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9 de julho de 2007

Passagens de Damasco


O souk al-Hamidia, com a sua passagem coberta por um telhado metálico com inúmeras aberturas que deixam penetrar os raios de sol criando o efeito de um céu estrelado na penumbra interior, revela-se demasiado irresistível, oferecendo-me a possibilidade de refúgio face ao caos das ruas circundantes. Vejo-me num tipo de passagem feérica que me é oferecida como uma rosa damascena, onde se concentra todo um imaginário que fui construindo nos últimos dias, desde que a «ameaça síria» se tornou mais do que um motivo de retórica romanesca e foi caindo nos meus dias sem que eu desse por isso. Mas, agora, à medida que, como um flâneur nostálgico, me adentro na passagem, a «ameaça» que pela manhã começara por manifestar-se na forma das incontornáveis formalidades fronteiriças para obtenção de visto, na arrogância policial, nas manigâncias da pequena máfia dos taxistas e na presença em todas as vitrines e fachadas dos edifícios da moldura asfixiante do presidente Assad trajando uniforme militar, como que desaparece deixando trabalhar livremente o olhar.

Eis a experiência de uma outra Damasco que alimenta o olhar, a memória e a imaginação prometidos n´As Mil e Uma Noites por Xerazade a Harun al-Raschid, num códice que circulou na Síria no século XIII e foi lido por califas, vizires, vendedores e mercadores. Como o flâneur baudelairiano de que fala Walter Benjamin, no meu passeio ocioso procuro, agora, «virar para fora o forro incandescente e colorido do tempo» e, momentaneamente liberto da «ameaça síria», praticar uma observação ao mesmo tempo distraída e atenta, absorta e disponível, celebrando o olhar como se o bazar otomano que percorro, construído em 1863 pelo sultão Abdulhamid, fosse o sujeito activo desta flânerie oriental que me vai revelando um mundo fervilhante de sensações adormecidas, paralelo ao caos ruidoso, incandescente e ameaçador das ruas exteriores.

Nesta rua salomónica, uma multidão de mulheres ávidas, astutas, activas e sensuais sob os véus islâmicos que as cobrem celebram o prazer da distracção, alimentado pelo olhar e pelo desejo suscitado pela imensidão de cores, púrpura, azul escuro, amarelo vivo e preto, dos vestidos beduínos bordados à mão, dos lenços de seda multicolores, dos algodões estampados, dos tapetes persas, das almofadas damascenas, dos cobres trabalhados, da joalharia; pelo perfume das especiarias e frutos secos; e pelas vozes misturadas dos vendedores de água, sumos, xaropes e café. Há nesta dobra do tempo uma aura que amplifica a imaginação. Não há aqui qualquer imposição para entrar nas minúsculas lojas da extensa passagem. E tudo é atraente, «aberto», contrastando com a ideia de fechamento imposto pela religião omnipresente e com a natureza monolítica do regime sírio pairando nas fachadas dos edifícios nas avenidas do exterior. Até mesmo o olhar de algumas mulheres de rosto velado, ciosamente encoberto, deixa transparecer o prazer das compras. Faço-me, por isso, também, comprador, percorrendo lojas, regateando preços de objectos cujo valor exacto nunca se conhece, como se o preço dito no início fosse apenas a ponta de um enigma que pode levar a preços finais tão conforme o desenrolar da  situação ou a nacionalidade do comprador; desvelando o mistério das coisas que se encontram à vista; penetrando na sedutora intimidade que há entre cada comerciante e os objectos expostos. Todos os sortilégios são permitidos até se chegar ao entendimento final, levando, depois, comigo uma toalha de seda bordada a fios de ouro daqui, um lenço de lã de camelo dali, um punhal otomano acolá, um darguilé mais além, cenas do livro de Xerazade pintadas à mão mais adiante; e, no final da rua, um gelado sírio de pistachio!

Chego ao final da passagem que se abre para a grande mesquita dos Omeyadas onde se respira tranquilidade das orações e fico com a impressão de, por momentos, ter atravessado o forro de um tempo suspenso à espera da próxima «ameaça» que parece não se encontrar na mesquita que me recebe com a hospitalidade devida ao estrangeiro, mas sim nos labirintos sombrios do fanatismo religioso e da arrogância norte-americana.

É tempo, talvez, de esquecer esta narrativa pré-corânica e evocar, agora, o poeta sírio-libanês Adónis, perguntando para onde vai a «arabidade do coração», esse «Yemen original, cujos souks eram veias e artérias de um corpo que não seria nem sonho nem realidade», antes a tentativa de encontro entre o reino de Salomão e o reino de Adão, perseguida pelos múltiplos narradores das Mil e Uma Noites. Parece que para o abismo para onde o empurram todos fundamentalismos: o islâmico e o do capitalismo glamoroso e desalmado do ocidente. Por isso, com Adónis, contra o fanatismo religioso ou capitalista, talvez perseguir uma terceira via.

