Proust dizia que há apenas um único
grande livro que cada escritor escreve ao longo da sua vida. Talvez isso
se aplique a Carta a D. (Pianola, 2013), escrita e dedicada por André Gorz à sua mulher Dorine, no epílogo de uma vida partilhada a dois durante cinquenta e oito anos, e que foi o prenuncio de um desfecho shakespeariano, longamente planeado. De uma enorme sublimação estética - que confirma o mito socrático de que o amor serve para criar belos e magníficos discursos -, esta carta é, como acrescenta o subtítulo, a história de um amor nascido "maravilhosamente, quase como um
relâmpago", entre dois seres aparentemente tão diferentes.
Publicada no final do ano passado pela
Pianola, uma pequena editora independente que, a contra-pelo, considera
que os livros não são todos iguais, esta Carta a D. é uma preciosidade que, como desejo, aguarda resposta, já não do seu destinatário original, mas dos leitores que ainda acreditam na dialéctica particular da carta de amor.
O remetente é André Gorz, pseudónimo do jovem austríaco naturalizado francês Gérard Horst ou, quando ainda austríaco, Gerard Hirsch, filho de pai judeu e mãe católica. Conviveu com Sartre e Simone de Beauvoir, tendo sido colaborador na revista Temps Modernes e, depois, fundador com Jean Daniel, do Nouvel Observateur. A sua herança intelectual, que contraria a ideia proustiana do livro único, decorre da inovação epistemológica, adaptando um pensamento com
raízes na Escola de Frankfurt à experiência da actualidade, como mostra o
seu derradeiro livro filosófico [
L´Immatériel, Galilée, 2003],
onde explora o potencial de liberdade, de subversão e de emancipação
que existe na "economia do imaterial", a despeito das desesperadas
tentativas de controlo do novo mundo virtual. Deixa,
implícita, uma interrogação. Poderá, ainda, a sociedade recuperar o
domínio sobre a economia? Como tentativa de resposta antecipa o
surgimento de uma "dissidência numérica"
no
seio do "capitalismo cognitivo" emergente a partir da crise de um capitalismo que consagra a irredutibilidade
das conexões virtuais.
A destinatária é Dorine Key, uma jovem inglesa por quem Gorz se apaixonou irremediavelmente, em 1947, casando-se dois anos depois. O encontro entre os dois foi, confessa Gorz, o acontecimento fundamental da sua vida. Porém, sendo D. a figura de proa, quer na sua vida afectiva quer na criação filosófica, a sua obra transporta apenas um nome quando, na verdade, é fruto de um processo levado a cabo por um casal. Daí a escrita desta Carta constituir, para além de uma assombrosa declaração de amor a um ser único e inconfundível, uma tentativa de reparação de um pecado original: "Eu não gostava de gostar de ti". E Gorz escreve, também, para cumprir um desígnio, defendido pela própria D. O da sublimação literária da extraordinária experiência da vida: "Amar um escritor, dizias, é amar que ele escreva. Portanto, escreve!", pediu-lhe ela. E ele escreveu. Até à morte. O suicídio cometido por ambos, talvez, seja, então, a variação final e esmagadora do grande livro do amor que escreveram
a dois corpos durante os cinquenta e oito anos de vida em comum. Coisa rara num tempo em que
a fragilidade dos laços humanos ameaça liquefazer um mundo onde até o "amor [é] líquido", conforme metáfora que dá o título ao livro de Zygmunt Bauman
.
Pela sua grandeza mítica, esta
história de um amor abre um capítulo que ainda não tinha sido escrito na genealogia do discurso amoroso que vai desde Platão a S. Tomás de Aquino, de
Tristão e Isolda ou
Romeu e Julieta ou
Pedro e Inês a
Don Juan, dos trovadores a Goethe, Stendhal, Flaubert ou Eça de Queirós, passando pelas elaborações históricas, filosóficas, simbólicas, psicanalíticas ou sociológicas de Denis de Rougemont, George Bataille, Roland Barthes, Julia Kristeva ou Zygmunt Bauman
sobre esse imenso e permanente
transfert que condensa a maior parte do som e da fúria da vida e que admite, mais do qualquer outra experiência humana, o devaneio literário. É que seja o amor platónico e transcendente, seja a paixão romântica, seja a pulsão erótica, as histórias de amor que a literatura nos legou sempre foram histórias de amores impossíveis, de traição e de adultério, e raramente de amor conjugal a não ser quando
figuras como a separação ou ausência produziam suficiente encantamento lírico ou motivação romanesca.
