6 de dezembro de 2009

Não me situo


Seguramente, se fosse vivo, voltaria a pronunciar a mesma frase que pintara num muro decrépito da capital guatemalteca, num dia chuvoso de 1944, momentos antes de atravessar o umbral da embaixada mexicana onde obteria asilo político: «Não me situo» [em castelhano, ubico, trocadilho com o nome do antigo ditador guatemalteco Jorge Ubico]. Este, talvez, também, o micro-conto mais lendário de Augusto Monterroso (1921-2003), escritor de veia cervantina e surrealista que nasceu em Tegucigalpa, nas Honduras, viveu na Guatemala e morreria exilado no México, onde escreveria a sua obra vagarosa. Antes, porém, de ter escrito, sem pressas, essa obra, publicaria Obras completas (y otros cuentos), o seu primeiro livro que, para cúmulo, começava pelo fim, já que Obras completas era o nome do último conto, que não das obras completas do autor que, como uma ovelha negra, renegaria ao rebanho do realismo mágico latino-americano, tal como Rulfo ou Borges.

Que pintaria Monterroso, por estes dias, num qualquer muro decrépito da capital hondurenha, se obrigado a escolher entre o resultado das ambíguas eleições de domingo passado que vão dividindo a comunidade de países ibero-americanos e a deriva populista - na senda de Chávez - do deposto, e exilado, presidente Manuel Zelaya, que reapareceu "materializado" na Embaixada do Brasil, em Tugucigalpa, graças a um conluio logístico-diplomático entre Chávez e Lula? Seguramente: «não me situo».

29 de novembro de 2009

Isto é um homem


[A pretexto do Dia Internacional da Solidariedade com o Povo da Palestina que hoje se assinala, recordo aqui um episódio protagonizado por Haruki Murakami, em Fevereiro passado, na Palestina]

Contrariando o pedido que lhe fora endereçado por um grupo pró-palestiano para não ir a Israel receber o Jerusalem Prize, o escritor japonês Haruki Murakami decidiu [em Fevereiro passado]ir porque queria ver «com os seus próprios olhos». E foi e viu um muro alto e grande serpenteando na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, incendiando ódios na «terra prometida». E, então, disse que «se há um muro alto e grande e um ovo que se parte contra ele, não interessa o quão certo está o muro ou quão errado está o ovo, eu ficarei do lado do ovo. Porquê? Porque cada um de nós é um ovo, uma alma única, encerrada num ovo frágil. Cada um de nós confronta-se com um grande muro. O grande muro é o sistema. […] Somos todos seres humanos, indivíduos, ovos frágeis».

Os palestinianos, menos que isso, diz-me Fuad, um amigo palestiniano que conheci um dia em Aman: «Em Israel, os palestinianos agora são vistos como menos que humanos». Almas quebradas contra um muro «demasiado grande, demasiado escuro, demasiado frio», erguido por israelitas com idade para se lembrarem do que significou na história enlouquecida do século XX a palavra «undermenchen». Foi esta expressão – menos que humano - que antecipou os campos de extermínio nazis, a chave que abriu as câmaras de gás para milhões de judeus e que, agora, estes, que mais do que qualquer outro povo a deviam calar, pronunciam, indiferentes ao sofrimento, à dor que infligem aos seus vizinhos.

A muralha de ódio que vai rasgando a paisagem bíblica da Palestina, contra a qual Murakami viu partirem-se os ovos frágeis dos palestinianos, é justificada por uma retórica de auto-defesa israelita; a mesma retórica que justifica os bombardeamentos indiscriminados de populações indefesas do outro lado do muro. Ou será que os israelitas acreditam que ali, todos, mulheres e crianças inclusive, se encontram armados? É que se assim não for, então, já só os pensam como menos que humanos. E é por aí, pela insensibilidade, que começa o extermínio. Primeiro, «um muro demasiado grande, demasiado escuro, demasiado frio». E depois, no lado de lá do muro, uma paisagem de ruínas sem fim, paredes calcinadas, sedimentos de morte e dor espalhados sobre aquele pedaço de deserto abandonado por Deus.

