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17 de março de 2012

A actualidade fabricada


Um artigo inédito de Albert Camus sobre jornalismo livre, censurado em 1939, e publicado esta semana pelo Le Monde, recupera o olhar crítico e a isenção do autor de O estrangeiro e revela uma extraordinária pertinência face à forma como o jornalismo actual vem respondendo aos acontecimentos, renunciando ao compromisso de se afirmar como um "contra-poder" quer dos jogos políticos, quer de inconfessados interesses económicos quer, ainda, de si próprio.

Ora, a constituição da experiência contemporânea é cada vez mais determinada pelas máquinas mediáticas que nos dão a ilusão de estar em todo o lado ao mesmo tempo. Quer queiramos quer não, estamos imersos na actualidade "fabricada" pelos media contemporâneos que tendem a produzir uma espécie de delírio colectivo universal em torno de acontecimentos processados mediaticamente em função de inconfessados interesses que pouco têm a ver com a ética jornalística enunciada por Camus.

Numa época em que a França já paralisada pelo medo da invasão nazi e quando as suas elites políticas e jornalísticas se dispunham à renuncia sem pudor ao Terceiro Reich, Albert Camus propunha uma ética jornalística assente em quatro princípios: lucidez, desobediência, ironia e obstinação. A lucidez que "supõe a resistência aos mecanismos do ódio e da ira e ao culto da fatalidade". A desobediência que "face à crescente maré de estupidez, é necessário também opor". "A ironia que é uma arma sem precedentes contra os demasiados poderosos". E "um mínimo de obstinação para superar os obstáculos que mais desanimam", a saber: "a permanência da absurdo, a abulia organizada, a estupidez agressiva".

Ora, 73 anos depois, embora não haja censura, o manifesto jornalístico de Albert Camus continua actual face à promiscuidade entre as classes políticas, empresariais e mediáticas e à renuncia dos media em se afirmarem como "contra-poder" de si próprios como, também, já defendera Karl Kraus na Viena dos princípios do século XX.

A experiência contemporânea mediatizada constitui-se não em função do acontecimento em si, mas através da construção de uma ficção jornalística que visa a identificação gratuita do público com o acontecimento despolitizado e abordado em função das convulsões dos seus protagonistas. Vistas assim as coisas, o jornalismo, hoje, responde ao acontecimento não para para lhe dar tonalidade expressiva e retraçá-lo racionalmente, mas para nos introduzir nele como espectadores obscenos cujo ponto de vista é sempre incitado, e excitado, por formas mediáticas demagógicas e manipuladoras da opinião pública, que originam as várias e contraditórias patologias de posição que somos coagidos a adoptar, marcadas por uma ilusão paranóica de poder sobre os protagonistas do acontecimento.

Lemos e vemos as notícias que nos são oferecidas com a ilusão de penetrar na intimidade do outro como se, momentaneamente, nos fosse concedido o direito de tudo julgar sem que para isso tenhamos de ser confrontados com a nossa responsabilidade moral. Daí, a banalização lúdica da violência, da crueldade, a exposição da intimidade, a reivindicação divertida da futilidade diariamente servida nas televisões. Mas daí, também a urgência de - contrariando Karl Kraus que dizia que "o jornalismo come o pensamento" - pôr o jornalismo a pensar, porque quer queira quer não essa é a sua essência. Porque, como escreveu Camus, "se [um jornalista] não pode dizer tudo o que pensa, pode [pelo menos] não dizer aquilo que acredita que é falso".

9 de janeiro de 2011

A rasura do jornalismo


A constituição da experiência contemporânea é cada vez mais determinada pelas máquinas mediáticas que nos dão a ilusão de estar em todo o lado ao mesmo tempo. Quer queiramos quer não, estamos imersos na actualidade «fabricada» pelos media contemporâneos que tendem a produzir uma espécie de delírio colectivo universal em torno de acontecimentos processados mediaticamente em função de inconfessados interesses que já pouco ou nada têm a ver com uma noção ética do jornalismo, como se a comunicabilidade mediática se tivesse tornado insustentável.

