20 de setembro de 2010

Buenos Aires adormecida



Li já não sei onde que, quando tinha dez anos, Julio Cortázar viveu a inesquecível experiência de subir ao décimo andar de um edifício em Buenos Aires e dali observar a cidade adormecida. Era, então, uma criança sensível, sem graça e estranha. A primeira metade da sua vida tinha-a passado com a sua família na Suíça, nas margens de uma guerra cujo alcance tardaria algum tempo a conhecer. No final da guerra, a sua família regressou à Argentina. Algum tempo depois, tinha, então, seis anos, o seu pai sairia de casa para não mais voltar, ficando, assim, a viver com a sua mãe, tias e a avó alemã, intuindo que a vida era algo mais do que as lições de piano e os livros de Julio Verne. Era o único homem num território povoado de jasmins, pessegueiros e pianos, perto da estação de Ferrocarril Sud, no «metasuburbio» de Banfield, nos limites da zona portuária. Por essa altura, preferia os livros de Julio Verne aos jogos do clube local, o Atlético Bánfield, um dos pioneiros do futebol argentino, o que lhe causou alguns problemas de relacionamento com os seus colegas de escola, logo ultrapassados quando estes descobriram a sua assombrosa facilidade para escrever, com estilos apropriados, as composições escolares passadas pelos professores.

Dou, agora, com uma fotografia nocturna de Buenos Aires, tirada por Horacio Coppola, não sei se na mesma noite em que o pequeno Julio subiu ao décimo andar. Mas sei, porque leio nuns seus versos precoces, que a sua impressão foi tão intensa que desencadeou nele um tal estado de excitação donde só regressaria depois de escrever que «Ya la ciudad parece así, dormida/ una pradera noctural, florida/ por un millar de blancas margaritas».

15 de setembro de 2010

Borges nocturno



Borges adorava caminhar, sobretudo de noite. Dos meus retratos de momento sobre o poeta argentino recupero duas notas sobre esse passeante nocturno.

A primeira, roubei-a às memórias do fotógrafo Horácio Coppola que conta que, numa noite chuvosa de 1936, caminhando juntos pelas ruas de Buenos Aires pararam diante de uma poça. Coppola ajustou a câmara e disparou. No espelho de água, estava reflectida a silhueta de uma casa do bairro de Palermo. Quando viu revelada a fotografia do amigo, Borges exclamou: «Isto é Buenos Aires».

A segunda nota reenvia-nos para um outro passeio nocturno, muitos anos depois, na companhia de Maria Kodama e do seu tradutor para inglês, Willis Barnstone. Conta Barnstone, em With Borges on na ordinary evening in Buenos Aires, que na noite de passagem de ano de 1975, depois de um bom jantar regado, com abundante vinho, depararam-se com uma greve de transportes e decidiram acompanhar Kodama a casa. Barnstone recordaria depois esse episódio: «Na semi-obscuridade e através do vento, atravessámos lentamente Buenos Aires. […] As horas passavam e Borges parecia cada vez mais encantado com os ruídos da rua». […] «De repente passou um inesperado carro eleéctrico e Kodama saltou para o seu interior deixando-nos a ambos à deriva». […] «Como regressar a casa se um era cego e o outro um estrangeiro que desconhecia as ruas da cidade?» […] Misteriosamente Borges começou a caminhar, parando de dez em dez passos. Pensei que o fazia porque se julgava perdido. Mas não, toda aquela exaltação era porque me queria falar da sua irmã Norah, da sua infância, dos seus antepassados».

Isto era Borges, um passeante nocturno que jamais se perderia na sua Buenos Aires inventada.

8 de setembro de 2010

Une saison en enfer



Há um verso de William Blake que diz que "if the doors of perception were cleansed, every thing would appear to man as it is, infinite". Talvez mais do que a inspiração para o nome da banda, os Doors tenham ido buscar a Blake a energia para atravessarem as portas para o território negro dos discos que viriam a criar, celebrando a loucura e o caos. "Negar as trevas da alma é só ter metade de um ser humano… e nós tínhamos os dois lados". Os Doors eram um número de equilíbrio entre a luz e as trevas, diz o teclista Ray Manzarek.