Por isso, como Murakami, esquivo-me às codificações racionais de uma guerra assimétrica e envolvo-me emocionalmente no sofrimento palestiniano. Por isso, esquivo-me ao juízo sobre se o que está certo ou errado é o muro ou os ovos que se quebram contra ele. É que, conhecendo Fuad e escutando as suas palavras, umas vezes gritadas outras vezes apenas balbuciadas, só poderei dizer, evocando Primo Levi, também ele «uma alma única, encerrada num ovo frágil», isto é um homem.

Nos cornos da actualidade


A pretexto do Dia Internacional da Solidariedade com o Povo da Palestina que hoje se assinala, reedito um texto antes publicado n´ O que cai dos dias, a propósito de uma reportagem de Clara Ferreira Alves publicada na Única (Expresso, de 21 de Julho de 2007), com o título Vidas Ocupadas, que convoquei, na ocasião, para ilustrar como é possível, ainda, um certo jornalismo capaz de agarrar os cornos da actualidade.

[Conta-nos a reportagem que] há uma muralha de ódio que vai rasgando a paisagem bíblica da Palestina, espartilhando judeus e árabes. E desde logo, a reportagem conta menos do que mostra. E ao preocupar-se com o mostrar responde expeditamente ao «acontecimento» que é a construção da «muralha» de mil quilómetros de comprimento por oito de altura que se vai fechando sobre as vidas de 300 mil palestinianos. Clara Ferreira Alves mostra-nos a mesma Jerusalém que Amos Oz descreveu como «uma desordem mental muito arreigada… uma espécie de "síndrome de Jerusalém": uma pessoa chega, inala o ar puro e maravilhoso da montanha e, de repente, inflama-se e pega fogo a uma mesquita, a uma sinagoga ou a uma igreja». Quando CFA lá esteve a fazer esta reportagem era Outono e uma luz morna derramava-se sobre as torres, muros e minaretes da cidade como vergando-a ao peso das religiões. CFA mostra-nos tudo rigorosamente vigiado, polícias e soldados nas ruas, grupos de judeus ordodoxos conspirando nas esquinas contra uma parada gay que iria realizar no dia seguinte, uma tensão no ar prestes a explodir a qualquer momento; mostra-nos judeus às arrecuas diante do Muro das Lamentações que parecem saídos do qualquer «shtetl» de Varsóvia; mostra-nos a Esplanada das Mesquitas onde começou a terceira Intifada depois da provocação de Sharon; e, mostra-nos, sobretudo, uma muralha serpenteando como uma mancha na paisagem abandonada por Deus, cortando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, mas também feridas abertas, ódios acesos. Medo. «Sou contra, mas é eficaz», diz o poeta Israel Eliraz . Uma nova forma de roubar a terra e a água palestinianas, uma humilhação, dizem os palestinianos. E as duas respostas são verdadeiras, diz-nos CFA que nos mostra, ainda, que «quando o Muro estiver terminado, a Cisjordânia será dividida em bantustões». E mostra-nos o fraticídio entre a Fatah e o Hamas, transformando Nablus num lugar assustador, balas assobiando no ar, ambulâncias a recolher feridos. E muito dinheiro sujo. CFA mostra-nos o que viu à saída de Nablus, ela uma mulher europeia identificada sofrendo nas «filas de mulheres e homens debaixo de um calor tórrido, gente de todas as idades aguardando como animais a passagem da cancela, e sendo tratadas de modo displicente pelos soldados israelitas, um bando de miúdos malcriados […] rapazolas humilhando mulheres mais velhas […] tocando-lhes como se fossem gado […], crueldade e medo».

Estes os sinais da actualidade que CFA leu na sua passagem por Jerusalém e pelos territórios ocupados. Sinais, sobretudo, de vidas ocupadas. Dos dois lados. Sim, mas mais do lado dos palestinianos, porque, dizia-me há semanas Fuad, um palestiniano que mora em Hebron e que conheci em Amann, «a paz sim, claro, quando nos devolverem os territórios». Mas também Amos Oz cuja História de Amor e Trevas me mostrou outras possibilidades de pensar o conflito.