A experiência contemporânea mediatizada constitui-se já não em função do acontecimento em si, mas através da construção de uma ficção jornalística que visa a identificação gratuita do público com o acontecimento despolitizado e abordado em função das convulsões dos seus protagonistas. Vistas assim as coisas, o jornalismo hoje responde ao acontecimento não para para lhe dar tonalidade expressiva e retraçá-lo racionalmente, mas para nos introduzir nele como espectadores obscenos cujo ponto de vista é sempre incitado, e excitado, por formas mediáticas demagógicas e manipuladoras da opinião pública, que originam as várias e contraditórias patologias de posição que somos coagidos a adoptar, marcadas por uma ilusão paranóica de poder sobre os protagonistas do acontecimento. Lemos e vemos as notícias que nos são oferecidas com a ilusão de penetrar na intimidade do outro como se momentaneamente nos fosse concedido o direito de tudo julgar sem que para isso tenhamos de ser confrontados com a nossa responsabilidade moral. Por isso, a banalização lúdica da violência, da crueldade, a exposição da intimidade, a reivindicação divertida da futilidade diariamente servida nas televisões.

Os acontecimentos são-nos apresentados como uma espécie ficção repetitiva que é preciso alimentar diariamente através de um voyeurismo incitado e excitado por uma retórica que não visa já o esclarecimento público, mas tão só a comunicação inconsistente de fragmentos de uma ficção fabricada para encher noticiários sem qualquer respeito pelos protagonistas reais. O objectivo é sitiar o espectador dentro de uma ficção pueril fabricada e processada através de uma encenação mediática sempre em busca do inesperado.

E diante desta rasura dos media da moda, do lado de cá do ecrâ, encontramo-nos nós, espectadores frívolos, incitados, e excitados, por um zapping generalizado sobre os acontecimentos, levados por um jornalismo que parece ter enlouquecido, já sem espaço nem tempo para pensar, porque agora, para os media,trata-se apenas de responder à urgência da actualidade, sob pena de falhar as audiências.

«O jornalismo come o pensamento», afirmou, há muito tempo, Karl Kraus. Nunca esta observação foi mais actual do que nos dias que correm.

29 de novembro de 2009

Nos cornos da actualidade


A pretexto do Dia Internacional da Solidariedade com o Povo da Palestina que hoje se assinala, reedito um texto antes publicado n´ O que cai dos dias, a propósito de uma reportagem de Clara Ferreira Alves publicada na Única (Expresso, de 21 de Julho de 2007), com o título Vidas Ocupadas, que convoquei, na ocasião, para ilustrar como é possível, ainda, um certo jornalismo capaz de agarrar os cornos da actualidade.

[Conta-nos a reportagem que] há uma muralha de ódio que vai rasgando a paisagem bíblica da Palestina, espartilhando judeus e árabes. E desde logo, a reportagem conta menos do que mostra. E ao preocupar-se com o mostrar responde expeditamente ao «acontecimento» que é a construção da «muralha» de mil quilómetros de comprimento por oito de altura que se vai fechando sobre as vidas de 300 mil palestinianos. Clara Ferreira Alves mostra-nos a mesma Jerusalém que Amos Oz descreveu como «uma desordem mental muito arreigada… uma espécie de "síndrome de Jerusalém": uma pessoa chega, inala o ar puro e maravilhoso da montanha e, de repente, inflama-se e pega fogo a uma mesquita, a uma sinagoga ou a uma igreja». Quando CFA lá esteve a fazer esta reportagem era Outono e uma luz morna derramava-se sobre as torres, muros e minaretes da cidade como vergando-a ao peso das religiões. CFA mostra-nos tudo rigorosamente vigiado, polícias e soldados nas ruas, grupos de judeus ordodoxos conspirando nas esquinas contra uma parada gay que iria realizar no dia seguinte, uma tensão no ar prestes a explodir a qualquer momento; mostra-nos judeus às arrecuas diante do Muro das Lamentações que parecem saídos do qualquer «shtetl» de Varsóvia; mostra-nos a Esplanada das Mesquitas onde começou a terceira Intifada depois da provocação de Sharon; e, mostra-nos, sobretudo, uma muralha serpenteando como uma mancha na paisagem abandonada por Deus, cortando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, mas também feridas abertas, ódios acesos. Medo. «Sou contra, mas é eficaz», diz o poeta Israel Eliraz . Uma nova forma de roubar a terra e a água palestinianas, uma humilhação, dizem os palestinianos. E as duas respostas são verdadeiras, diz-nos CFA que nos mostra, ainda, que «quando o Muro estiver terminado, a Cisjordânia será dividida em bantustões». E mostra-nos o fraticídio entre a Fatah e o Hamas, transformando Nablus num lugar assustador, balas assobiando no ar, ambulâncias a recolher feridos. E muito dinheiro sujo. CFA mostra-nos o que viu à saída de Nablus, ela uma mulher europeia identificada sofrendo nas «filas de mulheres e homens debaixo de um calor tórrido, gente de todas as idades aguardando como animais a passagem da cancela, e sendo tratadas de modo displicente pelos soldados israelitas, um bando de miúdos malcriados […] rapazolas humilhando mulheres mais velhas […] tocando-lhes como se fossem gado […], crueldade e medo».

