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3 de março de 2014

Epitáfio


Releio alguns micro-contos de Augusto Monterroso e encontro o seguinte epitáfio que o escritor guatemalteco diz ter descoberto, um dia, num cemitério:

"Escreveu um drama: disseram que se julgava Shakespeare; / Escreveu um romance: disseram que se julgava Proust; / Escreveu um conto: disseram que se julgava Chekhov; / Escreveu um diário: disseram que se julgava Pavese; / Escreveu uma despedida: disseram que se julgava Cervantes; / Deixou de escrever: disseram que se julgava Rimbaud; / Escreveu um epitáfio: disseram que se julgava defunto."

4 de março de 2012

Extremamente alto e incrivelmente perto


"Todos os livros são sobre a perda", diz Jonathan Safran Foer, um dos mais promissores escritores norte-americanos, segundo a revista Granta, tal como Nicole Krauss, sua mulher, autora de A história do amor (Dom Quixote). Os livros que W. G. Sebald escreveu, esses são, seguramente, sobre a perda. Livros sobre a consternação do mundo, sobre as ruínas que o nosso tempo vai amontoando. Tijolos sobre tijolos. E ninguém na paisagem desolada. Apenas a literatura para gravar no papel o desvanecimento da História. Num outro registo narrativo, também Jonathan Safran Foer tenta em Extremamente alto e incrivelmente perto, romance reeditado pela Bertrand que vem publicando a obra deste autor norte-americano, uma meditação sobre a perda e sobre o luto num mundo que - literalmente - desabou à sua volta. 

Em Extremamente alto e incrivelmente perto (adaptado ao cinema por Stephen Daldry e protagonizado por Tom Hanks e Sandra Bullock), Oskar é um órfão do 11 de Setembro, "o dia mais triste de todos os tempos": o seu pai desabou com as torres gémeas e com elas também os arquétipos de uma criança que não consegue parar de inventar mundos paralelos; noutra história, contada através das cartas escritas pelos avós, é a paisagem de destruição de Dresden durante a Segunda Guerra Mundial que surge carregada de fantasmas do passado. O que nos poderia levar a Sebald (História natural da destruição) evocando as marcas da destruição de Berlim se o livro de Jonathan Safran sobre a consternação do mundo e sobre o luto do pós 11-S tivesse sido um pouco mais apocalíptico e um pouco menos integrado nos circuitos  comerciais.

Contudo, embora permeável ao sucesso mediático, outra maneira de abordar a questão será considerar Jonathan Safran como um jovem escritor que pega no lastro de uma certa literatura, retraçando a partir daí o que antes já fora traçado de outra forma. De resto, o autor não recusa a influência de Sebald, cuja escrita compara a "um machado afiado". Ou a aproximação à agudeza judaica de Philip Roth do período de O complexo de Portnov (não esquecer que Jonathan Safran é judeu e a sua, ainda, curta obra persegue o lastro dessa herança, reinterpretando-a à luz da actualidade). Ou a inspiração em Bruno Schulz cujo conto "A rua dos crocodilos" serviu de base ao seu mais recente livro A tree of codes, "um livro-objecto que joga com o vazio fisico e com palavras e frases arrancadas do conto". Ou a integração de um sopro surrealista que não destoaria de algumas páginas de Kurt Vonnegut. Ou, talvez, antes de tudo, a auto-referenciação a uma certa arquitectura narrativa que evoca Laurence Stern.

1 de março de 2012

Vila-Matas no país das maravilhas



Nestas noites volúveis em vou lendo as mais de quinhentas páginas de Uma vida absolutamente maravillosa de Enrique Vila-Matas (título de um artigo sobre Marcel Duchamp que V-M publicou no El País), vejo-me tão maravillado como na primeira vez que li El viajero más lento, El traje de los domingos, Desde la ciudad nerviosa y El viento ligero de Parma que integram esta antologia cronológica de artigos e ensaios, agora, recuperados pela Mandadori DeBolsillo.

