20 de março de 2012

Um poeta do Sul


Haverá algum fio invisível a ligar António Ramos Rosa  a Walser, Emmanuel Bove, Sebald, também eles cultores de uma metaliteratura? Teria Ramos Rosa lido estes escritores angélicos? Liga-os, talvez, a ideia de que o poeta é o que sacrifica tudo pela sua obra. Não que o poeta tenha cultivado como aqueles o desaparecimento, a ocultação do seu corpo, mas porque sempre viveu recatado, privilegiando uma existência sedentária, solitária, à fugacidade das experiências geográficas ou às poses efémeras em vazios cenários mundanos. O mundo para onde desertou foi sempre o da interioridade povoada por seres reais e alteridades poéticas: Desertei da biografia e dos relógios.

E refugiou-se na linguagem, geografia única onde é possível seguir o seu rasto sem que a água ou o ar alguma vez o possa apagar: uma geografia onde o real foi destruído, onde a única realidade é a própria linguagem, colocando-a sob o signo de Rimbaud, da liberdade plena da imaginação, da demiurgia absoluta, capaz de fazer ouvir, como num búzio, a maresia do mundo. Pertence António Ramos Rosa completamente à poesia, tal como Walser se desintegrou nos microgramas que escrevia em Herisau. E pertence, também, ao Algarve, pois essa é a única geografia exterior que deixa rasto na sua poesia, o espaço mais luminoso onde a "nudez" é uma palavra que terá correspondência com a paisagem algarvia.

Onde situar, então, esta poesia luminosa que o poeta classifica de cognitiva e metapoética? Recordemos que se deve a António Ramos Rosa a reposição da pulsão modernista na poesia portuguesa, quando nos anos 50, fosse como poeta fosse como crítico (leia-se, sobretudo,  O poema, sua génese e significação que agrupa diversos artigos) fez das revistas Árvore, Cassopeia e Cadernos do Meio-Dia, que dirigiu, veículos privilegiados de uma nova linguagem poética como um ser próprio, um dinamismo próprio. Diz Eduardo Lourenço que onde Pessoa acaba, começa Ramos Rosa que é um poeta solar. Eu sou algarvio, nasci no Sul [...] o espaço mais luminoso de Portugal, sim, terá tido alguma influência na minha obra poética onde a "nudez" é uma palavra que terá talvez alguma correspondência com a paisagem algarvia.

A fulgurância das coisas mais simples irrompe nos versos, na imaginação deste poeta no nosso Sul, em que o muro branco, a cal, a espuma das ondas se reflectem no poema, sem, contudo, ofuscá-lo de realidade. Este o Ramos Rosa que, sobretudo, nós algarvios, nos cumpre celebrar, mesmo que o poeta, agora, procure a ocultação, não o desaparecimento.

17 de março de 2012

A actualidade fabricada


Um artigo inédito de Albert Camus sobre jornalismo livre, censurado em 1939, e publicado esta semana pelo Le Monde, recupera o olhar crítico e a isenção do autor de O estrangeiro e revela uma extraordinária pertinência face à forma como o jornalismo actual vem respondendo aos acontecimentos, renunciando ao compromisso de se afirmar como um "contra-poder" quer dos jogos políticos, quer de inconfessados interesses económicos quer, ainda, de si próprio.

Ora, a constituição da experiência contemporânea é cada vez mais determinada pelas máquinas mediáticas que nos dão a ilusão de estar em todo o lado ao mesmo tempo. Quer queiramos quer não, estamos imersos na actualidade "fabricada" pelos media contemporâneos que tendem a produzir uma espécie de delírio colectivo universal em torno de acontecimentos processados mediaticamente em função de inconfessados interesses que pouco têm a ver com a ética jornalística enunciada por Camus.

Numa época em que a França já paralisada pelo medo da invasão nazi e quando as suas elites políticas e jornalísticas se dispunham à renuncia sem pudor ao Terceiro Reich, Albert Camus propunha uma ética jornalística assente em quatro princípios: lucidez, desobediência, ironia e obstinação. A lucidez que "supõe a resistência aos mecanismos do ódio e da ira e ao culto da fatalidade". A desobediência que "face à crescente maré de estupidez, é necessário também opor". "A ironia que é uma arma sem precedentes contra os demasiados poderosos". E "um mínimo de obstinação para superar os obstáculos que mais desanimam", a saber: "a permanência da absurdo, a abulia organizada, a estupidez agressiva".

Ora, 73 anos depois, embora não haja censura, o manifesto jornalístico de Albert Camus continua actual face à promiscuidade entre as classes políticas, empresariais e mediáticas e à renuncia dos media em se afirmarem como "contra-poder" de si próprios como, também, já defendera Karl Kraus na Viena dos princípios do século XX.

A experiência contemporânea mediatizada constitui-se não em função do acontecimento em si, mas através da construção de uma ficção jornalística que visa a identificação gratuita do público com o acontecimento despolitizado e abordado em função das convulsões dos seus protagonistas. Vistas assim as coisas, o jornalismo, hoje, responde ao acontecimento não para para lhe dar tonalidade expressiva e retraçá-lo racionalmente, mas para nos introduzir nele como espectadores obscenos cujo ponto de vista é sempre incitado, e excitado, por formas mediáticas demagógicas e manipuladoras da opinião pública, que originam as várias e contraditórias patologias de posição que somos coagidos a adoptar, marcadas por uma ilusão paranóica de poder sobre os protagonistas do acontecimento.

