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4 de março de 2012

Extremamente alto e incrivelmente perto


"Todos os livros são sobre a perda", diz Jonathan Safran Foer, um dos mais promissores escritores norte-americanos, segundo a revista Granta, tal como Nicole Krauss, sua mulher, autora de A história do amor (Dom Quixote). Os livros que W. G. Sebald escreveu, esses são, seguramente, sobre a perda. Livros sobre a consternação do mundo, sobre as ruínas que o nosso tempo vai amontoando. Tijolos sobre tijolos. E ninguém na paisagem desolada. Apenas a literatura para gravar no papel o desvanecimento da História. Num outro registo narrativo, também Jonathan Safran Foer tenta em Extremamente alto e incrivelmente perto, romance reeditado pela Bertrand que vem publicando a obra deste autor norte-americano, uma meditação sobre a perda e sobre o luto num mundo que - literalmente - desabou à sua volta. 

Em Extremamente alto e incrivelmente perto (adaptado ao cinema por Stephen Daldry e protagonizado por Tom Hanks e Sandra Bullock), Oskar é um órfão do 11 de Setembro, "o dia mais triste de todos os tempos": o seu pai desabou com as torres gémeas e com elas também os arquétipos de uma criança que não consegue parar de inventar mundos paralelos; noutra história, contada através das cartas escritas pelos avós, é a paisagem de destruição de Dresden durante a Segunda Guerra Mundial que surge carregada de fantasmas do passado. O que nos poderia levar a Sebald (História natural da destruição) evocando as marcas da destruição de Berlim se o livro de Jonathan Safran sobre a consternação do mundo e sobre o luto do pós 11-S tivesse sido um pouco mais apocalíptico e um pouco menos integrado nos circuitos  comerciais.

Contudo, embora permeável ao sucesso mediático, outra maneira de abordar a questão será considerar Jonathan Safran como um jovem escritor que pega no lastro de uma certa literatura, retraçando a partir daí o que antes já fora traçado de outra forma. De resto, o autor não recusa a influência de Sebald, cuja escrita compara a "um machado afiado". Ou a aproximação à agudeza judaica de Philip Roth do período de O complexo de Portnov (não esquecer que Jonathan Safran é judeu e a sua, ainda, curta obra persegue o lastro dessa herança, reinterpretando-a à luz da actualidade). Ou a inspiração em Bruno Schulz cujo conto "A rua dos crocodilos" serviu de base ao seu mais recente livro A tree of codes, "um livro-objecto que joga com o vazio fisico e com palavras e frases arrancadas do conto". Ou a integração de um sopro surrealista que não destoaria de algumas páginas de Kurt Vonnegut. Ou, talvez, antes de tudo, a auto-referenciação a uma certa arquitectura narrativa que evoca Laurence Stern.

17 de julho de 2009

Projecto para uma roda de leitura perigosa



Confessa Roberto Bolaño em Entre parêntesis [Anagrama) que é «muito mais feliz lendo que escrevendo». E eu - que também me confesso esse leitor feliz e dilatório, não o leitor interactivo dos livros da moda, mas o leitor iterativo, assediado pelos labirintos de tinta embebida nos livros da minha biblioteca de quarto escuro - imagino-me, momentaneamente, o engenheiro Agostino Ramelli carregando no pedal e volto a fazer girar a sua Roda da Leitura [cf. Agostino Ramelli: projecto para uma roda de leitura. Paris, 1588] com sete livros de escritores sem qualidades cuja leitura proponho para este Verão.

São sete livros perigosos que compõem uma pequena biblioteca giratória, intensiva e portável, que retiro de uma prateleira sombria e que, aqui, proponho aos leitores subversivos e relutantes que neste Verão arrisquem - ao invés de se deixarem atrair pela superfície brilhante das palavras - atravessar o bosque escuro e sem nome e, por momentos, «viverem errando / na penumbra dos bosques / com a novela perigosa», como se pode ler nuns versos que Pushkin escreveu. Sete livros para serem, talvez, relidos como se os estivéssemos a ler sem que nunca os tivéssemos lido. Porque, como poderia ter dito Heraclito, nunca mergulhamos no mesmo livro duas vezes.

