não existiu, mas cuja existência seria ironicamente refundada após a sua morte prematura, aos 50 anos, num hospital de Barcelona, através de um processo de reconstrução de uma biografia que começa a roçar a lenda, como diz Enrique Vila-Matas. Não tanto aquela lenda, duradoura, que durante o frenesi monástico dos últimos anos de vida o próprio Bolaño foi tenazmente escrevendo contra a morte, e para a qual o próprio sentido etimológico da palavra lenda remete ao significar o que deve ser lido. Mas a outra, seguramente efémera, forjada na propensão mitómana dos meios literários, somada ainda à propensão hiprócrita de falar bem dos que já não estão e que, por isso, não incomodam.

E quanto a isso não restam dúvidas, pois sucedem-se por todo o lado as reedições dos seus livros que conquistam, sobretudo, uma juventude leitora que se revê na errância desesperada das suas personagens, através dos abismos de um tempo em desagregação, cujo umbral atravessamos através de uma estranha efabulação, simultaneamente, realista e lírica, fundadora de um estilo que já conquistou um nome próprio, o de «modernismo visceral». Sobretudo quando esse umbral dá para o quotidiano nocturno das ruas do México DF em cujo mapa nos adentramos em Los detectives salvajes e nesse tremendo romance com mil páginas - que vai chegar às livrarias portuguesas no próximo dia 26 de Setembro -, estruturado em cinco partes que constituem uma pentalogia, que é 2666 e que parece responder definitivamente à questão levantada por Julio Cortázar no conto Apocalipsis en Solentiname relativamente ao devir da literatura latino-americana: continuar a explorar o filão do realismo mágico, transmitindo uma visão ingénua, etnográfica da realidade, ou testemunhar o horror de um continente, de um mundo, resvalando para o abismo?

Bolaño escolheu a segunda possibilidade, rompendo, como afirma Vila-Matas, «com a literatura latino-americana dos galos da Amazónia e das virgens em levitação», preferindo explorar o imaginário apocalíptico da América Latina, dos anos setenta, em Estrella distante, em Nocturno de Chile - considerado por Susan Sontag, à data da sua publicação, como «o mais autêntico e singular romance contemporâneo destinado a ocupar um lugar permanente na literatura mundial» -, e nos contos mercenários de Llamadas telefónicas, antes de empreender a viagem sem retorno através dos territórios assombrosos de Los detectives salvajes ou de ser arrastado para o último abismo, 2666, espécie de buraco negro do crime múltiplo sem solução cuja cratera se situa em Ciudad Juárez e que nos legou, não para nos confortar, mas nos confrontar com os maelstroms do mundo que nos arrastam para o mal.

«Cuidado, tudo é perigoso, mas não igualmente ao mesmo tempo», eis a frase de Foucault que poderia resumir os livros de Bolaño, espécie de poeta desesperado, traficante ocasional em busca absoluta da origem do mal, e por ele irremediavelmente «condenado desde el principio», porque sabe que «en el fondo a felicidad es inexistente», mas que, como Borges, não desiste de procurar no labirinto de palavras embebidas na tinta obscura dos seus livros, única forma de atravessar o mal do mundo como testemunha de um tempo em desagregação e, depois, ir-se embora do mundo, em silêncio, deixando-nos a todos um pouco mais à mercê dos labirintos reais, lá fora, no mundo.

13 de setembro de 2009

A caixa negra de Bolaño



«Estoy seguro de que moriré inédito», anotou, sem esperança, no seu diário, Roberto Bolaño, seis anos antes de morrer. Estava redondamente enganado. Depois dos livros póstumos - El secreto del mal, La Universidad desconocida, Entre paréntesis, Bolaño por el mismo e 2666 - que eu trouxe d uma recente viagem ao Chile, a voz fragmentária e testamentária de Bolãno ressoa, agora, na caixa negra do seu voo tragicamente inconcluso, convidando a adentrarmo-nos através da estranha cartografia dos seus livros por vir. É que depois do agente Andrew Wylie ter anunciado a descoberta, na caixa negra bolañiana - ou se se preferir, por corresponder melhor ao cânone, na sua arca pessoana -, do romance inédito El Tercer Reich, a editar em breve, leio em La Vanguardia a notícia da descoberta de mais dois romances inéditos do assombroso escritor chileno: Diorama e Los sinsabores del verdadero policía o Asesinos de Sonora. «El futuro del archivo, un mar de libretas y cuadernos de todos los tamaños, una vez inventariado, será seguramente una universidad. Adentrarse en sus páginas requiere la paciencia del paleólogo o del domador de pulgas», pode ler-se em La Vanguardia.