Este um jornalismo que toma posição sem afecção pelo politicamente correcto, como esta reportagem de CFA, cujo ponto de vista não é seguramente o da «objectividade» jornalística que muitas vezes mais não é do que uma forma nihilista de não questionamento «acontecimento». Aqui, mais do que dizer o muro, o importante é «dinamitá-lo», mostrando o drama das mulheres da Palestina que intentam atravessá-lo. E a CFA estava lá e nós, leitores de jornais,com ela. E isso é o jornalismo ainda capaz de forçar a pensar. Porque mostra, retraça sinais, posiciona-se, ajuízam sem afecção pelo politicamente correcto e, nessa forma de mostrar o acontecimento mostra-se ela própria como jornalista capaz de apanhar os cornos da actualidade.

[Entretanto, logo à noite, pelas 21horas, o canal Odisseia lembra a data programando o premiado documentário To See If I’m Smiling (2008) do realizador israelita Tamar Yarom, confrontando-nos com os testemunhos dolorosos de seis mulheres-soldado que quebraram o muro de silêncio e denunciaram os abusos do exército israelita contra as populações indefesas].

27 de novembro de 2009

Marilyn, a madame Bovary de Hollywood



Há um livro sobre Marilyn Monroe – um romance, não uma biografia – escrito por um autor-psicanalista, Michel Schneider, que persegue os seus últimos anos de vida com uma nostalgia proustiana em relação à actriz. «Não me interessa a verdade histórica, mas a verdade ficcional. Não me interessa saber como Marilyn morreu, interessa-me saber como viveu. [...] Por isso o romance pareceu-me a escolha mais justificada. Poder dar às personagens emoções». Marilyn, as últimas sessões [Difel] evoca a relação, no ambiente de Hollywood – onde se fundem os mundos do cinema e da psicanálise, – entre Marilyn e Ralph Greenson, o psiquiatra freudiano que a analisou de Janeiro de 1960 a Agosto de 1962. O livro chega depois de muitas biografias, depois da ficção voluptuosa de Norman Mailer que a descreve como «sweet angel of sex, and the sugar of sex came up from her like a ressonance of sound in the clearest grain of a violin», depois de Blonde [Círculo de Leitores], o pesadelo fantasmagórico de Joyce Carol Oates que num registo ora factual ora ficcional persegue um fio de solidão e fragilidade.
Schneider leu tudo isso e muito mais, como se constata na bibliografia que apresenta, mas o seu livro não se deixa engolir pelos outros porque o que ele procura não é uma nova versão ou explicação da morte de Marilyn, mas a revelação de alguém que se foi dando como desaparecida enquanto a morte anunciada não chegava. Alguém que quis desaparecer do corpo, se ausentar da tela, para procurar a salvação nas palavras, mas roçando sempre o abismo para onde seria atraída «uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha/ou suspeitou que tinha errado a vida», como diz Rui Belo no belíssimo poema A morte de Marilyn. Schneider deita Marilyn no divã e fá-la, finalmente, escrever o livro que nunca escreveu: «A literatura, aliás, sempre esteve na sua vida, de uma forma caótica», escreve Schneider. E Marilyn foi casada com Arthur Miller, um dos mais famosos dramaturgos americanos; conheceu o escritor Vladimir Nabokov e, depois desse encontro, interpretou My heart belongs to daddy (em Let´s make love/Vamo-nos amar, de George Cukor), onde diz: «My name is… Lolita»; e pediu a Wilder que a deixasse representar a Grushenka dos Irmãos Karamazov. «Nos últimos tempos, ela própria colocou o corpo de lado. Para se dedicar às palavras. Por isso fiz este livro: para lhe poder dar a palavra», confessa Schneider. As palavras que já não pôde dizer quando na noite de 5 de Agosto de 1962 «a mão da solidão [caiu como] pedra [no seu] peito». Uma morte prematura nunca verdadeiramente explicada, mas que para Norman Mailer foi urdida pela CIA e pelo FBI; a primeira vítima de uma série de assassinatos políticos: Kennedy, Malcolm X, Martin Luther King.

