18 de fevereiro de 2014

Odisseia de desilusão


"Nenhuma viagem é demasiado longa e perigosa, sobretudo se traz de volta a casa. Mas existem ainda casas onde voltar, alguma vez existiram?", pergunta Salvatore Cippico em Às Cegas, o último livro de Claudio Magris, um oceano de palavras em cujas águas imensas e escuras se misturam matéria ficcional, documental, autobiográfica, ensaística, histórica e epistolar através de uma voz confessional que navega à deriva entre a epopeia e o delírio, entre o mito e a realidade, para depois da funesta travessia regressar não a casa, como Jasão, mas a um manicómio, sem o tosão de ouro cuja busca foi a razão da sua odisseia. Claudio Magris trabalha aqui um motivo recorrente na sua obra: o do indivíduo à deriva, orfão da ideologia, já sem figura de proa que o guie no nevoeiro que se adensa sobre o mundo, e que, num derradeiro acto de esperança, se lança para diante, às cegas, avançando e perdendo-se continuamente num "delírio de muitos" - como chamaria Musil -, ora naufragando em travessias marítimas ora no naufrágio colectivo das utopias.  

A pergunta que Salvatore Cippico faz a si próprio, e a nós todos, é se ele, atravessando continentes e séculos, pode regressar a casa, a Ítaca, confirmando o sentido da sua existência ou se será forçado a ir sempre adiante e sempre mais longe avançando e perdendo-se continuamente, num "delírio de muitos", nas ilusões em que fundou, e afundou, a sua vida, descobrindo assombradamente a falta de sentido das coisas e do mundo. Odisseia de desilusão e sem retorno porque esta é uma viagem onde o indivíduo viaja às cegas no turbilhão do mundo, e quando pretende regressar o mundo inteiro já se converteu num país estrangeiro, logo num país para onde já não existe a necessidade de regressar e, muito menos, a de voltar a casa, porque a própria casa em que habitava a utopia também já não existe.

Ao contrário da Odisseia de Homero onde Ulisses regressa a casa com a sua identidade confirmada ou da odisseia de Joyce onde Leopold Bloom também regressa a casa numa viagem circular eliptica, esta é uma odisseia que expressa a impossibilidade de encontrar um significado para a viagem, a errância às cegas que conduz ao naufrágio da existência daqueles argonautas das causas sociais que, depois de terem circum-navegado as utopias, empreendem a impossível viagem de regresso, ao contrário de Jasão, sem o tosão de ouro, roubado, entretanto, por aqueles que ficaram em terra. 

Odisseia sem retorno a Ítaca do revolucionário Salvatore Cippico que, num hospital psiquiátrico, recorda a sua vida, confundindo-a com as de vários aventureiros, uns reais, como Jorgen Jorgensen (1780-1841), que se autoproclamou rei da Islândia, outros míticos, como Jasão, das Argonáuticas, de Apolônio de Rhodes, entre outros que, como ele, se lançaram para diante avançando e perdendo-se continuamente, desagregando-se num "delírio de muitos" como o Ulisses "sem qualidades" de Musil. 

"Mas como lidar com todo este vai e vem, com tantas coisas que se sobrepõem umas às outras, anos e países e mares e prisões e rostos e factos e pensamentos e uma vez mais prisões e os céus fendidos da noite de onde o sangue sai em golfadas e feridas e fugas e quedas... E a vida, tantas vidas, não se pode mantê-las juntas". Através de um delirio de vozes - de Cippico, protagonista e narrador desta odisseia colectiva sem retorno e do seu alter ego Jorgen Jorgensen -  em que ressoam as de outros malogrados perdidos nas dobras da história e que Magris, num oceano de palavras que fluem e refluem livremente, "resgata para a literatura" através da narrativa de um louco sobre a sua própria odisseia no tempo e no espaço, e que se polariza nas categorias antagónicas dos que fazem a revolução, dos que a reprimem e dos que a atraiçoam. 

Salvatore - cuja história Magris já havia contado em Outro mar, em Microcosmos e num dos artigos de Utopia e desencanto - é um daqueles dois mil operários de Monfalcone, militantes comunistas que tinham estado nos Lager alemães e nas prisões fascistas, e que foram, depois, construir o socialismo na Jugoslávia de Tito, cruzando-se no caminho com 300.000 italianos em fuga desde a Istria, Fiume e Dalmacia, para se instalarem na Itália. Salvatore vê-se a si tróprio como Jorgen Jorgensen, aventureiro dinamarquês que viveu no século XIX, participou das guerras napoleónicas, autoproclamou-se rei da Islândia e fundou a capital da Tasmânia. O liga a navegação temerária de ambos é o mito de Jasão, o argonauta grego que partiu em busca do tosão de ouro e teve filhos com Medeia. Só que "ele, Jasão, regressa com o tosão, mas [Salvatore e Jorgen] [...] quando acorda[m] o tesouro já lá não está. Onde está a bandeira vermelha, quem a roubou?"

Como Orfeu, ambos perderam "Eurídice que [os] vê voltar e abandoná-la para sempre e ao nada": Jorgen desertando para as lonjuras do mundo, Salvatore trocando-a pela "bandeira vermelha". O ponto de passagem dessa perspectiva narrativa que mistura biografia, mito e história é, por isso, a figura feminina, que sempre evoca Maria que ora se mostra como a figura esculpida na proa dos navios que avançam temerosamente no mar ora como pecado original pela traição cometida. A inútil traição ao amor em nome dos amanhãs que cantam que nunca chegarão. Por isso, a loucura como derradeira expressão das vidas afundadas. Ou como diz o provérbio da Ístria que abre e fecha o romance: "Caro Cogoi, semo cagai". Em bom português: "Caro Cogoi, estamos fodidos".