Tudo começara quatro anos antes, conforme conta Ray Manzarek: "Foi em casa de um amigo, em Venice Beach, que nos encontrámos com o Robby pela primeira vez. Começámos a tocar o Moonlight Drive e o Robby disse: «Tenho uma coisa que pode encaixar bem aqui. Abriu um compartimento no estojo da guitarra, onde se guardam as cordas, as palhetas e a droga, e tira de lá um gargalo de garrafa. Enfiou-o no dedo e tocou com o vidro contra as cordas de aço e o Morrison e eu arrepiámo-nos. Era um dos sons mais arrepiantes e fantasmagóricos que alguma vez ouvi. O Jim disse: É esse o nosso som, meu! Quero isso em todas as canções". Isso e Blake, Kerouack, Ginsberg, Nietsche, Mallarmée e, sobretudo, Rimbaud que Morrison lia obsessivamente: "Caro Wallace Fowlie [à época, professor de literatura francesa, na Duke Universiy e, depois, estudioso da poesia de Morrison], simplesmente queria agradecer-lhe pela tradução de Rimbaud. Eu precisava porque não leio francês tão facilmente (…) Sou cantor de rock e seu livro acompanha-me nas tournées. Jim Morrison”.

Durante os quatro anos que separaram a edição do seu primeiro album (Janeiro de1967) da de L.A. Woman, os Doors foram uma das bandas rock mais populares do mundo. E a sua ascensão não pode ser dissociada desse período turbulento de manifestações pacifistas, de consumo de drogas e todas as aspirações de contra-cultura que a sua música encarnaria fielmente. Mas esta violência reflectir-se-ia também no percurso da banda e, mais particularmente, na vida caótica do seu leader mítico. "O poeta torna-se vidente através de um longo desregramento de todos os sentidos”, escrevera Rimbaud um século antes, mas poderia ter sido escrito por um Morrison fascinado pelo radicalismo e pelo exílio em África do enfant terrible do nomadismo da alma. Nesses quatro anos, enquanto a popularidade da banda crescia, Morrison iniciaria a sua saison en enfer e começaria a desintegrar-se, a roçar o abismo, até cair com um fulminante ataque de coração, enquanto tomava banho, num hotel em Paris, em 1971. Talvez Paris tenha sido a sua Abissínia, um porto distante, a ante-câmara para um salto que o faria sair da obra e cair na vida. Como Rimbaud. Não teve tempo.

8 de junho de 2010

Hotéis de passagem (IV)



E já agora o meu hotel pessoal de passagem, o Excelsior, na rua de Cujas, em Paris, onde havia, também, um quarto misteriosamente parecido com o do conto de Cortázar, com uma porta escondida atrás de um armário que deixava ouvir não os gemidos de amantes de passagem, mas o murmúrio de um casal de exilados chilenos que ali estavam também de passagem.

Quando vou a Paris, subo sempre a Rue de Cujas, que liga o Boulevard Saint Michel à rue d´Ulm, e ao passar em frente da porta de entrada espreito, dissimuladamente, para o pequeno foyer onde se encontra o balcão da recepção, agora modernizado, depois de um upgrade remodelador que o dotou de um pequeno salão com amplas vitrinas que dão para a rua. Contudo, não se modernizam as recordações cegas da minha vida suspensa naquele pequeno hotel de passagem para hóspedes errantes sem pátria nem dinheiro.

E recordo, então, o quarto, pequeno, no terceiro andar, com uma pequena janela de guilhotina que dava à esquerda para uma açoteia e para mais nada, porque se abria para um muro sobre o qual espreitava um inútil pedaço de céu quase sempre cinzento: uma pequena estante de madeira onde coleccionava livros que falavam de revoluções por fazer, um armário onde guardava parcos haveres, uma colcha escura de textura áspera sobre uma cama estreita onde deitava em noites de vigília a saudade, uma lâmpada florescente no tecto, uma cortina azul escura no cubículo de banho, uma chávena onde derramava água apenas tépida colorida pelas saquetas de chá verde.

Com um golpe de google fico a saber que também o quarto foi vítima de um upgrade, e a porta entaipada pelo armário substituída por uma parede de alvenaria que já não deixa escutar os murmúrios do quarto vizinho. E concluo, então, que aquele Excelsior que ali está já não é o mesmo onde transitoriamente me encerrei nas minhas paredes interiores, mas que nem por isso deixarei de continuar a olhar, dissimuladamente, através da sua porta, sempre que suba a Rue de Cujas.

