30 de setembro de 2010

Paris pelos passos de Cortázar


Como se terá percebido pelos dois posts anteriores, tenho andado por estes dias deambulando ao jeito de Michel Butor (L´emploi du temps) entre el lado de allá e el lado de acá da Rayuela, de Cortázar. Ou, dito de outro modo, entre Paris e Buenos Aires, cidades metafóricas que no livro vou encontrando bifurcadas uma na outra como se «en Paris todo le [fuera] Buenos Aires y viceversa», o que a mim próprio, transformado em flâneur acidental, já me foi dado confirmar, vezes sem conta, em Paris e, por uma vez, na capital porteña, levado pelos passos de Borges através da Avenida de Maio, de inspiração haussmaniana, ou vagueando pelas suas ruas no mais buenairense dos livros de Cortázar, El examen, que, sem que o autor o soubesse ao tempo em que o escreveu (1950-51), viria a ser considerado como uma espécie de embrião desta Rayuela parisiense que começa na Pont des Arts, em Paris - onde Horacio vai em busca de Maga, não para se encontrar com uma mulher, mas em busca de uma cidade que ele confunde com uma mulher: «Yo digo que Paris es una mujer; y un poco la mujer de mi vida» – e, depois, se transfigura, a meio do romance, na ponte da Avenida San Martin, em Buenos Aires, onde o mesmo Horacio imagina Maga na figura daquela Talita noctívona que joga à rayuela no manicómio.

Mas longe de Buenos Aires é a Paris que vou regressando agora, primeiro pulando a pé coxinho através das casas deste livro labiríntico e logo, amanhã, uma vez mais, percorrendo as suas ruas como se fossem páginas escritas de um capítulo que começa na rue de Seine, passando sob o arco que dá para o Quai de Conti e dali atravessando, depois, a Pont des Arts onde, quem sabe, o acaso me conduzirá até Maga – porque «un encuentro casual es lo menos casual en nuestras vidas» – e, depois, talvez, ir por ali caminhando junto ao Sena, de bouquiniste em bouquiniste, forçando uma vez mais a casualidade, essa situação de graça tantas vezes experimentada por Cortázar e, antes dele, pelos surrealistas franceses.

Quem sabe, então, se não encontrarei Nadja, a personagem que André Breton persegue através das passages benjaminianas, «tão porteñas também» – Galerie Vivienne, Passage des Panoramas, de Jouffroy, du Caire, Galerie Sainte-Foi, de Choiseul – que anunciam uma experiência distinta da do mundo exterior. E, depois, se poderei encontrar nas ruas e praças sentimentais cujas casas verosímeis vou agora saltando no labirinto de papel da Rayuela, as mesmas que amanhã percorrerei como quem percorre as suas ruas e praças artúricas que dão para um tempo perdido em que, também para mim, Paris era, ainda, uma mulher? Rue des Lombards, Verneuil, Vaugirard, Mouffetard, Saint-Germain-des-Près, Saint-Sulpice, Contrescarpe. Ou nas comportas solitárias, alheias à depradação turística, do Canal Saint-Martin; ou no Parc de Montsouris, de conotações mágicas; ou nas ruelas do quartier de Lautréamont, a fragância amarela da Place Vendôme sob a vagarosa chuva de Outubro que amanhã – diz-me a meteorologia – cairá em Paris e me levará a refugiar-me naquela taberna que já ali não está, mas que estava naquela tarde em que Cortázar e Maga se refugiaram nela pisando a serradura espalhada no chão e aspirando o odor acre do vinho.

Fechar, então, agora, o livro e fazer a mala, porque como disse Cortázar «Mi mito de París actuó en mi favor. Me hizo escribir um libro, Rayuela, que es un poco la puesta en acción de una ciudad vista de una manera mítica [...] Uno cree conocer París, pero no hay tal; hay rincones, calles que uno podría explorar el día entero, y más aún de noche».

23 de setembro de 2010

Bifurcações


Lembro-me de numa manhã de Verão declinante, sob um sol de areia, ter apanhado um taxi à porta do número 1660 da rua Anchorena que acabara de visitar, em Palermo Viejo, onde jorge Luis Borges viveu entre 1938 e 1946, e que naquela manhã foi, também para mim, uma espécie de casa de Asterión, como a do conto homónimo, onde «todas as partes [...] existem muitas vezes [e] qualquer lugar é outro lugar. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor é do mundo».

