22 de abril de 2010

Elogio da preguiça


Saint-Germain-des-Près foi para mim, durante os dois anos que vivi em Paris, o meu bairro artúrico (como a rua imaginada e percorrida por Rimbaud que, no final do seu trajecto, dava para o fim do mundo: "só pode ser o fim do mundo se avançarmos"), onde se concentrava toda uma mitografia que levei comigo, sedimentada nos lugares imaginados da minha atracção parisiense. Neste bairro, que naquele tempo me foi oferecido como um pequeno território secreto, tracei com passos repetidos uma cartografia pessoal feita de ruas estreitas, passagens cobertas, pequenas livrarias, galerias de arte, estúdios de cinema, cafés, um mercado de rua, pequenos jardins…

Era ainda o tempo em que, por exemplo, ao virar de uma esquina, podíamos encontrar os filhos do mundo que sonharam viver em Paris. Nesse tempo, era possível, invariavelmente depois 14h 30, hora a que fechavam as agências de emprego, cruzarmo-nos com Albert Cossery, o escritor egípcio que nos anos quarenta aqui desembarcara com pouco dinheiro e tendo como única bagagem uma selecção de contos, Os homens esquecidos de Deus, que Henry Miller acabava de publicar nos Estados Unidos e que o editor Edmond Charlot pretendia publicar em França. Não trazia outra ambição que não fosse a de escrever um livro de oito em oito anos, à média de uma frase por semana.

Na rua de Seine, que começa perpendicular à rua de Saint Sulpice e desce até ao quai Malaquais, no quarto 58 do hotel La Louisiane cujas janelas davam sobre uma mercearia - frequentado na época por Gréco, Sartre, Beauvoir, Mouloudji… -, escolheu Cossery o seu único lugar de escrita, o espelho perfeito de alguém que apenas pretendeu gozar a vida, o reflexo de uma obra que elegeu o dandismo indolente como processo de reflexão permanente, povoada por mendigos filósofos, ladrões magníficos e preguiçosos impenitentes. Como Gohar, Gala ou Ossama, as suas personagens rebeldes que cultivam a pobreza para não ter nada a perder, Cossery baniu da sua existência os bens mundanos e elegeu a preguiça como arte de vida e instrumento de resistência contra a vanidade dos seus contemporâneos: «Se eu tivesse guardado tudo o que me ofereceram, seria milionário. Quando Giacometti me dava um quadro, ele sabia que eu o venderia no dia seguinte. Isso permitia-me viver durante algum tempo».

Porque um quarto de hotel não é uma casa, só ali, sem casa nem carro a atestar a sua presença sobre a terra – apenas alguns livros de Dostoievski, Nietzsche, Stendhal, Baudelaire, Rimbaud, Thomas Mann… - Cossery se sentia livre, praticando a indolência e a meditação que os seus livros celebram. «Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir. E é por isso que, no Oriente, isso se designa por filosofia oriental… A maior parte das pessoas tem tempo. Quanto mais se desce para sul, mais encontramos profetas, magos, pessoas que reflectiram sobre o mundo». E foi aí, nesse pequeno quarto de hotel na rua de Seine, que Cossery, iluminado pela gaia ciência de Nietzsche, escreveu com toda a ternura do mundo sobre as misérias insondáveis das vielas do Cairo, nos anos quarenta, cinquenta. Embora nunca mais tenha regressado ao Egipto – «O Egipto nunca me deixou» -reinventou-o mais verdadeiro que o verdadeiro, com os seus mendigos e altivos, desesperadamente pobres, preguiçosos e indolentes.

Terá sido em Paris que, talvez, me tenha cruzado um dia com este elegante profeta da contemplação, transportado dos cafés árabes do Cairo, onde a vida corria livremente, temperada com um pouco de haxixe. Claro que nos meus dias de Paris, Saint Germain já não era o que fora nos anos brasa de Cossery, embora a brasserie Lipp e todos os outros locais frequentados por Cossery ainda lá estivessem. Mas estava menos Cossery e, sobretudo, já não estavam os seus amigos, Camus, Genet, Louis Guillouxx, Mastroianni, Ferreri. Imaginei-o aí instalado com a sua corte, em frente dos azulejos do pai de Paul Fargue. Ou, no outro lado do boulevard, no Café de Flore. Ou sentado numa cadeira no Jardim do Luxembourg, observando a única coisa de que a sua língua viperina não poderia dizer mal, as árvores: «Eu não gosto do campo. Não posso dizer mal das árvores». Mas foi no Café de Flore, onde o procurei algumas vezes e por ironia nunca o encontrei que melhor o imaginei.

Nos anos oitenta, o Flore já tinha sido colonizado por uma fauna de turistas literatos nostálgicos que perscrutavam ansiosamente a mesa onde Sartre escreveu A náusea ou o canto onde Roland Barthes se refugiava a ler o Le Monde. Poucos procuravam a sombra de Cossery cuja existência ignoravam, e muito menos o seu estatuto de escritor deslocado, marcado pela heráldica do desapego e da indolência, e tão fora da gesticulação literária e mundana. Mas a mim, fascinava-me imaginar, no meio da clientela extravagante alheia ao literário, a figura aristocrática de Cossery contemplando a rua através da esplanada envidraçada do café, talvez meditando sobre o seu último livro que publicaria em 1999, As cores da infâmia, em que continuaria a denunciar implacavelmente «a face ignóbil e grotesca dos poderosos da terra», o que levou Henry Miller a afirmar que a sua obra era «uma surpresa total. É o género de livros que precedem as revoluções e engendra a revolução, se é que as palavras possuem algum poder».