2 de junho de 2010

Hotéis de passagem (III)



Hotéis de passagem, às vezes, de ocupação sedentária, outras vezes. Como o hotel La Louisiane, na rue de Seine, em Paris, cujo quarto 58 foi, durante mais de sessenta anos, o único lugar de escrita de Albert Cossery. Ou como outros hotéis parisienses já desaparecidos, vítimas de upgrades, de reconversões ou de demolições, como os hotéis habitados por Joseph Roth, cuja obra ando a ler: o Foyot, na rue Tournon, junto ao Jardin du Luxembourg, onde já tinha morado Rainer Maria Rilke, e que Roth abandonou quando os escombros da demolição já se amontoavam por detrás da porta entaipada do seu quarto; e o tétrico hotel Florida, no Boulevard Malesherbes; e o miserável Hotel de la Poste; e o albergue Principautés Unies onde morou Hannah Arendt.

Ainda o desconcertante cenário de Hotel Savoy, em Lodz, título do romance homónimo de Joseph Roth; e em Zurique, o hotel onde às vezes Robert Walser se ocultava num quarto a que chamava a Câmara de Escrita para Desocupados e aí, sob a luz crepuscular de um candeeiro de petróleo, deixava que a sua mão indecisa o conduzisse pelos territórios do lápis, cujo traço o empurrava lentamente para o desaparecimento, para o eclipse, mimetizando-se para não ser descoberto; e também aquele quarto, não de um hotel mas de um edifício de dois andares, em Kierling, Viena – outrora um sanatório -derradeira passagem de Kafka.

Mas talvez o mais absoluto hotel de passagem de que ouvi falar seja aquele, em Port Bou, onde se abrigou Walter Benjamin em fuga para Lisboa, aonde não chegaria nunca porque as suas asas incertas de borboleta nocturna falhariam no último momento, incapazes de o levarem para fora do pequeno quarto onde se hospedara na última etapa da sua vida crepuscular. Também aí havia uma porta entaipada por detrás da qual se adivinhava a lenta irrupção da manhã, que já não chegaria a tempo de iluminar a sua solidão irredutível de ter sido sempre estrangeiro em todos os hotéis de passagem da sua vida e de não ter tido nunca nada, a não ser a pasta preta pousada em cima da mesa de cabeceira, onde guardava os últimos «labirintos de tinta embebidos nos seus cadernos».

21 de maio de 2010

Hotéis de passagem (II)


Nas minhas andanças através de uma cartografia pessoal onde se bifurcam livros, filmes e discos, tenho cruzado os umbrais de outros hotéis de passagem onde numa qualquer dobra da página, de faixa ou de fibra digital ousei subir a um qualquer quarto 205 e aí pernoitar, escutando, depois, noite adentro, o murmúrio de personagens momentaneamente desaparecidas do mundo lá fora, talvez, à procura, também elas, de uma qualquer porta de passagem entaipada atrás de um velho armário com espelho que dê para outras vidas enquanto eu, ocupante ocasional de um lar fugaz, ali vou, como escreveu Brecht, concebendo a vida como um romance.

Lembro-me de alguns dos 342 motéis de estrada onde Nabokov (e depois Kubrick) fez pernoitar Lolita e o seu velho amante Humbert, tudo cenários transitórios de cerimónias secretas e rituais privados oferecidos ao voyeurismo do leitor. E no armário onde guardo os velhos LPs e os recentes CDs e DVDs lá está ainda o Hotel California, dos Eagles, onde o viajante se deita sob «mirrors in the ceiling, pink champagne on ice»; e o quarto de banho do Bates Motel, onde Hitchcock engendra o assassinato brutal de uma jovem secretária, em Psico; e o Desert Song Hotel,onde Nicholas Cage se encerra para se embebedar até à morte, em Adeus Las Vegas; e os mais recentes Quatro Quartos, de Quentin Tarantino ou o quarto com vista sobre Tóquio, de Lost in Translation, de Sofia Coppola.

E em dobras de páginas, que de repente me vêm à memória, aquele hotel de Michigan que surge no conto de Borges, As metamorfoses de Shakespeare, onde um homem sem rosto oferece ao escritor argentino a memória de Shakespeare. E o Costa Verde Motel Tulán, de A noite da iguana, de Tennessee Williams, cenário de amores depressivos; e o obscuro quarto de Los adioses, de Juan Carlos Onetti, onde tuberculosos se encontram para desdenhar da morte; e a «pensão de má morte», em Budapeste, onde se hospedou o protagonista de O Mal de Montano, de Enrique Vila-Matas; e o pesadelo quotidiano de O corredor do grande hotel, de Dino Buzzati; e os desassossegantes pararelismos entre diferentes hotéis, em Hotel Almagro, de Ricardo Piglia; e os hotéis baratos de Ciudad Juárez, cenários dos crimes horrendos de 2666, de Roberto Bolaño.