13 de fevereiro de 2014

A dor dos animais



Mary, uma elefanta de circo executada em 1916, no Tennessee, diante de uma multidão de milhares de pessoas, após reagir a maus tratos e matar um treinador tem sido interpretada como símbolo da repressão e abuso contra animais em circos. A execução com um tiro na cabeça, no passado domingo, no zoo de Copenhaga, de Marius, uma jovem girafa, não por se ter revoltado contra o tratador mas para prevenir problemas de consanguinidade e, depois, esquartejada em bárbaro espectáculo diante dos visitantes, com peritos a explicarem a anatomia do animal aos presentes, entre os quais muitas crianças, antes de ser servida de repasto aos leões, poderia bem constituir um dos inumeráveis remakes da mesma violência infligida pelo homem aos animais. 

O que liga estes dois acontecimentos aos muitos outros sofrimentos que o homem inflige aos animais de maneira menos visível como na produção de carne, na extracção de peles, na indústria de cosméticos, em práticas culturais, em experiências científicas, não é tanto a crueldade sádica mas uma violência banal, endémica, contra os animais que prefigura sempre uma violência contra os homens: “A crueldade contra os animais acostuma-nos à crueldade contra os homens”, avisa Coetzee em A vida dos animais. Como neste relato sanguinário que no romance-ensaio Às Cegas, Claudio Magris põe na boca do aventureiro islandês descobridor da Tasmânia: “Matar os fugitivos, os cangurus, as baleias – todas as baleias, auspiciou o governador Collins, porque atrapalham as actividades na foz do Derwent – as focas. Na grande baía de North Cape centenas de carcaças de focas esfoladas jazem na praia; os barcos carregados com a sua pele vão-se afastando da margem em direcção ao navio, os pássaros estão já a descarnar os animais macerados à paulada e até mesmo os filhotes são cândidos pompons emporcalhados de sangue. A extensa onda anuncia-se como um sopro profundo, as baleias chegam à foz do Derwent prenhes, viajaram milhares de quilómetros para ali virem parir, como fazem há milénios; as pequenas baleias saem do ventre das mães arpoadas, sangue viscoso do parto e sangue límpido da morte”. 

Conta W. G. Sebald, em Os Anéis de Saturno, que um tal Noël de Marinière, inspector do mercado do peixe de Rouen, viu um dia com espanto um par de arenques que ainda mexiam ao cabo de duas ou três horas em seco e decidiu averiguar melhor qual a capacidade de sobrevivência destes peixes, o que fez cortando-lhes as barbatanas e mutilando-os de diversas maneiras. Este procedimento, inspirado pelo nosso impulso para o saber, é por assim dizer o ponto culminante da história de dor de uma espécie constantemente ameaçada de catástrofe”.  Não observámos já, também nós, nos nossos mercados de peixe, uma cena de crueldade semelhante que ignorámos na convicção de que a fisiologia dos peixes os isenta do medo e das dores que sofrem os corpos e as almas humanas no estertor da morte? 

Donde provém esta banalização do mal contra os animais capaz de estender-se, como a História já comprovou demasiadas vezes, aos próprios homens? Trata-se de uma convicção sem consistência baseada numa convicção antropomórfica arbitrária, segundo a qual os animais não são seres sencientes, não sofrem. Esta convicção resulta de uma cisão entre natureza e cultura que, diz-nos Hölderlin, nos deixou órfãos dos deuses e sem possibilidade de redenção. Ora a etologia ensina-nos que os animais não têm apenas mecanismos instintivos, como a ignorância de alguns e o comodismo de quase todos fazem acreditar. É que - como considera a personagem do romance de Robert Musil que não tendo qualidades alheias, tinha, contudo, a qualidade de reconhecer a alma dos animais -, se Deus se fez homem, poderia ou deveria também fazer-se gato ou flor.

Como olhar com bondade para os animais se a nossa cultura não vem nem dos bosques do poeta Eichendorff nem do mar de Melville, pergunta-se Claudio Magris, em Danúbio? Para afirmar, em seguida, que a mundanidade social constitui o nosso horizonte. Civilização e moral baseiam-se, assim, na distinção entre homens e animais cujas existências mínimas fazemos por ignorar a não ser na sua coisificação em nosso proveito, como sustenta Kant: “As nossas obrigações com os animais são apenas obrigações indirectas com a humanidade.”

A fraternidade solidária humana - que não obstante a sua retórica hipócrita não pára de falhar, atirando os desprotegidos do mundo para a pobreza e o sofrimento - não apenas exclui os animais como, sem consciência da irredimível dor causada, retira à própria Humanidade qualquer esperança de redenção, como afirma Magris: “A irredimível dor dos animais, povo obscuro que acompanha como uma sombra a nossa existência, lança sobre esta última todo o peso do pecado original”.   

Por isso, contra a cegueira que não nos deixa ver o medo e dor dos animais, reconhecer que também a elefanta Mary e a girafa Marius têm direitos universais e invioláveis. E deixarmo-nos, como Marguerite Yourcenar, comover perante "este aspecto perturbador do animal que não possui nada, a não ser a vida que quase sempre nós lhe roubamos”.

5 de fevereiro de 2014

Dez moradas de leitura


Dizia Jorge Luis Borges que deixava aos outros vangloriarem-se dos livros que tinham escrito e que a sua glória consistia antes nos livros que havia lido. E Roberto Bolaño que era "muito mais feliz lendo que escrevendo". Ora eu - que também me confesso um leitor feliz e dilatório, não o leitor interactivo dos livros da moda, mas o leitor iterativo, assediado pelos labirintos de tinta embebida nos livros, e embora perdendo neste escrevinhar algum tempo precioso que poderia, gloriosamente, dedicar à leitura e, assim, alcançar a felicidade breve nesta curva da noite -, correspondendo a um jogo a que alguém deu início no facebook e ao qual resisto a contornar, dou por mim, agora, a dis-correr entre as prateleiras da minha biblioteca, entretendo-me a namoriscá-la, cortejando-a nas suas múltiplas e distintas moradas, para, depois, uma a uma, mover o fecho de algumas portas  e entrar, ainda e sempre, como um leitor insaciado, nos aposentos de dez livros que li gloriosamente.
 