Lemos e vemos as notícias que nos são oferecidas com a ilusão de penetrar na intimidade do outro como se, momentaneamente, nos fosse concedido o direito de tudo julgar sem que para isso tenhamos de ser confrontados com a nossa responsabilidade moral. Daí, a banalização lúdica da violência, da crueldade, a exposição da intimidade, a reivindicação divertida da futilidade diariamente servida nas televisões. Mas daí, também a urgência de - contrariando Karl Kraus que dizia que "o jornalismo come o pensamento" - pôr o jornalismo a pensar, porque quer queira quer não essa é a sua essência. Porque, como escreveu Camus, "se [um jornalista] não pode dizer tudo o que pensa, pode [pelo menos] não dizer aquilo que acredita que é falso".

10 de março de 2012

A tentação do fracasso


A partir da vida fracassada de um jovem com ar de Dylan, um espectro do passado, alguns fantasmas do futuro e um Arquivo Geral do Fracasso, Enrique Vila-Matas, regressa de Dublin - para onde tinha dada o salto inglês, melhor seria dizer irlandês - a Barcelona, ao seu próprio bairro nas imediações da Pasaje Pellicer ("Na realidade quando me mudei para este bairro, vivi indirectamente esta história. Dediquei-me, por isso, a contá-la, modificando apenas alguns pormenores. Real na sua essência, como a própria vida", confessa em entrevista à revista El Cultural) para nos brindar com Aire de Dylan (numa evocação à ampôla de vidro com ar de Paris que Duchamp construiu para oferecer a uns amigos e à qual deu o nome de Air de Paris) que a Seix Barral lançará na próxima 3ª feira em Espanha e a Teodolito, a nova editora de Veiga Ferreira, publicará em Portugal, parece, ainda este mês.

Segundo o editor, um romance em que Vila-Matas convoca os seus melhores argumentos retóricos com humor, ironia e sarcasmo para, através de uma intriga negra, com assassinos e assassinatos, dirigir uma crítica à pós-modernidade. E um romance, ainda, cuja história "dialoga - segundo o próprio autor - com o jovem que escreveu História abreviada da literatura portátil que girava em torno de uma sociedade secreta". Uma sociedade secreta preguiçosa, que se contenta em "ter uma ideia por dia", mas sem nunca levá-la a cabo para - digo eu - não fracassar na sua tentação de fracassar.

"Alguns entram muito tarde no teatro da vida, mas quando o fazem parece que entram sem rédea e directamente para o final da obra", assim arranca Aire de Dylan. Outras frases soltas que me chegaram, como "O fracasso é prefiguração natural do escritor", antecipam a ideia da tentação do fracasso que parece alimentar a vida do protagonista do romance, o jovem Vilnius, conhecido como o pequeno Dylan, mistura do cantor americano com o poeta Rimbaud.

Segundo a sinopse do editor, um prolífico escritor vai a um congresso, para o qual recebeu convite, com alguma estranheza e uma certa inquietação. Nesse congresso, participa, em substituição de Juan Lancastre, uma espécie de "Hamlet fitzgeraldiano pós-moderno", o seu filho Vilnius, um jovem criativo com um certo ar de Dylan, que tem como objectivo último da sua vida atingir o mais total e absoluto fracasso, tema que preside ao invulgar congresso. Mas fracassar absolutamente não é tarefa fácil, como, imagino, se verá no livro.

A partir desse extravagante congresso literário sobre o fracasso, acompanhamos a história de Vilnius que acredita que se encontra possuído pelo espectro do pai. Como ainda não li o livro, ponho-me a imaginar que Vilnius tentará imitar Lancastre, cultivando a impostura de viver como se fosse ele. E imagino que Vilnius fracassará no empenho de levar por diante uma vida emprestada, fracassada. E que no seu duplo fracasso, o de querer fracassar mas fracassar no empenho de fracassar, Vilnius se assemelhará ao escrevente Bartleby - o personagem do conto homónimo de Herman Melville - na sua fracassada tentativa de escrever "um decálogo da não acção".

Ao mesmo tempo, acompanhamos o escritor que, por sua vez, deseja pôr um ponto final na sua já vasta obra e atingir o silêncio total e definitivo. "Tinha decidido secretamente mesmo antes de conhecê-los, confessei-o a Débora, não escrever nenhum outro livro, pois estava muito arrependido, quase magoado, com todos os que tinha publicado durante a minha vida" (Aire de Dylan). Enfim, sucumbir perante o síndroma de Bartleby essa "pulsão negativa ou atracção pelo nada que faz com que certos criadores [...] renunciem à escrita [...] e fiquem, um dia, literalmente paralisados para sempre" que Vila-Matas já recenseara nesse "caderno de notas de pé de página" a que deu o nome de Bartleby & Companhia (Assírio & Alvim). Fascinado por Vilnius que terá escrito, o escritor, e Vila-Matas, segue-lhe o percurso e observa-lhe os estratagemas para chegar ao fracasso.

