27 de novembro de 2009

Marilyn, a madame Bovary de Hollywood



Há um livro sobre Marilyn Monroe – um romance, não uma biografia – escrito por um autor-psicanalista, Michel Schneider, que persegue os seus últimos anos de vida com uma nostalgia proustiana em relação à actriz. «Não me interessa a verdade histórica, mas a verdade ficcional. Não me interessa saber como Marilyn morreu, interessa-me saber como viveu. [...] Por isso o romance pareceu-me a escolha mais justificada. Poder dar às personagens emoções». Marilyn, as últimas sessões [Difel] evoca a relação, no ambiente de Hollywood – onde se fundem os mundos do cinema e da psicanálise, – entre Marilyn e Ralph Greenson, o psiquiatra freudiano que a analisou de Janeiro de 1960 a Agosto de 1962. O livro chega depois de muitas biografias, depois da ficção voluptuosa de Norman Mailer que a descreve como «sweet angel of sex, and the sugar of sex came up from her like a ressonance of sound in the clearest grain of a violin», depois de Blonde [Círculo de Leitores], o pesadelo fantasmagórico de Joyce Carol Oates que num registo ora factual ora ficcional persegue um fio de solidão e fragilidade.
Schneider leu tudo isso e muito mais, como se constata na bibliografia que apresenta, mas o seu livro não se deixa engolir pelos outros porque o que ele procura não é uma nova versão ou explicação da morte de Marilyn, mas a revelação de alguém que se foi dando como desaparecida enquanto a morte anunciada não chegava. Alguém que quis desaparecer do corpo, se ausentar da tela, para procurar a salvação nas palavras, mas roçando sempre o abismo para onde seria atraída «uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha/ou suspeitou que tinha errado a vida», como diz Rui Belo no belíssimo poema A morte de Marilyn. Schneider deita Marilyn no divã e fá-la, finalmente, escrever o livro que nunca escreveu: «A literatura, aliás, sempre esteve na sua vida, de uma forma caótica», escreve Schneider. E Marilyn foi casada com Arthur Miller, um dos mais famosos dramaturgos americanos; conheceu o escritor Vladimir Nabokov e, depois desse encontro, interpretou My heart belongs to daddy (em Let´s make love/Vamo-nos amar, de George Cukor), onde diz: «My name is… Lolita»; e pediu a Wilder que a deixasse representar a Grushenka dos Irmãos Karamazov. «Nos últimos tempos, ela própria colocou o corpo de lado. Para se dedicar às palavras. Por isso fiz este livro: para lhe poder dar a palavra», confessa Schneider. As palavras que já não pôde dizer quando na noite de 5 de Agosto de 1962 «a mão da solidão [caiu como] pedra [no seu] peito». Uma morte prematura nunca verdadeiramente explicada, mas que para Norman Mailer foi urdida pela CIA e pelo FBI; a primeira vítima de uma série de assassinatos políticos: Kennedy, Malcolm X, Martin Luther King.

Recentemente, revi Marilyn em The seven years itch/ O pecado mora ao lado, de Billy Wilder], e não pude deixar de recordar o poema de Ruy Belo : «a mais bela mulher do mundo/ tão bela que não só era assim bela/como mais que chamar-lhe marilyn/devíamos mas era reservar apenas para ela/ o seco sóbrio simples nome de mulher/ em vez de marilyn dizer mulher». E a sua imagem de inocente do próprio desejo que a sua imagem acendia em Tom Ewell. E dentro dessa imagem quem lá estava não era a Norma Rae (nascida na periferia de Los Angeles, em 1926, orfã de pai, abandonada depois pela mãe num orfanato, antes de entrar na espiral do medo que seria a vida de Marilyn desencontrada de Norma Rae). Essa há muito que havia partido. Nem era já a personagem que ela representava, mas a própria Marilyn (a máscara): «Quem é que tu tens aí escondida? Marilyn Monroe?» O mito dela própria. Uma espécie de Madame Bovary holywoodesca, cuja aura nem Mailer nem Wahrol (no seu famoso retrato) nem ninguém foram capazes de captar.

2 de novembro de 2009

A última caminhada


Que melhor post publicar em 2 de Novembro, data em que tradicionalmente é prestada homenagem aos mortos, se não aquele que editei no meu blogue pretérito a pretexto do livro Campo Santo, de W. G. Sebald?