E como a realidade supera quase sempre a ficção, como não evocar aqui o perturbador quotidiano que Raymond Roussel encontra num hotel em Nova Iorque quando, ao pretender tomar um banho, constata "que há três mil quartos de banho no hotel e que três mil hóspedes podem estar a tomar banho ao mesmo tempo", o que o leva a desistir da ideia. Ou o hotel El Molino, em Buenos Aires, evocado pela escritora colombiana Laura Restrepo, que recorda as noites clandestinas de sexta-feira ou sábado que ali passou, depois de esperar numa longa fila de casais muito jovens, de estudantes sem dinheiro, abraçados ou de mão dada, conversando em voz baixa como se estivessem numa fila para o cinema à espera de um quarto para desaparecer do mundo lá fora, por horas, suspendendo o tempo num território fugaz no meio da obscuridade da ditadura. Conta Laura Restrepo que quis saber desse hotel transitório, se ainda lá estava na rua Salguero, e por isso, pediu a uma amiga que lá fosse. E resultou que sim, que ainda lá estva, embora também tenha sido vítima de um daqueles upgrades desconcertantes que procuram modernizar-nos as recordações.

18 de maio de 2010

Hotéis de passagem (I)


Todos hotéis são por natureza lugares transitórios. Alguns são hotéis de passe para amantes ocasionais. Outros são hotéis de passagem para transeuntes nocturnos roçando abismos por cruzar. E outros há, ainda, que são protagonistas de histórias em que a realidade supera a ficção, como um tal hotel Cervantes, situado numa rua do centro de Montevideu que aparece em dois contos de Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares, e que serve de pretexto para uma crónica que Enrique Vila-Matas me enviou faz algum tempo para publicação numa Atlântica por vir.

E porque - ignoro por que motivo - me cruzo, às vezes, com a sombra do escritor catalão, lembro-me de há alguns anos me ter escapado desde Colónia do Sacramento (onde, como viajante acidental, acompanhava a minha mulher num seminário de história ibero-americana) até Montevideu, e de ter errado pelo centro à procura de um velho cinema que por ali havia numa rua arruinada nas imediações da despovoada Plaza Independencia – a Soriano, entre Convención e Andes – e de ter ladeado a fachada espectral, sombria, discreta, banal de um hotel perdido no meio de edifícios feios e de despojos depositados na calçada pela vizinhança, que ostentava um grande letreiro onde se podia ler o nome de Hotel Cervantes. Ignorava ainda o desejo de Vila-Matas de, transitoriamente, aí se hospedar um dia quando for a Montevideu e, sobretudo, o mistério da porta entaipada do quarto 205, protagonista do conto La puerta condenada, de Cortázar, e de um outro escrito por Adolfo Bioy Casares, Un viaje ou El mago inmortal, cujo rumor me chegou em forma de crónica vilamatiana. Ou não fosse, afinal, para isso que servem as portas entaipadas dos quartos de hotéis transitórios.

Se minimamente suspeitasse dos mistérios que se escondiam naquele segundo andar onde viveu durante anos, até à sua morte, o poeta filósofo Emilio Oribe, e onde, também, Jorge Luís Borges confessa ter-se hospedado e sofrido de insónias - «Lembro que fui para Montevidéu. Estava alojado no Hotel Cervantes e às vezes acordava as duas ou três da manhã...» [Alifano, Roberto, Borges, Biografia verbal. Barcelona: Plaza & Janés, 1988] -, teria certamente cruzado o balcão da recepção e, quem sabe, subido ao quarto 205 e, noite adentro, escutado as vozes dos passageiros da noite que pernoitavam no quarto ao lado. Mas não. Distraído dos abismos que uma qualquer rua banal pode oferecer ao transeunte ocasional, passei pelo umbral do hotel sem entrar.