Ponho-me, então, a imaginar que com a esta improvável união, rodeados e isolados por uma teia de personagens, um e outro se sentirão cada vez mais tentados pelo fracasso, o que será um êxito. Este paradoxo fará, imagino, que a distinção entre fracasso e sucesso resulte em algo em que não nos devemos fiar. Tal como também não será de fiar esta minha tentativa de escrever esta nota de pé de página sobre um livro que ainda não li mas cujo desejo de ler me vai fazendo sucumbir à tentação do fracasso de o escrever para, assim, poder antecipar a sua leitura, no que, certamente, como bom escrevente bartlebiano fracassarei.

Levado pela tentação do fracasso de escrever, seguindo os preceitos avançados por Pierre Bayard em Comment parler des livres que l'on n'a pas lus?, sobre um livro que não li, nem poderia ter lido porque ainda não foi publicado, mas não querendo fracassar nesse empenho, encontro no Diário Volúvel algo com um certo ar de Dylan. "O mundo é uma ilusão, um cenário onde todos temos frases para dizer e um papel  para representar. Certa classe de actores, ao constatar que fazem parte de uma peça, continuarão a representá-la apesar de tudo; outra classe de actores, escandalizados com a descoberta de estarem participando numa impostura, tratarão de sair de cena e da peça. Os segundos enganam-se. Enganam-se porque fora do teatro não há nada, nenhuma vida alternativa que possamos incorporar. O espectáculo, tal como o teatro kafkiano de Oklahoma, é, pode dizer-se, o único que está em exibição. E a única coisa que alguém pode fazer é continuar representando o seu papel, ainda que talvez com uma nova consciência, uma consciência cómica.”

Restará saber (e isso poderia ser a tese do romance se eu me fizesse passar por Vila-Matas) -, mas essa resposta deixarei que seja o autor a dá-la, afinal o romance é seu e eu não pretendo continuar a imitar Vilnius, ele tomando o lugar de Lancastre no congresso sobre o fracasso, e eu tomando o lugar de Vila-Matas na escrita deste livro - se neste teatro kafkiano de Oklahoma, o prolífico escritor, numa atitude semelhante à dos personagens de Roberto Arlt, se sentirá, no final do romance, livre de qualquer sentimento de culpa ou responsabilidade relativamente ao seu fracasso literário, exibindo-se perante os espectadores ou se, ao contrário dos fracassados exibicionistas arltianos, adoptará a atitude de Oblomov - o personagem do romance homónimo do escritor russo Ivan Goncharov -, um jovem desamparado aristocrata incapaz de levar a sua vida por diante, inspirando aqueles "jovens poéticos e doentes, notórios Oblomovs, perdidos no vazio cultural do seu mundo e com tendência a ser, até insuspeitados limites, preguiçosos e avessos ao esforço" (Aire de Dylan). Nisto reside "a alma moderna, o ar de Dylan, a essência da nossa época" (Aire de Dylan).

Dir-me-ia Vila-Matas, se lesse este texto, que fracassei na minha tentação de escrever sobre Aire de Dylan sem o ter lido, já que houve aqui uma certa impostura da minha parte ao citar, e glosar, o que nunca poderia ter citado, e glosado, devido à evidência física de não possuir o livro. Como, então terei sucumbido à tentação de escrever sobre um livro que não li? Ficando, esta noite, quieto em casa como bom discípulo de Kafka que, numa noite, em Praga, escreveu "Não é necessário que saias de casa. Fica à tua mesa e escuta. Nem sequer escutes...", apanha apenas o ar de Vila-Matas.

6 de março de 2012

O outono do patriarca


No início de Agosto de 1966, conta Gerald Martin em Gabriel García Marquez - Uma vida (Dom Quixote), García Márquez e Mercedes foram aos correios para enviar para Buenos Aires o manuscrito acabado de Cem anos de solidão. "Pareciam dois sobreviventes de uma catástrofe. O embrulho continha 490 páginas dactilografadas. O funcionário que estava ao balcão disse: ´Oitenta e dois pesos´. García Márquez olhou para Mercedes a procurar o dinheiro na carteira. Tinham apenas cinquenta pesos, e só puderam enviar cerca de metade do livro: García Márquez pediu ao homem que estava do outro lado do balcão para tirar folhas como se fossem fatias de toucinho fumado, até os cinquenta pesos serem suficientes. Voltaram para casa, empenharam o aquecedor, o secador de cabelo e o liquidificador, regressaram aos correios e enviaram a segunda parte. Ao saírem dos correios, Mercedes parou e voltou-se para o marido: ´Hei, Gabo, agora só nos faltava que o livro não prestasse´." 

Mas o livro prestaria, dando a conhecer ao mundo o fabuloso território literário de Macondo que García Márquez, descobrira 16 anos atrás durante a viagem que fez com a sua mãe desde Barranquilla até Aracataca, no Caribe colombiano, para vender a casa dos seus avós maternos com quem viveu até aos oito anos. Nessa viagem em que ficou "à mercê da nostalgia", como conta na sua autobiografía Viver para contá-la (Dom Quixote), partiram de noite numa embarcação através da Ciénaga Grande de Santa Marta e continuaram no dia seguinte de comboio. Quando chegaram à aldeia situada numa clareira do bananal que mal deixava ver o sol, Gabo deu-se conta que o tempo havia parado na sua memória. E foi nesse dia que, através da janela do comboio, desviou os olhos do livro de Faulkner que ia lendo e viu, pela primeira vez, o nome de Macondo num letreiro que indicava uma quinta. Logo intuiu a "ressonância poética" da palavra, de tal modo que passaria a ser o nome do universo onde habitariam todos os lugares e todos os tempos da sua obra. O seu aleph borgesiano que concentra todas as maravilhas, prodígios, milagres.