Recentemente, revi Marilyn em The seven years itch/ O pecado mora ao lado, de Billy Wilder], e não pude deixar de recordar o poema de Ruy Belo : «a mais bela mulher do mundo/ tão bela que não só era assim bela/como mais que chamar-lhe marilyn/devíamos mas era reservar apenas para ela/ o seco sóbrio simples nome de mulher/ em vez de marilyn dizer mulher». E a sua imagem de inocente do próprio desejo que a sua imagem acendia em Tom Ewell. E dentro dessa imagem quem lá estava não era a Norma Rae (nascida na periferia de Los Angeles, em 1926, orfã de pai, abandonada depois pela mãe num orfanato, antes de entrar na espiral do medo que seria a vida de Marilyn desencontrada de Norma Rae). Essa há muito que havia partido. Nem era já a personagem que ela representava, mas a própria Marilyn (a máscara): «Quem é que tu tens aí escondida? Marilyn Monroe?» O mito dela própria. Uma espécie de Madame Bovary holywoodesca, cuja aura nem Mailer nem Wahrol (no seu famoso retrato) nem ninguém foram capazes de captar.

2 de novembro de 2009

A última caminhada


Que melhor post publicar em 2 de Novembro, data em que tradicionalmente é prestada homenagem aos mortos, se não aquele que editei no meu blogue pretérito a pretexto do livro Campo Santo, de W. G. Sebald?

«O meu primeiro passeio no dia seguinte à chegada a Piana levou-me para fora da povoação, por uma rua que começava logo a descer numas curvas, esquinas e ziguezagues medonhos, ladeando precipícios rochosos quase verticais…». Quem por ali vai caminhando é um narrador que dá pelo nome de W. G. Sebald, o passeante solitário e sensitivo que nos habituámos a seguir em peregrinações errantes através dos mapas devastados da nossa modernidade imperfeita. Na linha de Os anéis de Saturno, Sebald aproveita uma viagem à Córsega, durante uma férias de Verão, para percorrer os territórios de uma ancestralidade onírica, onde mora a melancolia, resgastando em quatro fragmentos de um trabalho inacabado – «todos eles autónomos, [...] um espectro incompleto que não deverá corresponder exactamente ao que viria a ser o livro», como nos informa Sven Meyer, na introdução a Campo Santo, agora editado pela Teorema – a nostalgia de um tempo sedimentado em camadas de esquecimento ao qual ele volta a opor o imperativo da memória como condição de possibilidade redentora.

O método de Sebald é aqui, ainda, o da caminhada a pé enquanto contemplação, investigação e indagação numa paisagem devastada, com o propósito de buscar uma moral na natureza, meditar sobre estilos de vida desaparecidos, dar conta da consternação do mundo. Nesta derradeira viagem, vai primeiro a Ajaccio, «o lugar onde o imperador Napoleão tinha vindo ao mundo», e na casa-museu que lhe é dedicada reflecte sobre as minudências imponderáveis que mudaram o destino da Europa. Depois, visita o cemitério de Piana onde as inscrições das lápides dos túmulos lhe inspiram uma dissertação sobre o desaparecimento do culto dos mortos, sobre a crescente insensibilidade moderna ao luto, a mal disfarçada pressa e mesquinhez com que nos despedimos dos nossos mortos, a exiguidade das suas habitações eternas, sobretudo «nas cidades que avançam inexoravelmente para um número de trinta milhões de habitantes! Para onde vão eles, os mortos de Buenos Aires e São Paulo, da Cidade do México, Lagos e Cairo, de Tóquio, Xangai e Bombaim? [...] Quem se lembrará deles, quem se há-de lembrar?». Finalmente, a contemplação da paisagem fá-lo reflectir sobre a destruição dos antigos bosques alpinos da ilha transformados em reverberações nostágicas – «tempos houve em que a Córsega era toda coberta de floresta» – e a denunciar o «sanguinário desporto» da caça, comparando os caçadores às «milícias croatas e sérvias que lhes tinham destruído a pátria com o seu belicismo desvairado», oferecendo-nos a visão consternada de um mundo em vertigem, através de uma prosa meticulosa e cadenciada que oscila entre a reportagem, a crónica de viagens, o registo antropológico e a anotação de história política e social.