Dali, da casa de Asterión, que me fora revelada na sua perfeita ubiquidade, fui, ainda, no rastro de Borges até ao outro lado da cidade, ao café Tortoni, na Avenida de Mayo, que o escritor frequentava, às vezes, a caminho da Biblioteca Nacional. Num dos espelhos que ali se encontram para multiplicar o número daqueles que ali vão nos passos de Borges pareceu-me vê-lo passar com O Livro de Areia debaixo do braço. Recordei-me dos enigmas e maldições dos espelhos e seus duplos evocados a Bioy Casares no conto Tlon, Uqbar, Orbis Tertius onde «declarara que os espelhos e as cópulas são abomináveis porque multiplicam o número de homens». E de me ter perguntado se aquele homem cuja imagem fantasmal via reflectida no espelho fosse realmente Borges, para onde iria ele naquela manhã de verão declinante? A resposta encontrei-a, depois, inscrita no livro: «Declinava o verão, e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade. Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta. Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar, trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à direita do vestíbulo uma escada curva se afunda no porão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos funcionários para perder O Livro de Areia numa das húmidas prateleiras».

Lembro-me de ter saído, depois, do Tortoni, pensando que Buenos Aires era um "jardim de caminhos que se bifurcam", como confirmaria, na mesma manhã, também ela já declinante, na confeitaria London City, na esquina com a rua Peru, para onde me conduziu o acaso. É que, sem que o soubesse, sentara-me mesmo ao lado da mesa onde Julio Cortázar escreveu, em 1960, o seu primeiro romance, Los Premios. Um empregado fardado a rigor contou-me que fora ali, naquela mesa protegida por uma corda de veludo, que se dera início à concentração dos premiados; uma placa de metal, um caderno e uma caneta completavam a mais do que despojada instalação cortazariana. Um pequeno painel reproduzia algumas passagens do romance que tem como cenário o café onde me imagininei conversando com o cronópio: «La marquesa salió a las cinco – pensó Carlos López – “Dónde diablos he leído eso?Era em el London de Peru y Avenida; eran las cinco y diez. La Marquesa salió a las cinco?».

Naquele momento não sabia ainda que, nessa mesma tarde, ao deambular pela cidade dos livros, uma outra bifurcação, no número 429 da rua Rodrigues Peña, me faria entrar num alfarrabista com o apropriado nome de Brujas para comprar a primeira edição de Rayuela, da Editorial Sudamerica cuja cartografia labiríntica vou por estes dias explorando através de bifurcações narrativas ao jeito de Michel Butor (L´emploi du temps) entre el lado de allá e el lado de acá, que o mesmo é dizer entre Paris e Buenos Aires. Ou não dissesse Horacio Oliveira, o alter ego de Cortázar em Rayuela, que «En Paris todo le era Buenos Aires y viceversa». Bifurcação absoluta que eu próprio confirmei quando em duas tardes declinantes, separadas por alguns anos, me detive em dois cafés cortazarianos confidenciais, o Old Navy, no Boulevard Saint Germain, e o London, na esquina da avenida de Mayo com a rua Peru, duas casas casuais do meu jogo do mundo pessoal.

20 de setembro de 2010

Buenos Aires adormecida



Li já não sei onde que, quando tinha dez anos, Julio Cortázar viveu a inesquecível experiência de subir ao décimo andar de um edifício em Buenos Aires e dali observar a cidade adormecida. Era, então, uma criança sensível, sem graça e estranha. A primeira metade da sua vida tinha-a passado com a sua família na Suíça, nas margens de uma guerra cujo alcance tardaria algum tempo a conhecer. No final da guerra, a sua família regressou à Argentina. Algum tempo depois, tinha, então, seis anos, o seu pai sairia de casa para não mais voltar, ficando, assim, a viver com a sua mãe, tias e a avó alemã, intuindo que a vida era algo mais do que as lições de piano e os livros de Julio Verne. Era o único homem num território povoado de jasmins, pessegueiros e pianos, perto da estação de Ferrocarril Sud, no «metasuburbio» de Banfield, nos limites da zona portuária. Por essa altura, preferia os livros de Julio Verne aos jogos do clube local, o Atlético Bánfield, um dos pioneiros do futebol argentino, o que lhe causou alguns problemas de relacionamento com os seus colegas de escola, logo ultrapassados quando estes descobriram a sua assombrosa facilidade para escrever, com estilos apropriados, as composições escolares passadas pelos professores.