«O meu primeiro passeio no dia seguinte à chegada a Piana levou-me para fora da povoação, por uma rua que começava logo a descer numas curvas, esquinas e ziguezagues medonhos, ladeando precipícios rochosos quase verticais…». Quem por ali vai caminhando é um narrador que dá pelo nome de W. G. Sebald, o passeante solitário e sensitivo que nos habituámos a seguir em peregrinações errantes através dos mapas devastados da nossa modernidade imperfeita. Na linha de Os anéis de Saturno, Sebald aproveita uma viagem à Córsega, durante uma férias de Verão, para percorrer os territórios de uma ancestralidade onírica, onde mora a melancolia, resgastando em quatro fragmentos de um trabalho inacabado – «todos eles autónomos, [...] um espectro incompleto que não deverá corresponder exactamente ao que viria a ser o livro», como nos informa Sven Meyer, na introdução a Campo Santo, agora editado pela Teorema – a nostalgia de um tempo sedimentado em camadas de esquecimento ao qual ele volta a opor o imperativo da memória como condição de possibilidade redentora.

O método de Sebald é aqui, ainda, o da caminhada a pé enquanto contemplação, investigação e indagação numa paisagem devastada, com o propósito de buscar uma moral na natureza, meditar sobre estilos de vida desaparecidos, dar conta da consternação do mundo. Nesta derradeira viagem, vai primeiro a Ajaccio, «o lugar onde o imperador Napoleão tinha vindo ao mundo», e na casa-museu que lhe é dedicada reflecte sobre as minudências imponderáveis que mudaram o destino da Europa. Depois, visita o cemitério de Piana onde as inscrições das lápides dos túmulos lhe inspiram uma dissertação sobre o desaparecimento do culto dos mortos, sobre a crescente insensibilidade moderna ao luto, a mal disfarçada pressa e mesquinhez com que nos despedimos dos nossos mortos, a exiguidade das suas habitações eternas, sobretudo «nas cidades que avançam inexoravelmente para um número de trinta milhões de habitantes! Para onde vão eles, os mortos de Buenos Aires e São Paulo, da Cidade do México, Lagos e Cairo, de Tóquio, Xangai e Bombaim? [...] Quem se lembrará deles, quem se há-de lembrar?». Finalmente, a contemplação da paisagem fá-lo reflectir sobre a destruição dos antigos bosques alpinos da ilha transformados em reverberações nostágicas – «tempos houve em que a Córsega era toda coberta de floresta» – e a denunciar o «sanguinário desporto» da caça, comparando os caçadores às «milícias croatas e sérvias que lhes tinham destruído a pátria com o seu belicismo desvairado», oferecendo-nos a visão consternada de um mundo em vertigem, através de uma prosa meticulosa e cadenciada que oscila entre a reportagem, a crónica de viagens, o registo antropológico e a anotação de história política e social.

Completa o livro um brilhante compêndio de ensaios literários sobre Kafka, Nabokov, Bruce Chatwin e Jean Améry que constituem, a partir de agora, guias incontornáveis para a compreensão da obra de Sebald e que nos mostram a realidade que existe para lá da literatura mas a que só acedemos se nos transformarmos em caminhantes solitários e sensitivos dos livros que resgatamos da memória para neles nos adentrarmos, uma e outra vez, transfigurados em personagens de uma trama que já não sabemos se lida ou vivida, como na recreação nostálgica da viagem de Kafka e Max Brod a Paris – Via Suíça para o bordel -, que desencadeia em Sebald a recordação da viagem que em criança fizera com a mãe atravessando os mesmos cenários descritos por Kafka nos seus Diários.

30 de outubro de 2009

Havana para um Infante defunto



Há em Havana uma rua, a 23, que desce para o mar. Talvez, por isso, o troço final que desemboca no Malecón se chame La Rampa. Desci essa rua que mergulha no mar muito antes de alguma vez ter ido a Havana e de ter sentido o aroma achocolatado dos charutos cubanos. Subi-a e desci-a vezes sem conta em Três Tristes Tigres, de Guillermo Cabrera Infante. E, depois, em Havana para um Infante Defunto, espécie de crónica pessoal de uma Havana pobre, carregada de sons, de intersecções. E, a partir daí, desde La Rampa, perdi-me na Havana dos anos cinquenta, no labirinto sonoro de rumbas e son, do rum Bacardi e dos charutos habanos. Uma Havana nocturna, insular, «com os seus cafés ao ar livre, cheios de novidade, e as suas inusitadas orquestras de mulheres que amenizavam os cafés do Paseo del Prado».