Um livro absolutamente vilamatiano, no sentido em que V-M é aqui, ao mesmo tempo, um ensaísta que narra e um contista que ensaia, como confirmam os maravillosos ensaios do segundo livro de Diario voluble e, sobretudo, uma espécie catálogo comentado das suas leituras intitulado Para acabar con los números redondos, autêntica galeria de retratos de momento que integram a sua biblioteca de quarto escuro: "Tan descontente estava Alberto Savinio con las enciclopedias que se hizo la suya propria para su uso personal. Lo mismo creo haber yo hecho con la literatura de este siglo, pues en un cuarto escuro de mi casa he reunido a todos mis autores preferidos": Walser, Joyce, Gombrowicz, Céline, Roussel, Kafka, Schulz, entre outros bartlebianos e shandianos. Fecha o livro uma última secção com o título equívoco Notas que dá continuidade à "geografía personal" vilamatiana sem a qual, confessa V-M, "no sabría vivir".

O que me leva, então, a atravessar como um funâmbulo da leitura as cordas que V-M  estende sobre os caminhos da literatura buscando novas estações de luz nos interstícios de metáforas apagadas da experiência quotidiana? Precisamente o processo vilamatiano de «desfamiliarizar uma experiência e dela se apropriar como ficção». Não, portanto, uma qualquer intenção de estilhaçar prescrições formais ou normas de conduta narrativa. Não uma vontade de subversão da realidade e da sua substituição pela fantasia, pelo mágico, pelo mítico. Mas um impulso irresistível de tratar o ensaio conferindo-lhe uma dimensão narrativa, e ficcional, onde convivem o diário, a autobiografia e a biografia inventada, o conto, a digressão, a citação literária enquanto formulações retóricas inventadas para contar uma vida absolutamente maravillosa.  

Uma visão aristotélica de representação ficcional muito próxima da imitação do real. Verosimilhança, portanto. E verosimilhança que em Vila-Matas se manifesta na sua capacidade de assumir o evidente sem pedir explicações à evidência, segundo uma teoria que li já não sei onde. De buscar possibilidades ficcionais na vida de todos os dias. De convocar a sua experiência pessoal, vivida e, depois, efabulá-la. De explorar abismos reais e imaginários, e observar horizontes plausíveis e, às vezes, precipitar-se no vazio. De cruzar personagens reais e fictícias. De navegar à bolina no fragmentário e no rasto do casual ou da memória súbita de livros, vidas, citações perdidas. De convocar o acaso para determinar destinos de vidas alheias, às vezes, a sua própria vida ou a de um narrador que se parece demasiado com ele próprio. De levar-nos a acreditar e, ao mesmo tempo, a duvidar do que julgamos verdadeiro ou falso. De domesticar a fantasia mais inverosímil sob o manto diáfano do real e de esconder a realidade mais verosímil sob a insolência da fantasia mais cintilante. Uma forma e uma fórmula, afinal, de E V-M se posicionar diante da literatura e da vida, como ele próprio confessou no citado artigo sobre Duchamp: "una forma de tener, como minimo, dos versiones de un mismo tema: él mismo. Por eso a veces juego con el gato de Schrödinger que encarna la paradoja cuántica de estar vivo y muerto a la vez. En otras palabras, juego a no ser Duchamp y serlo."

Daí, levar-nos a acreditar, a nós leitores, funâmbulos também na corda bamba da escrita vilamatiana, que toda a ficção é real e que toda a realidade ficcionada é uma nova realidade que somos convidados a explorar como expedicionários de um território que existe «fora daqui» e onde, aí sim, sugere Vila-Matas, nos adentramos na vida. Até porque, como escreveu Pessoa, "a literatura não é mais do que uma tentativa de tornar real a vida".

"Que tengan ustedes muy buenas noches y una vida absolutamente maravillosa", despediu-se E V-M no artigo sobre Duchamp. Eu, certamente, irei ter uma boa noite de leitura maravillosa.