Dou, agora, com uma fotografia nocturna de Buenos Aires, tirada por Horacio Coppola, não sei se na mesma noite em que o pequeno Julio subiu ao décimo andar. Mas sei, porque leio nuns seus versos precoces, que a sua impressão foi tão intensa que desencadeou nele um tal estado de excitação donde só regressaria depois de escrever que «Ya la ciudad parece así, dormida/ una pradera noctural, florida/ por un millar de blancas margaritas».

15 de setembro de 2010

Borges nocturno



Borges adorava caminhar, sobretudo de noite. Dos meus retratos de momento sobre o poeta argentino recupero duas notas sobre esse passeante nocturno.

A primeira, roubei-a às memórias do fotógrafo Horácio Coppola que conta que, numa noite chuvosa de 1936, caminhando juntos pelas ruas de Buenos Aires pararam diante de uma poça. Coppola ajustou a câmara e disparou. No espelho de água, estava reflectida a silhueta de uma casa do bairro de Palermo. Quando viu revelada a fotografia do amigo, Borges exclamou: «Isto é Buenos Aires».

A segunda nota reenvia-nos para um outro passeio nocturno, muitos anos depois, na companhia de Maria Kodama e do seu tradutor para inglês, Willis Barnstone. Conta Barnstone, em With Borges on na ordinary evening in Buenos Aires, que na noite de passagem de ano de 1975, depois de um bom jantar regado, com abundante vinho, depararam-se com uma greve de transportes e decidiram acompanhar Kodama a casa. Barnstone recordaria depois esse episódio: «Na semi-obscuridade e através do vento, atravessámos lentamente Buenos Aires. […] As horas passavam e Borges parecia cada vez mais encantado com os ruídos da rua». […] «De repente passou um inesperado carro eleéctrico e Kodama saltou para o seu interior deixando-nos a ambos à deriva». […] «Como regressar a casa se um era cego e o outro um estrangeiro que desconhecia as ruas da cidade?» […] Misteriosamente Borges começou a caminhar, parando de dez em dez passos. Pensei que o fazia porque se julgava perdido. Mas não, toda aquela exaltação era porque me queria falar da sua irmã Norah, da sua infância, dos seus antepassados».

Isto era Borges, um passeante nocturno que jamais se perderia na sua Buenos Aires inventada.

8 de setembro de 2010

Une saison en enfer



Há um verso de William Blake que diz que "if the doors of perception were cleansed, every thing would appear to man as it is, infinite". Talvez mais do que a inspiração para o nome da banda, os Doors tenham ido buscar a Blake a energia para atravessarem as portas para o território negro dos discos que viriam a criar, celebrando a loucura e o caos. "Negar as trevas da alma é só ter metade de um ser humano… e nós tínhamos os dois lados". Os Doors eram um número de equilíbrio entre a luz e as trevas, diz o teclista Ray Manzarek.

Tudo começara quatro anos antes, conforme conta Ray Manzarek: "Foi em casa de um amigo, em Venice Beach, que nos encontrámos com o Robby pela primeira vez. Começámos a tocar o Moonlight Drive e o Robby disse: «Tenho uma coisa que pode encaixar bem aqui. Abriu um compartimento no estojo da guitarra, onde se guardam as cordas, as palhetas e a droga, e tira de lá um gargalo de garrafa. Enfiou-o no dedo e tocou com o vidro contra as cordas de aço e o Morrison e eu arrepiámo-nos. Era um dos sons mais arrepiantes e fantasmagóricos que alguma vez ouvi. O Jim disse: É esse o nosso som, meu! Quero isso em todas as canções". Isso e Blake, Kerouack, Ginsberg, Nietsche, Mallarmée e, sobretudo, Rimbaud que Morrison lia obsessivamente: "Caro Wallace Fowlie [à época, professor de literatura francesa, na Duke Universiy e, depois, estudioso da poesia de Morrison], simplesmente queria agradecer-lhe pela tradução de Rimbaud. Eu precisava porque não leio francês tão facilmente (…) Sou cantor de rock e seu livro acompanha-me nas tournées. Jim Morrison”.