Para mim que, recentemente, li quase de seguida alguns dos livros de Cossery [Mendigos e altivos, Mandriões do vale fértil, A violência e o escárnio, Uma conjura de saltimbancos, Os homens esquecidos de Deus, Uma ambição no deserto, As cores da infâmia, todos editados pela Antígona], as suas palavras sobre a gesta dos anti-heróis das ruas do Cairo, continuam a sinalizar as paragens do meu itinerário de leitura. Isto porque, tal como Ahmed Safra, o condutor de eléctricos de A casa da morte certa, que só se detinha nas paragens que lhe apetecia, também eu só me detenho em livros embebidos na tinta da vida e, por isso, capazes de agitar o pensamento.

18 de abril de 2010

Sob o céu de Tânger


«Não escolhi instalar-me em Tânger. Aconteceu. Devia ser uma estadia breve. Queria continuar, indefinidamente. A preguiça fez-me adiar a partida. Um dia, tive de render-me: o mundo estava muito povoado, os hotéis eram menos bons, as viagens menos agradáveis e as paisagens menos belas. Quando estava noutro sítio, lamentava não estar em Tânger. Estou aqui porque cá estava quando percebi a que ponto o mundo piorou. Já não queria viajar mais», confessa Paul Bowles.

Tânger aqui tão perto. Sai-se de manhã cedo de Portimão e, pelo meio-dia, tomamos o ferry em Tarifa. Primeiro, o porto, depois a Place Koweit; almoçamos no Hotel Continental, alojamo-nos, saímos de novo, tomamos um taxi que nos leva encosta acima entre terrenos baldios até ao Edifício Itesa, onde Bowles viveu desde os cinquenta anos até poucas semanas antes da sua morte, em 1999, aos oitenta e oito anos. Subimos umas escadarias amplas de mármore até ao quarto andar e batemos à porta do apartamento 20. Esperamos. Ninguém responde. Não veremos a sua última morada. A mesma que foi visitada por Mick Jagger e Brian Jones, seus vizinhos por algum tempo no andar de baixo do Itesa, e que vieram a Marrocos para ouvir os sons dos fazedores de perfumes e gravar os Master Musicians of Jajouka que seria considerado o primeiro álbum de músicas do mundo. Primeiro que ninguém, Bowles tinha descoberto esta música nas suas deambulações por Marrocos, enquanto musicólogo. Porque Bowles já não mora ali descemos, e já na rua avistamos um pedaço azul do estreito de Gibraltar. «Há lugares no mundo que contêm mais magia do que outros», escreveu Bowles.

Voltamos a descer a ladeira de Monteviejo, por entre os ciprestres que ladeiam a estrada que nos devolve à Medina. Perdemo-nos no labirinto de ruelas, sob odores exóticos e reencontramo-nos à porta do The Paul Bowles Room, na antiga American Legation. Entramos. O ambiente irradia serenidade, apesar de três das velhas malas que correram o deserto, outras vezes o mundo, nos convidarem ao devaneio. Imaginamo-lo, então, sentado em tantos lugares, aqui, em Fez, em Ait-Benadou, no deserto ao crepúsculo, sob um céu que nos protege, as montanhas azuis ao fundo. Se aqui estivesse agora falaria da disciplina errática das viagens. De nomadismos. Do mar de Conrad. Do silêncio do deserto. De Graham Greene e Raymond Chandler. Da hibris marroquina. Sim, de Jane Bowles. De Kafka, Gerturde Stein e Flannery O´Connor. A prisão do corpo. A morte libertadora. Os labirintos do kif. A poesia de Mohamed Choukri. A escrita como ritual. O concerto de oboé e clarinete que nunca terminou.

Saímos para o primeiro entardecer de Tânger. Há homens trabalhando cestos, o cobre, a lã. A padaria onde Bowles comprava o pão, naquela esquina antes dos degraus do Baba. Procuramo-lo no Café Hafa, por entre delicados saracoteares de copos de chá de menta. Depois, no Café de Paris, outrora também frequentado por Jean Genet, um dos muitos que ajudaram a criar o mito de Tânger, cidade nervosa. Impossível não imaginar neste refúgio déco o encontro entre Malkovich e Debra Winger, à procura de si próprios em Um Chá no Deserto. A voz de Bowles, no filme, confessando que, mais tarde, acabariam por se perder, irremediavelmente, nas areias sedutoras e fatais do deserto. Mas é na ressuscitada Librairie des Colonnes, onde Bowles se encontrou tantas vezes com Mohamed Choukri, e que utilizava como caixa pessoal de correio, que reencontramos o antigo espírito do lugar. Abrimos um livro que fala desta cidade, Deixa chuva cair. E é nessa morada de vocação mediterrânica que, finalmente, o encontramos numa Tânger desaparecida onde vingava a corrupção e a desordem, onde se movimentavam vigaristas e assassinos, excêntricos e ninfomaníacos, homossexuais e magnates. Dolorosa iniciação.

Eras um americano a fugir do mal-de-vivre urbano. Tinhas chegado com Aaron Copland, procurando romper com o nomadismo cosmopolita que te levara a viajar pela Europa primeiro, depois pelo Extremo-Oriente e pela América Central, com incursões mais ou menos prolongadas em Paris e Nova Iorque. Em 1947, decidiste ficar aqui, em Tânger, donde partias em viagens pelo deserto como relatas em Baptism of solitude. Sim, Bertolluci também percebeu esse fascínio e ofereceu-nos Um chá no deserto, baseado no teu livro O céu que nos protege. E muitos vinham aqui visitar-te. Truman Capote, Tenesse Williams, Cecil Beaton, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, Gore Vidal foram alguns dos que participaram no desregramento de sentidos das longas noites estreladas de Tânger.