Que vasos comunicantes entre estes livros? Desde logo, o facto de partilharem, na minha biblioteca de quarto escuro, o canto mais sombrio. E também a circunstância dos seus autores pertencerem a uma certa geografia, a da Mitteleurope que mais do que uma condição espacial corresponde, sobretudo, a uma certa ideia de literatura. Depois, porque são autores que ocultaram a sua biografia para melhor poderem afirmar a sua obra. E, ainda, porque todos habitaram de uma forma ou de outra «as regiões do destino onde reina a solidão». Finalmente, porque talvez encaixem na categoria de livros a que Robert Walser se referia quando escreveu em O Salteador (Relógio de Água, 2003): «Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deviam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável?»

Talvez a vida destes escritores tenha sido «doentia», mas não os seus livros que parecem duplicar a vida que não tiveram inventando outras vidas. «Um romance é a vida secreta de um autor. O obscuro irmão gémeo de um homem», escreveu Faulkner. E não será isso a literatura? Inventar outra vida, inventar um duplo. A dissidência de si mesmo, então, levada a cabo por escritores que, contra todas as aparências, adoptaram os versos de Roberto Juarroz: «Às vezes parece/ que estamos no centro da festa/ Contudo/ no centro da festa não há nada/ No centro da festa está o vazio/ Mas no centro do vazio há outra festa» (Poesía Vertical). E que, por isso, não quereriam ver-se confundidos com nihilistas.

Nem eles nem este leitor sem qualidades que como um bibliotecário-oleiro põe agora a girar esta roda de leitura perigosa e vos propõe as seguintes notas de rodapé:

1. O homem sem qualidades, Robert Musil [1921] (D. Quixote, 2007: um livro sem as «qualidades» dos cânones literários da época. Um livro insuportável devido à sua «monstruosidade» literária que estilhaçará as fronteiras do género para desagrilhoar o humano na tentativa utópica de alcançar a totalidade do mundo;
2. Jacob von Gunten, Robert Walser [1909] (Assírio & Alvim, 2005): o fascinante livro do extravagante escritor suíço precursor de Kafka que escrevia lápis para melhor poder ausentar-se;
3. O castelo, Franz Kafka [1926] (Relógio d´Água, 1999)): um romance inacabado sobre a burocracia institucionalizada que triunfa sobre os homens sem qualidades;
4. As lojas de canela, Bruno Schulz [1933] (Assírio & Alvim, 1987): um livro de contos que transfiguram a pequena cidade de Drohobycz numa espécie de Macondo polaca onde se respira o ardor intenso da fantasia e das metamorfoses contra a colmeia de nevroses e de loucura onde o autor se encontra encerrado;
5. Fuga sem fim, Joseph Roth, [1927] (Difel, 1985): um livro que narra a viagem de errática de um desaparecido, na sua própria viagem de ocultação enquanto autor;
6. Diario, Witold Gombrowicz, [1968)] (Seix Barral, 2005): o diário do escritor polaco escrito durante os vinte e quatro anos que passou na Argentina onde nos são oferecidos aqueles instantes de deslumbramento que Gombrowicz designou por retratos de momento;
7. Os anéis de Saturno, Sebald, W. G. [1995] (Teorema, 2006): um livro onde o passeante Sebald contrapõe à obsessão moderna pelo esquecimento o imperativo redentor da memória, capaz, ainda, de deixar gravado no papel um rasto, que não se extinguirá jamais.

23 de novembro de 2007

A região mais tenebrosa



Olho o auto-retrato de Bruno Schulz e o que vejo é uma figura kafkiana, simultaneamente assustada e feliz , fugindo à claridade do dia para se refugiar nas «regiões do destino onde reina a solidão». Witold Gombrowicz descreveu-o como um «gnomo, minúsculo, com uma cabeça enorme, quase demasiado apavorado para ter coragem de existir, era um ser escorraçado da vida, um daqueles que desliza, furtivo, pelas margens». Alguém que se escondia nas sombras, fechado na prisão de loucos que era a sua casa, na «Praça do Mercado, «uma destas casas sombrias com fachada cega e vazia», em Drohobycz, nos confins da Galícia que ele descreve como uma «cidade dada a mergulhar na cinza crónica do crepúsculo, a enfeitar os seus contornos com uma lepra escura, um bolor felpudo, um musgo cor de ferro»