Durante os quatro anos que separaram a edição do seu primeiro album (Janeiro de1967) da de L.A. Woman, os Doors foram uma das bandas rock mais populares do mundo. E a sua ascensão não pode ser dissociada desse período turbulento de manifestações pacifistas, de consumo de drogas e todas as aspirações de contra-cultura que a sua música encarnaria fielmente. Mas esta violência reflectir-se-ia também no percurso da banda e, mais particularmente, na vida caótica do seu leader mítico. "O poeta torna-se vidente através de um longo desregramento de todos os sentidos”, escrevera Rimbaud um século antes, mas poderia ter sido escrito por um Morrison fascinado pelo radicalismo e pelo exílio em África do enfant terrible do nomadismo da alma. Nesses quatro anos, enquanto a popularidade da banda crescia, Morrison iniciaria a sua saison en enfer e começaria a desintegrar-se, a roçar o abismo, até cair com um fulminante ataque de coração, enquanto tomava banho, num hotel em Paris, em 1971. Talvez Paris tenha sido a sua Abissínia, um porto distante, a ante-câmara para um salto que o faria sair da obra e cair na vida. Como Rimbaud. Não teve tempo.

8 de junho de 2010

Hotéis de passagem (IV)



E já agora o meu hotel pessoal de passagem, o Excelsior, na rua de Cujas, em Paris, onde havia, também, um quarto misteriosamente parecido com o do conto de Cortázar, com uma porta escondida atrás de um armário que deixava ouvir não os gemidos de amantes de passagem, mas o murmúrio de um casal de exilados chilenos que ali estavam também de passagem.

Quando vou a Paris, subo sempre a Rue de Cujas, que liga o Boulevard Saint Michel à rue d´Ulm, e ao passar em frente da porta de entrada espreito, dissimuladamente, para o pequeno foyer onde se encontra o balcão da recepção, agora modernizado, depois de um upgrade remodelador que o dotou de um pequeno salão com amplas vitrinas que dão para a rua. Contudo, não se modernizam as recordações cegas da minha vida suspensa naquele pequeno hotel de passagem para hóspedes errantes sem pátria nem dinheiro.

E recordo, então, o quarto, pequeno, no terceiro andar, com uma pequena janela de guilhotina que dava à esquerda para uma açoteia e para mais nada, porque se abria para um muro sobre o qual espreitava um inútil pedaço de céu quase sempre cinzento: uma pequena estante de madeira onde coleccionava livros que falavam de revoluções por fazer, um armário onde guardava parcos haveres, uma colcha escura de textura áspera sobre uma cama estreita onde deitava em noites de vigília a saudade, uma lâmpada florescente no tecto, uma cortina azul escura no cubículo de banho, uma chávena onde derramava água apenas tépida colorida pelas saquetas de chá verde.

Com um golpe de google fico a saber que também o quarto foi vítima de um upgrade, e a porta entaipada pelo armário substituída por uma parede de alvenaria que já não deixa escutar os murmúrios do quarto vizinho. E concluo, então, que aquele Excelsior que ali está já não é o mesmo onde transitoriamente me encerrei nas minhas paredes interiores, mas que nem por isso deixarei de continuar a olhar, dissimuladamente, através da sua porta, sempre que suba a Rue de Cujas.

2 de junho de 2010

Hotéis de passagem (III)



Hotéis de passagem, às vezes, de ocupação sedentária, outras vezes. Como o hotel La Louisiane, na rue de Seine, em Paris, cujo quarto 58 foi, durante mais de sessenta anos, o único lugar de escrita de Albert Cossery. Ou como outros hotéis parisienses já desaparecidos, vítimas de upgrades, de reconversões ou de demolições, como os hotéis habitados por Joseph Roth, cuja obra ando a ler: o Foyot, na rue Tournon, junto ao Jardin du Luxembourg, onde já tinha morado Rainer Maria Rilke, e que Roth abandonou quando os escombros da demolição já se amontoavam por detrás da porta entaipada do seu quarto; e o tétrico hotel Florida, no Boulevard Malesherbes; e o miserável Hotel de la Poste; e o albergue Principautés Unies onde morou Hannah Arendt.

Ainda o desconcertante cenário de Hotel Savoy, em Lodz, título do romance homónimo de Joseph Roth; e em Zurique, o hotel onde às vezes Robert Walser se ocultava num quarto a que chamava a Câmara de Escrita para Desocupados e aí, sob a luz crepuscular de um candeeiro de petróleo, deixava que a sua mão indecisa o conduzisse pelos territórios do lápis, cujo traço o empurrava lentamente para o desaparecimento, para o eclipse, mimetizando-se para não ser descoberto; e também aquele quarto, não de um hotel mas de um edifício de dois andares, em Kierling, Viena – outrora um sanatório -derradeira passagem de Kafka.