17 de fevereiro de 2012

Dickens para governantes


Leio no Guardian que, por ocasião do bicentenário do nascimento de Charles Dickens (7 de Fevereiro de 1812), o ministro da Cultura do governo inglês ofereceu, aleatoriamente, segundo o próprio, aos seus colegas, o primeiro ministro à cabeça, um livro do genial autor de "David Copperfield". A David Cameron ofereceu, talvez numa alusão, digo eu, à crise que o seu país e a Europa atravessam e que, costuma ouvir-se dizer com inconfessado cinismo, para além dos dramas que provoca também gera oportunidades, "Tempos Difíceis" e "Grandes Esperanças", que também seriam adequados para qualquer outro primeiro ministro europeu, embora me pareça que alguns deles, a começar pela senhora Merckel, não são muito dados a leituras literárias.

Comentando esta oferenda literária, numa crónica no Corriere della Sera, o escritor triestino Claudio Magris, com confessada intenção simbólica,  diz-nos que não obstante a sua paixão absoluta por Os cadernos póstumos do clube Pickwick, não hesitaria em oferecer David Copperfield ao presidente do Conselho do governo de Itália, porque, em sua opinião, "não é um romance político", sendo, por isso, aquele cuja leitura melhor conviria a Mario Monti, cujo governo se discute "se é ou não político".

Ponho-me a pensar que livros de Dickens poderia, também, eu oferecer ao nosso primeiro ministro para ajudá-lo a melhorar o seu sentido de justiça social e a compreender melhor a infelicidade quotidiana que as medidas do seu governo vão gerando em sectores crescentes da nossa população. A Passos Coelho que, confessou que, à noite, em casa, quase nunca vê televisão, o que lhe dará vantagem para leitura, oferecer-lhe-ia, então, um dos livros oferecidos a Cameron, Tempos difíceis, onde Dickens critica com acidez as deploráveis condições de vida dos operários ingleses e o fosso abismal que existia entre a sua vida precária e o fausto obsceno dos ricos da Inglaterra vitoriana, enfim, algo que nos vai sendo familiar quando nos damos conta do desemprego que alastra e vai queimando as esperanças dos portugueses.

Mas, talvez, mais proveitoso para todos, fosse recomendar-lhe que transformasse algumas reuniões do Conselho de Ministros num "conselho de leitores" dos livros de Dickens para, assim, aprenderem com ele a observar o mundo dos mais desprotegidos que se vai desmoronando à sua volta. É que, para nossa desgraça, os difíceis tempos que vamos vivendo parecem-se, cada vez mais, com os seus Tempos difíceis. E David Copperfield, Contos de Natal, Oliver Twist ou Historia de duas cidades, entre muitos outras obras que Dickens nos legou, para além de clássicos imprescindíveis em qualquer biblioteca, mesmo em bibliotecas de ministros mais dados às letras bancárias do que às literárias, de repente voltaram a ficar actuais. Não poderiam ser personagens de Oliver Twist muitas crianças que hoje vão para as escolas sem tomar o pequeno-almoço porque os pais já não têm como alimentá-los por se encontrarem desempregados? E os despejados de suas casas por já não poderem pagar as hipotecas a que estavam sujeitos por terem ficado sem emprego não nos fazem pensar nos mesmos métodos do usurário Scrooge em Conto de Natal ou do avarento Uriah Heep em David Copperfield?

A quem se dirigia Dickens quando escreveu "Oh, economistas utilitários, comissários de realidades, elegantes incrédulos... se continuardes enchendo de pobres a vossa sociedade e não cultivardes neles a esperança, quando tiverdes conseguido arrancar das suas almas todo o idealismo e eles se encontrarem a sós com a sua vida vazia, a realidade converter-se-á num lobo e devorar-vos-á"? Aos usurários e agiotas do seu tempo ou, premonitoriamente, aos especuladores financeiros de hoje que criaram os tempos difíceis em que vamos vivendo, perante o olhar complacente dos economistas apaniguados neo-liberalismo? Que diriam Álvaro e Gaspar se lessem Dickens, hoje, em conselho de leitores?