Aí nasceu, em 1892, e viveu, num estado de depressão profunda, entre «polacos ucranianos e judeus [como ele], lado a lado ou misturados, ou talvez nem uma coisa nem outra», até ser assassinado com uma bala na nuca pelos nazis, numa manhã fria de Novembro, em 1942. Mas nos seus contos, perturbadores e hipnóticos, reunidos em As Lojas de Canela [Assírio e Alvim, (1933), 1987] e em O Sanatório Debaixo da Clépsidra [1937], este território das trevas desaparece dando lugar ao fogo intenso da fantasia, a metamorfoses absolutas, a emanações coloridas por detrás das lojas nocturnas: «Nunca me há-de esquecer esta corrida luminosa na mais clara noite de um Inverno. O mapa colorido do firmamento transformara-se numa cúpula enorme onde se acumulavam continentes e oceanos fantásticos cortados pelas linhas dos turbilhões e das correntes estelares, riscos brilhantes da geografia celeste» [As Lojas de Canela, Assírio e Alvim, (1933), 1987, pág. 72] 

Mas havia, há outro Schulz, o da pintura, uma vocação anterior à escrita, habitante do um país mais tenebroso que aquele que atravessamos nos contos. «Ocupava os ócios a desenhar: numa paisagem de província, para lá da praça vazia do Município, um fiacre a trote levava mulheres nuas com meias e chapéus de palha; machos franzinos de cabeça imensa e olhos febris arrastavam-se aos pés de raparigas sentadas com indolência numa poltrona», conta um amigo, Arthur Sandauer, que uma vez lhe apareceu em casa. 

Eis o que pude ver na exposição do Círculo de Bellas Artes, em Madrid, onde se mostram meia centena de trabalhos dos duzentos que escaparam à devastação nazi. Uma sequência que abre com dois auto-retratos, espécie de umbral da sua paixão pela própria efígie que aflora em múltiplas composições. E que percorre toda a trajectória do artista desde a gestação das ilustrações de O Livro Idólatra, num ritual fetichista que sobreviverá nos seus contos. E, sempre, as «cortesãs apocalípticas», colegiais perversas, mulheres maduras, indiferentes e dominantes, nuas ou semi-nuas, de chicote, anões e velhos rastejando, gatinhando, fetichistas idolatrando-se, lambendo o próprio corpo, eis a tribo de párias que, em procissão ou solitariamente, habita a região obscura reflectida na sua obra plástica. 

Particularmente interessante é, ainda, o Encontro [numa ruela da sua cidade natal, um judeu cumprimentando cerimoniosamente duas tentadoras, provocadoras prostitutas], óleo sobre cartão, de 1920, único exemplo sobrevivente da sua pintura, exceptuando os dois fragmentários e deteriorados vestígios recuperados daquilo que foi o seu testamento plástico, o mural com cenas de contos que realizou para o quarto do filho do Hauptscharführer Félix Landau, membro da Gestapo e seu protector durante o aziago tempo emprestado que precedeu o seu assassinato. Significativo é, também, o núcleo documental da exposição com as edições originais dos dois conjuntos de contos e das colaborações em revistas, assim como uma selecção da correspondência - donde se destaca uma carta trocada com Gombrowicz , fotografias de família e postais de Drohobycz. 

Num exemplar do Hebdomadário Ilustrado, de Varsóvia, que escapou à voragem destruidora do seu espólio literário  [sabe-se da existência de um romance, O Messias, que estaria quase pronto e que desapareceu], e numa carta dirida a Witkiewicz, outro escritor-pintor, Schulz explica a génese da sua obra plástica: «Ainda eu não sabia falar e já enchia quantos papéis encontrava, e as margens dos jornais, com garatujas que despertavam a atenção de quem vivia comigo. Comecei por fazer sempre carros atrelados. O percurso de uma viagem de fiacre parecia-me cheio de importância e simbologia oculta. Com seis, sete anos, nos meus desenhos aparecia sempre a imagem de um fiacre de capota abaixada e lanternas acesas, a sair de uma floresta nocturna».

E donde emana a filiação artística de Schulz? Para Mónica Poliwka, comissária da exposição, há dois círculos concêntricos na sua obra. Um que estabelece a confluência com a pintura polaca da época: Wojtkiewicz e Weiss e, logo, a coincidência geracional com Witkiewicz. E outro, mais amplo que remonta essa filiação até uma bem precisa deriva negra da arte europeia, onde encontramos a presença seminal de Goya e de Klinger e Grosz, como sombras tutelares.