O amor conjugal, e perpectual, de Gorz e Dorine, de que esta
Carta constitui a derradeira e absoluta metáfora,
dis-corre através de algumas das
figuras amontoadas por Roland Barthes no seu livro
Fragmentos do Discurso Amoroso, superando, não obstante a vulnerabilidade de toda a relação amorosa, a dualidade intransponível dos amantes. Recordando a
história da sua relação amorosa com Dorine, Gorz descreve como os dois amantes, graças às qualidades cada vez mais raras da humildade, coragem, fé e disciplina verdadeiras, se abriram ao destino, admitindo a liberdade que habitava no companheiro do amor, transformando a fragilidade da vida em comum na energia que os
conduziu através do turbilhão dos dias.
"É pois - tal como no incipit enunciativo de Barthes, nos Fragmentos - um apaixonado que fala e diz": "Vou fazer oitenta e dois anos. Encolheste seis centímetros
, pesas apenas quarenta e cinco quilos e mantens
-te bela, graciosa e
desejável. Há cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca. Sinto de novo no fundo do meu peito um vazio devorador que é apenas preenchido com o calor do teu corpo contra o meu". E o sujeito apaixonado que aqui fala vive, ainda, sob o clarão do relâmpago maravilhoso, permanecendo numa espécie de futuro anterior, em que a nostalgia se funde com promessa do encontro inventado de cada vez, ou definitivamente inventado. O
não-tempo do amor retraçado por Julia Kristeva, em
Histoires d´Amour: "Até amanhã, até sempre, como sempre, fiel, eternamente como antes, como sempre foi, como quando já tiver sido, para ti... Permanência do desejo..." E permanência da visão estética:
"bela [e] graciosa" que "não aloja nenhuma qualidade mas apenas o
todo do afecto", segundo a
figuração de Barthes. O grau zero de todos as possibilidades donde nasce o desejo
por D. e não por outro corpo.
Dorine é, na carta, o próprio atopos sugerido por Barthes:
"É atopos o outro que amo e que me fascina. Não posso classificá-lo, pois é precisamente o Único, a Imagem singular que veio miraculosamente responder à especialidade do meu desejo". Redimindo-se da maneira como a traçou
em obras anteriores - como uma jovem frágil e perdida que não
sobreviveria sem ele -, retraça-a, agora,
como independente, inteligente e livre, que o supera em todas as suas
capacidades e que teve um papel essencial no pensamento que ele
criou. Nesse sentido, os contornos da autoria, do eu e do tu, confundem-se na narrativa, uma vez que esta balanceia entre a primeira
pessoa do singular e a primeira pessoa do plural. As recordações e as amizades, o
trabalho criativo e a cumplicidade política, tudo é pertença do nós. É o eu que pede desculpa pela postura intransigente do passado, que ama perdidamente e que lhe dói o outro.
A Carta termina com uma reivindicação do amor: "À noite vejo por vezes a silhueta de um
homem que segue um carro funerário, numa estrada vazia e numa paisagem
deserta. Esse homem sou eu. O enterro é o teu. Não quero assistir à tua
cremação; não quero receber um frasco com as tuas cinzas. Escuto a voz de Kathleen Ferrier que canta Die Welt ist leer, Ich will nicht leben mehr [O mundo está vazio, não quero viver mais] e acordo. Observo
a tua respiração, a minha mão acaricia-te. Cada um nós gostaria de não sobreviver à morte do outro.
Muitas vezes dissemos um ao outro que, no caso impossível de termos uma
segunda vida, queríamos passá-la juntos".
Em Amor Líquido, escreve Zygmunt Bauman que "poucas coisas se parecem tanto com a morte como o amor realizado. Cada chegada de um dos dois é sempre única, mas também definitiva: não suporta a repetição, não permite recurso nem promete prorrogação. Deve sustentar-se por si mesmo". O amor e a morte foram para Gorz e D. o ponto de encontro sem promessa de retorno porque tudo já havia sido dito. Na vida em comum e na última carta escrita.