14 de fevereiro de 2012

Enamoramento e amor


Consta que o venerado Valentim, mártir romano cúmplice dos amantes, conforme reza a lenda cristã, pagou caro com o seu sangue o engenhoso palíndromo “Romamor” em que defendia que o sentimento amoroso é uma matéria tempestuosa à qual não se pode escapar. Platão dedicou ao amor um dos seus mais famosos “Diálogos”, pondo na boca dos convivas do alegre “banquete” distintas maneiras de amar: o amor terreno com seu sedutor catálogo de tentações carnais e o amor idílico e platónico que ignora as possibilidades do corpo. O poeta latino Ovídio oferece-nos na "Arte de Amar" um manual do ofício da sedução, da infidelidade, do engano e do prazer sexual, elaborado a partir das suas próprias experiências. Como divindade mundana, Eros tende a favorecer até ao ilimitado essa atração tumultuosa entre indivíduos de sexo contrário. 

De que falamos, então, quando falamos de amor? Talvez melhor do que em qualquer tratado sobre esse sentimento volúvel, é na literatura que encontramos o melhor catálogo de vivências da paixão amorosa. Porque o amor é, como diz Jorge Luis Borges, uma paixão literária “com as suas mitologias, com as suas pequenas magias inúteis” que convoca uma retórica, umas vezes platónica e elegíaca, outras vezes carnal e voluptuosa, das possibilidades do corpo.

Por isso, neste dia de São Valentim em que se evoca o enamoramento e o acasalamento, procuro no meu catálogo volúvel de histórias de amor duas representações distintas dessa retórica de encontros e desencontros geradora de incontrolados eflúvios hormonais, e proponho aos amantes que por aqui passarem que escolham a retórica da paixão que mais aprouver às suas tentações ou sublimações amorosas.

Que escolham, pois, entre Orgulho e preconceito, de Jane Austen, em que o amor está sempre à beira do casamento encerrando o sonho romântico, e Madame de Bovary, o romance do amor cego, adúltero e trágico por excelência, oferecido por Flaubert. Mas não os leiam esta noite, porque a leitura, parece, prejudica seriamente o amor e vice-versa.

À espera dos bárbaros


Por estes dias em que a Grécia se vê ameaçada pela nova barbárie estrangeira que já acampa junto às suas fronteiras aguardando o seu colapso financeiro e social, recordo o poema "À espera dos bárbaros", do grande poeta helénico do século XX, nascido em Alexandria, Constantino Cavafis (1863-1933), que numa alegoria ao desmoronamento do Império romano, recria uma cidade decadente, com políticos imóveis diante da ameaça estrangeira, preferindo a retórica da submissão à acção mobilizadora.

Revejo as imagens do parlamento grego reunido na noite ateniense em chamas para aprovar novo pacote de medidas de austeridade, mas são, ainda, as palavra de Kavafis que melhor iluminam a noite:

"O que esperamos na ágora reunidos? / É que os bárbaros chegam hoje. / Por que tanta apatia no senado? / Os senadores não legislam mais? / É que os bárbaros chegam hoje. / Que leis hão-de fazer os senadores? / Os bárbaros que chegam as farão. / 

Por que o imperador se ergueu tão cedo
 / e de coroa solene se assentou
 / em seu trono, à porta magna da cidade?

 / É que os bárbaros chegam hoje.
 /  O nosso imperador conta saudar
 / o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe / 
um pergaminho no qual estão escritos / 
muitos nomes e títulos.

 / Por que hoje os dois cônsules e os pretores / 
usam togas de púrpura, bordadas, / 
e pulseiras com grandes ametistas / 
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas? / 
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
 / de ouro e prata finamente cravejados? / 

É que os bárbaros chegam hoje,
 / tais coisas os deslumbram.

 / Por que não vêm os dignos oradores
 / derramar o seu verbo como sempre? / 

É que os bárbaros chegam hoje / e aborrecem arengas, eloquências.

 / Por que subitamente esta inquietude?
 / (Que seriedade nas fisionomias!)
 / Por que tão rápido as ruas se esvaziam
 / e todos voltam para casa preocupados? / 

Porque é já noite, os bárbaros não vêm / e gente recém-chegada das fronteiras
 / diz que não há mais bárbaros.