[ao alto, reprodução de Dedykacja, auto-retrato de Schulz]

14 de outubro de 2007

Madrid é uma festa



Num conto breve de Kafka, intitulado A partida, alguém pergunta: - «Conheces, então, a tua meta?». -«Sim [foi a resposta]. Já disse. Sair daqui: esta é minha meta». No meu plano de evasão constantemente renovado, Madrid foi a minha meta no último fim de semana prolongado. Deixo aqui uma espécie de cartografia espiritual de um fim de semana que nunca se acaba, pois já se estende por outros que hão-de vir.

Vivamerica. Madrid nunca se acaba, sobretudo num fim de semana carregado de palavras, sons, imagens e sabores vindos do outro lado do mar para celebrar a alma ibero-americana partilhada por mais de 400.000 milhões de falantes de espanhol e português em todo o mundo. Trata-se do Vivamerica que como uma enorme corrente atlântica se derrama por vários lugares da capital espanhola, deixando escutar a maresia do sul e, às vezes, olhar os abismos onde há muito tempo nos perdemos. Numa carta escrita a Pessoa falava Borges da «vaga gente sem geografia cumprindo em sua carne, obscuramente, seus hábitos». Hoje, outra vaga gente faz o caminho inverso e procura na Europa cumprir a sua carne, os seus hábitos que também já foram os nossos. Outras travessias, portanto, entre a saudade e a esperança de corações emigrantes navegando num mar em cujas águas verdes, azuis e negras se espelha a nossa alma antiga. Por isso, um emigrante equatoriano me dizia, enquanto esperávamos na Casa das Américas por Álvaro Mutis: «estamos aquí, por que vosotros estuvieran allá». E foi à procura dessa América inventada, imaginada, feita de encantos e desencantos que estive há uma semana em Madrid, escutando as palavras de Mutis, Juan Villoro, Pedro Juan Gutiérrez, Mario Delgado Aparain, Luis Sepúlveda, Inês Pedrosa, Fernando Pinto Amaral, entre outros; partilhando a experiência política de Rubén Blades como ministro do Panamá; ouvindo as sonoridades do gótico tropical de San Pascualito Rey. // Álvaro Mutis. A primeira vez que o encontrei, na Rue Vaneau, em Paris, pensei tratar-se de um seu duplo. Sempre a Rue Vaneau. Ou seria na página 293 de Doutor Pasavento [Teorema, 2007]? «Então pude ver que o homem não era parecido com Álvaro Mutis, mas sim o próprio Álvaro Mutis, o escritor colombiano». E agora ali estava ele de novo, com Juan Villoro ao lado, a abrir o festival Vivamerica. «O inventor da melancolia moderna», alguém disse já não sei se se referindo a Chateaubriand ou se a Mutis. O certo é que a conferência inaugural deste «maestro del descalabro» não andou longe do que pensaria o escritor francês se ali estivesse na Casa da América, transformada por instantes numa espécie de nau à deriva conduzida por um navegador do desassossego. «Jamás en su vida sobre la Tierra el hombre ha vivido más solo, más aislado de sus semejantes, más vejado por sus propios inventos, destinados a borrar en él hasta último rasgo de humanidad», afirmou o escritor de Los Elementos del Desastre [1953] perante a plateia que enchia a sala Gabriela Mistral. Lembro-me então da pergunta de Elias Canetti: «Regressará Deus quando a sua criação estiver destruída?». E como se escutasse o murmúrio do meu pensamento, Mutis responde que, haja o que houver, a poesia estará aí para contar o último suspiro do mundo. // Juan Villoro. Converso com Juan Villoro sobre a cidade do México, transformada agora na região menos transparente e no «único lugar donde he tenido miedo de perderme para siempre», como afirmou o escritor Claudio Magris. Digo-lhe que com a minha alma de passeante já lá estive uma vez, anónimo entre os seus quinze milhões de habitantes, perdendo-me num lugar para me reencontrar sempre noutro. Ofereço-lhe a revista Atlântica e peço-lhe cumplicidade na forma da escrita de texto a publicar no próximo número em preparação. Evoca Jaime Torres Bordet que já em 1957 escrevia: «Fuiste, ciudad. No eres. Te aplastaran/ tranvías, autos, noches al magnesio./ Para verter el paisaje/ ahora necessito un aparato/ preciso, lento, de radiografia./ Que enfermedad, tus árboles! Qué ruina/ tu cielo!». Ficou de me enviar uma crónica mexicana escrita sob un cielo artificial. // Rubén Blades. Pergunto a Rubén Blades como pode o cantor de Pablo pueblo passar de denunciante das injustiças a ministro do governo do Panamá. «Es pasar de escribir la denuncia, a una propuesta en la que vas a tratar de ayudar a mejorar las cosas a través de un proceso político», responde-me numa conversa que durou quase uma hora e que será publicada num próximo número da Atlântica. // San Pascualito Rey. Rock, rancheras, balada setentera, huapangos, música de congal e muita experimentação no terceiro disco deste grupo que veio do México.