Soube, então, que fora ali que, alguns anos antes, nascera para ser escritor. "Foi a tua avó que te fez descobrir que ias ser escritor?". Não, foi Kafka, que, em alemão, contava as coisas da mesma maneira que a minha avó. Quando, aos 17 anos, li A metamorfose, descobri que ia ser escritor. Ao ver que Gregorio Samsa podia acordar uma manhã transformado num gigantesco escaravelho, pensei: ´Não sabia que isto era possível. Mas se assim é, escrever interessa-me`, contou García Márquez a Plinio Apulleyo Mendoza em O aroma da goiaba (Dom Quixote). Anos mais tarde, confessaria que se não tivesse sido escritor, teria sido pianista: "tudo estava envolto na penumbra, um homem tocava piano na sombra, e os poucos clientes que havia eram casais de namorados. Nessa tarde soube que se não tivesse sido escritor, teria desejado ser o homem que tocava piano sem que ninguém pudesse ver o seu rosto, apenas para que os namorados se desejassem mais". Talvez esse secreto desejo de ser pianista, o tenha levado a escrever contos da mesma maneira que um pianista toca diariamente piano, preparando-se para um grande recital  Por isso, classificou-os como um "um género de prática". "Exercícios de piano".

Tornar-se-ia jornalista, em 1948, no El Universal de Cartagena das Índias, depois, no El Heraldo de Barranquilla e, mais, tarde, no El Espectador de Bogotá, escrevendo reportagens como quem escreve romances e romances como quem escreve reportagens. Segundo Ryszard Kapuscinski, "o seu grande mérito foi ter conseguido demonstrar que a grande reportagem é também grande literatura". Para ele, as palavras serviam para contar histórias e, com elas, transformar o mundo. Como se de um grande caleidoscópio se tratasse para mostrar a realidade multifacetada mas ordenada em vistosas caixas coloridas, mágicas, cambiantes, multiplicadas por enganadores espelhos", explicou Ricardo Escavy Zamora no congresso Quinhentos anos de solidão.

E essa foi, também, a impressão com que fiquei quando, ainda adolescente, li a prodigiosa e desassossegante epopeia dos Cem anos de solidão, impregnada de nihilismo que me levou numa viagem à solidão da estirpe dos Buendía que se confunde a solidão das nossas próprias estirpes condenadas aos cem anos de solidão deste mundo cada vez mais alheado de si próprio, contraditoriamente transformado numa Macondo global de onde já não poderemos escapar.

É verdade que García Márquez se tornou, entretanto, num produto de exportação colombiano. Como o café. Como Shakira. E que a sua presença hegemónica deixou na sombra várias gerações de escritores colombianos e latinoamericanos e que, ainda hoje, a sua aura é insustentável para os jovens escritores emergentes latinoamericanos. E que o realismo mágico se transformou num produto de contrafacção literária vendido por imitadores e aduladores e outros trapezistas da literatura franqueada. E que outros, pretendendo romper com  "com a literatura latino-americana dos galos da Amazónia e das virgens que levitam", como bem notou Enrique Vila-Matas, confundiram García Marquez com os seus sucedâneos, deixando-se tentar por uma espécie de parricídio nunca, contudo, concretizado. E é verdade, finalmente, que o seu último romance, Memórias das minhas putas tristes (Dom Quixote) é um livro folhetinesco, para mim, decepcionante.

Mas é ainda mais verdade que García Máquez nos deu O outono do patriarca, Ninguém escreve ao coronal, O amor nos tempos da cólera, alguns contos memoráveis e, se isso não chegasse, Cem anos de solidão, seguramente um dos livros que mais contribuiu para a minha formação de leitor sem qualidades.

García Márquez, Gabo como também é conhecido, nasceu faz hoje 85 anos, e cumprem-se, também, hoje, 60 do seu primeiro conto, A terceira resignação, 45 de Cem anos de solidão, 30 do Prémio Nobel e 10 da publicação das suas memórias Viver para contá-la. Todos números redondos neste seu outono do patriarca.

4 de março de 2012

Extremamente alto e incrivelmente perto


"Todos os livros são sobre a perda", diz Jonathan Safran Foer, um dos mais promissores escritores norte-americanos, segundo a revista Granta, tal como Nicole Krauss, sua mulher, autora de A história do amor (Dom Quixote). Os livros que W. G. Sebald escreveu, esses são, seguramente, sobre a perda. Livros sobre a consternação do mundo, sobre as ruínas que o nosso tempo vai amontoando. Tijolos sobre tijolos. E ninguém na paisagem desolada. Apenas a literatura para gravar no papel o desvanecimento da História. Num outro registo narrativo, também Jonathan Safran Foer tenta em Extremamente alto e incrivelmente perto, romance reeditado pela Bertrand que vem publicando a obra deste autor norte-americano, uma meditação sobre a perda e sobre o luto num mundo que - literalmente - desabou à sua volta. 