Procuro no google e confirmo que o hotel Cervantes ainda lá está na rua Soriano, em Montevideu (encontra-se actualmente em remodelação com vista a tornar-se num hotel de charme ) e que, por isso, se se concretizar o desejo de Vila-Matas - «se algum dia for a Montevideu, irei visitá-lo e tratarei de alojar-me no segundo piso, numa "pieza chiquita", onde talvez se encontre, ainda, esse grande armário que tapa a misteriosa puerta entaipada» [in Diário volúvel, Teorema]-, é de admitir que possamos ler um conto vilamatiano onde que se escutarão, seguramente, os gemidos de amantes ocasionais vindos do outro lado da porta entaipada atrás do armário, ou não fosse Vila-Matas um coleccionador nato das existências alheias, sobretudo quando essas existências roçam um qualquer abismo que se abre numa noite de insónias no outro lado de um umbral obscuro, ao mesmo tempo que no piso de baixo ressoa uma milonga de Gardel, também ele, tantas vezes, um passageiro da noite montevidiana.

4 de maio de 2010

Vulcanografias


Por estes dias em que o vulcão islandês Sneffels volta a expelir cinzas tóxicas sobre os céus da Europa, depois da Islândia já ter, antes, disseminado matéria financeira tóxica sobre os mercados, mostrando-se, assim - seja pela via da vulcanologia seja pela via da economia -, que continua válido o enigmático aforismo de Marx segundo o qual tudo o que é sólido se dissolve no ar, ou que, ironicamente, contrariando Heidegger, a técnica sucumbiu diante das vertiginosas forças tectónicas, provocando o caos nas ligações aéreas à escala planetária, como não revisitar alguns livros abissais da minha biblioteca?

Livros aparentemente adormecidos, mas que escondem vulcões tão reais como o Sneffels, e outros inventados, mais estes do que aqueles, para onde me deixei arrastar por certa vertigem da leitura, própria, aliás, de quem lê procurando encontrar à beira do abismo passagens, fendas que dão para mundos paralelos de «uma trama mais subtil, uma teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos», como escreveu esse expedicionário de vulcões inventados, Enrique Vila-Matas, em Exploradores do abismo. E onde, então, melhor, encontrar essas estreitas passagens se não à beira desses precipícios, reais e inventados, que nos atraem para uma queda sem fim?

Voltar a descer, então, pelo Sneffels, essa «boca do mundo» aberta na península Snaefellsnes, na Islandia, que me foi revelada, em noites de infância extrema, por Júlio Verne em Viagem ao centro da terra, e por onde, perigosamente, se escapuliram embriagados pela voluptuosidade das alturas , o professor e geólogo Otto Lindenbrock, o seu sobrinho Axel e Hans, o atlético guia islandês, e eu com eles, num périplo de cinco mil quilómetros de inarráveis perigos e irremediáveis fascínios, através das ocas entranhas e do mar interior do centro da terra, para regressarmos, depois, ao outro lado do mundo, numa nuvem de cinzas e gazes tóxicos, expelidos pela cratera incandescente do Stromboli.

Ali, de pé frente ao inafrontável - experimentando o mesmo sentimento de vertigem que levou Axel a pensar que não havia «nada mais inebriante que a atracção do abismo» -, eu não sabia, ainda, que a força gravitacional que me arrastava num delírio onírico de leitura precoce se metamorfosearia na vertigem que Edgar Allan Poe descreveu no conto «Uma descida ao Maelstrom», cuja imagem de pendor nihilista tão bem ilustra o vórtice da história enlouquecida atraída irresistivelmente pelo abismo, como reflexiona Bragança de Miranda em Queda sem fim (Vega, 2006).

E ainda menos suspeitava eu que, anos depois, haveria de ver Malcolm Lowry, o «cônsul da embriaguez e dos vulcões», como o descreveu o poeta José Agostinho Baptista, ser engolido em Cuernavaca, México, pelos abismos do mezcal brotando Debaixo do vulcão mais inventado da minha biblioteca, ainda que, de entre eles, o Popocatepetl seja o único que eu, sentado de frente para ele na esplanada Las Mañanitas, bebendo uma coronita muito fresca, avistei, resplandecente de neve, num Dia de los Muertos, enquanto procurava decifrar os admiráveis abismos de festa e alucinação para onde se atirou, numa queda sem fim, aquele inglês sonhador quando se viu à beira do precipício.

E nesta périplo de vulcões, reais e inventados - e este agora roubado de uma página do Diário Volúvel de Enrique Vila-Matas, -, vejo agora emergir da minha biblioteca o Tängri, espécie de montanha mágica criada por Julien Gracq nesse romance absoluto que é A costa de Sirtes [Vega, 1998], e onde Vila-Matas se deixa ir caindo nas profundezas do Tangri para nos oferecer uma lição de vulcões: «no fundo, os vulcões, reais ou inventados, não são mais do que a busca da origem, da génese da vida e da arte. (...) Um vulcão é a origem e é também geometria da erupção, mistura de atracção e repulsa».