Círculo de Belas Artes 1. Bruno Schulz. El pais tenebroso. Quem ousar entrar na sala Goya, no Círculo de Belas Artes, em Madrid, poderá precipitar-se num País tenebroso, exposição retrospectiva da obra plástica de Bruno Schulz. A memória da infância asfixiante na sua Drohobycz natal: cenografias de lojas sombrias, manequins de cera, mulheres anónimas, judeus errantes, fiacres nocturnos, seres deformados com feições caninas povoam a geografia de pesadelo de um Schulz que até ao fim de semana eu conhecia apenas desse extraordinário livro de contos que é As Lojas de Canela [Assírio & Alvim]. Trouxe comigo um belíssimo catálogo organizado por Monika Poliwka, comissária da exposição, com reproduções da sua obra plástica, postais antigos de Drohobycz, fotografias de família, alguns originais de correspondência trocada com Witold Gombrowicz. Restos de um pais tenebroso. // Ramón María del Valle-Inclán. Las Galas del Difunto. Ainda no Círculo de Belas Artes, o Teatro del Común, sob a direcção de Celia León, apresentou um texto pouco conhecido de Valle-Inclán, aquele «que se queixava de não lhe permitirem subir para um eléctrico com dois leões».

Museu Reina Sofia. Paula Rego, Retrospectiva. Uma trajectória artística que mostra a experiência do mundo de uma pintora indomável, inspirada nas recordações da sua solitária e mágica infância, como se Portugal inteiro, no seu melhor e no seu pior, estivesse agora ali diante de nós. Um Portugal que parece pintado por um Goya contemporâneo ou por Hogarth cuja influência Paula Rego reivindica. Momentos inebriados, festivos, violentos, lúdicos, teatrais, patéticos. E também os livros dentro dos quadros: As Criadas, inspirado na obra de Genet; Os Crimes do Padre Amaro, de Eça; Jane Eyre, de Charlotte Brontë; A Metamorfose, de Kafka; O Homem Almofada, inspirado em Martin McDonagh. Alegorias. Exposição visitadíssima, a mostrar que ainda há muitos portugueses que fazem quilómetros para ver arte. //Guernica. Picasso. «Escrever poesia depois de Auchswitz é bárbaro», afirmou Adorno diante da experiência do extermínio. E outros houve que emudeceram perante a «banalidade do mal». Mas Picasso, pelo contrário, pintou como ninguém essa banalidade, deixando-nos, isso sim, emudecidos diante da barbárie pintada do bombardeamento de Guernica. Uma pequena multidão olha o quadro em silêncio, como se ali qualquer outra semântica fosse redundante contra a banalidade do mal.

Museo del Prado. Demoro-me na pintura flamenga. Sobretudo Rubens, excessivo, apolíneo. A exuberância do nu feminino n´ As três Graças. O retorno à festa da vida n´ O jardim do amor e na Dança dos aldeões. Depois, detenho-me n´As Meninas, de Velásquez. E n´O jardim das delícias, de El Bosco. E depois, Goya, de quem Ortega y Gasset disse ser «um monstro... e o mais decidido monstro dos seus monstros». Talvez não, apesar de todos os seus fantasmas, vividos e pintados, e de oscilar sempre entre a luz da corte e a escuridão da alma. E de novo a «banalidade do mal», agora n´Os fusilamentos de três de Maio. // Patinir e a invenção da paisagem. A paisagem antes da destruição descrita por W. G. Sebald muito tempo depois. Um remador que lembra Erza Pound nos seus dias mais obscuros. Uma aragem lambendo a superfície líquida de um lago. A barca de Coronte transportando uma alma numa viagem sem retorno sob um céu azul, místico, nórdico, assim se anunciou num enorme painel colocado à entrada do Museu, a exposição do pintor flamengo que eu ainda não conhecia. Depois, lá dentro, 24 paisagens quase microcópicas, onde, ainda assim, cabemos todos, como se o próprio Patinir nos tivesse colocado aí como personagens secundários de outras tantas micro-narrativas enquadradas num fundo de paisagens submersas de azul, rochedos, bosques, torres, casarios, moinhos, uma fogueira, um bando de pássaros levantando voo e, no último plano, sempre um horizonte luminoso onde pairam densas e opressivas nuvens sobre imagens surreais de figurantes montados em bestas, monstros, matanças, calamidades.