Em Extremamente alto e incrivelmente perto (adaptado ao cinema por Stephen Daldry e protagonizado por Tom Hanks e Sandra Bullock), Oskar é um órfão do 11 de Setembro, "o dia mais triste de todos os tempos": o seu pai desabou com as torres gémeas e com elas também os arquétipos de uma criança que não consegue parar de inventar mundos paralelos; noutra história, contada através das cartas escritas pelos avós, é a paisagem de destruição de Dresden durante a Segunda Guerra Mundial que surge carregada de fantasmas do passado. O que nos poderia levar a Sebald (História natural da destruição) evocando as marcas da destruição de Berlim se o livro de Jonathan Safran sobre a consternação do mundo e sobre o luto do pós 11-S tivesse sido um pouco mais apocalíptico e um pouco menos integrado nos circuitos  comerciais.

Contudo, embora permeável ao sucesso mediático, outra maneira de abordar a questão será considerar Jonathan Safran como um jovem escritor que pega no lastro de uma certa literatura, retraçando a partir daí o que antes já fora traçado de outra forma. De resto, o autor não recusa a influência de Sebald, cuja escrita compara a "um machado afiado". Ou a aproximação à agudeza judaica de Philip Roth do período de O complexo de Portnov (não esquecer que Jonathan Safran é judeu e a sua, ainda, curta obra persegue o lastro dessa herança, reinterpretando-a à luz da actualidade). Ou a inspiração em Bruno Schulz cujo conto "A rua dos crocodilos" serviu de base ao seu mais recente livro A tree of codes, "um livro-objecto que joga com o vazio fisico e com palavras e frases arrancadas do conto". Ou a integração de um sopro surrealista que não destoaria de algumas páginas de Kurt Vonnegut. Ou, talvez, antes de tudo, a auto-referenciação a uma certa arquitectura narrativa que evoca Laurence Stern.

1 de março de 2012

Vila-Matas no país das maravilhas



Nestas noites volúveis em vou lendo as mais de quinhentas páginas de Uma vida absolutamente maravillosa de Enrique Vila-Matas (título de um artigo sobre Marcel Duchamp que V-M publicou no El País), vejo-me tão maravillado como na primeira vez que li El viajero más lento, El traje de los domingos, Desde la ciudad nerviosa y El viento ligero de Parma que integram esta antologia cronológica de artigos e ensaios, agora, recuperados pela Mandadori DeBolsillo.

Um livro absolutamente vilamatiano, no sentido em que V-M é aqui, ao mesmo tempo, um ensaísta que narra e um contista que ensaia, como confirmam os maravillosos ensaios do segundo livro de Diario voluble e, sobretudo, uma espécie catálogo comentado das suas leituras intitulado Para acabar con los números redondos, autêntica galeria de retratos de momento que integram a sua biblioteca de quarto escuro: "Tan descontente estava Alberto Savinio con las enciclopedias que se hizo la suya propria para su uso personal. Lo mismo creo haber yo hecho con la literatura de este siglo, pues en un cuarto escuro de mi casa he reunido a todos mis autores preferidos": Walser, Joyce, Gombrowicz, Céline, Roussel, Kafka, Schulz, entre outros bartlebianos e shandianos. Fecha o livro uma última secção com o título equívoco Notas que dá continuidade à "geografía personal" vilamatiana sem a qual, confessa V-M, "no sabría vivir".

O que me leva, então, a atravessar como um funâmbulo da leitura as cordas que V-M  estende sobre os caminhos da literatura buscando novas estações de luz nos interstícios de metáforas apagadas da experiência quotidiana? Precisamente o processo vilamatiano de «desfamiliarizar uma experiência e dela se apropriar como ficção». Não, portanto, uma qualquer intenção de estilhaçar prescrições formais ou normas de conduta narrativa. Não uma vontade de subversão da realidade e da sua substituição pela fantasia, pelo mágico, pelo mítico. Mas um impulso irresistível de tratar o ensaio conferindo-lhe uma dimensão narrativa, e ficcional, onde convivem o diário, a autobiografia e a biografia inventada, o conto, a digressão, a citação literária enquanto formulações retóricas inventadas para contar uma vida absolutamente maravillosa.  

Uma visão aristotélica de representação ficcional muito próxima da imitação do real. Verosimilhança, portanto. E verosimilhança que em Vila-Matas se manifesta na sua capacidade de assumir o evidente sem pedir explicações à evidência, segundo uma teoria que li já não sei onde. De buscar possibilidades ficcionais na vida de todos os dias. De convocar a sua experiência pessoal, vivida e, depois, efabulá-la. De explorar abismos reais e imaginários, e observar horizontes plausíveis e, às vezes, precipitar-se no vazio. De cruzar personagens reais e fictícias. De navegar à bolina no fragmentário e no rasto do casual ou da memória súbita de livros, vidas, citações perdidas. De convocar o acaso para determinar destinos de vidas alheias, às vezes, a sua própria vida ou a de um narrador que se parece demasiado com ele próprio. De levar-nos a acreditar e, ao mesmo tempo, a duvidar do que julgamos verdadeiro ou falso. De domesticar a fantasia mais inverosímil sob o manto diáfano do real e de esconder a realidade mais verosímil sob a insolência da fantasia mais cintilante. Uma forma e uma fórmula, afinal, de E V-M se posicionar diante da literatura e da vida, como ele próprio confessou no citado artigo sobre Duchamp: "una forma de tener, como minimo, dos versiones de un mismo tema: él mismo. Por eso a veces juego con el gato de Schrödinger que encarna la paradoja cuántica de estar vivo y muerto a la vez. En otras palabras, juego a no ser Duchamp y serlo."