Estes os sinais da actualidade que CFA leu na sua passagem por Jerusalém e pelos territórios ocupados. Sinais, sobretudo, de vidas ocupadas. Dos dois lados. Sim, mas mais do lado dos palestinianos, porque, dizia-me há semanas Fuad, um palestiniano que mora em Hebron e que conheci em Amann, «a paz sim, claro, quando nos devolverem os territórios». Mas também Amos Oz cuja História de Amor e Trevas me mostrou outras possibilidades de pensar o conflito.

Este um jornalismo que toma posição sem afecção pelo politicamente correcto, como esta reportagem de CFA, cujo ponto de vista não é seguramente o da «objectividade» jornalística que muitas vezes mais não é do que uma forma nihilista de não questionamento «acontecimento». Aqui, mais do que dizer o muro, o importante é «dinamitá-lo», mostrando o drama das mulheres da Palestina que intentam atravessá-lo. E a CFA estava lá e nós, leitores de jornais,com ela. E isso é o jornalismo ainda capaz de forçar a pensar. Porque mostra, retraça sinais, posiciona-se, ajuízam sem afecção pelo politicamente correcto e, nessa forma de mostrar o acontecimento mostra-se ela própria como jornalista capaz de apanhar os cornos da actualidade.

[Entretanto, logo à noite, pelas 21horas, o canal Odisseia lembra a data programando o premiado documentário To See If I’m Smiling (2008) do realizador israelita Tamar Yarom, confrontando-nos com os testemunhos dolorosos de seis mulheres-soldado que quebraram o muro de silêncio e denunciaram os abusos do exército israelita contra as populações indefesas].

24 de agosto de 2007

Os cornos da actualidade


O que procuro nos jornais, nas televisões? Talvez uma certa forma de, expeditamente, apanhar o que cai dos dias. Ou, dito de outro modo, uma certa forma de entrar pela «janela» da actualidade que deveria permitir olhar para lá do horizonte da informação dita «objectiva». Porque no jornalismo, como na literatura também, e não apenas, a questão é política e não pode ficar refém de uma pretensa comunicabilidade teoricamente insustentável, quando o que deveria estar em causa seria responder ao acontecimento através de estratégias discursivas capazes de levar aqueles que o apreendem através das janelas mediáticas a repensarem a actualidade sem a urgência imposta pelas máquinas mediáticas contemporâneas. Ora isso é cada vez menos possível nas novas paragens do discurso jornalístico que, caído no torvelinho da imanência, «come o pensamento», ignorando o papel crítico que lhe deveria estar reservado na constituição da experiência contemporânea. 

Já aqui falei de como os suplementos literários foram banidos dos jornais. Mas não apenas. Que pensamento se encontra hoje no Público, no DN ou mesmo no Expresso? E nos vários telejornais? Apenas um vazio prenchido pelo lisonjeamento de uma comunicação sujeita a retóricas que pouco ou nada têm a ver com o processamento crítico da actualidade. Neste começo de século, tal como no princípio do século vinte, o «jornalismo come o pensamento», como dizia Karl Kraus. 