 / Sem bárbaros o que será de nós?
 / Ah! eles eram uma solução."


10 de fevereiro de 2012

Vila-Matas portátil


Quanto pesariam os livros de bolso de Enrique Vila-Matas que trouxe na minha bagagem de cabine no voo low cost de Barcelona para Sevilha? Seguramente, embora contundentes, pesariam pouco, senão não os poderia ter trazido comigo e começado a lê-los no avião, o que ajuda sempre em qualquer voo, já que livros e turbinas são - como diria o escritor argentino Rodrigo Fresán, autor de "La velocidad de cosas" e, talvez por isso, também ele, um viajante-leitor - máquinas locomotoras.

Livre de taxas de peso adicional, subi, primeiro, à máquina voadora e, só depois, aos três livros De Bolsillo da biblioteca portátil vilamatiana que a Mandadori decidiu começar a publicar, a saber: "En un lugar solitário. Narrativa 1973-1984", "Chet Baker piensa en su arte" e "Una vida absolutamente maravillosa". "Dublinesca", também publicado nesta colecção, não o trouxe, não por medo de excesso de peso, mas porque já o tinha subido noutra viagem. Sempre que subo a aviões, subo também a livros, como já em posts anteriores se ficou a saber. Assim como me confio à perícia dos pilotos que vão traçando linhas nos céus, também me confio à perícia daqueles que traçam linhas nas páginas subidas na cabine.

E num destes livros, traça V-M que tinha o secreto desejo de se tornar realizador de cinema e que, na época, viveu a experiência do serviço militar obrigatório como um calvário. «Daquele já muito remoto ano de 1971, que passei em Mellila como soldado do Exército espanhol, recordo muito particularmente os 20 dias que estive internado no manicómio militar dessa fortaleza». Assim começa o pesado prólogo de En un lugar solitário. Narrativa 1973-1984, escrito por V-M para o volume que reúne os seus cinco primeiros livros. Neste extenso prólogo, V-M confessa como, a pouco e pouco, subiu, ele próprio, para a literatura: «Conto como entrei na literatura, as minhas debilidades iniciais quando comecei a escrever. Primeiro, como leitor de poesia, comecei, depois, a escrever quase por casualidade, e entrei, sem saber como, nesta aventura».

O texto En un lugar solitário, que dá o nome à antologia, foi o primeiro livro publicado por V-M, na ocasião, com o título  Mujer en el espejo contemplando el paisaje. Al sur de los párpados foi o terceiro, tendo o autor evitado reeditá-lo até agora. "Sempre tive alguns preconceitos contra estes dois livros. Contudo, ao relê-los 30 anos depois, reconheço-me neles. Ambos contém coisas boas e más, mas fazem sentido no conjunto dos textos reunidos. Não quis adicionar nem eliminar nada para não diminuir o seu valor documental" numa antologia que integra, ainda,  La asesina ilustrada, Nunca voy al cine e Impostura. "Suprimir um ou outro título da minha obra dos primeiros anos deixá-la-ia coxa".

En Chet Baker piensa en su arte, V-M institui algo que ele próprio classifica como "ficção crítica", processo que utiliza para reflectir sobre a obra de Joyce e de Simenon: "um crítico literário, encerrado durante uma noite noite num hotel de Turim, procura o traço de união entre a literatura radical encarnada pelo último Joyce e a literatura tradicional de qualidade representada por Simenon; persegue o livro que uniria idealmente os leitores de contos minoritários e exigentes com aqueles que preferem histórias mais comerciais".