São, portanto, dez moradas habitadas por livros que fazem parte da minha genealogia de leitor feliz e glorioso - e digo fazem parte, porque o labirinto de ruas em que se alinham e desalinham as moradas cujos fechos das portas vos convido a girar integram uma biblioteca com uma cartografia mais ampla através da qual - como diria Walter Benjamin - gosto de perder-me como quem se perde num bosque, com instrução.

Se é verdade que na minha biblioteca, os aposentos onde moram os livros se distribuem de acordo com uma arrumação, um protocolo que põe em evidência o irredutível mistério e encanto de quem lá habita, convidando a perder-me com instrução nos seus labirintos, a lista com que me proponho, nesta noite irrepetível, entrar na corrente, no jogo livresco que vai amontoando entre as pregas das páginas do facebook constelações pessoais de livros, não obedece a qualquer ordem, pois depende de uma flânerie efabulante que me levou a mover, ao acaso, um fecho de uma porta para entrar numa morada em vez de outra, seguindo imperativos ou prazeres do imaginário volúvel de leituras.

Nenhuma lógica, portanto, liga ou determina a contiguidade desta genealogia de livros amados que como um apaixonado fui buscar à reserva (ou ao tesouro?) das minhas leituras afectivas. Tão pouco obedece a uma cronologia de leitura - com excepção do primeiro livro da lista que foi, efectivamente, o primeiro livro que li e amei, ficando, portanto, destinado a permanecer para sempre como o Livro inicial -, pois os livros escolhidos para esta lista, que tenderá como qualquer lista a não ter fim, giram como um calendário perpectual, uma constelação de moradas de leitura afectiva, intensiva e portátil, cujas portas giratórias deixo entreabertas à vossa curiosidade de leitores gloriosos.

. A Ilha do Tesouro (Robert Louis Stevenson), onde vivi a minha primeira odisseia do espírito e me deixei arrebatar por um imaginário que me revelou que havia mais mundos do que aquele eu habitava.
. Lorde Jim (Joseph Conrad), com quem embarquei no primeiro navio que saía do porto de abrigo do meu quarto de adolescente e em cujas páginas me abandonei ao desconhecido das costas do Pacífico.
. O Homem Sem Qualidades (Robert Musil), onde me sentei à mesa dos cafés de Viena observando os homens sem qualidades em apocalipse alegre.
 . As Lojas de Canela (Bruno Schulz), cujos umbrais cruzei para penetrar na colmeia de loucura e metamorfoses em que o autor se encontrava encerrado.
. Jacob von Gunten (Robert Walser), com quem aprendi a arte de escrever a lápis para melhor poder ausentar-me.
. O Castelo (Franz Kafka), que li como um agrimensor de sentidos ocultos.
. Rayuela (Julio Cortázar), onde aprendi a melhor maneira de me perder em Paris.
. Debaixo do Vulcão (Malcolm Lowry), onde vi o cônsul da embriaguez e dos vulcões se precipitar nos abismos do mescal.
. Os Anéis de Saturno (Sebald, W. G.), sob os quais me tornei um agrimensor de paisagens e de memórias.
. Danúbio (Claudio Magris), cujo caudal me levou numa viagem iniciática através da Mitteleuropa e que não cesso de reiniciar porque o fluir do rio nunca é o mesmo.

29 de janeiro de 2014

A praxis do mal


Ignoro, na verdade ignoramos todos, se a tragédia da praia do Meco que matou seis jovens estará relacionada com um qualquer ritual da chamada praxe académica em que as vítimas estariam obedecendo a ordens do único sobrevivente, conforme suspeição que tem vindo a ser adensada nalguns media e que, ainda, hoje, fazia manchete especulativa num matutino. Isso, ao seu tempo, espero, esperamos, a justiça deverá esclarecer. Mas que - glosando a denúncia de José Pacheco Pereira, expressa no Público de domingo - a praxe suicida, às vezes, o corpo e, quase sempre, o espírito, disso, parece, não existirem  dúvidas.

Só o apagamento de si próprios em praxis como aquelas que os media têm vindo a revelar através de relatos, reportagens e comentários declinados em imagens, umas vezes, grotescas, outras, abjectas, poderá justificar que jovens universitários confundam práticas de integração grupal com o consentimento de posturas de submissão e de humilhação públicas, como deixar-se conduzir por outros mais velhos em alegre cortejo com a cabeça enfiada em orelhas de burro ou arrastar-se pelo chão de pés atados a pedras numa imitação de agrilhoamento ou enfiar a cabeça em excrementos ou aceitar prostações animalescas ou, em casos extremos, roçar o sadomasoquismo ou, ainda, integrar ritos iniciáticos de carácter escatológico que para além de suicidarem o espírito expoêm o corpo ao risco de morte como poderá ter acontecido no Meco. E muitos, ao fim da noite, para que o descontrolo seja total, num vórtice de embriaguez.

A praxe, isto é, todas aquelas praxis que vêm sendo divulgadas nas televisões e que, como tudo indica, se encontram disseminadas na generalidade das instituições universitárias tanto públicas como privadas, suicida o espírito, já violou corpos e poderá ter matado, enquanto autoridades públicas, reitorias, famílias, enfim, nós todos, fomos ficando de "olhos vendados" - como ficaram os personagens daquele romance-ensaio Às cegas, de Claudio Magris, que fornece motivos recorrentes a quem o ler para manter os olhos bem abertos num mundo à deriva - diante dos cortejos de jovens seguindo bovinamente uma colher de pau gigante e fazendo pantominas parolas envoltas no kitsch  technicolorido da transgressão.

É que, ali, naquela transgressão, todos os que estão a ser iniciados, é promovida a sua homogeneização, o seu nivelamento [e, sobretudo], a sua desinvidualização", como explica a socióloga Rita Ribeiro em entrevista no Público do passado domingo.  E desinvidualização que converte aquela praxis numa experiência de labor, o que justifica o espírito bovino presente nas cerimónias de iniciação, remetendo para o conceito de animal laborans - expresso por Hannah Arendt em A Condição Humana - que reduz o indivíduo a um estádio primitivo e infra-humano indiferenciado dos animais.