E, no entanto, é possível, ainda, um jornalismo (como uma literatura) empenhado em apanhar o que cai dos dias, isto é, empenhado em apanhar a actualidade «pelos cornos», sem nos coagir, antes levando-nos a agir contra uma certa forma de nihilismo pós-moderno que nos torna cada vez mais passivos, indiferentes, espectadores mais ou menos obscenos de um mundo sem remissão caminhando para um «apocalipse alegre», conforme a fórmula aparentemente catastrofista com que Hermann Broch descrevia o nihilismo austríaco das primeiras décadas do século passado. Trata-se de um jornalismo que, mais do que informar «objectivamente», joga a sua essencialidade na forma como mostra o acontecimento, isto é, como retraça a actualidade através de uma escrita que não rejeita, antes afirma o exercício do juízo e da tomada de posição contra a vacuidade dos «livros de estilo» e da lisonja da comunicação. 

Mas esse jornalismo é hoje excepção, já não define padrões, muito menos serve de modelo, como  diz Rui Bebiano em resposta a um comentário que lhe deixei no seu próprio comentário ao livro A Face da Guerra, de Martha Gellhorn que a Dom Quixote acaba de publicar, também ela uma jornalista de excepção, «que não receia a polémica, que informa mas também se emociona e toma partido – e não engana o leitor, pois assume que o faz –, [um jornalismo, portanto] que se distingue e permanece para além do instante», escreve Bebiano. E, claro, há mais excepções  contra o mercantilismo jornalístico vigente e este texto teria um tom vagamente nihilista se não convocasse para aqui uma dessas excepções que, às vezes, quando menos se espera vêm assaltar as nossas convicções.

Por exemplo, a reportagem de Clara Ferreira Alves, publicada na Única (in Expresso, de 21 de Julho de 2007), com o título Vidas Ocupadas. O que faz, então, CFA de quem me habituei a ler,  semanalmente, com proveito, a sua Pluma Caprichoa, nessa reportagem sobre a «muralha» de ódio que vai rasgando a paisagem bíblica da Palestina, espartilhando judeus e árabes? Desde logo, a reportagem diz menos do que mostra. E ao preocupar-se com o mostrar responde expeditamente ao «acontecimento» que é a construção da «muralha» de mil quilómetros de comprimento por oito de altura que se vai fechando sobre as vidas de 300 mil palestinianos. CFA mostra-nos a mesma Jerusalém que Amos Oz descreveu como «uma desordem mental muito arreigada… uma espécie  de “síndrome de Jerusalém”: uma pessoa chega, inala o ar puro e maravilhoso da montanha e, de repente, inflama-se e pega fogo a uma mesquita, a uma sinagoga ou a uma igreja». 

Quando CFA lá esteve a fazer esta reportagem era Outono e uma luz morna derramava-se sobre as torres, muros e minaretes da cidade como vergando-a ao peso das religiões. CFA mostra-nos tudo rigorosamente vigiado, polícias e soldados nas ruas, grupos de judeus ordodoxos conspirando nas esquinas contra uma parada gay que iria realizar no dia seguinte, uma tensão no ar prestes a explodir a qualquer momento; mostra-nos judeus às arrecuas diante do Muro das Lamentações que parecem saídos do qualquer «shtetl» de Varsóvia; mostra-nos a Esplanada das Mesquitas onde começou a terceira Intifada depois da provocação de Sharon; e, mostra-nos, sobretudo, uma muralha serpenteando como uma mancha na paisagem abandonada por Deus, cortando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, mas também feridas abertas, ódios acesos. Medo. «Sou contra, mas é eficaz», diz o poeta Israel Eliraz . Uma nova forma de roubar a terra e a água palestinianas, uma humilhação, dizem os palestinianos. E as duas respostas são verdadeiras, diz-nos CFA que nos mostra, ainda, que «quando o Muro estiver terminado, a Cisjordânia será dividida em bantustões». E mostra-nos o fraticídio entre a Fatah e o Hamas, transformando Nablus num lugar assustador, balas assobiando no ar, ambulâncias a recolher feridos. E muito dinheiro sujo. CFA mostra-nos o que viu saída de Nablus, ela uma mulher europeia identificada sofrendo nas «filas de mulheres e homens debaixo de um calor tórrido, gente de todas as idades aguardando como animais a passagem da cancela, e sendo tratadas de modo displicente pelos soldados israelitas, um bando de miúdos malcriados […] rapazolas humilhando mulheres mais velhas […] tocando-lhes como se fossem gado […], crueldade e medo».