Daí, levar-nos a acreditar, a nós leitores, funâmbulos também na corda bamba da escrita vilamatiana, que toda a ficção é real e que toda a realidade ficcionada é uma nova realidade que somos convidados a explorar como expedicionários de um território que existe «fora daqui» e onde, aí sim, sugere Vila-Matas, nos adentramos na vida. Até porque, como escreveu Pessoa, "a literatura não é mais do que uma tentativa de tornar real a vida".

"Que tengan ustedes muy buenas noches y una vida absolutamente maravillosa", despediu-se E V-M no artigo sobre Duchamp. Eu, certamente, irei ter uma boa noite de leitura maravillosa.

17 de fevereiro de 2012

Dickens para governantes


Leio no Guardian que, por ocasião do bicentenário do nascimento de Charles Dickens (7 de Fevereiro de 1812), o ministro da Cultura do governo inglês ofereceu, aleatoriamente, segundo o próprio, aos seus colegas, o primeiro ministro à cabeça, um livro do genial autor de "David Copperfield". A David Cameron ofereceu, talvez numa alusão, digo eu, à crise que o seu país e a Europa atravessam e que, costuma ouvir-se dizer com inconfessado cinismo, para além dos dramas que provoca também gera oportunidades, "Tempos Difíceis" e "Grandes Esperanças", que também seriam adequados para qualquer outro primeiro ministro europeu, embora me pareça que alguns deles, a começar pela senhora Merckel, não são muito dados a leituras literárias.

Comentando esta oferenda literária, numa crónica no Corriere della Sera, o escritor triestino Claudio Magris, com confessada intenção simbólica,  diz-nos que não obstante a sua paixão absoluta por Os cadernos póstumos do clube Pickwick, não hesitaria em oferecer David Copperfield ao presidente do Conselho do governo de Itália, porque, em sua opinião, "não é um romance político", sendo, por isso, aquele cuja leitura melhor conviria a Mario Monti, cujo governo se discute "se é ou não político".

Ponho-me a pensar que livros de Dickens poderia, também, eu oferecer ao nosso primeiro ministro para ajudá-lo a melhorar o seu sentido de justiça social e a compreender melhor a infelicidade quotidiana que as medidas do seu governo vão gerando em sectores crescentes da nossa população. A Passos Coelho que, confessou que, à noite, em casa, quase nunca vê televisão, o que lhe dará vantagem para leitura, oferecer-lhe-ia, então, um dos livros oferecidos a Cameron, Tempos difíceis, onde Dickens critica com acidez as deploráveis condições de vida dos operários ingleses e o fosso abismal que existia entre a sua vida precária e o fausto obsceno dos ricos da Inglaterra vitoriana, enfim, algo que nos vai sendo familiar quando nos damos conta do desemprego que alastra e vai queimando as esperanças dos portugueses.

Mas, talvez, mais proveitoso para todos, fosse recomendar-lhe que transformasse algumas reuniões do Conselho de Ministros num "conselho de leitores" dos livros de Dickens para, assim, aprenderem com ele a observar o mundo dos mais desprotegidos que se vai desmoronando à sua volta. É que, para nossa desgraça, os difíceis tempos que vamos vivendo parecem-se, cada vez mais, com os seus Tempos difíceis. E David Copperfield, Contos de Natal, Oliver Twist ou Historia de duas cidades, entre muitos outras obras que Dickens nos legou, para além de clássicos imprescindíveis em qualquer biblioteca, mesmo em bibliotecas de ministros mais dados às letras bancárias do que às literárias, de repente voltaram a ficar actuais. Não poderiam ser personagens de Oliver Twist muitas crianças que hoje vão para as escolas sem tomar o pequeno-almoço porque os pais já não têm como alimentá-los por se encontrarem desempregados? E os despejados de suas casas por já não poderem pagar as hipotecas a que estavam sujeitos por terem ficado sem emprego não nos fazem pensar nos mesmos métodos do usurário Scrooge em Conto de Natal ou do avarento Uriah Heep em David Copperfield?

A quem se dirigia Dickens quando escreveu "Oh, economistas utilitários, comissários de realidades, elegantes incrédulos... se continuardes enchendo de pobres a vossa sociedade e não cultivardes neles a esperança, quando tiverdes conseguido arrancar das suas almas todo o idealismo e eles se encontrarem a sós com a sua vida vazia, a realidade converter-se-á num lobo e devorar-vos-á"? Aos usurários e agiotas do seu tempo ou, premonitoriamente, aos especuladores financeiros de hoje que criaram os tempos difíceis em que vamos vivendo, perante o olhar complacente dos economistas apaniguados neo-liberalismo? Que diriam Álvaro e Gaspar se lessem Dickens, hoje, em conselho de leitores?