Quando alguns anos depois visitei a cidade, Havana já não era a Lost City do filme de Andy Garcia, baseado no romance Três Tristes Tigres que ontem, revisitei como quem regressa a uma cidade desaparecida. Ao descer La Rampa, e depois caminhar a pé ao longo do Malecón até ao Centro, num começo de uma noite quente de Verão tropical, amenizada por uma brisa refrescante vinda da vizinha corrente do Golfo, foi ainda a cidade nocturna fundada por Cabrera Infante que atravessei. Ali estava, pelo menos eu via-a assim, a mesma cidade reflectida na patine luminosa dos edifícios recuperados do Centro Histórico. Via-a, ainda, no contacto caloroso das pessoas, na sensualidade imediata dos corpos, no perfume adocicado dos charutos, na música omnipresente nos bares e cafés de Habana Vieja. Reencontrei-a, também, em algum imaginário e em alguma iconografia que moldaram a minha juventude. Paradoxalmente, Cabrera Infante já não veria, se ali estivesse, a mesma Havana que eu via, porque aqueles elementos dispersos que agora eu ia recuperando, pertenciam a uma certa mitografia de uma felicidade talvez mais sentida pelos estrangeiros do que pelos cubanos, à qual juntaria, depois, algumas imagens de uma decadência de charme.

Três Tristes Tigres, que Cabrera Infante começou a escrever ainda em Cuba, antes de se exilar, é uma homenagem a uma Havana sem tempo à qual ele não mais regressou, por culpa de um rancor quase irracional que marcou até ao final da sua vida a sua relação com o Estado cubano. Assim se compreenderá a amarga ironia que atravessa os seus livros. Trágica dissidência que o tornou ausente de uma cidade que foi sempre o centro festivo dos seus livros. E, talvez, nem ele nem Havana merecessem esse afastamento, pois cópias clandestinas de Três Tristes Tigres sempre circularam em Cuba, formando gerações de escritores, não obstante a opinião injusta e pouco amável de Cabrera Infante sobre os escritores que não abandonaram a ilha. A ausência preencheu-a Cabrera Infante regressando sempre aos mesmos temas com uma nostalgia feroz: a Havana dos anos quarenta e cinquenta, as mulheres, a música, o cinema.

O primeiro sinal de fumo de Cabrera Infante encontrei-o em Três Tristes Tigres: «O charuto [...] aceso é outra fénix: quando parece apagado, morto, a vida do fogo surge entre as suas cinzas». Em Havana, quando fumei o meu primeiro charuto, no bar do Hotel Ambos Mundos, onde viveu Hemingway, juntando assim mais um elemento à tal mitografia da felicidade, ainda não tinha lido o que Cabrera Infante escrevera sobre o prazer de fumar: «Llamo felicidad a sentarme solo en el lobby de un viejo hotel después de una cena tardía, cuando se han apagado las luces de la entrada y solamente se distingue, desde mi cómoda butaca, al portero en su vigilia. Es entonces cuando fumo mi puro en paz, tranquilo en la oscuridad: lo que fue antaño una hoguera, transformado ahora en las ascuas civilizadas que relucen en la noche como el faro del alma».

Puro Humo conta a história da relação entre o cinema e o fumo. Porque para Cabrera Infante, sabemo-lo desde Havana para um Infante Defunto, os filmes são feitos de sonhos. Como os puros. Por isso, em Puro Humo viagja-se de Cuba para o cinema, reacendendo na memória do leitor-espectador um certo voyeurismo: um cigarro lânguido nos lábios de Marlene Dietrich, uma beata rude entre o indicador e o polegar de Bogart, o universo opaco de maldade nos clássicos negros como A Dama de Shanghai ou A Sede do Mal. Também outras páginas que exalam o mais puro fumo literário, com referências a Daniel Dafoe, Edgar Poe, Conrad, Stevenson, Dickens, Mallarmé, Lewis Carrol, Conan Doyle, Raymond Chandler, Hemingway, Jack London, Lorca, Lezama Lima… – e J. M. Barrie – autor, talvez, do mais belo título de todos os livros que fumam: My Lady Nicotine. Pura literatura, portanto, que se esfuma e perfuma como um puro fumado em Havana. Como uma paixão consumida.