Casa del Libro. Enrique Vila-Matas. Exploradores del Abismo [Anagrama, 2008]. Entro na livraria para comprar Exploradores del Abismo, o último Vila-Matas, de que já lera o conto «La modéstia». Abro-o ao acaso e leio em «La letra gorda», aquilo que me parece ser uma virtual declaração de princípios do livro: «La tensión más fuerte la provocaba el duro esfuerzo de contar historias de personas normales y tener a la vez quereprimir mi tendencia a divertirme con textos metaliterarios». Veremos se é outro ou o mesmo Vila-Matas que agora se dá a ler.// Vila-Matas portátil [Candaya, 2007]. Já se percebeu que sou um aficcionado do escritor catalão. « Tal vez en unos años la acumulación de ideas sobre el trabajo de Vila-Matasos permita descobrir con claridad las razones por las que nos commueve», escreveu o crítico mexicano Álvaro Enrique, em 1997. E dez anos e cinco livros depois? Compro o livro que reproduz o itinerário crítico e cronológico dos livros de Vila-Matas e que inclui testemunhos de Pitol, Bolaño, Villoro, Fresán, Cercas, Tabucchi e Loriga, entre outros que partilham a sua aventura shandy. // Joseph Roth. Fuga sin Fin. [Acantilado, 2003]. É o romance que Pasavento/Vila-Matas transportava na maleta vermelha que herdara da sua avó e que «leu de um só folgo», em Nápoles. Prometo a mim mesmo lê-lo também de um só folgo numa próxima viagem de ocultação. // Roberto Bolaño. Los detectives salvages [Anagrama, 1998]. O escritor chileno que se exilou no México, durante a ditadura, e que nas extravagantes 447 páginas de Los detectives salvages deixa fluir a sua alma nómada, misturando-a com todos os seres errantes que vivem à deriva nos arredores de si mesmos, instaurando uma espécie de «literatura por vir». // Sergio Pitol. El arte de la fuga [Anagrama, 1996]. Um livro que foge a qualquer classificação, que remove as fronteiras do género, parecendo, primeiro, um ensaio, mas logo depois uma narrativa, e depois uma crónica de uma vida, um testemunho de um viajante, ou anotações de um leitor hedonista, sempre como se o autor fosse uma criança deslumbrada diante da variedade do mundo.

Babelia. Tenho por hábito ler o suplemento do El Pais todos os sábados. Sento-me por isso na esplanada do Círculo de Artes, na Gran Via, e empreendo uma viagem através da literatura catalã que constitui o tema desta Babélia, transformando momentaneamente a Gran Via no Passeig de Gràcia. Um inquérito junto de mais de cem especialistas elege as 50 melhores obras catalães de sempre: Ramon Lull [1232-1316] («Implacável defensor de la lógica cristiana. Escribió en latin, catalán y árabe. Consciente de que existiria un Pierre Ménard reescribió de memoria algunos de sus libros perdidos en un naufragio»); Josep Pla [1897-1981] («incómodo y bellíssimo. Desconfiado, viajero, diletante, comodón, trabajador... es el paradigma de la literatura catalana»; Salvador Espriu [1914-1945] («Le compararon a Pablo Neruda, Rafael Alberti o Valle-Inclán. No se les parece en nada. Autor precoz, le tocó vivir con estoicismonlo peor de la história del siglo XX». Dos cinquenta títulos citados não li nenhum! Mas recordo o fundo cabalístico de Lull perseguido por Luisa Costa Gomes, em Vida de Ramón [Dom Quixote, 1991]. E li outros mais recentes, como Juan Marsé, Eduardo Mendoza, Javier Cercas, Carlos Ruiz Zafón e, claro, Enrique Vila-Matas. Nesta Babélia há ainda páginas sobre agentes literários, editores e livreiros de Barcelona que já não tive tempo de ler, pois alguém muito parecido com Che Guevara sentou-se na mesa ao lado. Pouso o jornal e regresso à Gran Via. Mais tarde, na Plaza del Sol, confirmaria tratar-se, efectivamente, de Che.