Mas quem sempre ficou aqui foste tu. E disso nos falas agora: «É estranho. Vivo aqui há 59 anos e continuo a ser um turista. As pessoas vêem-me como turista e acho que têm razão. Isto apesar de, oficialmente, eu ser residente. Mas a menos que nos tornemos muçulmanos, continuamos a ser estrangeiros. Eles vêem-me como um Nassrani, ainda que não seja cristão. É muito difícil tornarmo-nos amigos íntimos de alguém. Aqui, é-se apreciado como fazendo parte de um grupo. O estrangeiro, digamos, o turista, não sabe como aproximar-se dos marroquinos, pois a sua forma de pensar é diferente. Para eles, as coisas importantes não são as mesmas. Há que aceitar, e continuar a aceitar, suceda o que suceder, uma vez que quem estuda as pessoas está na posição de espectador, observando as pessoas de outra cultura».

Por isso, aqui, neste café, ao crepúsculo tangerino, rencontrar Paul Bowles talvez seja também uma forma de nos deixarmos cobrir, nós e este islão vizinho, sob o mesmo céu que nos protege.

13 de abril de 2010

Nomadismos



«Fui fotografando calmamente, sem ansiedades, porque mais importante do que as imagens eram as palavras, as conversas. Tinha a nítida sensação de estar perante um sábio, um homem que tinha vivido, traçado o seu destino, encontrado a sua alma. A casa e a pessoa de Bowles irradiavam serenidade, apesar da sua biografia e do monte de malas na entrada lembrarem outras existências», escreveu Daniel Blaufuks em My Tangier, o ensaio fotográfico que publicou em 1991 resultante de uma expedição à mítica Tânger, ao encontro do escritor norte-americano Paul Bowles que ali escolheu viver, até à sua morte em 1999.

Ontem, ao arrumar os livros na prateleira mediterrânica da minha biblioteca, abriu-se-me a mala que ele levou na sua primeira viagem a Paris, onde conheceu o poeta surrealista Tristan Tzara. E lá encontrei a edição da Assírio & Alvim, anotada a lápis, da sua autobiografia Memórias de um nómada, onde, por instantes, reencontrei Bowles escrevendo sofregamente, deixando cair no papel «without stopping» uma torrente de palavras: muitos contos, novelas, traduções de amigos marroquinos, livros de viagens. Na mesma mala, cujos segredos me foram momentaneamente revelados, lá estava, também, Deixai a chuva cair, o romance sobre a nervosa Tânger, cidade por onde Bowles errou durante grande parte da sua vida. Bowles que se fez desaparecido em Marrocos, corresponde ao mito simpático do ocidental que rejeita o estatuto social da sua origem para se ocultar na distância libertadora do Norte de África.

Impossível, por isso, não recordar Manuel Teixeira Gomes, político, diplomata e ex-presidente da República e, sobretudo, escritor de contos, novelas, cartas, livros de viagens… e viajante vagaroso, por países e mares, da Europa à África do Norte e à Ásia Menor, através de cidades e portos onde mercadejou, amou mulheres múltiplas, visitou museus, leu e escreveu, como um dandy elegante. Também Teixeira Gomes, nas suas andanças mediterrânicas, aportou um dia em Tânger, seguramente com a sua «mala grande». E, também ele, se fez desaparecido, depois, em Bejaia, Argélia, onde viveu esquecido no quarto número 13 do Hotel Étoile - a sua «mala grande» transformada ali num sedentário guarda-roupa, mas a lembrar a sua anterior existência nómada. Uma vida sem fronteiras nem códigos a limitar o desejo e a imaginação criadora. Como uma gaivota atraída pelo brilho das paisagens do sul, sem nada querer possuir a não ser um pequeno quarto num hotel, depois de ter tido todo o mundo no olhar.

19 de março de 2010

Istambul desaparecida


Fui a Istambul pelos passos de Orhan Pamuk, perseguindo uma cidade secreta, descrita «em dois tons, como a cor do chumbo, semiobscura, no estilo das fotografias a preto e branco» do fotógrafo Ara Güler. Fui para descobrir uma cidade desaparecida ou, pelo menos, invisível ao olhar do turista fortuito, mas que, ainda, é capaz de se revelar ao viajante que ousa «perder-se [nela] tal como é possível acontecer num bosque», o que «requer instrução», como um dia disse Walter Benjamin. Fui, por isso, desde o meu hotel, na praça Taksim, mapeando as ruas secundárias de Beyoglu, de Gálata, de Cihangir, de Fatih e de Zeyrek à procura do aleph que todas as cidades escondem e que, ali, é a paisagem a preto e branco cuja «beleza reside na sua tristeza», como escreveu Ahmet Razim, também ele um cronista desta cidade nervosa que tem um pé na Europa e outro no Oriente próximo.

Fui por ali como um expedicionário de memórias alheias - as memórias de Orhan Pamuk que me chegaram através das páginas lentas, quase proustianas, do seu livro Istambul: Memórias de uma cidade (Editorial Presença) e que constituíram a minha prévia e necessária «instrução» para me perder na cidade inquieta, simultaneamente real e onírica, mas também as memórias de ilustres viajantes estrangeiros do século XIX; como Meeling que nos legou em Voyage pitoresque de Constantinople et des rives du Bosphare esplendorosas gravuras das paisagens do Bósforo; ou Nerval que em Voyage en Orient compara a exuberância da Rua Grande de Pera, hoje a Avenida Istikal, a Paris; ou Gautier que em Constantinople narra o seu périplo melancólico pelos subúrbios assombrados de Üsküdar, Karaköy e Byazit; ou Flaubert que nas cartas que envia desde Istambul fala do frio da cidade e do vento poyraz que sopra do Mar Negro encapelando as angras.