Estes os sinais da actualidade que CFA leu na sua passagem por Jerusalém e pelos territórios ocupados. Sinais, sobretudo, de vidas ocupadas. Dos dois lados. Sim, mas mais do lado dos palestinianos, porque, dizia-me há semanas Fouad, um palestiniano que mora em Hebron e que conheci em Amann, «a paz sim, claro, quando nos devolverem os territórios». Mas também Amos Oz cuja História de Amor e Trevas me mostrou o outras possibilidades de pensar o conflito, sem afecção ao que até há pouco, para mim, era o politicamente correcto.

Eis o que também procuro nos jornais, nos noticiários das televisões. Um jornalismo que tome posição sem afecção pelo politicamente correcto, como esta reportagem de CFA, cujo ponto de vista não é seguramente o da «objectividade» jornalística que muitas vezes mais não é do que uma forma nihilista de não questionamento «acontecimento». Aqui, mais do que dizer o muro, o importante é «dinamitá-lo», mostrando o drama das mulheres da Palestina que intentam atravessá-lo. E a CFA estava lá e nós, leitores de jornais,com ela. E isso é o jornalismo ainda capaz de forçar a pensar. Porque mostra, retraça sinais, posiciona-se, ajuízam sem afecção pelo politicamente correcto e, nessa forma de mostrar o acontecimento mostra-se ela própria como jornalista capaz de apanhar os «cornos» da actualidade.

27 de julho de 2007

Anjos caídos


A imagem que guardo de Beirute é a que me é oferecida pelo fotógrafo americano Spencer Platt que, em 15 de Agosto de 2006, primeiro dia do cessar-fogo no conflito entre o Hesbollah e Israel, fotografou o regresso a casa de milhares de libaneses. Um descapotável vermelho, impecável, com quatro jovens vestidos com roupas ocidentais, passando lentamente num cenário de destruição e ruína. «Demasiados edifícios ruíram, amontoou-se demasiado entulho, são intransponíveis os sedimentos», diria, talvez, W. G. Sebald se pudesse ver esta fotografia.

Mas Sebald já cá não está, e por isso, nada dirá do descapotável vermelho avançando num cenário de fachadas e paredes calcinadas como se liberto do lastro de tragédia dos dias que passaram planasse agora num campo de ruínas. Nem dos rostos bonitos, das peles bronzeadas, da pose altiva da rapariga ao lado do condutor, espécie de anjo caído entre destroços. E toda a aura desta fotografia está nessa descontinuidade esplendorosa.

Quando há semanas estive perto da fronteira sírio-libanesa e me senti tentado a seguir pela estrada de Beirute confiando nas notícias dos que faziam o caminho inverso, era esta a imagem que eu guardava da cidade. Uma cidade em ruínas, mas pronta para todos os recomeços. Anjos pairando numa pausa da guerra. Há nesta fotografia uma espontaneidade prosaica, acidental, cujo efeito imediato é o de uma espécie de «congelamento» do real, de apaziguamento da violência, colando-se ao próprio referente, como se fosse este a «aderir» à fotografia e não o contrário [Roland Barthes, A Câmara Clara]. Trata-se aqui daquilo a que José Gil chama uma «imagem-nua», cuja descontinuidade temática a esvazia de todo o mimetismo, ganhando «uma existência em si, [que] já não circula como um simples reflexo, circula na experiência» [Roland Barthes, ibidem].

Ocorre-me, então, a antiga figura retórica da hipotipose que Kant definiu como «apresentação» [Crítica da Faculdade do Juízo]. Melhor seria dizer, talvez, «presentação» [como o francês «monstration», pois trata-se de mostrar marcas, traços, vestígios sob a aparência, isto é, em sentido literal, «pôr debaixo dos olhos» aquilo que, muitas vezes, só nos chega através do filtro das agências noticiosas. [«L´hypotypose est cette figure, telle que nous la trouvons dans la Rhétorique à Herennius, qui expose les choses d úne manière telle que l´affaire semble se dérouler et la chose se passer sous nos yeux» (Quintiliano, Retórica - ad Herennius -, livro IV, 68, cit por João Barrento, in Escrito a lápis].