Dos livros subidos a bordo nesta viagem de regresso a casa, depois de uma estada na cidade nervosa de V-M, Una vida absolutamente maravillosa, que me decidi começar a ler no avião por ser o mais locomotor, é, de entre todos, o mais vilamatiano, aquele em que V-M é, ao mesmo tempo, um ensaísta que narra e um contista que ensaia. Continuo a ler a suas mais de quinhentas páginas nestas noites volúveis, tão maravillado como na primeira vez que li El viajero más lento, El traje de los domingos, Desde la ciudad nerviosa y El viento ligero de Parma. E leituras maravillosas, o segundo livro de Diario voluble e Para acabar con los números redondos que integram o volume. Assim como os retratos de momento de autores que integram a sua, e a minha, biblioteca de quarto escuro: Walser, Joyce, Gombrowicz, Céline, Roussel, Kafka, Schulz, entre outros bartlebianos & shandianos.

E vocês, que esperam para meter no bolso esta ligera, mas contundente, biblioteca portátil vilamatiana? Subir a um avião ou esperar pela tradução?

27 de março de 2011

Uma cena sem fulgor



«Nunca me inquieto se o texto não vem. Posso passar dias sem escrever. Para mim mesma – não sou escritor. Sou uma contemplativa quando o texto chama. Mas custa-me vê-lo partir desde que comece a estar com ele».

Esta a passagem que retiro de Lisboaleipzig para me confortar da perda - devido a um toque descuidado numa tecla interdita do computador - de um texto que acabara de escrever sobre Maria Gabriela Llansol [1931-2008], correspondendo ao seu próprio chamamento e que interromperia o silêncio auto-imposto à escrita deste blogue.

Não uma palavra, uma frase, um apontamento, mas toda uma formulação, uma variação conduzida por filamentos precários que, ingenuamente, deixei cair numa fenda invisível da folha electrónica e que, agora, seguramente, vai brilhando num qualquer buraco negro do ciberespaço, indiferente ao vazio que, subitamente, se instalou na superfície opaca que já nenhuma luz llansoloniana poderá iluminar.

Não haverá, portanto, neste dia em que o CCB lhe dedicou o dia, juntando numa homenagem os amantes do fulgor do seu texto, a pequena fulguração que esteve quase a irromper, aqui, no écran. Fica o desejo de (re)visitação próxima de uma escritora que para melhor escrever «nas margens da língua» se deu como desaparecida das coisas civis.

[ao alto, foto do filme de vera mantero e miguel gonçalves mendes, viagem ao imaginário da escritora maria gabriela llansol]

16 de janeiro de 2011

Da arte balzaquiana de pagar as dívidas sem gastar um cêntimo


Honoré de Balzac (1799-1850) não integra a minha biblioteca de autores favoritos. A minha experiência como leitor de Balzac é, seguramente, a de um leitor sem qualidades, e ficou a dever-se, sobretudo, a obrigações académicas. Do que li do autor da Comédia Humana, recordo personagens híbridas, metamorfoses andróginas, situações equívocas, angústias recorrentes. O seu herói mais visível, Vautrin, é invisível. Ao contrário de Tristam Shandy, de Emma Bovary, ou dos irmãos dostoievskianos, o herói balzaquiano é insignificante e fugaz.

Também a sua biografia é fugidia. Antes de se tornar um escritor conhecido, entre 1821 e 1932, Balzac vivia numas águas-furtadas, cultivando negócios rocambolescos, acumulando dívidas e acossado por credores. Durante esses anos em que se revelou, também, como impressor suicidário e editor promíscuo, escreveu alguns opúsculos que não figuram, hoje, na lista das suas obras mais conhecidas, mas cuja leitura agradará aos leitores sem qualidades. A arte de pôr a gravata de todas as maneiras conhecidas e utilizadas, ensinada e demonstrada em dezasseis lições (1827), A arte de nunca almoçar em casa, e de jantar sempre em casa dos outros, ensinada em oito lições (1827), A arte de pagar as suas dívidas e de satisfazer os credores, sem gastar um cêntimo, ensinado em dez lições (1827) são alguns desses opúsculos de ideias fulgurantes e certeiras que destoam na bibliografia balzaquiana, escritos a meias com um folhetinista da época, EM de Saint-Hilaire.