Entretanto, as reitorias por questões políticas, porque querem ter os alunos do seu lado; muitos alunos, por não querem afrontar as hierarquias estabelecidas ou por medo de retaliação; os governos, por acharem que o problema tem de ser resolvido dentro da autonomia universitária; e nós todos, por acharmos que aquilo não é nada connosco e que se trata, tão só, de brincadeiras de alunos crescidos que o fazem de livre vontade, como, ainda hoje, declarava levianamente em comunicado, numa tentativa patética de desculpabilização, o administrador da universidade a que pertenciam os alunos vitimados. Ora a verdade é que todos somos culpados: as autoridades e as reitorias, porque têm o dever de intervir, expulsando, regulando ou domesticando as praxes; e nós todos, porque temos o dever de não ficar de olhos vendados diante de praxis que promovem a "banalidade do mal" que vai suicidando o espírito e arriscando o corpo dos nossos jovens universitários.

A transgressão praxista, tal como ela nos vem sendo revelada em vídeos disseminados no youtube, exibe não apenas um vazio de pensamento, mas também a "banalidade do mal" - no sentido atribuido por Hannah Arendt a esta expressão no seu polémico livro com o título homónimo -, associada a uma retórica, ou mistificação (que Rui Bebiano desmitifica no seu blogue) que se ilude ao exaltar a trangressão pela transgressão com desprezo completo pela individualidade dos caloiros submetidos, ainda que com o seu aparente, ou mesmo declarado, consentimento à obediência "às cegas" a ordens humilhantes e muitas vezes abjectas, assentes numa ordem hierárquica que promove o apagamento daqueles que são praxados, numa tensão - melhor seria chamar-lhe pulsão dada a fixação erótica presente em alguns rituais - permanente de reprodução das estruturas hierárquicas estudantis. Diante da demência radical da praxe, inteiramente submetidos ao poder dos veteranos, aos caloiros só a obediência "às cegas" lhes resta quando a sua plasticidade foi testada até ao limite da superfluidade.

Apesar da demência radical das praxes, e ouvindo alguns depoimentos de praxistas, é enganador recorrer a explicações patológicas, pois a retórica da transgressão praxista apresenta o crime - porque, em muitos casos, é de um crime que se trata -, como se este, devido ao consentimento, fosse acompanhado pelo seu próprio resgate. Pelo contrário, o que explica a banalidade da transgressão é a cumplicidade da sociedade com uma praxis que escapa ao controlo do exterior, permitindo a criação de uma zona de sombra de crime sem castigo.

Em defesa da retórica da transgressão pela transgressão argumentam os defensores da ordem praxista que existe uma autorização, melhor será dizer, uma intimidação dos caloiros, solicitada e concedida - nalguns casos com declarações assinadas como parece ter sido o caso de uma das jovens mortas na praia do Meco - procurando, deste modo, lavar as suas acções de comando cobertas ainda de lama  e crueldade, na ilusão de que isso lhes confira inocência. Nada mais ilusório porque as circunstâncias determinam mais a intimidação do que a autorização. "Porque - como afirma Hannah Arendt - até o medo é, ainda, um princípio de acção e, enquanto tal, imprevisível nas suas consequências". E porque há direitos individuais que não podem ser disponibilizados mesmo que com o consentimento dos indivíduos.

Ao ver, agora já sem venda nos olhos, as imagens abjectas de jovens lambendo o chão ou esfregando-se em esterco em obediência a um kitsch protofascista, recordar, então, a interrogação fundamental de Primo Lévi "se isto é um homem", sobre a redução do indivíduo ao infra-humano. Importará, por isso, do meu ponto de vista, talvez, não expulsar as praxes, porque isso poderia ter efeitos perversos, arrastando as praxes clandestinas para territórios ainda mais obscuros, mas domesticá-las através da lei e de códigos de conduta. Porque, como escreve Claudio Magris num capítulo de Danúbio dedicado ao "kitsch do mal", "se não houver uma lei, um temor, um dique que os impeça de fazer" [...] o que pode ser feito impunemente, qualquer aluno veterano se poderá transformar num dux totalitário.

E ao mesmo tempo, contrapôr ao mal da praxis actual a ética da convicção e da responsabilidade - como diria Max Weber -, levando os jovens universitários a interrogarem as possibilidades: porquê esta praxis quando se pode sempre praticar outra?

24 de janeiro de 2014

A Viena dos cafés


Viena, capital do império habsburguiana, em cujos cafés - Sperl, Landtmann, Hawelka, Griensteidl, Braunerhof, Central -, Stefan Zweig descreve, em Mundo de Ontem, como "uma instituição especial, que não pode ser comparada a nenhuma outra em qualquer outro lugar do mundo. Um tipo de clube democrático, onde basta comprar uma chávena barata de café para participar, onde cada convidado para esse pequeno Obolus pode ficar por horas sentado, a discutir, escrever, jogar cartas, receber seu correio e, acima de tudo, consumir um número ilimitado de jornais e revistas."

Viena em cujos cafés, nos anos de vertigem que prenunciaram e, depois, confirmaram, a desintegração do império, e do mito, habsburguiano, se sentavam "os homens que duvidavam que o seu mundo pudesse ter um futuro e não queriam resolver as contradições do velho império mas antes diferir a sua solução", como escreve Claudio Magris, no seu monumental romance-ensaio DanúbioGustav Klimt e Egon Schiele, no Sperl, pagando com desenhos o que consumiam. Freud, no Landtmann,  dando lições até ao entardecer a quem o quisesse ouvir, sobre a interpretação dos sonhos. Stefan Zweig e Hoffmannsthal, no Griensteidl, escrevendo um libreto para Richard Strauss. Elias Canetti, no Hawelka, observando, no outro lado da rua, a casa de penhores evocada no Auto de Fé. Karl Kraus no Central, situando nele a "estação meteorológica do fim do mundo". Joseph Roth de passagem pelo Central na sua "fuga sem fim". Homens sem qualidades "que querem estar sós, mas que necessitam de companhia para fazê-lo", como declarou Alfred Polgar: "isto não é um café como os outros mas uma exposição mundial, uma exposição na qual o seu conteúdo mais importante é não ver o mundo".