[Texto originalmente publicado pelo autor na revista Atlântica 2, aqui reproduzido, hoje, por um não fumador, a pretexto da edição portuguesa de Puro Humo que agora chega às livrarias, com a chancela da Queztal, com o título Fumo Sagrado].

27 de outubro de 2009

As coisas aqui em baixo



Revisito a entrevista que António Lobo Antunes concedeu, há dias, na RTP1, a Judite de Sousa, a pretexto do seu novo romance Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar, onde escava as misérias da condição humana e ouço um homem terno, embora com afectação literária, a falar com absoluto respeito do pequeno mundo dos outros à sua volta. E à medida que vou escutando a sua voz rumorosa, vejo passar, vagarosas, diante de mim, aquelas presenças reais, às vezes estranhos de passagem, outras vezes «bolhas de solidão” que existem entre ele e as palavras, para derivar, depois, numa escrita assustadoramente lúcida e emocional que nos puxa para o abismo do nosso inconsciente colectivo de portugueses e de onde, só muito a custo, regressamos, depois, à superfície das nossas biografias tão cheias das qualidades que nos são diariamente incitadas.

Eis o que espero encontrar neste romance polifónico de António Lobo Antunes - cujo título de um profundo lirismo antagoniza com o universo sórdido da realidade humana que as primeiras páginas antecipam -, deixando-me levar na corrente caudalosa da sua escrita caleidoscópica, profundamente irónica e sarcástica, mas carregada de lirismo e de melancolia.

Um romance feito da matéria mais simples para contar as coisas aqui em baixo, porque, como confessa António Lobo Antunes «nós somos como casas cheias de fantasmas, uns fantasmas pequeninos. Muitas vezes, quando começo a ouvir as vozes de escrever, ouço várias vozes ao mesmo tempo e aquela que me vai dar o livro nunca é a voz mais forte, mais intensa. São outras que estão escondidas por trás.”

[foto ao alto, de José Sena Goulão]

25 de outubro de 2009

António Lobo Antunes, o escrevente


A renúncia da palavra de «um sector importante da literatura ocidental moderna», eis o que rastreia Enrique Vila-Matas em Bartleby e Companhia [Assírio e Alvim, 2001], uma espécie de catálogo de instantes fulgurantes dessa «pulsão negativa ou atracção pelo nada que faz com que certos criadores [...] renunciem à escrita [...] e fiquem, um dia, literalmente paralizados para sempre».

Ora aí está algo que não acontecerá nunca com António Lobo Antunes que renunciou à medicina para ficar com todo o tempo para a escrita. E que declara que «escrever é alegria, mas também tortura». [...] É a razão da minha vida». Uma vida - ou uma obra - que ainda não foi galardoada com o Nobel, mas que o foi com outros prémios: «Quantos prémios ganhei importantes? Mais de 20, fora os que recusei» - confessa a Alexandra Lucas Coelho, no ípsilon da última 6ª feira -, o que só é possível com um escritor radicalmente anti-bartlebyano! Tanto que quando, recentemente, na Festa Literária Internacionl de Paraty, o questionaram sobre se alguma vez renunciaria à escrita, recordou as palavras provocatórias de João Ubaldo Ribeiro: «Uma vez perguntaram-lhe se tinha parado de escrever. Respondeu que não, que o seu pseudónimo era Lobo Antunes».

Ao contrário do escrevente Bartleby - aquele empregado de escritório de um conto de Herman Melville -, à pergunta sobre se não quereria parar de escrever, o escrevente Lobo Antunes, invariavelmente, responderia: «preferia fazê-lo», só ainda não sei se o irei conseguir. Até agora, sempre o tem conseguido. A prová-lo até à exaustão, mais de duas dezenas de títulos, ou de capítulos, da sua incessante busca da perfeição, de que este Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? que acaba de ser editado é, para António Lobo Antunes, o melhor de todos, como o próprio declara: »Eu acho que nunca li um livro tão bom».