Fui por ali, também, recordando o que o escritor, político e viajante Manuel Teixeira Gomes escreveu, em Miscelânea, sobre Istambul, onde aportou num dos seus périplos mediterrânicos. «Já na minha última visita a Constantinopla, onde eu andava algo febril e depauperado por uma dose de malária, apanhada nas ruínas de Éfeso, uma ou outra dessas figurinhas [do sarcófago de Alexandre] me aparecera de fugida, e sempre nos cemitérios que são o que ali há de mais helénico. Os cemitérios de Constantinopla! Lembra-se? O bosque de ciprestes em Scutari, mostrando ao fundo das suas infinitas ruas a perspectiva risonha do Mar de Marmara; e a poesia dos pequeninos cemitérios de Gálata, fechados em tuias e alcatifados de tulipas! E os encontros nessa inverosímil cidade, que são como em nenhuma outra parte inesperados, sugestivos, fugazes e estranhos. É uma incessante parada que levanta do pó dos séculos as mais pitorescas e formosas criações. Dias há que nos parece que as estátuas antigas desceram dos seus pedestais, e as odaliscas se evadiram dos gineceus e vieram espairecer pelas «Águas-doces-da-Europa, ou pelos bazares de Istambul. Ou misturar-se ao formigueiro humano que enche continuadamente a amplíssima ponte que fecha o Corno de Oiro».

Fui por ali, não tanto para atravessar a floresta de banalidades urbanas circundantes, mas para até mesmo na topografia turística descortinar desde o Bósforo, tal como Manuel Teixeira Gomes a viu, uma Istambul «armada no coração do mundo, com as mil lanças dos seus minaretes», com torres, palácios, mesquitas, colunas e cúpulas. O esplendor desvanecido da Hagia Sofia; a incandescente visão da Mesquita Azul com os seus seis minaretes rasgando os céus; o harém do Palácio de Topkapi; a estação Sirkeci onde durante anos terminava a linha do Expresso do Oriente, com gente anónima com malas chegando e partindo; mais gente anónima apressada atravessando a ponte Gálata por entre uma chusma de pescadores à linha que ali gastam o tempo e a vida; o Grande Bazar em cujo labirinto de vozes e coisas se pode achar desde os brocados gregos ao açafrão iraniano, do vidro de Alepo aos tecidos listrados do Iémen; e o Bazar das Especiarias com os seus mil aromas e texturas visuais.

E fui por ali, sobretudo, à procura de uma Istambul secreta sedimentada em camadas de esquecimento que, como escreve Pamuk, se escondem sob «o arco mais modesto, a fonte mais pequena enterrada em toneladas de betão, a mesquita mais pobre nos bairros afastados, por maltratados e esquecidos que estejam, fazem sentir com dor aos milhões de pessoas que vivem entre essas memórias - tanto como as grandes mesquitas monumentais e os edifícios históricos da cidade - que são resíduos de um grande império». Vestígios esquecidos de uma Istambul de prodígios e raridades acesas que se negam em desaparecer e que irrompem nas entranhas de ruas secundárias; na penumbra dos seus tugúrios míticos de casas de madeira vazias e cambadas. Nos seus cafés e tabernas com mesas de mármore onde se sentaram os escritores solitários do hüzun - a melancolia turca - agora a abarrotar de desempregados e delicados saracoteares de chávenas de chá, e onde também eu me sentei a beber raki. Nas livrarias vazias de alfarrabistas encaixadas em passagens secretas onde procurei um livro inexistente do turcófilo Pierre Loti; nas velhas barbearias, outrora lugares de discussão política e, onde, hoje, os poucos clientes discutem as rivalidades futebolísticas locais. No cântico do muezzin que se evola nos ares sobre a penumbra dos entardeceres e se confunde com o pregão monocórdico dos vendedores de simit. Nos olhos cor de uva das mulheres de lenços islâmicos na cabeça, intangíveis, suspensas no tempo nas paragens de autocarros; nos vapur a abarrotar de gente no ir e vir sem fim entre a Europa e a Ásia. Nas docas de Sirkeci e Eminönü fervilhando de gente apressada no ir e vir sem fim entre a Europa e a Ásia. No cais de Karakoy, onde desembarcam os desempregados russos e romenos e as "Natachas" que logo se prostituirão ali perto, nas ruelas dos antigos bordéis.

Fui por ali, cruzando o Bósforo num vapur, o proyaz, o vento que sopra do Mar Negro, açoitando-me o olhar, e vi, como Orhan Pamuk, a silhueta fugidia de Istambul desfilando à minha frente «com todo o peso do seu caos, com as suas mesquitas, os seus bairros afastados, as suas pontes, os seus minaretes, as suas torres, os seus jardins». O vapur correndo no meio de rápidas correntes, no meio da sujidade, do fumo e do ruído. «Ventos, ondas, profundezas, trevas». As margens esmagadas por altos edifícios que ocupam agora um território onde antes havia grandes konak e yali de madeira rodeados de jardins com ciprestes e habitados paxás loucos, e que foram incendiados para instalar o novo turismo; os estaleiros abandonados apodrecendo insidiosamente nas margens maltratadas; as chusmas de pescadores à linha nos cais pacíficos de Besiktas; os gatos que espreitam os pescadores por entre os plátanos da marginal; os dolmus apinhados de passageiros, na sua marcha lenta, à beirinha da margem; os restaurantes com ramadas sobre ancoradouros onde acostam barcaças trazendo anchovas e sargos que saltam directamente para as frigideiras.