Ainda o Central em cujas mesas mesas habitava Peter Altenberg, "o poeta sem casa, que gostava dos quartos anónimos e das pensões e de postais ilustrados" para escrever as suas incendiárias parábolas, anotações breves de deslumbramento ou de sombra, epifanias através das quais a vida revela a sua graça ou o seu vazio e a História mostra através das suas invisíveis fissuras os sinais contraditórios do seu crepúsculo por vir - e onde, um dia, julguei tê-lo visto à porta saudando quem entrava e saía, mas que se revelou ser, afinal, um seu manequim em papel maché. E onde, também, se sentava Leo Bronstein, nome pelo qual era conhecido Trotski que, como conta Claudio Magris, terá suscitado a seguinte reacção de um político austríaco à denuncia de preparativos revolucionários em curso na Rússia: "E quem fará a revolução, na Rússia? Talvez esse senhor Bronstein que passa todo o dia no Café Central?"

Cafés vienenses transformados num teatro kafkiano de Oklahoma onde homens "exaltados ou visionários" representam sem saber a irrealidade da vida, ora se deixando ir, contemplativos, em "apocalipse alegre" - para utilizar a fórmula utilizada por Hermann Broch para descrever o modo como os austríacos viveram o nihilismo de fin de siècle - ora afrontando como "o homem sem qualidades" de Musil a vertigem do vazio da era moderna, sem nele se despenharem. 

Nos cafés de Viena morria a velha Austria e com ela morria também a transcendência dos seus cafés literários que, embora ainda lá se encontrem, já não são habitados pelos homens musilianos "exaltados" ou "visionários", mas antes por epígonos nostálgicos, visitantes refinados e turistas fetichistas que se passeiam, contemplativos à sua maneira, entre mesas sem aura. 

18 de janeiro de 2014

A Europa dos cafés


A Europa era feita de cafés. Uma cartografia de encontro de poetas, escritores, artistas, filósofos, revolucionários, flâneurs. Como se a própria Europa fosse um grande café, lugar de hábitos metódicos e dos vaivéns casuais.

"Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa", escreve George Steiner no ensaio A ideia da Europa. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Também de renuncia, como nos cafés de Viena, onde os homens sem qualidades de Musil representavam sem saber a irrealidade da vida, ora se deixando ir, contemplativos, em "apocalipse alegre", ora afrontando a vertigem do vazio da era moderna, sem nele se despenharem.

Lisboa onde ao entardecer, metódica e pontualmente, como num rito sagrado, Pessoa se sentava numa mesa de canto do Martinho da Arcada, desdobrando-se, em desassossego interior, em Bernardo Soares para meditar em vão sobre "metafísicas perdidas pelos cantos dos cafés de todo o lado, as ideias casuais de tanto casual, as instituições de tanto zé-ninguém". Ou a Brasileira do Chiado onde nas tertúlias de antanho era comum verem-se os restos da Carbonária numa mesa, os integralistas noutra e Pessoa e Almada Negreiros noutra ainda. Ou o Majestic, no Porto, "onde - conta Agustina Bessa Luís - se juntavam músicos e pintores do tempo duma boémia que o burguês via com enfado".

Lisboa: Pessoa no Martinho da Arcada inventando a mais profunda genealogia da literatura portuguesa. Paris: Sartre e Simone de Beauvoir no Café de Flore, num amplexo amoroso, entre duas reuniões "existencialistas". Berlim: Walter Benjamin no Café Tiergarten, traçando "labirintos de tinta embebidos nos [seus] cadernos". Copenhaga: Kierkegaard num vaivem meditativo entre cafés, lançando as bases do existencialismo. Trieste: Claudio Magris navegando pelo Danúbio no Café San Marco, "um verdadeiro café, situado na periferia da História". Praga: Kafka pousando a sua existência de morcego no Café Louvre. Budapeste: Deszó Kosztolányi, no Café Sirius, pedindo tinta para escrever, em vez de um café: "- Garçon – dizia – tinta, s´il vous plaît!". Odessa: Isaac Babel pondo em movimento, num café do guetto judeu, os seus gangsters de papel.

Zurique: Lenine, à mesa do café, imaginando uma revolução. James Joyce escrevendo a história moral da Irlanda. Mata-Hari ensaiando os primeiros passos na intriga internacional. As sombras, ainda, de Goethe, Hermann Hesse, Thomas Mann. Enrique Vila-Matas autoficcionando um encontro impossível: "Na manhã seguinte, nevava em Zurique. Saí do hotel com o chapéu de feltro e o meu guarda-chuva, e fui tomar o pequeno almoço ao velho e famoso Café Odeon, de que sempre se disse que Lenine, assíduo cliente daquele estabelecimento, pôde trocar mais de uma palavra com James Joyce, outro cliente habitual. Ah, o Odeon! Lembrei-me que Mata-Hari tinha ali debutado como bailarina. E a seguir imaginei uma cena impossível, imaginei Lenine a beber um café, enquanto lançava olhares furtivos a um exemplar de Gente de Dublin".

E ainda os cafés de Paris revisitados por Enrique Vila-Matas em Paris nunca se acaba, como aquele "café que fica perto do cruzamento da rue du Bac com o boulevard Saint-Germain, onde Perec recomendava que nos sentássemos para observar a rua com um esmero um pouco sistemático e a anotar o que víssemos, o que nos chamasse a atenção, obrigando-nos a nós mesmo a escrever inclusive o que aparentemente não tem interesse, o que é mais evidente, o mais comum, o mais opaco".