Mas talvez o mais absoluto hotel de passagem de que ouvi falar seja aquele, em Port Bou, onde se abrigou Walter Benjamin em fuga para Lisboa, aonde não chegaria nunca porque as suas asas incertas de borboleta nocturna falhariam no último momento, incapazes de o levarem para fora do pequeno quarto onde se hospedara na última etapa da sua vida crepuscular. Também aí havia uma porta entaipada por detrás da qual se adivinhava a lenta irrupção da manhã, que já não chegaria a tempo de iluminar a sua solidão irredutível de ter sido sempre estrangeiro em todos os hotéis de passagem da sua vida e de não ter tido nunca nada, a não ser a pasta preta pousada em cima da mesa de cabeceira, onde guardava os últimos «labirintos de tinta embebidos nos seus cadernos».

21 de maio de 2010

Hotéis de passagem (II)


Nas minhas andanças através de uma cartografia pessoal onde se bifurcam livros, filmes e discos, tenho cruzado os umbrais de outros hotéis de passagem onde numa qualquer dobra da página, de faixa ou de fibra digital ousei subir a um qualquer quarto 205 e aí pernoitar, escutando, depois, noite adentro, o murmúrio de personagens momentaneamente desaparecidas do mundo lá fora, talvez, à procura, também elas, de uma qualquer porta de passagem entaipada atrás de um velho armário com espelho que dê para outras vidas enquanto eu, ocupante ocasional de um lar fugaz, ali vou, como escreveu Brecht, concebendo a vida como um romance.

Lembro-me de alguns dos 342 motéis de estrada onde Nabokov (e depois Kubrick) fez pernoitar Lolita e o seu velho amante Humbert, tudo cenários transitórios de cerimónias secretas e rituais privados oferecidos ao voyeurismo do leitor. E no armário onde guardo os velhos LPs e os recentes CDs e DVDs lá está ainda o Hotel California, dos Eagles, onde o viajante se deita sob «mirrors in the ceiling, pink champagne on ice»; e o quarto de banho do Bates Motel, onde Hitchcock engendra o assassinato brutal de uma jovem secretária, em Psico; e o Desert Song Hotel,onde Nicholas Cage se encerra para se embebedar até à morte, em Adeus Las Vegas; e os mais recentes Quatro Quartos, de Quentin Tarantino ou o quarto com vista sobre Tóquio, de Lost in Translation, de Sofia Coppola.

E em dobras de páginas, que de repente me vêm à memória, aquele hotel de Michigan que surge no conto de Borges, As metamorfoses de Shakespeare, onde um homem sem rosto oferece ao escritor argentino a memória de Shakespeare. E o Costa Verde Motel Tulán, de A noite da iguana, de Tennessee Williams, cenário de amores depressivos; e o obscuro quarto de Los adioses, de Juan Carlos Onetti, onde tuberculosos se encontram para desdenhar da morte; e a «pensão de má morte», em Budapeste, onde se hospedou o protagonista de O Mal de Montano, de Enrique Vila-Matas; e o pesadelo quotidiano de O corredor do grande hotel, de Dino Buzzati; e os desassossegantes pararelismos entre diferentes hotéis, em Hotel Almagro, de Ricardo Piglia; e os hotéis baratos de Ciudad Juárez, cenários dos crimes horrendos de 2666, de Roberto Bolaño.

E como a realidade supera quase sempre a ficção, como não evocar aqui o perturbador quotidiano que Raymond Roussel encontra num hotel em Nova Iorque quando, ao pretender tomar um banho, constata "que há três mil quartos de banho no hotel e que três mil hóspedes podem estar a tomar banho ao mesmo tempo", o que o leva a desistir da ideia. Ou o hotel El Molino, em Buenos Aires, evocado pela escritora colombiana Laura Restrepo, que recorda as noites clandestinas de sexta-feira ou sábado que ali passou, depois de esperar numa longa fila de casais muito jovens, de estudantes sem dinheiro, abraçados ou de mão dada, conversando em voz baixa como se estivessem numa fila para o cinema à espera de um quarto para desaparecer do mundo lá fora, por horas, suspendendo o tempo num território fugaz no meio da obscuridade da ditadura. Conta Laura Restrepo que quis saber desse hotel transitório, se ainda lá estava na rua Salguero, e por isso, pediu a uma amiga que lá fosse. E resultou que sim, que ainda lá estva, embora também tenha sido vítima de um daqueles upgrades desconcertantes que procuram modernizar-nos as recordações.