Que fazer, então, por estes dias de revolta dos vulcões islandeses cujas poeiras acinzentam os céus da Europa e ameaçam as rotas aéreas? E que fazer diante dos outros abismos reais que escapando à vulcanografia inventada ameaçam arrastar-nos no seu vórtice numa queda sem fim? Talvez fazer como aqueles exploradores vilamatianos que «ao verem-se à beira do precipício fatal, adoptam a posição do expedicionário e sondam o horizonte plausivel, indagando sobre o que pode haver fora daqui, ou mais além dos nossos limites».

Não ter, portanto, medo de cair, porque talvez tudo dependa do modo como se cai. Porque se pode cair numa queda sem fim ou cair para a seguir nos elevarmos melhor. Tudo, então, uma arte da queda, das inclinações, do clinamen.

22 de abril de 2010

Elogio da preguiça


Saint-Germain-des-Près foi para mim, durante os dois anos que vivi em Paris, o meu bairro artúrico (como a rua imaginada e percorrida por Rimbaud que, no final do seu trajecto, dava para o fim do mundo: "só pode ser o fim do mundo se avançarmos"), onde se concentrava toda uma mitografia que levei comigo, sedimentada nos lugares imaginados da minha atracção parisiense. Neste bairro, que naquele tempo me foi oferecido como um pequeno território secreto, tracei com passos repetidos uma cartografia pessoal feita de ruas estreitas, passagens cobertas, pequenas livrarias, galerias de arte, estúdios de cinema, cafés, um mercado de rua, pequenos jardins…

Era ainda o tempo em que, por exemplo, ao virar de uma esquina, podíamos encontrar os filhos do mundo que sonharam viver em Paris. Nesse tempo, era possível, invariavelmente depois 14h 30, hora a que fechavam as agências de emprego, cruzarmo-nos com Albert Cossery, o escritor egípcio que nos anos quarenta aqui desembarcara com pouco dinheiro e tendo como única bagagem uma selecção de contos, Os homens esquecidos de Deus, que Henry Miller acabava de publicar nos Estados Unidos e que o editor Edmond Charlot pretendia publicar em França. Não trazia outra ambição que não fosse a de escrever um livro de oito em oito anos, à média de uma frase por semana.

Na rua de Seine, que começa perpendicular à rua de Saint Sulpice e desce até ao quai Malaquais, no quarto 58 do hotel La Louisiane cujas janelas davam sobre uma mercearia - frequentado na época por Gréco, Sartre, Beauvoir, Mouloudji… -, escolheu Cossery o seu único lugar de escrita, o espelho perfeito de alguém que apenas pretendeu gozar a vida, o reflexo de uma obra que elegeu o dandismo indolente como processo de reflexão permanente, povoada por mendigos filósofos, ladrões magníficos e preguiçosos impenitentes. Como Gohar, Gala ou Ossama, as suas personagens rebeldes que cultivam a pobreza para não ter nada a perder, Cossery baniu da sua existência os bens mundanos e elegeu a preguiça como arte de vida e instrumento de resistência contra a vanidade dos seus contemporâneos: «Se eu tivesse guardado tudo o que me ofereceram, seria milionário. Quando Giacometti me dava um quadro, ele sabia que eu o venderia no dia seguinte. Isso permitia-me viver durante algum tempo».

Porque um quarto de hotel não é uma casa, só ali, sem casa nem carro a atestar a sua presença sobre a terra – apenas alguns livros de Dostoievski, Nietzsche, Stendhal, Baudelaire, Rimbaud, Thomas Mann… - Cossery se sentia livre, praticando a indolência e a meditação que os seus livros celebram. «Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir. E é por isso que, no Oriente, isso se designa por filosofia oriental… A maior parte das pessoas tem tempo. Quanto mais se desce para sul, mais encontramos profetas, magos, pessoas que reflectiram sobre o mundo». E foi aí, nesse pequeno quarto de hotel na rua de Seine, que Cossery, iluminado pela gaia ciência de Nietzsche, escreveu com toda a ternura do mundo sobre as misérias insondáveis das vielas do Cairo, nos anos quarenta, cinquenta. Embora nunca mais tenha regressado ao Egipto – «O Egipto nunca me deixou» -reinventou-o mais verdadeiro que o verdadeiro, com os seus mendigos e altivos, desesperadamente pobres, preguiçosos e indolentes.