Fui por ali e na esplanada do Café Pierre Loti, na "colina dos mortos", na penumbra do eclipse, por entre o preto e o branco, pareceu-me ver, por instantes, a mesma beleza triste e aquática de uma Lisboa desaparecida.

(alto: foto de Ara Guler)

1 de janeiro de 2010

As qualidades da década


Na curva derradeira do ano e, também, da década, num impulso momentâneo, arrebatado, talvez, por uma certa forma de nihilismo que faz da actualidade o modo crucial da temporalidade contemporânea levando tantos de nós, em jornais, revistas e televisões a fazer os balanços, as recensões, as listas do que, nas diversas áreas, precisa de ser inventariado nesta sucessão cada vez mais veloz de fins e recomeços cíclicos, para logo em seguida ser depositado nos arquivos da nossa memória breve, vou como um «explorador de abismos» medindo os acontecimentos desta década que está prestes a findar para melhor avaliar as suas qualidades.

E, à medida que vou escandindo a década, é como se estivesse «de pé e enfrentando o caos», como um explorador vilamatiano que ao ver-se à beira do precipício fatal adopta a posição do expedicionário e sonda o horizonte plausível, indagando sobre o que pode haver fora daqui, ou mais além dos nossos limites» (Enrique Vila-Matas).

«Frente ao inafrontável», como diria Zygmunt Bauman, momentaneamente entregue a esta forma de nihilismo que me leva a recensear o passado, vejo e revejo uma década que foi inútil, para não dizer completamente fracassada, mesmo naquilo em que parecia haver um consenso para se avançar, como o combate às alterações climáticas e uma melhor gestão dos recursos esgotáveis do planeta, como ainda há dias se viu com o dramático fiasco de Cimeira de Copenhaga onde os líderes do mundo se revelaram incapazes de encontrar a receita para debelar o enlouquecimento do clima. O conflito israelo-palestiniano foi nesta década agravado com o erguer de um muro de ódio e silêncio que vai serpenteando na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, incendiando ódios na «terra prometida». Outros conflitos, sem solução à vista, no Iraque, Afeganistão e, por arrastamento, no Paquistão, vão transformando as suas cidades em espirais fantasmagóricas de corpos destroçados por bombistas suicidas. A fome, a doença e a morte estendem-se como um manto negro sobre o continente africano transformado num território de sedimentos intransponíveis, rios pedregosos, árvores calcinadas, despojos de máquinas destruídas por guerras passadas. A violência associada ao narcotráfico encontra-se incontrolada em várias regiões da América Latina. A pobreza e a exclusão social atingem camadas cada vez mais vastas das populações, aumentando o fosso entre ricos e pobres. No rescaldo do 11 de Setembro, o medo assentou praça nas nossas vidas e derrota-nos diariamente nas nossas ruas vigiadas, nos aeroportos, nos aviões. O mundo ficou mais imundo, prisioneiro de um capitalismo descontrolado, dos homens de negócios sem escrúpulos e dos sacerdotes da economia libérrima tornada no novo absoluto dos tempos modernos, espalhando mais desemprego, mais pobreza e suicídio entre os mais desfavorecidos. Nunca a formulação de Walter Benjamin foi tão verdadeira como na década que agora finda: «Cuidado, tudo é perigoso, mas não igualmente ao mesmo tempo».

Incapaz de enfrentrar o caos, diante do torvelinho que vai arrastando o mundo pelo vórtice fatal tão bem descrito por Edgar Allan Poe no conto «Uma descida ao Maelstrom», às mãos dos homens de negócios e do novo determinismo histórico. A política tornou-se num teatro de títeres. E nós, neste teatro, em separado ou em simultâneo, com maior ou menor consciência das qualidades que nos são incitadas, puros hedonistas, hiperactivos, contempladores sensíveis, espectadores obscenos, fetichistas da ascensão social, somos figurantes sem voz da «operação de encobrimento a que chamamos sociedade». E, assim, nos deixamos ir em «apocalipse alegre» - para utilizar a mesma fórmula que Hermann Broch usou para descrever o nihilismo da sociedade europeia de fim de século - que é, também, a forma como hoje nos vamos entregando ao nihilismo pós-moderno, falhando, como diria Walter Benjamin, a ocasião de as coisas não continuarem como antes.

Daí, então, que este balanço das qualidades da década possa parecer, numa espécie de espelhismo simétrico relativamente aos acontecimentos medidos, também ele, nihilista. E sê-lo-á quer no sentido em que inventaria a incompletude, o falhado, a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», quer, ainda, por corresponder a um modo de escandir o tempo que parece apenas produzir passado, o que - se não for excessiva a convocatória da formulação de Nietzsche - constitui uma nova forma de «doença histórica» que revoga o tempo breve da novidade. Mas, paradoxalmente, mesmo que nihilista face à consciência da generalização actual do alegre apocalipse, porque não ler, também, nesta recensão das qualidades da década uma forma de rebelião contra o próprio nihilismo, na medida em que denuncia a ilegitimidade dessas qualidades?

Porquê continuar a aceitar o que está aí quando podemos sempre procurar outra coisa, como faz, por exemplo, o personagem Ulrich no inacabado livro de referência deste blogue, O Homem sem Qualidades? Porquê aceitar as qualidades atrás referenciados quando nos podemos desprender delas e esperar que a próxima década ofereça outras possibilidades ao mundo, outras ocasiões de não deixar as coisas continuarem como antes?