Completa o livro um brilhante compêndio de ensaios literários sobre Kafka, Nabokov, Bruce Chatwin e Jean Améry que constituem, a partir de agora, guias incontornáveis para a compreensão da obra de Sebald e que nos mostram a realidade que existe para lá da literatura mas a que só acedemos se nos transformarmos em caminhantes solitários e sensitivos dos livros que resgatamos da memória para neles nos adentrarmos, uma e outra vez, transfigurados em personagens de uma trama que já não sabemos se lida ou vivida, como na recreação nostálgica da viagem de Kafka e Max Brod a Paris – Via Suíça para o bordel -, que desencadeia em Sebald a recordação da viagem que em criança fizera com a mãe atravessando os mesmos cenários descritos por Kafka nos seus Diários.

30 de outubro de 2009

Havana para um Infante defunto



Há em Havana uma rua, a 23, que desce para o mar. Talvez, por isso, o troço final que desemboca no Malecón se chame La Rampa. Desci essa rua que mergulha no mar muito antes de alguma vez ter ido a Havana e de ter sentido o aroma achocolatado dos charutos cubanos. Subi-a e desci-a vezes sem conta em Três Tristes Tigres, de Guillermo Cabrera Infante. E, depois, em Havana para um Infante Defunto, espécie de crónica pessoal de uma Havana pobre, carregada de sons, de intersecções. E, a partir daí, desde La Rampa, perdi-me na Havana dos anos cinquenta, no labirinto sonoro de rumbas e son, do rum Bacardi e dos charutos habanos. Uma Havana nocturna, insular, «com os seus cafés ao ar livre, cheios de novidade, e as suas inusitadas orquestras de mulheres que amenizavam os cafés do Paseo del Prado».

Quando alguns anos depois visitei a cidade, Havana já não era a Lost City do filme de Andy Garcia, baseado no romance Três Tristes Tigres que ontem, revisitei como quem regressa a uma cidade desaparecida. Ao descer La Rampa, e depois caminhar a pé ao longo do Malecón até ao Centro, num começo de uma noite quente de Verão tropical, amenizada por uma brisa refrescante vinda da vizinha corrente do Golfo, foi ainda a cidade nocturna fundada por Cabrera Infante que atravessei. Ali estava, pelo menos eu via-a assim, a mesma cidade reflectida na patine luminosa dos edifícios recuperados do Centro Histórico. Via-a, ainda, no contacto caloroso das pessoas, na sensualidade imediata dos corpos, no perfume adocicado dos charutos, na música omnipresente nos bares e cafés de Habana Vieja. Reencontrei-a, também, em algum imaginário e em alguma iconografia que moldaram a minha juventude. Paradoxalmente, Cabrera Infante já não veria, se ali estivesse, a mesma Havana que eu via, porque aqueles elementos dispersos que agora eu ia recuperando, pertenciam a uma certa mitografia de uma felicidade talvez mais sentida pelos estrangeiros do que pelos cubanos, à qual juntaria, depois, algumas imagens de uma decadência de charme.

Três Tristes Tigres, que Cabrera Infante começou a escrever ainda em Cuba, antes de se exilar, é uma homenagem a uma Havana sem tempo à qual ele não mais regressou, por culpa de um rancor quase irracional que marcou até ao final da sua vida a sua relação com o Estado cubano. Assim se compreenderá a amarga ironia que atravessa os seus livros. Trágica dissidência que o tornou ausente de uma cidade que foi sempre o centro festivo dos seus livros. E, talvez, nem ele nem Havana merecessem esse afastamento, pois cópias clandestinas de Três Tristes Tigres sempre circularam em Cuba, formando gerações de escritores, não obstante a opinião injusta e pouco amável de Cabrera Infante sobre os escritores que não abandonaram a ilha. A ausência preencheu-a Cabrera Infante regressando sempre aos mesmos temas com uma nostalgia feroz: a Havana dos anos quarenta e cinquenta, as mulheres, a música, o cinema.