Ora, nestes tempos de crise financeira em que, primeiro a Grécia, depois a Irlanda e, agora, Portugal, e no horizonte a Espanha, se vão endividando junto dos chamados “mercados” que compram dívidas soberanas a juros cada vez mais altos, tornando insustentável o seu pagamento no futuro, A arte de pagar as suas dívidas sem gastar um cêntimo revela uma desconcertante actualidade, pois aí se dá conta, com recurso a uma ironia, simultaneamente, ácida e luminosa, da génese do endividamento do Estado, do estado de corrupção moral, e do estado da humilhante prostração dos países diante dos banqueiros especuladores.

Entre Madoff e Oliveira e Costa ou Lehman Brothers e BPN, estas atrevidas "lições" balzaquianas "sobre as dívidas e a arte de não ter de as pagar", não destoariam nas modernas escolas de economia e finanças, face aos desfalques, golpes e outras vigarices que nos vão empurrando para o abismo. E, já agora, poderiam, também, ser deixadas à atenção da senhora Merckel como "manual" técnico para a liquidação da nossa dívida soberana, não diria sem termos de pagar um cêntimo, mas com taxas não especulativas.

6 de dezembro de 2009

Não me situo


Seguramente, se fosse vivo, voltaria a pronunciar a mesma frase que pintara num muro decrépito da capital guatemalteca, num dia chuvoso de 1944, momentos antes de atravessar o umbral da embaixada mexicana onde obteria asilo político: «Não me situo» [em castelhano, ubico, trocadilho com o nome do antigo ditador guatemalteco Jorge Ubico]. Este, talvez, também, o micro-conto mais lendário de Augusto Monterroso (1921-2003), escritor de veia cervantina e surrealista que nasceu em Tegucigalpa, nas Honduras, viveu na Guatemala e morreria exilado no México, onde escreveria a sua obra vagarosa. Antes, porém, de ter escrito, sem pressas, essa obra, publicaria Obras completas (y otros cuentos), o seu primeiro livro que, para cúmulo, começava pelo fim, já que Obras completas era o nome do último conto, que não das obras completas do autor que, como uma ovelha negra, renegaria ao rebanho do realismo mágico latino-americano, tal como Rulfo ou Borges.

Que pintaria Monterroso, por estes dias, num qualquer muro decrépito da capital hondurenha, se obrigado a escolher entre o resultado das ambíguas eleições de domingo passado que vão dividindo a comunidade de países ibero-americanos e a deriva populista - na senda de Chávez - do deposto, e exilado, presidente Manuel Zelaya, que reapareceu "materializado" na Embaixada do Brasil, em Tugucigalpa, graças a um conluio logístico-diplomático entre Chávez e Lula? Seguramente: «não me situo».

27 de outubro de 2009

As coisas aqui em baixo



Revisito a entrevista que António Lobo Antunes concedeu, há dias, na RTP1, a Judite de Sousa, a pretexto do seu novo romance Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar, onde escava as misérias da condição humana e ouço um homem terno, embora com afectação literária, a falar com absoluto respeito do pequeno mundo dos outros à sua volta. E à medida que vou escutando a sua voz rumorosa, vejo passar, vagarosas, diante de mim, aquelas presenças reais, às vezes estranhos de passagem, outras vezes «bolhas de solidão” que existem entre ele e as palavras, para derivar, depois, numa escrita assustadoramente lúcida e emocional que nos puxa para o abismo do nosso inconsciente colectivo de portugueses e de onde, só muito a custo, regressamos, depois, à superfície das nossas biografias tão cheias das qualidades que nos são diariamente incitadas.

Eis o que espero encontrar neste romance polifónico de António Lobo Antunes - cujo título de um profundo lirismo antagoniza com o universo sórdido da realidade humana que as primeiras páginas antecipam -, deixando-me levar na corrente caudalosa da sua escrita caleidoscópica, profundamente irónica e sarcástica, mas carregada de lirismo e de melancolia.

Um romance feito da matéria mais simples para contar as coisas aqui em baixo, porque, como confessa António Lobo Antunes «nós somos como casas cheias de fantasmas, uns fantasmas pequeninos. Muitas vezes, quando começo a ouvir as vozes de escrever, ouço várias vozes ao mesmo tempo e aquela que me vai dar o livro nunca é a voz mais forte, mais intensa. São outras que estão escondidas por trás.”