Talvez nalguma cesura aparentemente invisível na sucessão veloz de fins e de recomeços, como «exploradores optimistas,» possamos, ainda, sondar os horizontes plausíveis do tempo que aí vem, indagando sobre as qualidades necessárias para superar as consequências dos acontecimentos passados, dando, finalmente, como bem o tentou Walter Benjamin na sua solidão irredutível, «o salto de tigre no céu livre da história».

[foto ao alto: © Lartigue]

11 de dezembro de 2009

A nova serialidade televisiva


A pergunta - «quem matou Laura Palmer?» - da série de culto de David Lynch que inspirou a maioria dos actuais criadores de séries de televisão é, hoje, reescrita para «o que se passa naquela ilha? onde sobrevivem os náufragos de Perdidos, o novo ícone da pop culture que milhões de jovens vêem, compram, pirateiam, discutem em todo o mundo. Uma espécie de «suspension of disbelief», suspensão do real, eis o que nos acontece, às vezes, quando durante horas a fio nos encontramos perdidos numa ilha deserta; ou quando durante 24 horas somos parceiros de Jack Bauer em luta contra o terrorismo (ainda que muitas vezes os métodos utilizados escondam interesses propagandísticos inconfessáveis e repudiáveis); ou quando amamos e odiamos Gregory House, o médico mais politicamente incorrecto da televisão; ou quando estremecemos de emoção quase bergmaniana diante de mais um episódio de Os Sopranos; ou quando nos confrontamos com as neuroses americanas em Sete Palmos de Terra; ou quando descobrimos os mais podres e ardilosos segredos da vida dos subúrbios de uma cidade americana em Donas de Casa Desesperadas; ou quando penetramos no mundo virtual que nos evoca Matrix em Heroes; ou quando apanhamos um crimionoso em CSI; ou quando percorremos, na hiper-realista série A Escuta, as ruas de Baltimore infestadas de traficantes e de polícias, cuja diferença devemos procurar muito para além distintivo; ou quando nos confrontamos com as frenéticas estratégias de bastidores de assessores, gestores de campanha e especialistas em política, em Os Homens do Presidente; ou quando convivemos com Nancy Botwin, a mãe solteira que resolve vender maconha após a morte do seu marido, em Weeds, a mais subversiva série televisiva jamais produzida; ou, ainda, quando, regressamos à América dos anos 60, através da imperdível Mad Men.

Trata-se de histórias com sequências narrativas desdobradas até ao limite, percorridas por personagens onde projectamos um certo inconsciente, novas cosmogonias de um mundo ficcional que julgávamos irremediavelmente perdido numa televisão afundada em telenovelas e na vulgaridade de um quotidiano maculado transferido para o ecrã. Será esta a resposta contra a alienação dos públicos, contra os reality shows, contra a encenação bacoca de episódios triviais do quotidiano de indivíduos anónimos temporariamente promovidos ao estrelato de ficção?

Na década que agora termina temos vindo a assistir à emergência de um novo conceito de serialidade televisiva com uma estrutura narrativa idêntica às dos romances do século XIX que também eram publicados em fascículos semanais antes de sair o livro completo, e que, hoje, são oferecidos ao nosso deleite numa caixa de DVDs. Estará o futuro a trazer do passado aquilo que tem potencial para criar audiências, mas sem iludir a realidade? Isto é, a televisão como entretenimento inteligente? O paradigma de Perdidos não será o mesmo da Ilha do Tesouro, de Stevenson, agora acrescido da inquietação moderna da ausência do herói? E os múltiplos enredos e intrigas secundárias, os infindáveis elencos, a construção das personagens não era algo que até agora estava apenas reservado ao cinema e à literatura? É verdade que antes já o DVD tinha revolucionado a nossa forma de ver cinema, transferindo os clássicos da tela ampla para a televisão. Agora são as séries com as suas possibilidades de horas infinitas, com desvios, retrocessos e avanços narrativos que criam a ilusão da suspensão da realidade, e não o seu simulacro. Talvez se esteja a assistir, então, à emergência de uma nova forma de literatura audiovisual de massas com capacidade de propor algo diferente da ilusão trivial da realidade, mas antes, talvez, a sua suspensão ficcional, pelo menos enquanto durar o episódio da série ou a caixa de DVD que visionamos.

7 de dezembro de 2009

Não falhar a ocasião de Copenhaga


«Mas quanto mais me aproximava das ruínas, mais se afastava a imagem de uma secreta ilha dos mortos e mais me julgava no meio dos vestígios da nossa própria civilização aniquilada por uma catástrofe futura», escreveu W. G. Sebald em Os Anéis de Saturno [Teorema, 2006], descrente da capacidade da razão para dominar a natureza enlouquecida pelos homens.

Há nestas palavras de Sebald uma espécie de premonição trágica, apocalíptica, relativamente ao devir do mundo, caso não sejam tomadas medidas que reconduzam o rio turvo da destruição ambiental às suas antigas margens. Como abrandar, então, a imensa fornalha vertical cheia de brasas que ameaça transformar a paisagem do mundo num campo de sedimentos intransponíveis, rios pedregosos, árvores calcinadas, despojos de máquinas destruídas, espirais fantasmagóricas de poeira, cidades costeiras alagadas, almas à deriva sob um céu acinzentado?