O primeiro sinal de fumo de Cabrera Infante encontrei-o em Três Tristes Tigres: «O charuto [...] aceso é outra fénix: quando parece apagado, morto, a vida do fogo surge entre as suas cinzas». Em Havana, quando fumei o meu primeiro charuto, no bar do Hotel Ambos Mundos, onde viveu Hemingway, juntando assim mais um elemento à tal mitografia da felicidade, ainda não tinha lido o que Cabrera Infante escrevera sobre o prazer de fumar: «Llamo felicidad a sentarme solo en el lobby de un viejo hotel después de una cena tardía, cuando se han apagado las luces de la entrada y solamente se distingue, desde mi cómoda butaca, al portero en su vigilia. Es entonces cuando fumo mi puro en paz, tranquilo en la oscuridad: lo que fue antaño una hoguera, transformado ahora en las ascuas civilizadas que relucen en la noche como el faro del alma».

Puro Humo conta a história da relação entre o cinema e o fumo. Porque para Cabrera Infante, sabemo-lo desde Havana para um Infante Defunto, os filmes são feitos de sonhos. Como os puros. Por isso, em Puro Humo viagja-se de Cuba para o cinema, reacendendo na memória do leitor-espectador um certo voyeurismo: um cigarro lânguido nos lábios de Marlene Dietrich, uma beata rude entre o indicador e o polegar de Bogart, o universo opaco de maldade nos clássicos negros como A Dama de Shanghai ou A Sede do Mal. Também outras páginas que exalam o mais puro fumo literário, com referências a Daniel Dafoe, Edgar Poe, Conrad, Stevenson, Dickens, Mallarmé, Lewis Carrol, Conan Doyle, Raymond Chandler, Hemingway, Jack London, Lorca, Lezama Lima… – e J. M. Barrie – autor, talvez, do mais belo título de todos os livros que fumam: My Lady Nicotine. Pura literatura, portanto, que se esfuma e perfuma como um puro fumado em Havana. Como uma paixão consumida.


[Texto originalmente publicado pelo autor na revista Atlântica 2, aqui reproduzido, hoje, por um não fumador, a pretexto da edição portuguesa de Puro Humo que agora chega às livrarias, com a chancela da Queztal, com o título Fumo Sagrado].

27 de outubro de 2009

As coisas aqui em baixo



Revisito a entrevista que António Lobo Antunes concedeu, há dias, na RTP1, a Judite de Sousa, a pretexto do seu novo romance Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar, onde escava as misérias da condição humana e ouço um homem terno, embora com afectação literária, a falar com absoluto respeito do pequeno mundo dos outros à sua volta. E à medida que vou escutando a sua voz rumorosa, vejo passar, vagarosas, diante de mim, aquelas presenças reais, às vezes estranhos de passagem, outras vezes «bolhas de solidão” que existem entre ele e as palavras, para derivar, depois, numa escrita assustadoramente lúcida e emocional que nos puxa para o abismo do nosso inconsciente colectivo de portugueses e de onde, só muito a custo, regressamos, depois, à superfície das nossas biografias tão cheias das qualidades que nos são diariamente incitadas.

Eis o que espero encontrar neste romance polifónico de António Lobo Antunes - cujo título de um profundo lirismo antagoniza com o universo sórdido da realidade humana que as primeiras páginas antecipam -, deixando-me levar na corrente caudalosa da sua escrita caleidoscópica, profundamente irónica e sarcástica, mas carregada de lirismo e de melancolia.

Um romance feito da matéria mais simples para contar as coisas aqui em baixo, porque, como confessa António Lobo Antunes «nós somos como casas cheias de fantasmas, uns fantasmas pequeninos. Muitas vezes, quando começo a ouvir as vozes de escrever, ouço várias vozes ao mesmo tempo e aquela que me vai dar o livro nunca é a voz mais forte, mais intensa. São outras que estão escondidas por trás.”

[foto ao alto, de José Sena Goulão]

25 de outubro de 2009

António Lobo Antunes, o escrevente


A renúncia da palavra de «um sector importante da literatura ocidental moderna», eis o que rastreia Enrique Vila-Matas em Bartleby e Companhia [Assírio e Alvim, 2001], uma espécie de catálogo de instantes fulgurantes dessa «pulsão negativa ou atracção pelo nada que faz com que certos criadores [...] renunciem à escrita [...] e fiquem, um dia, literalmente paralizados para sempre».