14 de fevereiro de 2012

Enamoramento e amor


Consta que o venerado Valentim, mártir romano cúmplice dos amantes, conforme reza a lenda cristã, pagou caro com o seu sangue o engenhoso palíndromo “Romamor” em que defendia que o sentimento amoroso é uma matéria tempestuosa à qual não se pode escapar. Platão dedicou ao amor um dos seus mais famosos “Diálogos”, pondo na boca dos convivas do alegre “banquete” distintas maneiras de amar: o amor terreno com seu sedutor catálogo de tentações carnais e o amor idílico e platónico que ignora as possibilidades do corpo. O poeta latino Ovídio oferece-nos na "Arte de Amar" um manual do ofício da sedução, da infidelidade, do engano e do prazer sexual, elaborado a partir das suas próprias experiências. Como divindade mundana, Eros tende a favorecer até ao ilimitado essa atração tumultuosa entre indivíduos de sexo contrário. 

De que falamos, então, quando falamos de amor? Talvez melhor do que em qualquer tratado sobre esse sentimento volúvel, é na literatura que encontramos o melhor catálogo de vivências da paixão amorosa. Porque o amor é, como diz Jorge Luis Borges, uma paixão literária “com as suas mitologias, com as suas pequenas magias inúteis” que convoca uma retórica, umas vezes platónica e elegíaca, outras vezes carnal e voluptuosa, das possibilidades do corpo.

Por isso, neste dia de São Valentim em que se evoca o enamoramento e o acasalamento, procuro no meu catálogo volúvel de histórias de amor duas representações distintas dessa retórica de encontros e desencontros geradora de incontrolados eflúvios hormonais, e proponho aos amantes que por aqui passarem que escolham a retórica da paixão que mais aprouver às suas tentações ou sublimações amorosas.

Que escolham, pois, entre Orgulho e preconceito, de Jane Austen, em que o amor está sempre à beira do casamento encerrando o sonho romântico, e Madame de Bovary, o romance do amor cego, adúltero e trágico por excelência, oferecido por Flaubert. Mas não os leiam esta noite, porque a leitura, parece, prejudica seriamente o amor e vice-versa.

À espera dos bárbaros


Por estes dias em que a Grécia se vê ameaçada pela nova barbárie estrangeira que já acampa junto às suas fronteiras aguardando o seu colapso financeiro e social, recordo o poema "À espera dos bárbaros", do grande poeta helénico do século XX, nascido em Alexandria, Constantino Cavafis (1863-1933), que numa alegoria ao desmoronamento do Império romano, recria uma cidade decadente, com políticos imóveis diante da ameaça estrangeira, preferindo a retórica da submissão à acção mobilizadora.

Revejo as imagens do parlamento grego reunido na noite ateniense em chamas para aprovar novo pacote de medidas de austeridade, mas são, ainda, as palavra de Kavafis que melhor iluminam a noite:

"O que esperamos na ágora reunidos? / É que os bárbaros chegam hoje. / Por que tanta apatia no senado? / Os senadores não legislam mais? / É que os bárbaros chegam hoje. / Que leis hão-de fazer os senadores? / Os bárbaros que chegam as farão. / 

Por que o imperador se ergueu tão cedo
 / e de coroa solene se assentou
 / em seu trono, à porta magna da cidade?

 / É que os bárbaros chegam hoje.
 /  O nosso imperador conta saudar
 / o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe / 
um pergaminho no qual estão escritos / 
muitos nomes e títulos.

 / Por que hoje os dois cônsules e os pretores / 
usam togas de púrpura, bordadas, / 
e pulseiras com grandes ametistas / 
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas? / 
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
 / de ouro e prata finamente cravejados? / 

É que os bárbaros chegam hoje,
 / tais coisas os deslumbram.

 / Por que não vêm os dignos oradores
 / derramar o seu verbo como sempre? / 

É que os bárbaros chegam hoje / e aborrecem arengas, eloquências.

 / Por que subitamente esta inquietude?
 / (Que seriedade nas fisionomias!)
 / Por que tão rápido as ruas se esvaziam
 / e todos voltam para casa preocupados? / 

Porque é já noite, os bárbaros não vêm / e gente recém-chegada das fronteiras
 / diz que não há mais bárbaros.

 / Sem bárbaros o que será de nós?
 / Ah! eles eram uma solução."


12 de fevereiro de 2012

Naufrágio com espectador


Quando tudo fazia prever que o centenário do naufrágio do "Titanic", seria mais uma comemoração nostálgica de uma tragédia longínqua, relativamente à qual seríamos, uma vez mais, espectadores de desastres alheios, com o vago prazer que produzem as catástrofes longínquas que nos chegam em livros e filmes que lemos e vemos como leitores contemplativos ou espectadores obscenos, eis que a tragédia recente do "Costa Concordia" nos vem lembrar que os desastres marítimos, e não só, são, afinal, bem actuais. E inquietante coincidência, o "Concordia" fora palco de rodagem do filme de Jean-Luc Godard, estreado em 2010 no festival de Cannes, que pretende ser uma reflexão-profecia sobre a decadência e o fim da Europa. No filme, enquanto o navio viaja através da noite escura, e os passageiros fingem divertir-se, falam ao telemóvel, vagueiam sem rumo, uma mulher jovem, na coberta do navio, murmura: "Pobre Europa, conspurcada, humilhada pelo sofrimento".