[nota de rodapé: a expressão o escrevente não é aqui utilizada com qualquer intenção depreciativa da escrita de ALA, antes como modesto artifício retórico para classificar a prolixidade do escritor]

[ilustração alto, de André Carrilho (C), para The New Yorker]

24 de outubro de 2009

Os dias calcinados


350 ppm é o indíce de concentração que os principais cientistas dizem ser o limiar seguro para dióxido de carbono na nossa atmosfera, para evitar as trágicas consequências das alterações climáticas. Hoje, quando faltam menos de 50 dias para a Conferência de Copenhaga sobre alterações climáticas, milhares de pessoas, em 144 lugares emblemáticos do mundo, assinalaram o Dia Internacional da Acção Climática, manifestando-se contra os dias calcinados que podem vir aí se não se parar já a deriva ambiental. E nós, o que é que podemos fazer? Agir como fizeram, hoje, em todo o mundo, aqueles que podemos ver aqui]. Talvez, também, escrever, nem que seja um post como este que recupero de um meu blogue pretérito e que agora aqui deixo actualizado.


Durante o Verão, surgiu uma tromba de fogo no crepúsculo do Árctico, sobre o mar de Barens, derramando sobre as nuvens baixas que encobriam o céu de Hammerfest uma luminosidade laranja espectral, anunciando a extensão à cena árctica da nova versão patética da tetralogia de Wagner, agora reposta sob a forma da maldição do gás adormecido durante milhões de anos sob as calotes de gelo em fusão. O que sobrará para o mundo quando se apagar a última réstia do fogo que concorre agora com as auroras boreais ninguém ainda sabe. Ou talvez saibam apenas os visionários.

«Mas quanto mais me aproximava das ruínas, mais se afastava a imagem de uma secreta ilha dos mortos e mais me julgava no meio dos vestígios da nossa própria civilização aniquilada por uma catástrofe futura», escreveu W. G. Sebald em Os Anéis de Saturno [Teorema, 2006], descrente da capacidade da razão para dominar a natureza enlouquecida pelos homens. E nós, que ainda não caminhamos entre ruínas,vamos vivendo com os primeiros efeitos das alterações climáticas provocadas pelo aumento das emissões de gazes com efeito de estufa: temperaturas em alta, concentrações de dióxido de carbono a subir, degelo das calotes polares, subida dos oceanos, chuvas torrenciais, secas mortíferas, o rol que afinal já todos conhecemos, sem que isso, no entanto, produza uma reacção global à altura da tragédia eminente.

Por isso, talvez reconhecer nas palavras de Sebald uma espécie de lucidez trágica relativamente ao devir do mundo, caso não sejam tomadas medidas que reconduzam o rio turvo da destruição ambiental às suas margens, impondo urgentemente a redução das emissões poluentes que afectam o aquecimento global. Mas estarão os governantes do mundo motivados para isso? Ou, pelo contrário, indiferentes ao roçar o abismo, falharão a derradeira ocasião de salvar o planeta, deixando as «coisas continuarem como antes» [Walter Benjamin, Passagens, frag. N9a, 1], isto é, resvalando para a «catástrofe futura». Haverá aqui uma visão demasiado catastrofista? Para Ban Ki-moon, Secretário-Geral das Nações Unidas, nem tanto: «O aquecimento global é uma realidade e, se não intervirmos, as suas consequências poderão ser devastadoras, senão catastróficas, nas próximas décadas [...] peço aos dirigentes mundiais que exerçam a sua liderança. Que ajam. [Já] não podemos fazer como se nada se passasse à nossa volta».

Como abrandar, então, esta imensa fornalha vertical cheia de brasas que ameaça transformar a paisagem do mundo num campo de sedimentos intransponíveis, rios pedregosos, árvores calcinadas, despojos de máquinas destruídas, espirais fantasmagóricas de poeira, cidades costeiras alagadas, almas à deriva sob um céu acinzentado? Seguramente não ficar acocorado a um canto à espera da combustão final como prisioneiros numa casa em chamas. Talvez falar. Talvez escrever, porque só as palavras poderão ainda evitar a catástrofe de falhar a ocasião de abrandar o braseiro. Agir.

22 de outubro de 2009

Falemos de Deus


Contra as ressonâncias bíblicas que se ouvem por aí a propósito do livro de Saramago, outra forma de abordar «o teorema perfeito e terrível» de Deus.