Ora aí está algo que não acontecerá nunca com António Lobo Antunes que renunciou à medicina para ficar com todo o tempo para a escrita. E que declara que «escrever é alegria, mas também tortura». [...] É a razão da minha vida». Uma vida - ou uma obra - que ainda não foi galardoada com o Nobel, mas que o foi com outros prémios: «Quantos prémios ganhei importantes? Mais de 20, fora os que recusei» - confessa a Alexandra Lucas Coelho, no ípsilon da última 6ª feira -, o que só é possível com um escritor radicalmente anti-bartlebyano! Tanto que quando, recentemente, na Festa Literária Internacionl de Paraty, o questionaram sobre se alguma vez renunciaria à escrita, recordou as palavras provocatórias de João Ubaldo Ribeiro: «Uma vez perguntaram-lhe se tinha parado de escrever. Respondeu que não, que o seu pseudónimo era Lobo Antunes».

Ao contrário do escrevente Bartleby - aquele empregado de escritório de um conto de Herman Melville -, à pergunta sobre se não quereria parar de escrever, o escrevente Lobo Antunes, invariavelmente, responderia: «preferia fazê-lo», só ainda não sei se o irei conseguir. Até agora, sempre o tem conseguido. A prová-lo até à exaustão, mais de duas dezenas de títulos, ou de capítulos, da sua incessante busca da perfeição, de que este Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? que acaba de ser editado é, para António Lobo Antunes, o melhor de todos, como o próprio declara: »Eu acho que nunca li um livro tão bom».


[nota de rodapé: a expressão o escrevente não é aqui utilizada com qualquer intenção depreciativa da escrita de ALA, antes como modesto artifício retórico para classificar a prolixidade do escritor]

[ilustração alto, de André Carrilho (C), para The New Yorker]

24 de outubro de 2009

Os dias calcinados


350 ppm é o indíce de concentração que os principais cientistas dizem ser o limiar seguro para dióxido de carbono na nossa atmosfera, para evitar as trágicas consequências das alterações climáticas. Hoje, quando faltam menos de 50 dias para a Conferência de Copenhaga sobre alterações climáticas, milhares de pessoas, em 144 lugares emblemáticos do mundo, assinalaram o Dia Internacional da Acção Climática, manifestando-se contra os dias calcinados que podem vir aí se não se parar já a deriva ambiental. E nós, o que é que podemos fazer? Agir como fizeram, hoje, em todo o mundo, aqueles que podemos ver aqui]. Talvez, também, escrever, nem que seja um post como este que recupero de um meu blogue pretérito e que agora aqui deixo actualizado.


Durante o Verão, surgiu uma tromba de fogo no crepúsculo do Árctico, sobre o mar de Barens, derramando sobre as nuvens baixas que encobriam o céu de Hammerfest uma luminosidade laranja espectral, anunciando a extensão à cena árctica da nova versão patética da tetralogia de Wagner, agora reposta sob a forma da maldição do gás adormecido durante milhões de anos sob as calotes de gelo em fusão. O que sobrará para o mundo quando se apagar a última réstia do fogo que concorre agora com as auroras boreais ninguém ainda sabe. Ou talvez saibam apenas os visionários.

«Mas quanto mais me aproximava das ruínas, mais se afastava a imagem de uma secreta ilha dos mortos e mais me julgava no meio dos vestígios da nossa própria civilização aniquilada por uma catástrofe futura», escreveu W. G. Sebald em Os Anéis de Saturno [Teorema, 2006], descrente da capacidade da razão para dominar a natureza enlouquecida pelos homens. E nós, que ainda não caminhamos entre ruínas,vamos vivendo com os primeiros efeitos das alterações climáticas provocadas pelo aumento das emissões de gazes com efeito de estufa: temperaturas em alta, concentrações de dióxido de carbono a subir, degelo das calotes polares, subida dos oceanos, chuvas torrenciais, secas mortíferas, o rol que afinal já todos conhecemos, sem que isso, no entanto, produza uma reacção global à altura da tragédia eminente.