E não será isto o fotojornalismo, na sua tentativa de captar, de dar a ler a actualidade, fazendo-nos participar na experiência dialéctica «mostrada» através da fotografia? Isto é - como diz Walter Benjamin n´O Livro das Passagens -, «a imagem lida, que o mesmo é dizer a imagem no Agora da sua possibilidade de ser conhecida, trazendo consigo, em alto grau, a marca do momento crítico e de perigo subjacente a toda a leitura» [Passagen -Werk, N 3, 1]. É que a relação desta fotografia com o momento histórico em que foi tirada é muito mais do que apenas temporal, é essencialmente imagética, e por isso susceptível de perdurar numa qualquer prega do vestido do tempo, sem outra retórica que não seja a do demonstratio da destruição assassina, e também a de uma certa «aura» imagética contra as reminiscências da guerra.

(P.S: Reflexão inspirada a partir de anotações de um ensaio alheio [João Barrento, in Escrito a Lápis] sobre a problemática da imagem)

Esta e as restantes fotografias da World Press Photo podem ser vistas em Portimão até ao dia 22 de Agosto.

18 de junho de 2007

Fascismo de entretenimento




«Há uma organização terrorista europeia, sedeada na Holanda e que actua a coberto do disfarce de produção de conteúdos televisivos. Chama-se Endemol, foi fundada por um holandês, comprada pela Telefonica espanhola e acaba de ser vendida ao muito recomendável senhor Berlusconi», denunciava há duas semanas, com a agudeza crítica que se lhe reconhece, Miguel Sousa Tavares, na sua crónica no Expresso . E fundamentava: «com um catálogo sempre renovável de programas televisivos todos inspirados nos vícios, nas fraquezas e nas misérias humanas, é difícil imaginar alguma organização ou ideologia que, por si só, tenha conseguido causar maiores danos à cultura, à educação e à formação cívica dos povos europeus do que esta sinistra Endemol».

A oportuna denuncia de MST incita-me a reflectir sobre o papel da televisão enquanto estratégia de manipulação do pensamento, perseguindo objectivos inconfessáveis de substituição da experiência do mundo por simulacros da realidade extraídos de uma imanência alienada e pervertida, em que é a próprio «estado do mundo como jogo permanente» que se confunde já com o modo como a televisão nos dá a ver o mundo. Ou «a vida como televisão», como escrevia Eduardo Lourenço no último JL. E se no princípio era a «principialidade das imagens» [Eduardo Prado Coelho] em movimento, hoje essa luz original apagou-se, arrastando o telespectador no torvelinho indiferenciado e indiferente das imagens pelas imagens, já sem ligação com as palavras, elas próprias transformadas em imagens de uma sociedade infinitamente anónima transportada dia e noite para o desaconchego das nossas casas.  Que diria Kafka sobre televisão, se sobre o cinema já dizia que aí nunca é o olhar que escolhe as imagens, mas que são elas quem escolhe o olhar?

Hoje, em televisão, pelo menos numa certa televisão que tem vindo a colonizar o espaço televisivo europeu e, claro está, e muito, também Portugal, tudo vale para aumentar as audiências, sobretudo se nesse vórtice de lixo televisivo se afundar qualquer hipótese de cultura, de educação, de ética. A programação televisiva lê na mesma cartilha do capitalismo pós-moderno, cujo dado principal já não é a Terra girar à volta do Sol, mas o dinheiro girar à volta da Terra, como afirma Peter Sloterdijk, um filósofo alemão de estirpe nietzchiana. E neste vórtice televisivo que tudo arrasta na procura do lucro, parece que com programas como os da Endemol é a própria televisão que enlouqueceu, não deixando lugar àquilo que ela poderia ser em termos de entretenimento inteligente, antes procurando a obscenidade do espectador. 