Ou o Café La Closerie de Lilas onde um dia me pareceu ver o encantador de garrafas Hemingway, mas que, afinal, se revelou ser um jovem catalão aprendiz de escritor aguardando o melhor momento para sair sem pagar. Ou aquele minúsculo café no Boulevard Jourdan para onde me levavam os meus passos nocturnos desde a Cité Universitaire para, noite adentro, ir enfiando moedas na velha juke-box e ouvir o anarquismo musical de Boris Vian e de Leo Ferré, porque ali não se cantava o fado e a metafísica ocupava todas as mesas.

Desapareceram, entretanto, os cafés da velha Europa. Ou, o que vem dar ao mesmo, apagou-se a aura que os habitava. E os que, ainda, sobrevivem, já não são habitados pela ideia de infinito, mas antes por uma clientela mais ou menos extravagante, composta por epígonos nostálgicos, turistas alheios ao literário, contempladores sensíveis e fetichistas dos bons lugares, confundidos no vaivem dos empregados de mesa sem perceberem que  tudo, ali, afrouxou na aparência das coisas e da sua representação.

13 de janeiro de 2014

O rapto da Europa


Leio no El País (5.Jan.2014) uma entrevista de Martin Schulz, onde Presidente do Parlamento Europeu explica porque, por ocasião, da atribuição do prémio Nobel da Paz à UE, utilizou o romance de Thomas Mann, Os Buddenbrook, como metáfora da Europa actual. "Uma metáfora porque narra uma história através de três gerações: a dos fundadores, a dos administradores e aquela em que se joga a herança. Já passámos pela primeira, também pela que teve de administrar a herança, e não quero pertencer à geração que a destrói". Aquilo a que assistimos nas últimas páginas deste romance é, precisamente, à destruição da herança dos Buddenbrook e, por extensão, à decadência de um mundo, traduzida em termos de tragicidade (isto é, como consciência dividida e infeliz de Thomas Buddenbrook) através das tensões entre o material e o espiritual, os negócios e a arte, a mundaneidade e a vida interior.

Ora as mesmas tensões que assombravam o mundo dos Buddenbrook, assombram, hoje, a Europa que, vítima do seu próprio sucesso após o desmoronamento dos muros que a dividiam, delapidou a ligação afectiva com os seus cidadãos e, em consequência, a carga mítica e utópica que transportava. Perdida a dimensão cultural como demanda trágica de um sentido, tornou-se "frágil na cena do mundo", com dificuldade em "se constituir com um mínimo de coerência política", incapaz quer de superar antigas contradições internas quer a campanha externa persistente no sentido de não deixar o velho continente perseguir o seu sonho, como afirma, desencantado, Eduardo Lourenço (A Europa desencantada: para uma mitologia Europeia). 

"Bruxelas é a capital do vazio», escreve Peter Sloterdijk no livro Se a Europa se levanta. A Europa como "laboratório para a experiência do fim do mundo", conforme uma visão completamente apolítica da existência. Em vez dos cafés, os não-lugares sem alma dos centros comerciais. Em vez da conversa mobilizadora à mesa do café, a delegação, e a denegação, política em "expertocratas que gerem as coisas por nós, de modo a realizar o projecto de nos tornarmos os últimos homens", como afirmou Sloterdijk. Em vez da democracia, a absurda burocracia engendrada pela implementação administrativa do sonho europeu, conforme denuncia Hans Magnus Enzensberger em El gentil monstruo de Bruselas o Europa bajo tutela (Anagrama). Uma Europa que, conforme Walter Laqueur escreve em After the Fall: the End of the European Dream and the Decline of a Continent (Thomas Dunne Books), está condenada a converter-se numa espécie de parque temático do seu desaparecido esplendor. Permanece, por isso, válida a pergunta de Czeslaw Milosz: "Estes homens de negócios de olhares nulos e sorrisos atrofiados… É a esta vérmina que chegou uma civilização tão delicada, tão complexa?"

Desapareceram os cafés da velha Europa que antes eram habitados pela ideia de infinito e, hoje, é a própria Europa que se arrisca, ela própria, a desaparecer, tornando-se numa espécie de parque temático de si mesma, onde vai retro-reflectindo um esplendor apenas apropriado à contemplação obscena de turistas nostálgicos, refinados ou fetichistas de países emergentes que atravessam uma paisagem onde tudo se desumaniza ou desaparece e, inclusive, a própria História se desvanece. Em vez do infinito, o consumismo, como se a Europa tivesse perdido para sempre a sua alma faustiana habitada pela ideia de infinito. 

Assim como se eclipsaram os cafés da velha Europa, também a paixão metafísica se evaporou da nova cartografia espiritual europeia. A literatura já não é a grande máquina da modernidade. Quem são, hoje, os herdeiros da Mitteleuropa? Quem transporta o fogo de Thomas Mann e de Robert Musil? Na Inglaterra, os grandes escritores são indianos, sul-africanos, ou emigraram para a América. W. G. Sebald já cá não está. A literatura encontra-se numa encruzilhada. Ou é uma literatura ensimesmada, sobre o nada. Ou reporta-se a inutilidades pós-modernas, a representações de consumo enjoado. Para onde vai a Europa herdeira das duas cidades, Atenas e Jerusalém? "Com a queda do marxismo na tirania bárbara e na nulidade económica, perdeu-se um grande sonho de – como Trotsky proclamou - o homem comum seguir as pisadas de Aristóteles e Goethe".

E, contudo, nesta espécie de laboratório do consumismo em que se transformou a Europa, e onde cada vez mais somos turistas de nós próprios, consumidores do efémero, ainda guardamos algumas referências: "a santidade do pormenor diminuto" - dizia William Blake - de que é feita a nossa diversidade. Um conjunto de identidades múltiplas em dinamismo triádico de construção, desconstrução e reconstrução e que leva Eduardo Lourenço a afirmar que a "Europa continua a viver-se como continente-Penélope. No que a Europa – como ideal ou utopia – sempre tropeçou, foi em sim mesma", concluindo que "a Europa foi sempre apenas Europas." (A Europa desencantada: para uma mitologia Europeia).