Este tom apocalíptico encontramo-lo, hoje, não apenas na literatura, mas no discurso de divulgação científica sobre o aquecimento global, como se a realidade tivesse já ultrapassado a ficção. Em A nossa escolha - Um plano para resolver a crise climática (Esfera do Caos, 2009) Al Gore dramatiza ao extremo a situação, afirmando que temos de «evitar a catástrofe inimaginável que se abaterá sobre o planeta se não começarmos a fazer mudanças drásticas rapidamente». E profetiza que «o futuro da civilização será determinado para sempre por aquilo que fizermos agora». Não sei se haverá aqui uma espécie lucidez sebaldiana sobre a situação-limite para onde avançamos ou se esta dramatização discursiva sobre um mundo à beira da catástrofe - a que o filósofo alemão Karl Löwith chamou de «modo de pensar por catástrofes» - não terá uma raiz contraditoriamente conservadora, e cíclica, cujo pessimismo mais do que provocar a vontade colectiva de uma alternativa ambiental sustentável, antes nos deixa amarrados perante a verdadeira catástrofe que pode ser a das «coisas continuarem como antes» [Walter Benjamin, Passagens, frag. N9a, 1].

A questão, hoje, será a de saber se o discurso apocalíptico sobre as alterações climáticas - descontando a suicidária corrente negacionista sobre a gravidade do aquecimento climático - não corresponderá ao mal moderno que Ulrich, a personagem criada por Robert Musil em O homem sem qualidades, compreendeu com dramática lucidez: o mal de, apesar do estrondosos avanços da técnica, ou por causa dela, sermos agora incapazes de controlar o «sistema» que a integra, através da ética, por exemplo, procurando a resposta contra o absolutismo da realidade.

O que se pede, então, à Cimeira de Copenhaga que, hoje, começou, é uma vontade colectiva de não falhar a ocasião das coisas não continuarem como antes, opondo à tese conservadora de Heidegger de que «só um Deus nos pode salvar», o verso de Hölderlin que diz que «onde está o perigo está o que salva».

6 de dezembro de 2009

Não me situo


Seguramente, se fosse vivo, voltaria a pronunciar a mesma frase que pintara num muro decrépito da capital guatemalteca, num dia chuvoso de 1944, momentos antes de atravessar o umbral da embaixada mexicana onde obteria asilo político: «Não me situo» [em castelhano, ubico, trocadilho com o nome do antigo ditador guatemalteco Jorge Ubico]. Este, talvez, também, o micro-conto mais lendário de Augusto Monterroso (1921-2003), escritor de veia cervantina e surrealista que nasceu em Tegucigalpa, nas Honduras, viveu na Guatemala e morreria exilado no México, onde escreveria a sua obra vagarosa. Antes, porém, de ter escrito, sem pressas, essa obra, publicaria Obras completas (y otros cuentos), o seu primeiro livro que, para cúmulo, começava pelo fim, já que Obras completas era o nome do último conto, que não das obras completas do autor que, como uma ovelha negra, renegaria ao rebanho do realismo mágico latino-americano, tal como Rulfo ou Borges.

Que pintaria Monterroso, por estes dias, num qualquer muro decrépito da capital hondurenha, se obrigado a escolher entre o resultado das ambíguas eleições de domingo passado que vão dividindo a comunidade de países ibero-americanos e a deriva populista - na senda de Chávez - do deposto, e exilado, presidente Manuel Zelaya, que reapareceu "materializado" na Embaixada do Brasil, em Tugucigalpa, graças a um conluio logístico-diplomático entre Chávez e Lula? Seguramente: «não me situo».

29 de novembro de 2009

Isto é um homem


[A pretexto do Dia Internacional da Solidariedade com o Povo da Palestina que hoje se assinala, recordo aqui um episódio protagonizado por Haruki Murakami, em Fevereiro passado, na Palestina]

Contrariando o pedido que lhe fora endereçado por um grupo pró-palestiano para não ir a Israel receber o Jerusalem Prize, o escritor japonês Haruki Murakami decidiu [em Fevereiro passado]ir porque queria ver «com os seus próprios olhos». E foi e viu um muro alto e grande serpenteando na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, incendiando ódios na «terra prometida». E, então, disse que «se há um muro alto e grande e um ovo que se parte contra ele, não interessa o quão certo está o muro ou quão errado está o ovo, eu ficarei do lado do ovo. Porquê? Porque cada um de nós é um ovo, uma alma única, encerrada num ovo frágil. Cada um de nós confronta-se com um grande muro. O grande muro é o sistema. […] Somos todos seres humanos, indivíduos, ovos frágeis».

Os palestinianos, menos que isso, diz-me Fuad, um amigo palestiniano que conheci um dia em Aman: «Em Israel, os palestinianos agora são vistos como menos que humanos». Almas quebradas contra um muro «demasiado grande, demasiado escuro, demasiado frio», erguido por israelitas com idade para se lembrarem do que significou na história enlouquecida do século XX a palavra «undermenchen». Foi esta expressão – menos que humano - que antecipou os campos de extermínio nazis, a chave que abriu as câmaras de gás para milhões de judeus e que, agora, estes, que mais do que qualquer outro povo a deviam calar, pronunciam, indiferentes ao sofrimento, à dor que infligem aos seus vizinhos.

A muralha de ódio que vai rasgando a paisagem bíblica da Palestina, contra a qual Murakami viu partirem-se os ovos frágeis dos palestinianos, é justificada por uma retórica de auto-defesa israelita; a mesma retórica que justifica os bombardeamentos indiscriminados de populações indefesas do outro lado do muro. Ou será que os israelitas acreditam que ali, todos, mulheres e crianças inclusive, se encontram armados? É que se assim não for, então, já só os pensam como menos que humanos. E é por aí, pela insensibilidade, que começa o extermínio. Primeiro, «um muro demasiado grande, demasiado escuro, demasiado frio». E depois, no lado de lá do muro, uma paisagem de ruínas sem fim, paredes calcinadas, sedimentos de morte e dor espalhados sobre aquele pedaço de deserto abandonado por Deus.