Por isso, talvez reconhecer nas palavras de Sebald uma espécie de lucidez trágica relativamente ao devir do mundo, caso não sejam tomadas medidas que reconduzam o rio turvo da destruição ambiental às suas margens, impondo urgentemente a redução das emissões poluentes que afectam o aquecimento global. Mas estarão os governantes do mundo motivados para isso? Ou, pelo contrário, indiferentes ao roçar o abismo, falharão a derradeira ocasião de salvar o planeta, deixando as «coisas continuarem como antes» [Walter Benjamin, Passagens, frag. N9a, 1], isto é, resvalando para a «catástrofe futura». Haverá aqui uma visão demasiado catastrofista? Para Ban Ki-moon, Secretário-Geral das Nações Unidas, nem tanto: «O aquecimento global é uma realidade e, se não intervirmos, as suas consequências poderão ser devastadoras, senão catastróficas, nas próximas décadas [...] peço aos dirigentes mundiais que exerçam a sua liderança. Que ajam. [Já] não podemos fazer como se nada se passasse à nossa volta».

Como abrandar, então, esta imensa fornalha vertical cheia de brasas que ameaça transformar a paisagem do mundo num campo de sedimentos intransponíveis, rios pedregosos, árvores calcinadas, despojos de máquinas destruídas, espirais fantasmagóricas de poeira, cidades costeiras alagadas, almas à deriva sob um céu acinzentado? Seguramente não ficar acocorado a um canto à espera da combustão final como prisioneiros numa casa em chamas. Talvez falar. Talvez escrever, porque só as palavras poderão ainda evitar a catástrofe de falhar a ocasião de abrandar o braseiro. Agir.

22 de outubro de 2009

Falemos de Deus


Contra as ressonâncias bíblicas que se ouvem por aí a propósito do livro de Saramago, outra forma de abordar «o teorema perfeito e terrível» de Deus.

Raramente falamos de Deus. E quando a ele nos referimos preferimos a metáfora, como se tudo o resto se descolasse do seu nome. E ainda menos falamos dessa questão «menor» de acreditar ou não acreditar em Deus, preferindo cruzar os braços contra a crença profunda em que nascemos. A verdade é que herdámos Deus mesmo antes de termos conhecido «as suas casas profundas». Na infância, Deus é, como escreveu Soares dos Passos, «aquele que povoa a imensidade». Depois, à medida que nos vamos adentrando no mundo, verificamos que caminhamos mais sós do que desejávamos. Por isso transformamos as perguntas nas respostas que procuramos, enquanto aguardamos pelo teorema da existência de Deus. E deixamo-nos arrastar pelo medo que cobre um mundo onde se apagaram as imagens que o paraíso já não devolve depois da «morte do criador» anunciada por Nietzsche. E desde aí, vivemos no medo de termos ficado órfãos para sempre, como se escrevêssemos um novo e desesperado Livro de Job. Há quem explique esta angústia como um «erro genético» que a todos afecta. Porque todos, crentes e agnósticos, estamos inelutavelmente comprometidos com a dúvida original, oscilando entre um ascetismo puro e uma transcendência luminosa. Talvez, por isso, uns e outros, em qualquer momento das nossas vidas, já tenhamos sentido a falta de Deus. E outras vezes escutado os seus passos, os restos da sua voz no nevoeiro que cobre o mundo. E isso apazigua o medo. E, depois, estranhos de passagem, continuamos o caminho, cépticos ainda, mas com menos frio no coração. Mas será essa estranheza algo que devemos ocultar? Ou, como diz Henry James, «é preciso acreditar na dúvida, porque é isso que faz a grandeza do homem».

Diante da dúvida, que futuro, então, para Deus, num mundo que, ao mesmo tempo que vai perdendo o seu sentido ético, assiste à «instrumentalização política da religião», traduzida nos múltiplos fundamentalismos religiosos que enlouquecem os homens. «Talvez [como escreveu Enrique Vila-Matas] as ideias casuais de tanta gente incerta [...], as inquietações de cada um, dos vivos e dos mortos. Talvez algum dia com fluido abstracto e impossível substancia, formem um Deus ou um tecido novo e com a luz de outra vida ocupem o mundo».

Entretanto, «nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre/ o teorema perfeito/ e terrível» [Herberto Helder, Última Ciência].