Raramente falamos de Deus. E quando a ele nos referimos preferimos a metáfora, como se tudo o resto se descolasse do seu nome. E ainda menos falamos dessa questão «menor» de acreditar ou não acreditar em Deus, preferindo cruzar os braços contra a crença profunda em que nascemos. A verdade é que herdámos Deus mesmo antes de termos conhecido «as suas casas profundas». Na infância, Deus é, como escreveu Soares dos Passos, «aquele que povoa a imensidade». Depois, à medida que nos vamos adentrando no mundo, verificamos que caminhamos mais sós do que desejávamos. Por isso transformamos as perguntas nas respostas que procuramos, enquanto aguardamos pelo teorema da existência de Deus. E deixamo-nos arrastar pelo medo que cobre um mundo onde se apagaram as imagens que o paraíso já não devolve depois da «morte do criador» anunciada por Nietzsche. E desde aí, vivemos no medo de termos ficado órfãos para sempre, como se escrevêssemos um novo e desesperado Livro de Job. Há quem explique esta angústia como um «erro genético» que a todos afecta. Porque todos, crentes e agnósticos, estamos inelutavelmente comprometidos com a dúvida original, oscilando entre um ascetismo puro e uma transcendência luminosa. Talvez, por isso, uns e outros, em qualquer momento das nossas vidas, já tenhamos sentido a falta de Deus. E outras vezes escutado os seus passos, os restos da sua voz no nevoeiro que cobre o mundo. E isso apazigua o medo. E, depois, estranhos de passagem, continuamos o caminho, cépticos ainda, mas com menos frio no coração. Mas será essa estranheza algo que devemos ocultar? Ou, como diz Henry James, «é preciso acreditar na dúvida, porque é isso que faz a grandeza do homem».

Diante da dúvida, que futuro, então, para Deus, num mundo que, ao mesmo tempo que vai perdendo o seu sentido ético, assiste à «instrumentalização política da religião», traduzida nos múltiplos fundamentalismos religiosos que enlouquecem os homens. «Talvez [como escreveu Enrique Vila-Matas] as ideias casuais de tanta gente incerta [...], as inquietações de cada um, dos vivos e dos mortos. Talvez algum dia com fluido abstracto e impossível substancia, formem um Deus ou um tecido novo e com a luz de outra vida ocupem o mundo».

Entretanto, «nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre/ o teorema perfeito/ e terrível» [Herberto Helder, Última Ciência].

20 de outubro de 2009

Trapezistas do marketing


Confesso que não tenho paciência para seguir a polémica à volta do último romance de Saramago, Caim (Leya) - menos do livro do que das declarações despropositadas, simplistas e arrogantes do escritor sobre o significado histórico e o alcance ético da Bíblia.

É que, de um lado, está alguém que não se limita a escrever um livro e deixar os leitores lê-lo sem mais explicações como conviria a um escritor ciente do seu ofício, mas que insiste em reiteradamente comentá-lo com as qualidades morais, e iconoclastas, de quem se julga superior a Deus por matá-lo uma e outra vez, diria, não tanto por dilema nietschiano sobre a insuficiência divina para dar esperança ao mundo, mas talvez mais por complexo edipiano não resolvido, como ouvi ontem alguém comentar. E que, consciente ou inconsciente, quer-me parecer, vai dando voz a um golpe de propaganda editorial, concebido por «esses homens de negócios que editam livros [...], trapezistas do marketing», como diria Enrique Vila-Matas, que mais não visa do que provocar a polémica para aumentar o número de vendas. E do outro lado, chegam algumas reacções perigosas vindas da parte de um partido, o PSD, que ultimamente tem andado calado e sem opinião sobre as questões pendentes da governação, mais parecendo, portanto, um partido bartlebyano (imitando o personagem Bartleby, o escriturário, de Melville), mas que, hoje, através de um desconhecido deputado europeu opta por exortar Saramago a renunciar à nacionalidade portuguesa, porque não lhe pode lançar uma qualquer fatwa que o faça calar-se para sempre.

Por mim, exorto o escritor a limitar-se a escrever, ainda que não me tenha como leitor, e que quando instado a comentar um seu livro responda como Bartleby "preferia não o fazer". Ao deputado, exorto-o a fazer como a líder do seu partido, isto é, calar-se bartlebianamente. Ou ainda menos que isso.