Por isso, como Murakami, esquivo-me às codificações racionais de uma guerra assimétrica e envolvo-me emocionalmente no sofrimento palestiniano. Por isso, esquivo-me ao juízo sobre se o que está certo ou errado é o muro ou os ovos que se quebram contra ele. É que, conhecendo Fuad e escutando as suas palavras, umas vezes gritadas outras vezes apenas balbuciadas, só poderei dizer, evocando Primo Levi, também ele «uma alma única, encerrada num ovo frágil», isto é um homem.

Nos cornos da actualidade


A pretexto do Dia Internacional da Solidariedade com o Povo da Palestina que hoje se assinala, reedito um texto antes publicado n´ O que cai dos dias, a propósito de uma reportagem de Clara Ferreira Alves publicada na Única (Expresso, de 21 de Julho de 2007), com o título Vidas Ocupadas, que convoquei, na ocasião, para ilustrar como é possível, ainda, um certo jornalismo capaz de agarrar os cornos da actualidade.

[Conta-nos a reportagem que] há uma muralha de ódio que vai rasgando a paisagem bíblica da Palestina, espartilhando judeus e árabes. E desde logo, a reportagem conta menos do que mostra. E ao preocupar-se com o mostrar responde expeditamente ao «acontecimento» que é a construção da «muralha» de mil quilómetros de comprimento por oito de altura que se vai fechando sobre as vidas de 300 mil palestinianos. Clara Ferreira Alves mostra-nos a mesma Jerusalém que Amos Oz descreveu como «uma desordem mental muito arreigada… uma espécie de "síndrome de Jerusalém": uma pessoa chega, inala o ar puro e maravilhoso da montanha e, de repente, inflama-se e pega fogo a uma mesquita, a uma sinagoga ou a uma igreja». Quando CFA lá esteve a fazer esta reportagem era Outono e uma luz morna derramava-se sobre as torres, muros e minaretes da cidade como vergando-a ao peso das religiões. CFA mostra-nos tudo rigorosamente vigiado, polícias e soldados nas ruas, grupos de judeus ordodoxos conspirando nas esquinas contra uma parada gay que iria realizar no dia seguinte, uma tensão no ar prestes a explodir a qualquer momento; mostra-nos judeus às arrecuas diante do Muro das Lamentações que parecem saídos do qualquer «shtetl» de Varsóvia; mostra-nos a Esplanada das Mesquitas onde começou a terceira Intifada depois da provocação de Sharon; e, mostra-nos, sobretudo, uma muralha serpenteando como uma mancha na paisagem abandonada por Deus, cortando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, mas também feridas abertas, ódios acesos. Medo. «Sou contra, mas é eficaz», diz o poeta Israel Eliraz . Uma nova forma de roubar a terra e a água palestinianas, uma humilhação, dizem os palestinianos. E as duas respostas são verdadeiras, diz-nos CFA que nos mostra, ainda, que «quando o Muro estiver terminado, a Cisjordânia será dividida em bantustões». E mostra-nos o fraticídio entre a Fatah e o Hamas, transformando Nablus num lugar assustador, balas assobiando no ar, ambulâncias a recolher feridos. E muito dinheiro sujo. CFA mostra-nos o que viu à saída de Nablus, ela uma mulher europeia identificada sofrendo nas «filas de mulheres e homens debaixo de um calor tórrido, gente de todas as idades aguardando como animais a passagem da cancela, e sendo tratadas de modo displicente pelos soldados israelitas, um bando de miúdos malcriados […] rapazolas humilhando mulheres mais velhas […] tocando-lhes como se fossem gado […], crueldade e medo».

Estes os sinais da actualidade que CFA leu na sua passagem por Jerusalém e pelos territórios ocupados. Sinais, sobretudo, de vidas ocupadas. Dos dois lados. Sim, mas mais do lado dos palestinianos, porque, dizia-me há semanas Fuad, um palestiniano que mora em Hebron e que conheci em Amann, «a paz sim, claro, quando nos devolverem os territórios». Mas também Amos Oz cuja História de Amor e Trevas me mostrou outras possibilidades de pensar o conflito.

Este um jornalismo que toma posição sem afecção pelo politicamente correcto, como esta reportagem de CFA, cujo ponto de vista não é seguramente o da «objectividade» jornalística que muitas vezes mais não é do que uma forma nihilista de não questionamento «acontecimento». Aqui, mais do que dizer o muro, o importante é «dinamitá-lo», mostrando o drama das mulheres da Palestina que intentam atravessá-lo. E a CFA estava lá e nós, leitores de jornais,com ela. E isso é o jornalismo ainda capaz de forçar a pensar. Porque mostra, retraça sinais, posiciona-se, ajuízam sem afecção pelo politicamente correcto e, nessa forma de mostrar o acontecimento mostra-se ela própria como jornalista capaz de apanhar os cornos da actualidade.

[Entretanto, logo à noite, pelas 21horas, o canal Odisseia lembra a data programando o premiado documentário To See If I’m Smiling (2008) do realizador israelita Tamar Yarom, confrontando-nos com os testemunhos dolorosos de seis mulheres-soldado que quebraram o muro de silêncio e denunciaram os abusos do exército israelita contra as populações indefesas].