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3 de fevereiro de 2011

Da «rua árabe» à praça da liberdade


O rastilho revolucionário ateado, em Tunis, por Mohamed Biazizi, o humilde vendedor de fruta, que num gesto desesperado se imolou pelo fogo em protesto contra a brutalidade policial, conseguiu em semanas aquilo o terrorismo islâmico foi incapaz de conseguir durante todo o tempo em que, através da confessionalização do descontentamento popular, não logrou conseguir com os seus atentados terroristas; isto é, desencadear o incêndio em larga escala que, primeiro, fez derrubar o ditador tunisino Ben Ali, alastrou-se, em seguida, ao Egipto com consequências políticas cujo alcance permanece, ainda, uma incógnita, e ameaça, nos próximos dias, a estabilidade política no Iémen, na Jordânia, na Argélia e em Marrocos.

O mito da rua árabe - composta, como descreve o jornalista de origem iraniana, Amir Taheri, por uma turba medieval de exaltados homens barbudos sempre prontos a linchar publicamente qualquer infiel que não siga os preceitos da fé islâmica - que, há décadas, vem condicionando a atitude ocidental relativamente ao mundo árabe, parece começar, agora, a abanar. E, «pela primeira vez numa geração, não é a religião, nem a aventura de um líder único, nem as guerras contra Israel, aquilo que pôs em marcha uma região, mas o desejo visceral de uma vida decente», escreveu Anthony Sadid, no The New York Times.

Na Tunísia, assistimos a manifestações onde predominavam, sobretudo, estudantes e gente da classe média esclarecida, incluindo muitas mulheres; por estes dramáticos “dias de ira”, no Egipto, vamos vendo confluir na praça Al Tahrir uma massa imensa de sectores muito diversos da sociedade, que integra desde os mais pobres e desesperados até uma pequena e média burguesia que aspira à democracia. No Iémen, as ruas são invadidas quase exclusivamente por homens exibindo nos rostos as marcas de uma extrema pobreza. Enfim, o fogo da revolta que, de forma incontrolada, se vai propagando pelo norte de África e Oriente Próximo, ameaçando transformar a paisagem política, afirmando a possibilidade da utopia viável democrática em vez da alternativa entre as ditaduras laicas e as ditaduras islâmicas, mostra ao Ocidente que a rua árabe já não é território exclusivo da intolerância religiosa.

Esta corrente revolucionária com objectivos de natureza predominantemente laica, deveria levar as potencias ocidentais a reconstruir uma visão, finalmente, aberta das prerrogativas, crenças e diferenças entre o Ocidente e o mundo árabe, em coerência com os princípios de democracia política e social que reclamam para si, mas que têm sistematicamente alienado no mundo árabe, em nome de inconfessados interesses estratégicos que viriam a ser incitados, e excitados, após o 11-S.

A história mostra-nos que a alienação no mundo árabe dos princípios e valores políticos que o Ocidente proclamava para si teve como resultado suscitar uma desconfiança entre as elites modernistas árabes que ao verem-se abandonados nas suas reivindicações de democracia rapidamente ficaram à mercê da decepção e do ressentimento, deixando o terreno livre ao aparecimento de uma oposição religiosa que foi confessionalizando o descontentamento das populações e fomentantando o ódio contra o Ocidente. Este desencontro civilizacional revelou-se trágico tanto para o Ocidente como para os povos árabes. Trágico para o Ocidente porque viu abrir-se um abismo entre si e o mundo árabe; e duplamente trágico para os árabes que ficaram privados das suas franjas modernizadoras e sob o jugo do despotismo laico sem outra perspectiva mobilizadora que não fosse a do radicalismo islâmico.

Uma legitimidade nascida na transformada rua árabe parece estar a surgir na região, uma legitimidade que para já sabe aquilo que não quer, sendo o que não quer é continuar a sobreviver no limiar da pobreza e privada dos mais elementares direitos de cidadania e de liberdade. Traduzir essa legitimidade em medidas políticas não será tarefa fácil no híbrido quadro político emergente que integra uma numerosa juventude urbana ligada entre si e com o mundo através da Internet, uma burguesia que não quer permanecer na periferia do mundo, uma esquerda activa e moderna e partidos religiosos conservadores mas capazes de superarem o integrismo islamita. Tanto mais que, como escrevia, ontem, Rui Bebiano, «nada nos garante que o Islão aparentemente democrático, moderno e urbano, que de repente tirou o véu e mostrou um rosto benigno, não seja rapidamente esmagado, antes ainda de deixar semente, pelas hordas de resignados, facilmente manipuláveis pelos tiranos ou pelos pregadores, que têm atrás de si séculos de uma cultura de submissão e pouco treino nas subtilezas da democracia».

Por estes «dias de ira» em que a história regressou ao Magreb e Oriente Próximo para espanto e temor da «realpolitik» ocidental, resta-nos continuar a seguir atentamente os dramáticos acontecimentos do Egipto onde a revolta popular se vê, agora, ameaçada por forças provocadoras afectas ao regime de Mubarak - e, por que não ? - acreditar na possibilidade de «os árabes abandonarem o fantasma de um passado inigualável para encararem, por fim, a sua história. E um dia, para lhe virem a ser fiéis» (Samir Kassir, Considerações sobre a desgraça árabe, 2004. E,ao mesmo tempo, exigir que, desta vez, o Ocidente possa desempenhar melhor o seu papel mediador evitando a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», como diria Walter Benjamin se fosse observador destes «dias de ira».