Longe vão os anos em que Karl Kraus proclamava que o «jornalismo come o pensamento». E, no entanto, essa visão aplicada aos media de hoje parece mais actual do que nunca. Tanto assim que a questão do funcionamento dos media tem vindo a ocupar um lugar central no empreendimento filosófico de Sloterdijk, comparando-os a uma versão contemporânea da arena romana e, logo, reponsáveis por aquilo a que ele chama de «fascismo de entretenimento». Os noticiários, quase todos idênticos, e logo sem atributos que os diferenciem, caíram na imanência do quotidiano filtrado pela máquina televisiva, do qual não conseguem nunca distanciar-se reflexivamente, antes preferindo promover a vulgaridade opinativa, o escândalo obsoleto, o ruído informativo em lugar da realidade autêntica, por exemplo a da miséria inamovível do mundo continuamente sublimada pelo seu tratamento «espectacular». 

De fora fica quase sempre a pedagogia informativa que devia ser a razão dos noticiários. E, sobretudo, o «sentido da possibilidade» aberta aos muitos mundos do mundo, prometida pela luz inicial, mas que, hoje, só talvez a literatura poderá ainda proclamar. E mesmo aqueles programas que se apresentam vestidos com uma roupagem de maior seriedade, mais não fazem do que celebrar um tempo cada vez mais cheio das mesmas «qualidades» [daí a actualidade desse extraordinário romance-ensaio de Robert Musil, O homem sem qualidades, que a Dom Quixote prometeu reeditar este ano] que há muito tempo Walter Benjamin exorcizou. 

Quanto ao entretenimento, exceptuando alguma nova serialidade televisiva, um filme ou outro fora de horas e intervalado por longos momentos de publicidade invasiva, somos arrastados num mesmo vórtice de telenovelas e de reality shows  que encenam a trivialidade bacoca de um quotidiano de indivíduos anónimos temporariamente promovidos ao estrelato de ficção. Ou pior ainda, promovem uma descida ao Maelstrom da indignidade com programas como os produzidos pela Endemol. A mais recente indignidade desta «Al-Qaeda televisiva» como lhe chama MST, é o novo programa em que doentes terminais fazem doacções de órgãos em directo a outros doentes que vão entre si disputar os fígados ou os rins de que precisam para sobreviver.

Dir-se-á que sempre podemos escolher entre o que nos é oferecido. Talvez. E muitos de nós escolhem, quanto mais não seja apagando o televisor. Mas, e a maioria que é incitada (ou excitada) pela máquina televisiva, não será mais escolhida do que escolhedora? Já em 1928, Heinrich Mann escrevia que «é possível habituar todas as grandes massas ao kitsch. E depois é fácil afirmar que elas não entendem nem querem mais nada». Dizer que as massas apenas respondem às luzes incandescentes do divertimento bacoco e daí baixar cada vez mais os padrões de qualidade na programação televisiva é um sofisma perverso. Por isso, o dever de regulação, no respeito pela inteligência, contra a devassa e a iniquidade televisivas, e pela restauração da aura que esmorece perante o influxo de luz incandescente do ecrã caseiro.

11 de junho de 2007

A rasura dos jornais


Escrevia Eduardo Prado Coelho há alguns dias na sua crónica diária no Público que o que se passa neste momento na cultura portuguesa «não pode deixar de suscitar alguma angústia». Ou, procurando um registo mais neutro, «alguma perplexidade». Entre outros sinais da precariedade cultural actual, como o acentuado desinvestimento do Ministério da Cultura nas suas instituições (veja-se o que se passa com o Museu de Arte Antiga), denunciava, depois, o facto de o espaço dedicado aos problemas culturais ter vindo a restringir-se não só na comunicação social como nas várias instâncias em que a cultura costumava ser tratada, como mostrou a transfiguração do suplemento literário «Mil Folhas» num quase anódino «Ípsilon» (Público) e, mais grave ainda, na supressão do suplemento «6ª» (DN) sem qualquer justificação aos leitores. O mesmo se passa na televisão em geral, onde as telenovelas (as inanarráveis Floribella ou Morangos com Açucar) dominam a programação e as questões culturais se encontram completamente arredadas das opções dos responsáveis pela programação (regressará, ainda, o programa de José Francisco Viegas Escrita em dia, suspenso há meses?).