Terá sido em Paris que, talvez, me tenha cruzado um dia com este elegante profeta da contemplação, transportado dos cafés árabes do Cairo, onde a vida corria livremente, temperada com um pouco de haxixe. Claro que nos meus dias de Paris, Saint Germain já não era o que fora nos anos brasa de Cossery, embora a brasserie Lipp e todos os outros locais frequentados por Cossery ainda lá estivessem. Mas estava menos Cossery e, sobretudo, já não estavam os seus amigos, Camus, Genet, Louis Guillouxx, Mastroianni, Ferreri. Imaginei-o aí instalado com a sua corte, em frente dos azulejos do pai de Paul Fargue. Ou, no outro lado do boulevard, no Café de Flore. Ou sentado numa cadeira no Jardim do Luxembourg, observando a única coisa de que a sua língua viperina não poderia dizer mal, as árvores: «Eu não gosto do campo. Não posso dizer mal das árvores». Mas foi no Café de Flore, onde o procurei algumas vezes e por ironia nunca o encontrei que melhor o imaginei.

Nos anos oitenta, o Flore já tinha sido colonizado por uma fauna de turistas literatos nostálgicos que perscrutavam ansiosamente a mesa onde Sartre escreveu A náusea ou o canto onde Roland Barthes se refugiava a ler o Le Monde. Poucos procuravam a sombra de Cossery cuja existência ignoravam, e muito menos o seu estatuto de escritor deslocado, marcado pela heráldica do desapego e da indolência, e tão fora da gesticulação literária e mundana. Mas a mim, fascinava-me imaginar, no meio da clientela extravagante alheia ao literário, a figura aristocrática de Cossery contemplando a rua através da esplanada envidraçada do café, talvez meditando sobre o seu último livro que publicaria em 1999, As cores da infâmia, em que continuaria a denunciar implacavelmente «a face ignóbil e grotesca dos poderosos da terra», o que levou Henry Miller a afirmar que a sua obra era «uma surpresa total. É o género de livros que precedem as revoluções e engendra a revolução, se é que as palavras possuem algum poder».

Para mim que, recentemente, li quase de seguida alguns dos livros de Cossery [Mendigos e altivos, Mandriões do vale fértil, A violência e o escárnio, Uma conjura de saltimbancos, Os homens esquecidos de Deus, Uma ambição no deserto, As cores da infâmia, todos editados pela Antígona], as suas palavras sobre a gesta dos anti-heróis das ruas do Cairo, continuam a sinalizar as paragens do meu itinerário de leitura. Isto porque, tal como Ahmed Safra, o condutor de eléctricos de A casa da morte certa, que só se detinha nas paragens que lhe apetecia, também eu só me detenho em livros embebidos na tinta da vida e, por isso, capazes de agitar o pensamento.

18 de abril de 2010

Sob o céu de Tânger


«Não escolhi instalar-me em Tânger. Aconteceu. Devia ser uma estadia breve. Queria continuar, indefinidamente. A preguiça fez-me adiar a partida. Um dia, tive de render-me: o mundo estava muito povoado, os hotéis eram menos bons, as viagens menos agradáveis e as paisagens menos belas. Quando estava noutro sítio, lamentava não estar em Tânger. Estou aqui porque cá estava quando percebi a que ponto o mundo piorou. Já não queria viajar mais», confessa Paul Bowles.

Tânger aqui tão perto. Sai-se de manhã cedo de Portimão e, pelo meio-dia, tomamos o ferry em Tarifa. Primeiro, o porto, depois a Place Koweit; almoçamos no Hotel Continental, alojamo-nos, saímos de novo, tomamos um taxi que nos leva encosta acima entre terrenos baldios até ao Edifício Itesa, onde Bowles viveu desde os cinquenta anos até poucas semanas antes da sua morte, em 1999, aos oitenta e oito anos. Subimos umas escadarias amplas de mármore até ao quarto andar e batemos à porta do apartamento 20. Esperamos. Ninguém responde. Não veremos a sua última morada. A mesma que foi visitada por Mick Jagger e Brian Jones, seus vizinhos por algum tempo no andar de baixo do Itesa, e que vieram a Marrocos para ouvir os sons dos fazedores de perfumes e gravar os Master Musicians of Jajouka que seria considerado o primeiro álbum de músicas do mundo. Primeiro que ninguém, Bowles tinha descoberto esta música nas suas deambulações por Marrocos, enquanto musicólogo. Porque Bowles já não mora ali descemos, e já na rua avistamos um pedaço azul do estreito de Gibraltar. «Há lugares no mundo que contêm mais magia do que outros», escreveu Bowles.