19 de outubro de 2009

Caminhos cruzados



Pergunta-se W. G. Sebald no micro-ensaio «Uma tentativa de restituição» (in Campo Santo) «quais são as relações invisíveis que determinam a nossa vida, como se estendessem os fios» entre acontecimentos distantes ditados por uma estranha lei que nos escapa. O que liga a prosa anímica do caminhante Sebald ao rasto já há muito extinto do passeante Robert Walser, mas que continua visível no papel? Onde se cruzam as suas biografias? Talvez no facto de Sebald ter vivido toda a sua infância com o avô materno, que não só tinha o hábito das grandes caminhadas como Walser, como, ainda, era muito parecido fisicamente com ele e, se não bastasse essa coincidência, ter também ele morrido na neve enquanto passeava solitário numa paisagem semelhante àquela em que Walser sucumbiu fulminado e que distava apenas cem quilómetros de Herisau e, ao que parece, no dia anterior ao do último aniversário do escritor suíço. Talvez, depois, ainda, na circunstância de ambos remeterem para uma espécie de poética da extinção; em Walser através de elegantes fantasias poéticas que vai traçando, tenuamente, a lápis no papel para melhor desaparecer, uma frase fazendo sempre esquecer a anterior; e em Sebald sedimentada em camadas de esquecimento nos escombros que ele vai escavando através de uma prosa pausada e cadenciada para melhor dar conta do desvanecimento da história. Talvez, ainda, porque, um e outro, entreviam o mundo envolto numa estranha quitetude; Walser caminhando solitário sob a luz cristalina da manhã em busca do espírito da montanha; Sebald procurando resgatar uma moral da natureza. Um e outro procurando uma cintilação qualquer no tecido puído do tempo.

Seriam estas as causualidades que levaram Sebald, em 1997, na primeira sessão do ciclo de lições que proferiu na Universidade de Zurique, a evocar o passeio de Carl Seeling com Walser, nos arredores do manicómio de Herisau, no Verão de 1943 – passeio que aquele, depois, relataria na biografia que lhe dedicou -, precisamente no mesmo dia do bombardeamento de Hamburgo descrito em História natural da destruição? «Não são casualidades – diria Sebald se lhe perguntassem sobre o que o liga a Walser – trata-se apenas de existir algures uma relação que de quando em quando cintila por entre um tecido puído».

Como também não é casualidade eu ter terminado de ler os ensaios literários de Campo Santo e me ter interrogado por não encontrar ali qualquer referência Walser – como se a sua biografia fosse tão delicada e a sua prosa tão leve que tornasse quase impossível seguir-lhe o rasto, mesmo para alguém como Sebald tão habituado em fazer incursões fantásticas nos territórios dos excêntricos cujos sedimentos vasculha nas camadas de esquecimento para onde os seus passos de caminhante solitário e de narrador interpelante o levam sempre que se dispõe a ir por aí, entre ruínas – e, agora, chegar às livrarias portuguesas um ensaio do caminhante alemão sobre o caminhante suíço - e que na tradução portuguesa dá nome ao livro - O caminhante solitário (Teorema) [traduzido de Logis in einem Landhaus, Carl Hanser Verlag, 1998], e onde Sebald vai por ali, sem mapa, perseguindo, desde o ponto de vista da fugacidade – a sua e a de Walser -, a prosa dançante de repente levantada como uma poeira trágica do tempo incapaz de escapar ao seu destino de, uma e outra vez, continuar a ser lida por Sebald e, agora que Sebald também já cá não está, por todos aqueles que se adentram numa literatura de consternação.

16 de outubro de 2009

Desaparecidos em trânsito



Desse caminhante solitário que ocupa um lugar muito particular na minha biblioteca de quarto escuro, W. G. Sebald, chega, agora, às livrarias portuguesas, Logis in einem Landhaus (1998) [Hospedagem numa casa de campo] que na edição da Teorema se apresenta com o título de um dos ensaios que integra o livro, O caminhante solitário, belíssima homenagem a outro caminhante solitário, Roberto Walser - seu vizinho no meu quarto escuro, ambos escritores sem qualidades que partiram em trânsito deste mundo, Sebald numa curva de uma estrada de Norwich, num dia de Dezembro de 2001, e Walser, também num dia de Dezembro de 1956, durante um passeio pela neve nos arredores do manicómio de Herisau onde se refugiara para desaparecer – a quem Sebald descreve como um ente querido que aos poucos se vai dissolvendo no ar «suavemente e sem ruído até um reino mais livre», ou como um familiar próximo que lhe recorda o seu avô Josef Egelhofer: «Walser sempre me acompanhou em todos os caminhos. Apenas necessito suspender um dia de trabalho quotidiano, para logo ver meu ao lado, nalgum lugar, [a sua] figura inconfundível […] olhando à sua volta».