Contudo, a pertinência das observações de EPC  sugere-me um comentário, agora, num outro sentido. Daí, talvez, também, a perplexidade de JPC. É que, hoje, a imagem das cidades ou mesmo de certas regiões do interior é cada vez mais marcada quer por estratégias de dotação intencional em equipamentos e infra-estruturas culturais quer por acontecimentos culturais (programação de regular de espectáculos de artes cénicas, de música, festivais, exposições, ciclos, mostras, etc), demonstrando a importância que as autarquias locais atribuem à cultura como estratégia de afirmação de uma imagem moderna e competitiva dos territórios. Ilustrações não faltam para corroborar esta convicção: por exemplo, o alargamento da rede de bibliotecas municipais, a criação de novos museus de território ou os novos teatros e centros culturais municipais que estão a transformar radicalmente a oferta cultural fora dos grandes centros, subtraindo as cidades que têm vindo a construir esses equipamentos à sua condição cultural periférica, constituindo-se como pólos de uma rede territorial, se bem que ainda informal, de criação e difusão cultural. Há dias referia-me aqui ao espectáculo de Ute Lemper a que assisti no Teatro Municipal de Faro, como exemplo das novas condições de possibilidade entretanto criadas fora de Lisboa e Porto. Poder-se-ia, ainda, falar do Centro Cultural de Vila Flor, em Guimarães ou do Teatro de Vila Real ou da Guarda ou de Aveiro, entre outros, para se aferir como algumas cidades portuguesas perseguem a modernidade cultural; em Portimão, encontram-se em construção um novo centro cultural polivalente e um museu, correspondendo a um investimento da autarquia de mais de vinte milhões de euros.

Ora, num momento em que a nova lei das finanças locais cria dificuldades acrescidas ao funcionamento dos novos equipamentos culturais, e ao mesmo tempo em que a comunicação social, por um lado, e o Estado, por outro, fazem passar a ideia de despesismo das autarquias - o que é verdade em muitos casos - importa registar que é nas periferias, e graças a alguma governação local, que vai acontecendo o essencial da cultura portuguesa, pelo menos aquilo que é capaz de produzir efeitos sociais relevantes, como seja a criação de novos públicos para a cultura e melhor participação cívica, para além de efeitos económicos por arrastamento devido à projecção exterior de uma imagem mais qualificada e moderna das cidades.

Mas tudo isto não passa nos jornais nem nas televisões que ignoram quase tudo o que acontece fora dos dois grandes centros a não ser que seja mais um caso de alegada corrupção ou um acontecimento trágico. Em Julho, abrirá em Portimão mais uma exposição World Press Photo e só depois no CCB, em Lisboa, mas o que será relatado nos media será o acontecimento da capital. Mas isto não é o mais grave. Há dias, o DN assumia sem qualquer constrangimento ético que o que está agora em causa é que os jornais vendam, até porque só assim poderão garantir a sua independência face às pressões políticas. Por isso, o que lhes interessa são as informações, e sobretudo as informações que as pessoas querem. O resto, a cultura, o pensamento, são coisas que só interessam a uma minoria de iniciados. E, segundo a nova atitude dos media, o que as pessoas querem é algo que se confunde com a pressa dos dias, porque no dia seguinte haverá mais do mesmo ou porque tudo é efémero e é preciso encontrar um novo assunto que faça vender mais amanhã. Ora a cultura e o pensamento são lentos por essência, por isso,  há que bani-los dos jornais, da televisão, onde o que conta é apenas a imanência do quotidiano, mesmo que essa imanência seja manipulada como se sabe, em nome do aumento das vendas, das audiências. «O jornalismo come o pensamento», disse há muito tempo Karl Kraus. Nunca esta ideia foi mais actual do que hoje. E o Estado ao desinvestir na cultura come o quê? Talvez a felicidade que se pode encontrar num palco, num museu, numa exposição. Resta, por enquanto, a responsabilidade cultural de algumas autarquias para que a angústia e a perplexidade não nos devorem.