El tapeo. A idea é caminhar ao acaso desde a Puerta del Sol até à Plaza Mayor, passando pela Plaza de Santa Ana, ir descobrindo os rincones mais saborosos da cidade através do labirinto faustoso das mil tabernitas que há por ali e que nos convidam a entrar, fervilhando de gente que se pierde noche adentro, entre vinitos, cañas y bocadillos, la oreja, los torreznos, las anchoas, lo ibérico... y sobre todo con muchas ganas de vivir. Tapear es una arte y a Madrid la conocen como puede comprobar, tanto que ahora mismo se me huida la lengua para el castellano. Aqui fica a porta de entrada para a Venta El Buscón, um dos muitos abismos faustosos por onde me adentrei.  

13 de julho de 2007

Projecto para uma roda de leitura perigosa

Intrometo-me no book crossing que anda por aí e atrevo-me a propor alguns livros para serem postos a  girar, este Verão, numa Roda da Leitura como a que a imagem acima reproduz [cf. Agostino Ramelli: projecto para uma roda de leitura. Paris, 1588]. Basta colocá-los na roda, carregar no pedal e, depois, ir lendo ou relendo os cinco livros que aqui recomendo contra a rasura das novidades. Cinco livros que fazem uma pequena biblioteca giratória, intensiva e transportável, escolhida para levar para férias, com o mar do sul ao fundo, procurando novos caminhos bifurcados em páginas talvez já lidas mas sempre à espera de serem de novo abertas, manipuladas, perseguidas por gente que acredita que nelas se espelham mundos. Que cumplicidades tecem, então, estes livros entre si? Desde logo, o facto de partilharem, na minha biblioteca pessoal, a mesma prateleira. E também a circunstância dos seus autores pertencerem a uma certa geografia, a da Mitteleurope que mais do que uma condição espacial corresponde, sobretudo, a uma certa ideia de literatura. Depois, porque são autores que ocultam a sua biografia para melhor poderem afirmar a sua obra. E, ainda, porque todos  habitaram de uma forma ou de outra «as regiões do destino onde reina a solidão».

Finalmente, porque talvez encaixem na categoria de livros a que Robert Walser se referia quando escreveu n´O Salteador (Relógio d´Água, 2003): «Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deviam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável?»

Talvez a vida destes escritores tenha sido «doentia», mas não os seus livros que parecem substituir a vida que não tiveram por uma espécie de duplicação do mundo. E não será, afinal, esta a vocação de toda a literatura?

1. Robert Musil, As perturbações do  Jovem Törless [1906] (Dom Quixote, 2006), uma quase autobiografia da juventude do autor, uma espécie de Werther pessoal e uma «necrologia profética»;

2. Robert Walser, Jacob von Gunten [1909] (Assírio e Alvim, 2005), o extravagante escritor suíço que escrevia lápis para melhor poder ausentar-se;

3. Kafka, O desaparecido [1927] (Relógio d´Água, 2004), onde se persegue o sonho de um emigrante preso numa engrenagem donde cada vez mais é impossível escapar;

4. Bruno Schulz, As Lojas de Canela [1933] (Assírio e Alvim, 1987), cujos contos transfiguram a pequena cidade de Drohobycz numa espécie de Macondo polaca onde se respira o ardor intenso da fantasia e das metamorfoses  contra a colmeia de nevroses e de loucura onde o autor se encontra encerrado;

 5. Joseph Roth, A Lenda do Santo Bebedor [1939] (Assírio e Alvim, 1997), outro polaco, da Galitzia, que aqui narra a vida e a «morte suave e bela» do seu Santo Bebedor, tão contrária à sua própria morte.

[Deixo o desafio a todos os que por aqui passarem para pôrem a andar nos comentários a sua Roda de Leitura]