Entre as interessantes comparações que, por estes dias, se fizeram entre o naufrágio do "Concordia" e o do "Titanic, além daquela que leva a concluir que é mais fácil chocar com um iceberg do que com uma ilha, ficámos, também, a saber que o primeiro se afundou às escuras e o segundo com todas as luzes acesas e com a orquestra tocando, o que é mais consentâneo com a sociedade-espectáculo em que vamos vivendo.

Quanto aos capitães, enquanto o do Concordia parece ter sido o primeiro a fugir, o do "Titanic" afundou-se com o navio, transformando-se num exemplo de coragem e heroísmo gravado num epitáfio num monumento novaiorquino: "Faithful in duty. Friendly in spirit. Firm in command. Fearless in disaster. He saved women and children and went down with his ships". Conta-se que no "Concordia", a correria para os salva-vidas foi caótica, com os mais fortes a empurrar mulheres e a pisar crianças no afã de chegar primeiro aos botes. No "Titanic, a fazer fé na estatística dos sobreviventes, os homens honraram o protocolo de "as mulheres e as crianças primeiro" instituído após o épico naufrágio, em 1852, perto da Cidade do Cabo, em frente de Danger Point (!), da fragata britânica "HMS Birkenhead", em que os soldados e oficiais do 73 Regimento de Infantaria, permaneceram em formação na coberta, enquanto as mulheres e as crianças a bordo (familiares dos militares) subiam para as lanchas e se punham a salvo. No "Titanic", as coisas não terão sido heróicas do mesmo modo, já que, a prioridade foi dada às crianças da primeira classe e só depois às da segunda e terceira classes (segundo as mesmas estatísticas, no "Titanic" 94% das crianças que viajavam em primeira classe salvaram-se, enquanto na terceira classe a mortalidade ascendeu a 75%).

Outra diferença entre os dois naufrágios, é que enquanto o "Titanic" se afundava no meio do mar, a muitas milhas da costa e, portanto, sem espectadores, o "Concordia" afundou-se a 150 metros da terra perante o olhar contemplativo de muitos espectadores, o que me leva ao ensaio de Hans Blumenberg Naufrágio com espectador (1979), em que o filósofo alemão lembra que o naufrágio sempre foi uma "metáfora existencial", tal como se encontra no Proémio do livro de Lucrécio Rerum Natura, sublinhando a posição segura em terra firme a partir da qual espectador observa a cena do heróico naufrágio dos audazes navegadores. A partir da metáfora do naufrágio, Blumenberg produz um excelente argumento de como a oposição terra/mar determina todo um conjunto de outras que vão vigorando historicamente até à "modernidade", de entre as quais as que são determinadas pelo nihilismo moderno marcado pela tensão entre a segurança de quem fica em terra, isto é, no seu lugar e a insegurança de quem, saindo do seu lugar, violando as fronteiras, se expõe ao perigo e ao desastre.

Estas a posição antagónica entre o espectador e o naufrago. Já Lucrécio, o espectador, contemplava desde terra firme o desastre marítimo alheio: "é doce, quando no mar imenso os ventos agitam as águas./ observar a partir de terra as tribulações alheias", o que me faz regressar à actualidade do naufrágio do "Concordia" à vista de todo o mundo e à alegoria da nossa existência actual enquanto observadores passivos diante do desastre que pensávamos ser apenas alheio - o naufrágio financeiro e social da Grécia diante da contemplação obscena das instâncias políticas europeias -, mas que, afinal, se revela poder vir a ser um naufrágio geral de uma Europa à deriva após o capitalismo ter violado as fronteiras da decência. Blumenberg, citando Pascal, coloca-nos na posição de navegadores prestes a naufragar: "vous êtes embarqués". E embarcados numa viagem de alto risco, entre "recifes, tempestades, abismos e calmaria", sem timoneiro ou ancoradouro que nos ponha a salvo da crise que aí está para nos afundar. Mas não igualmente todos, porque nesta embarcação, tal como no "Concordia", os capitães da finança e da política estabelecida serão os primeiros a pôr-se a salvo; e tal como no "Titanic", os que viajam em primeira classe têm já os salva-vidas à sua espera, enquanto os que viajam em segunda e terceira classes dificilmente chegarão a eles.

Talvez, por isso, Enrique Vila-Matas nos tenha lembrado, recentemente, numa crónica no El País, intitulada El naufragio por excelencia, sobre o "relato do mais famoso naufrágio do século XVII", Les Naufragés du Batavia, de Simon Leys,  que "as ansiedades, crises e catástrofes são apenas isso, ansiedades, crises e catástrofes, mas o pior pode vir depois. Nestes tempos em que, com estranha constância, sem o menor desfalecimento, as notícias financeiras diárias se mostram ensimesmadas numa já quase complacente descrição do naufrágio geral, seria bom lembrar que nem tudo termina numa crise recorrente e que, às vezes, pode encontrar-se no outro lado da porta algo ainda mais ligeiramente infame: o tempo do horror." "É que todos esperamos o barco de Java, a embarcação capaz de vir em nosso socorro com a sua vela branca, tão necessária por estes dias."