18 de maio de 2010

Hotéis de passagem (I)


Todos hotéis são por natureza lugares transitórios. Alguns são hotéis de passe para amantes ocasionais. Outros são hotéis de passagem para transeuntes nocturnos roçando abismos por cruzar. E outros há, ainda, que são protagonistas de histórias em que a realidade supera a ficção, como um tal hotel Cervantes, situado numa rua do centro de Montevideu que aparece em dois contos de Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares, e que serve de pretexto para uma crónica que Enrique Vila-Matas me enviou faz algum tempo para publicação numa Atlântica por vir.

E porque - ignoro por que motivo - me cruzo, às vezes, com a sombra do escritor catalão, lembro-me de há alguns anos me ter escapado desde Colónia do Sacramento (onde, como viajante acidental, acompanhava a minha mulher num seminário de história ibero-americana) até Montevideu, e de ter errado pelo centro à procura de um velho cinema que por ali havia numa rua arruinada nas imediações da despovoada Plaza Independencia – a Soriano, entre Convención e Andes – e de ter ladeado a fachada espectral, sombria, discreta, banal de um hotel perdido no meio de edifícios feios e de despojos depositados na calçada pela vizinhança, que ostentava um grande letreiro onde se podia ler o nome de Hotel Cervantes. Ignorava ainda o desejo de Vila-Matas de, transitoriamente, aí se hospedar um dia quando for a Montevideu e, sobretudo, o mistério da porta entaipada do quarto 205, protagonista do conto La puerta condenada, de Cortázar, e de um outro escrito por Adolfo Bioy Casares, Un viaje ou El mago inmortal, cujo rumor me chegou em forma de crónica vilamatiana. Ou não fosse, afinal, para isso que servem as portas entaipadas dos quartos de hotéis transitórios.

Se minimamente suspeitasse dos mistérios que se escondiam naquele segundo andar onde viveu durante anos, até à sua morte, o poeta filósofo Emilio Oribe, e onde, também, Jorge Luís Borges confessa ter-se hospedado e sofrido de insónias - «Lembro que fui para Montevidéu. Estava alojado no Hotel Cervantes e às vezes acordava as duas ou três da manhã...» [Alifano, Roberto, Borges, Biografia verbal. Barcelona: Plaza & Janés, 1988] -, teria certamente cruzado o balcão da recepção e, quem sabe, subido ao quarto 205 e, noite adentro, escutado as vozes dos passageiros da noite que pernoitavam no quarto ao lado. Mas não. Distraído dos abismos que uma qualquer rua banal pode oferecer ao transeunte ocasional, passei pelo umbral do hotel sem entrar.

Procuro no google e confirmo que o hotel Cervantes ainda lá está na rua Soriano, em Montevideu (encontra-se actualmente em remodelação com vista a tornar-se num hotel de charme ) e que, por isso, se se concretizar o desejo de Vila-Matas - «se algum dia for a Montevideu, irei visitá-lo e tratarei de alojar-me no segundo piso, numa "pieza chiquita", onde talvez se encontre, ainda, esse grande armário que tapa a misteriosa puerta entaipada» [in Diário volúvel, Teorema]-, é de admitir que possamos ler um conto vilamatiano onde que se escutarão, seguramente, os gemidos de amantes ocasionais vindos do outro lado da porta entaipada atrás do armário, ou não fosse Vila-Matas um coleccionador nato das existências alheias, sobretudo quando essas existências roçam um qualquer abismo que se abre numa noite de insónias no outro lado de um umbral obscuro, ao mesmo tempo que no piso de baixo ressoa uma milonga de Gardel, também ele, tantas vezes, um passageiro da noite montevidiana.

4 de maio de 2010

Vulcanografias


Por estes dias em que o vulcão islandês Sneffels volta a expelir cinzas tóxicas sobre os céus da Europa, depois da Islândia já ter, antes, disseminado matéria financeira tóxica sobre os mercados, mostrando-se, assim - seja pela via da vulcanologia seja pela via da economia -, que continua válido o enigmático aforismo de Marx segundo o qual tudo o que é sólido se dissolve no ar, ou que, ironicamente, contrariando Heidegger, a técnica sucumbiu diante das vertiginosas forças tectónicas, provocando o caos nas ligações aéreas à escala planetária, como não revisitar alguns livros abissais da minha biblioteca?