Voltamos a descer a ladeira de Monteviejo, por entre os ciprestres que ladeiam a estrada que nos devolve à Medina. Perdemo-nos no labirinto de ruelas, sob odores exóticos e reencontramo-nos à porta do The Paul Bowles Room, na antiga American Legation. Entramos. O ambiente irradia serenidade, apesar de três das velhas malas que correram o deserto, outras vezes o mundo, nos convidarem ao devaneio. Imaginamo-lo, então, sentado em tantos lugares, aqui, em Fez, em Ait-Benadou, no deserto ao crepúsculo, sob um céu que nos protege, as montanhas azuis ao fundo. Se aqui estivesse agora falaria da disciplina errática das viagens. De nomadismos. Do mar de Conrad. Do silêncio do deserto. De Graham Greene e Raymond Chandler. Da hibris marroquina. Sim, de Jane Bowles. De Kafka, Gerturde Stein e Flannery O´Connor. A prisão do corpo. A morte libertadora. Os labirintos do kif. A poesia de Mohamed Choukri. A escrita como ritual. O concerto de oboé e clarinete que nunca terminou.

Saímos para o primeiro entardecer de Tânger. Há homens trabalhando cestos, o cobre, a lã. A padaria onde Bowles comprava o pão, naquela esquina antes dos degraus do Baba. Procuramo-lo no Café Hafa, por entre delicados saracoteares de copos de chá de menta. Depois, no Café de Paris, outrora também frequentado por Jean Genet, um dos muitos que ajudaram a criar o mito de Tânger, cidade nervosa. Impossível não imaginar neste refúgio déco o encontro entre Malkovich e Debra Winger, à procura de si próprios em Um Chá no Deserto. A voz de Bowles, no filme, confessando que, mais tarde, acabariam por se perder, irremediavelmente, nas areias sedutoras e fatais do deserto. Mas é na ressuscitada Librairie des Colonnes, onde Bowles se encontrou tantas vezes com Mohamed Choukri, e que utilizava como caixa pessoal de correio, que reencontramos o antigo espírito do lugar. Abrimos um livro que fala desta cidade, Deixa chuva cair. E é nessa morada de vocação mediterrânica que, finalmente, o encontramos numa Tânger desaparecida onde vingava a corrupção e a desordem, onde se movimentavam vigaristas e assassinos, excêntricos e ninfomaníacos, homossexuais e magnates. Dolorosa iniciação.

Eras um americano a fugir do mal-de-vivre urbano. Tinhas chegado com Aaron Copland, procurando romper com o nomadismo cosmopolita que te levara a viajar pela Europa primeiro, depois pelo Extremo-Oriente e pela América Central, com incursões mais ou menos prolongadas em Paris e Nova Iorque. Em 1947, decidiste ficar aqui, em Tânger, donde partias em viagens pelo deserto como relatas em Baptism of solitude. Sim, Bertolluci também percebeu esse fascínio e ofereceu-nos Um chá no deserto, baseado no teu livro O céu que nos protege. E muitos vinham aqui visitar-te. Truman Capote, Tenesse Williams, Cecil Beaton, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, Gore Vidal foram alguns dos que participaram no desregramento de sentidos das longas noites estreladas de Tânger.

Mas quem sempre ficou aqui foste tu. E disso nos falas agora: «É estranho. Vivo aqui há 59 anos e continuo a ser um turista. As pessoas vêem-me como turista e acho que têm razão. Isto apesar de, oficialmente, eu ser residente. Mas a menos que nos tornemos muçulmanos, continuamos a ser estrangeiros. Eles vêem-me como um Nassrani, ainda que não seja cristão. É muito difícil tornarmo-nos amigos íntimos de alguém. Aqui, é-se apreciado como fazendo parte de um grupo. O estrangeiro, digamos, o turista, não sabe como aproximar-se dos marroquinos, pois a sua forma de pensar é diferente. Para eles, as coisas importantes não são as mesmas. Há que aceitar, e continuar a aceitar, suceda o que suceder, uma vez que quem estuda as pessoas está na posição de espectador, observando as pessoas de outra cultura».

Por isso, aqui, neste café, ao crepúsculo tangerino, rencontrar Paul Bowles talvez seja também uma forma de nos deixarmos cobrir, nós e este islão vizinho, sob o mesmo céu que nos protege.