27 de junho de 2007

Estrada de Damasco


Talvez por em Doutor Pasavento também ter frequentado a rue Vaneau, em Paris, onde «no [número] 20, se encontra a embaixada da Síria», quase sem dar por isso fui entrando em contacto com aquele país. Seria essa a «silenciosa ameaça», que pairava naquela rua como alguem avisou Vila-Matas? O que é certo é que desde a leitura de Pasavento, a Síria começou a insinuar-se nos meus dias sem que eu fizesse nada por isso. Muito menos imaginava que, algum tempo depois da invocação síria deVila-Matas, estaria a telefonar para o mesmo número 20 da rue Vaneau, para obter informações sobre vistos de entrada na Síria. E que sabia eu da Síria, antes? Como Pasavento sabia «apenas que a capital era Damasco, tinha-o aprendido na escola. E mais alguma coisa? Embora não conhecesse o seu nome, sabia como era fisicamente o presidente da Síria, tinha observado nas fotografias que usava bigode, era bastante alto e costumava vestir-se ao estilo ocidental. Mas era tudo o que sabia sobre a Síria» (pág.23). A isto acrescentaria eu, ainda, a guerra com Israel pela posse dos Montes Golã, conspirações contra o Líbano, a acusação americana de integrar um certo «eixo do mal» e outros episódios fronteiriços recentes. Depois, fui-me lembrando que por lá corria esse rio antigo, o Eufrates, em cujas margens nasceu a História; que as pedras romanas de Bosra e Palmiria lá permanecem para gáudio dos turistas, e que nas areias do deserto se erguem ruínas indecisas de castelos e igrejas mandadas eregir pelos cruzados, o mesmo deserto de pedras de sílex tantas vezes atravessado por T. E. Lawrence, com promessas de liberdade para os Árabes; que a Rota da Seda, vinda dos confins da China, atravessara o seu território até aos portos do Mediterrâneo onde navios de velas brancas esperavam as caravanas de camelos; que nos souks e ruelas de Alepo, onde abandonamos o corpo e a alma, ainda sopra o mesmo movimento de outrora . E que Damasco, com as suas madrassas, os seus palácios das mil e uma noites, a grande mesquita dos Omeyyadas,  foi  descrita, no século XII, pelo viajante Ibn Jubayr, como o «paraíso do Oriente».

Era esta Síria que, sem dar por isso, começara a cair nos meus dias, como que a preparar um certo terreno propício a uma certa decisão que eu próprio ignorava ainda. E, no entanto, havia outros outros acasos que prenunciavam, senão a ameaça síria, pelo menos uma intromissão árabe. Primeiro, através dos trilhos de Paul Bowles e, logo depois, de Albert Cossery, que me levaram desde Tânger, atravessando o Sahara, até às ruelas pobres da vagabundagem infatigável do Cairo dos anos 40. Sim, também o livro de Elias Canetti, Maraquexe, que comprei na Feira do Livro. E que dizer do meu interesse súbito por Adónis, o poeta rebelde sírio-libanês que comecei a ler depois da minha experiência na rue Vaneau» - e que ousou declarar que «o véu não cobre apenas o rosto, recobre também o cérebro»? Não se poderia ver aí outro sinal, ainda que os versos generosos de Adónis não colham a simpatia da Síria? Ou no livro de Pietro Citati, Israel e o Islão: as centelhas de Deus [Cotovia, 2005] - que estou a ler - e que fala do feérico reino de Salomão, da moldura das Mil e Uma Noites - cujo códice mais antigo que se conhece provém, precisamente, da Síria - com os seus califas, vizires, mercadores, as suas geografias fantásticas; que ilumina a Palavra dos Pássaros, do poeta Farid al-Din Attar que viveu na Pérsia, no século XII; e que, sobretudo, evoca a utopia de aproximação do reino de Adão ao reino de Salomão que sucessivos fundamentalismos, cristãos, judaicos e islâmicos enterraram, como diz Adónis, na «poeira de tinta vermelha» do deserto?

Só depois desta série de acasos é que irrompeu Amã em forma convite para uma reunião. E, no imediato, não pensei na Síria. A ideia seria permanecer uma semana na Jordânia, ir até Jerash e depois até ao Sul, a Petra, claro, e talvez a Wadi Rum seguindo o trilho de Lawrence da Arábia.

Por isso, eis-me agora numa Amã, aparentemente muito ocidentalizada, mas onde me "aproximei" esta tarde da estrada de Damasco, vagabundeando no caótico souk de Al-Balad, ladeado pela mancha branca do calcário das casas que descem as colinas e sempre acompanhado pela música das vozes que se misturam entre as bancadas de azeitonas, sumos, beringelas, cerejas, especiarias, panos de seda e outras bagatelas de toda a espécie.

Nao sei ainda se esta será mesmo a estrada de Damasco, pois a ideia é fazer uma escapadela de dois dias (dependerá do visto a pedir na fronteira). Entretanto, espera-me o Mar Morto e Petra de todas as cores, rosa, vermelha, verde, amarela e azul. Nomadismos.