Acredita George Steiner que "o sonho pode, e deve, ser sonhado novamente. É, porventura, apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido da vulnerabilidade trágica da condition humaine poderiam constituir-se como base. É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção" (Uma ideia da Europa) de que ainda é possível não se deixar enganar pelo touro de Ovídio e inverter o ardil a favor da Europa. A Europa como utopia viável ou, como a persegue Eduardo Lourenço, "uma espécie de ideal à maneira de Kant, ponto de fuga do projecto europeu. Não é pouco". (A Europa desencantada: para uma mitologia Europeia).

12 de janeiro de 2014

Despudor televisivo



Comentando a morte de Eusébio, na sua coluna semanal do Público, "Estação Meteorológica", escreve António Guerreiro que "em momentos excepcionalmente favoráveis ao apelo à dramatização e ao olhar que se satisfaz (...) na sua própria emoção, as televisões mostram a sua face mais abjecta: é quando tudo fazem para introduzir as ditaduras do coração". Na semana que passou, aproveitando-se do sentimento de luto daqueles que participaram na homenagem prestada, no Estádio da Luz, ao mítico jogador, as televisões desdobraram-se em relatos, reportagens e comentários de jornalistas levando até ao limite do intolerável o despudor com que inquiriam sobre as emoções de cada um, produzindo uma espécie de delírio colectivo em torno do acontecimento processado mediaticamente de modo a exacerbar os seus efeitos dramáticos. A mesma "violência do despudor" televisivo tinha já atingido um dos seus picos mais abjectos durante os dias que sucederam ao desaparecimento no mar dos seis jovens que foram engolidos por uma onda assassina na praia do Meco, com os mesmos jornalistas, desavergonhadamente sitiados no cenário da tragédia, exercendo a "violência do despudor".

Envergonhamo-nos nós, também, quando, sem respeito pelo luto e pela dor do Outro, nos chega repetidamente através do écran a pergunta despudorada: "o que é que sente?" E a vergonha que sentimos é uma tripla vergonha: vergonha pelo jornalista que faz a pergunta, vergoha, também, por quem se apresta a responder e vergonha, ainda, por nós próprios, por sermos coagidos a nos colocarmos no lugar seguro em que, em nossas casas, nos encontramos como contempladores sensíveis mas indiferentes ao espectáculo dramático que se vai desenrolando diante do nosso olhar sem que tenhamos coragem de nos pormos noutro lugar.

Vistas, assim, as coisas, este jornalismo rasurado responde ao acontecimento não para para lhe dar tonalidade expressiva e retraçá-lo racionalmente, mas para nos introduzir nele como espectadores obscenos cujo ponto de vista é sempre incitado, e excitado, por formas e processos de mediatização que visam a exposição de sentimentos, melhor dizer, o desnudamento da intimidade do Outro.

"Violência do despudor" que só pode ser exercida com a cumplicidade ou, pelo menos, com a aceitação tácita daqueles que a exercem sobre os outros: os jornalistas; daqueles que a sofrem: as pessoas apanhadas na rua; e daqueles que, em suas casas, não mudam de posição diante do écran: os espectadores.

Porque não, então, sempre que a maquinação mediática nos pretenda intimidar, e desnudar, quer sejamos jornalistas com empregos precários ou transeuntes ocasionais em lugares de reportagem ou espectadores sensíveis, não opormos à violência do despudor a objecção da consciência? Porque se os jornalistas, também eles vítimas da violência do medo de perder o emprego, não podem dizer tudo o que pensam, poderão, pelo menos, não perguntar aquilo que desrespeita o luto e a dor alheia. Do mesmo modo que, também, as pessoas apanhadas na rua poderão sempre calar as suas respostas e os espectadores, em casa, mudar de lugar.

6 de janeiro de 2014

A arca de Joseph Joubert


Poderá um nome de um escritor sem livro continuar a cintilar muitos anos após a sua morte, como uma espécie de Bartleby que renunciou não à escrita mas à publicação de um livro que ele não poderia nunca escrever sem ter antes encontrado a nascente de todos os livros? 

«Atormentado pela maldita ambição de colocar um livro inteiro numa página, uma página inteira numa frase e essa frase numa palavra», esse escritor foi, seguramente, Joseph Joubert (1754-1824), escritor sem livro, arquétipo de todos os autores dos livros por vir, a contrapelo com aqueles aqueles que, hoje, ousam publicar sem nunca terem escrito um livro, uma página, uma frase, mas que, ainda assim, encontram sempre uma editora da moda onde depositam a vaidade e a verborreia «literária» perante a histeria tranquila do novo povo do códice [de Da Vinci].  

Joubert escrevia muito, apesar daquela espécie de maldição. Anotações em pequenos cadernos, em papéis soltos, fragmentos de um livro por vir a cuja preparação dedicou toda a sua vida. Mas seria um projecto nunca cumprido, porque - disse - não reuniu as condições para escrever esse livro ideal. Um dia, Chateaubriand perguntou-lhe "para quando esse livro?": «Ainda não o posso fazer - respondeu -, ainda não encontrei a fonte que procuro. Mas se encontrar essa fonte, ainda terei mais motivos para não escrever esse livro que gostarias que eu escrevesse». Parece que Joubert nunca encontrou essa da fonte da escrita que lhe permitiria escrever a «belíssima obra» que segundo os seus amigos lhe estava destinada e que, na sua busca, se tornaria incapaz de perseguir em contraponto com a vulgaridade literária que outros alimentavam, sacrificando o seu livro para procurar a fonte secreta donde brotam todos os livros por escrever. 