18 de janeiro de 2011

A revolução do jasmim


A insurreição popular na Tunísia que fez desmoronar como um castelo de cartas o regime supostamente mais estável do Magreb - e onde o islamismo fora aniquilado - prossegue a um ritmo imparável, multiplicando-se por todo o país as manifestações exigindo a democracia plena e o julgamento dos responsáveis comprometidos com a ditadura de Ben Ali. Entretanto, nas capitais árabes alarmam-se as oligarquias temendo um efeito dominó sobre os seus próprios regimes.

Considerado pelas diplomacias da França, Itália e Espanha como um «modelo» para os países vizinhos e, recentemente, elogiado em termos enfáticos pelo FMI pela sua política económica, nada fazia prever, pelo menos para quem observa os acontecimentos desde o lado de cá do Mediterrâneo, que tão profunda mudança espreitava na aparente tranquilidade das ruas de Tunes.

Ainda não sabemos qual será o desfecho desta «admirável e vertiginosa aceleração da História», como resumiu o escritor tunisino Abdelwahab Melleb a revolução tunisina. Isto é, se ela será «colonizada» pelos sobreviventes do regime a troco de algumas reformas para que, depois, no essencial, nada mude ou mude muito pouco, ou se se evoluirá no sentido de uma verdadeira revolução democrática, o que a acontecer seria a primeira vez num país árabe desde as independências, já que anteriores revoltas, algumas com amplo apoio popular, como foi o caso de Nasser no Egipto e outras, com menos apoio popular, como no Iraque, em 1958 e na Líbia, em 1969, resultaram de golpes de estado. Na década de sessenta, os governos nacionalistas árabes fundaram as bases de um poder autoritário, visando perpectuar-se através de novas dinastias republicanas -como as de Sadam Husein, Hafez el Asad, Mubarak. Em Marrocos, as tentativas golpistas contra Hassan II vieram mostrar que a alternativa à monarquia alauíta seria uma ditadura militar ou um regime islâmico. E, na Argélia, nos anos noventa, a decadência do nacionalismo que teve como contra-ponto a confessionalização da conflitualidade social e a emergência do islamismo político conduziram o país a uma sangrenta guerra civil. A pretexto de manter afastada a ameaça islâmica, as aspirações democráticas dos independentistas argelinos encontram-se enredadas numa teia policial que tudo e todos controla.

Assim, a evolução da insurreição tunisina é, ainda, uma incógnita, tanto mais que, em consequência da repressão endémica, não existe actualmente na Tunísia qualquer força política com a capacidade de apresentar un programa de transformações estruturais para o país, nem uma liderança progressista que possa conseguir a adesão da maioria e catalisar a sua vontade de mudança, sendo, por isso, elevados os riscos de decepção, radicalização e violência. De resto, a situação de caos que se vai vivendo, por estes dias, no país, com saques a lojas e ataques a organismos oficiais e a moradias privadas, poderá mudar a atitude do exército a pretexto de repôr a ordem e a segurança ou para anular qualquer ameaça islâmica. Mas seja qual for a evolução dos acontecimentos, o exército não poderá furtar-se a desempenhar um papel determinante nesta transição.

Quanto à ameaça de islamização desta revolta, essa possiblidade (não obstante, doravante, ter de se levar em conta o até aqui discreto partido Ennahdha) não parece, por agora, iminente, quer porque as reivindicações da juventude tunisina insurrecta são totalmente laicizadas - exigem direitos cívicos e políticos e justiça social -, quer porque não existem no país movimentos islâmicos fortemente organizados, como acontece no Egipto (Irmãos Muçulmanos) ou em Marrocos (Justiça e Caridade).

O que estes acontecimentos, entretanto, vieram revelar, é que a experiência democrática do nacionalismo de Habib Bourguiba, destituído, em 1987, por um golpe palaciano pelo perpretado pelo agora deposto Ben Ali que, a pretexto de conter a ameaça islâmica, impôs a toda a sociedade um regime orweliano, é que a memória dessa experiência estava, apenas, adormecida, aguardando a ocasião propícia para manifestar-se. Importa reconhecer que desde a independência até aos anos oitenta, o governo de Bourguiba estabeleceu um Estado laico, aberto aos princípios e valores da modernidade, com um código de família ocidental, interditando a poligamia e o repúdio.

Ora isto e o facto de grande número de tunisinos terem acesso à Internet e às suas redes sociais e fóruns de discussão - como, por exemplo, o Nawaat, um blogue colectivo independente que teve um papel mobilizador na revolução em curso - e faz toda a diferença relativamente aos outros países magrebinos ajudam a explicar este movimento, de essência profundamente democrática, vindo de baixo e das classes médias, sem uma força política organizada. Segundo Benjamin Stora, histotiador do Magreb, «os elementos detonadores foram a recusa do exército em disparar sobre o povo e o apelo à greve da UGTT (União Geral dos Trabalhadores Tunisinos), o mais antigo sindicato do Magreb, fundado em 1924. Uma forma de oposição social, substituindo a oposição política, pôde asim funcionar».

Esperemos que a Europa saiba retirar as lições desta insurreição tunisina e estenda, agora, a mão aos democratas, contrariando a tendência histórica de - como denunciou Amin Malouf - continuar a «alienar, sobretudo, as elites modernistas, enquanto com as forças retrógradas sempre encontrou arranjos, terrenos de entendimento, convergências de interesses» (Um Mundo sem regras, 2009).

E que, por seu lado - como escreveu o professor universitário libanês Samir Kassir, num livro que lhe custaria a vida -, «os árabes abandonem o fantasma de um passado inigualável para encararem por fim, a sua história. E um dia, para lhe virem a ser fiéis» (Considerações sobre a desgraça árabe, 2004.