Livros aparentemente adormecidos, mas que escondem vulcões tão reais como o Sneffels, e outros inventados, mais estes do que aqueles, para onde me deixei arrastar por certa vertigem da leitura, própria, aliás, de quem lê procurando encontrar à beira do abismo passagens, fendas que dão para mundos paralelos de «uma trama mais subtil, uma teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos», como escreveu esse expedicionário de vulcões inventados, Enrique Vila-Matas, em Exploradores do abismo. E onde, então, melhor, encontrar essas estreitas passagens se não à beira desses precipícios, reais e inventados, que nos atraem para uma queda sem fim?

Voltar a descer, então, pelo Sneffels, essa «boca do mundo» aberta na península Snaefellsnes, na Islandia, que me foi revelada, em noites de infância extrema, por Júlio Verne em Viagem ao centro da terra, e por onde, perigosamente, se escapuliram embriagados pela voluptuosidade das alturas , o professor e geólogo Otto Lindenbrock, o seu sobrinho Axel e Hans, o atlético guia islandês, e eu com eles, num périplo de cinco mil quilómetros de inarráveis perigos e irremediáveis fascínios, através das ocas entranhas e do mar interior do centro da terra, para regressarmos, depois, ao outro lado do mundo, numa nuvem de cinzas e gazes tóxicos, expelidos pela cratera incandescente do Stromboli.

Ali, de pé frente ao inafrontável - experimentando o mesmo sentimento de vertigem que levou Axel a pensar que não havia «nada mais inebriante que a atracção do abismo» -, eu não sabia, ainda, que a força gravitacional que me arrastava num delírio onírico de leitura precoce se metamorfosearia na vertigem que Edgar Allan Poe descreveu no conto «Uma descida ao Maelstrom», cuja imagem de pendor nihilista tão bem ilustra o vórtice da história enlouquecida atraída irresistivelmente pelo abismo, como reflexiona Bragança de Miranda em Queda sem fim (Vega, 2006).

E ainda menos suspeitava eu que, anos depois, haveria de ver Malcolm Lowry, o «cônsul da embriaguez e dos vulcões», como o descreveu o poeta José Agostinho Baptista, ser engolido em Cuernavaca, México, pelos abismos do mezcal brotando Debaixo do vulcão mais inventado da minha biblioteca, ainda que, de entre eles, o Popocatepetl seja o único que eu, sentado de frente para ele na esplanada Las Mañanitas, bebendo uma coronita muito fresca, avistei, resplandecente de neve, num Dia de los Muertos, enquanto procurava decifrar os admiráveis abismos de festa e alucinação para onde se atirou, numa queda sem fim, aquele inglês sonhador quando se viu à beira do precipício.

E nesta périplo de vulcões, reais e inventados - e este agora roubado de uma página do Diário Volúvel de Enrique Vila-Matas, -, vejo agora emergir da minha biblioteca o Tängri, espécie de montanha mágica criada por Julien Gracq nesse romance absoluto que é A costa de Sirtes [Vega, 1998], e onde Vila-Matas se deixa ir caindo nas profundezas do Tangri para nos oferecer uma lição de vulcões: «no fundo, os vulcões, reais ou inventados, não são mais do que a busca da origem, da génese da vida e da arte. (...) Um vulcão é a origem e é também geometria da erupção, mistura de atracção e repulsa».

Que fazer, então, por estes dias de revolta dos vulcões islandeses cujas poeiras acinzentam os céus da Europa e ameaçam as rotas aéreas? E que fazer diante dos outros abismos reais que escapando à vulcanografia inventada ameaçam arrastar-nos no seu vórtice numa queda sem fim? Talvez fazer como aqueles exploradores vilamatianos que «ao verem-se à beira do precipício fatal, adoptam a posição do expedicionário e sondam o horizonte plausivel, indagando sobre o que pode haver fora daqui, ou mais além dos nossos limites».

Não ter, portanto, medo de cair, porque talvez tudo dependa do modo como se cai. Porque se pode cair numa queda sem fim ou cair para a seguir nos elevarmos melhor. Tudo, então, uma arte da queda, das inclinações, do clinamen.