«Foi, por isso - escreveu  Blanchot -, um dos primeiros escritores inteiramente modernos, preferindo o centro à esfera, sacrificando os resultados à descoberta das suas condições e escrevendo, não para acrescentar um livro a outro livro, mas mas se tornar senhor do ponto de onde lhe parecia que saíam todos os livros e que, uma vez encontrado, o dispensaria de os escrever». 

E, contudo, ainda que sem a pretensão de publicar, Joubert escrevia ao sabor do que lhe caía dos dias: pensamentos dispersos, anotações de um caminhar seguro em direcção a um grau zero da literatura, «fora das coisas civis e na pura região da Arte», como se fosse já, como atesta Blanchot, «um autor sem livro, um escritor sem escrito». 

Joubert nunca encontrou o espaço adequado para as suas ideias: «As minhas ideias! Custa-me construir a casa onde alojá-las». Outros, porém, encarregar-se-iam disso depois da sua morte. Chateaubriand que publicaria, numa edição ainda privada, reservada aos amigos, os seus «papiers de la malle», com o título Recueil des Pensées de M. Joubert, mais tarde revisto e aumentado por um sobrinho de Joubert e reeditado como Pensées, Essais, Maximes et Correspondances de J. Joubert. Também Paul Auster, responsável pela versão inglesa, com o título The Notebooks of Joseph Joubert.

5 de maio de 2012

Cronópio por acaso

 
Julio Cortázar acreditava no acaso, naquela série de pequenas coisas, de indícios, de combinações, de "coincidências sempre extraordinárias e ao mesmo tempo comuns", como testemunhou o seu amigo e editor Francisco Porrúa, que nos levam, por exemplo, a escolher um caminho em vez de outro, para nele, depois, encontrarmos o que não sabíamos ainda que procurávamos. E eu, se não acreditasse no acaso, começaria, doravante, a acreditar, pois, hoje, pela manhã, ao ter constatado que este ano se cumprem 50 anos da publicação de Histórias de cronópios e de famas - segundo Vargas Llosa, o livro mais "travesso" de Cortázar -, constituindo este facto um daqueles números redondos que nos convidam a celebrar o aniversário de uma figura ou obra literária - circunstância irritante para Enrique Vila-Matas que, para esconjurar esse espírito comemorativo, escreveu durante quase dois anos uma coluna dominical no Diario 16, intitulada Para acabar con los números redondos que, por acaso, por estes dias, ando a ler na antologia Uma vida absolutamente maravillosa -, decidi no instante preciso em que ia sair de casa, talvez guiado por esse "sistema de leis exterior ao nosso" em que Cortázar acreditava, trazer comigo o celebrado livro que inclui um precioso manual de instruções que, fossemos nós mais previdentes, deveríamos trazer sempre connosco para nos ajudar em situações para as quais, às vezes, necessitamos de instruções, como sucedeu, hoje, comigo.

É que, ao fim da tarde, ao regressar a casa, uma avaria no elevador obrigou-me a subir pelas escadas até ao meu andar, isto é, subir como um cronópio sem folgo os catorze lances de escada até ao sétimo andar. Compreendi, então, o insondável motivo que me tinha feito trazer comigo o livro de Cortázar. E o motivo foi tê-lo à mão para consulta, ao final da tarde, para me instruir naquele inesperado empreendimento de subir catorze lances de escadas. E assim, de manual aberto, lá fui lendo as instruções e subindo as escadas "de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incómodas". Ao descansar ao nono lance e ver uma aranha pendurada na sua teia, ainda me ocorreu a "maravilhosa ocupação de cortar-lhe uma pata, colocá-la num envelope, redigir ´Senhor Ministro das Relações Exteriores`, juntar o endereço, descer as escadas aos saltos, despachar a carta no correio da esquina". Mas isso, como já se percebeu, contrariaria as "instruções" que vinha seguindo e, como tal, poderia revelar-se perigoso, pelo que achei melhor não arriscar e prosseguir como um bom cronópio na minha instruída subida de escadas, para não chegar atrasado à celebração do cinquentenário do livro. 

Bem instruído, pude, então, terminar esta evocação de Histórias de cronopios e de famas, publicado em 1962, em Buenos Aires, primeiro pelas Ediciones Minotauro e, em seguida, pela Sudamericana, que se tornaria na editora recorrente de Cortázar. Recordo que no ano seguinte apareceria Rayuela, o romance fragmentário e total que consagraria Cortázar como um dos mestres do boom latino-americano, pelo que em 2013 estaremos perante outro número redondo, o do cinquentenário de Rayuela.

Mas, por agora, a celebração pertence a Historias de cronopios e de famas, o livro que inaugurou a micro-ficção e nos deu a conhecer aqueles personagens dionisíacos, criativos, surrealistas que, em tudo, são o oposto dos famas que são apolíneos e pragmáticos. Os cronópios, segundo Cortázar, assemelham-se aos poetas. Indiferentes ao quotidiano, passam o dia a cantar, esquecem-se das obrigações, às vezes são atropelados, comovem-se, perdem o que trazem nos bolsos e, quando se dispõem a em viajar, perdem o comboio. Os famas, pelo contrário, são organizados e práticos, prudentes e calculistas, emolduram as suas lembranças e quando vão em viagem, mandam alguém à frente para confirmar os preços e a cor dos lençóis. Já as esperanças são uma mistura de ambos, "são sedentárias e deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que nos exigem que nos desloquemos até elas, porque elas não vêm até nós".

Como poderia eu, hoje, ter subido os catorze lances de escada do meu prédio se, por acaso, não tivesse comigo o manual de instruções do grande cronópio Cortázar? E como saberíamos nós dar corda aos relógios? Se assim não fosse perderíamos sempre os comboios e nunca chegaríamos a horas aos encontros. E, sobretudo, quem nos informaria que "existe na Escócia uma aldeia onde se vendem livros com uma página em branco perdida no meio do livro (e que) se, às três da tarde, um leitor nela desembocar, morrerá". 

(foto ao alto: Julio Cortázar com a sua mulher Aurora Bernárdez, quando de uma viagem à Índia em 1956)