[foto ao alto, de José Sena Goulão]

25 de outubro de 2009

António Lobo Antunes, o escrevente


A renúncia da palavra de «um sector importante da literatura ocidental moderna», eis o que rastreia Enrique Vila-Matas em Bartleby e Companhia [Assírio e Alvim, 2001], uma espécie de catálogo de instantes fulgurantes dessa «pulsão negativa ou atracção pelo nada que faz com que certos criadores [...] renunciem à escrita [...] e fiquem, um dia, literalmente paralizados para sempre».

Ora aí está algo que não acontecerá nunca com António Lobo Antunes que renunciou à medicina para ficar com todo o tempo para a escrita. E que declara que «escrever é alegria, mas também tortura». [...] É a razão da minha vida». Uma vida - ou uma obra - que ainda não foi galardoada com o Nobel, mas que o foi com outros prémios: «Quantos prémios ganhei importantes? Mais de 20, fora os que recusei» - confessa a Alexandra Lucas Coelho, no ípsilon da última 6ª feira -, o que só é possível com um escritor radicalmente anti-bartlebyano! Tanto que quando, recentemente, na Festa Literária Internacionl de Paraty, o questionaram sobre se alguma vez renunciaria à escrita, recordou as palavras provocatórias de João Ubaldo Ribeiro: «Uma vez perguntaram-lhe se tinha parado de escrever. Respondeu que não, que o seu pseudónimo era Lobo Antunes».

Ao contrário do escrevente Bartleby - aquele empregado de escritório de um conto de Herman Melville -, à pergunta sobre se não quereria parar de escrever, o escrevente Lobo Antunes, invariavelmente, responderia: «preferia fazê-lo», só ainda não sei se o irei conseguir. Até agora, sempre o tem conseguido. A prová-lo até à exaustão, mais de duas dezenas de títulos, ou de capítulos, da sua incessante busca da perfeição, de que este Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? que acaba de ser editado é, para António Lobo Antunes, o melhor de todos, como o próprio declara: »Eu acho que nunca li um livro tão bom».


[nota de rodapé: a expressão o escrevente não é aqui utilizada com qualquer intenção depreciativa da escrita de ALA, antes como modesto artifício retórico para classificar a prolixidade do escritor]

[ilustração alto, de André Carrilho (C), para The New Yorker]

20 de outubro de 2009

Trapezistas do marketing


Confesso que não tenho paciência para seguir a polémica à volta do último romance de Saramago, Caim (Leya) - menos do livro do que das declarações despropositadas, simplistas e arrogantes do escritor sobre o significado histórico e o alcance ético da Bíblia.

É que, de um lado, está alguém que não se limita a escrever um livro e deixar os leitores lê-lo sem mais explicações como conviria a um escritor ciente do seu ofício, mas que insiste em reiteradamente comentá-lo com as qualidades morais, e iconoclastas, de quem se julga superior a Deus por matá-lo uma e outra vez, diria, não tanto por dilema nietschiano sobre a insuficiência divina para dar esperança ao mundo, mas talvez mais por complexo edipiano não resolvido, como ouvi ontem alguém comentar. E que, consciente ou inconsciente, quer-me parecer, vai dando voz a um golpe de propaganda editorial, concebido por «esses homens de negócios que editam livros [...], trapezistas do marketing», como diria Enrique Vila-Matas, que mais não visa do que provocar a polémica para aumentar o número de vendas. E do outro lado, chegam algumas reacções perigosas vindas da parte de um partido, o PSD, que ultimamente tem andado calado e sem opinião sobre as questões pendentes da governação, mais parecendo, portanto, um partido bartlebyano (imitando o personagem Bartleby, o escriturário, de Melville), mas que, hoje, através de um desconhecido deputado europeu opta por exortar Saramago a renunciar à nacionalidade portuguesa, porque não lhe pode lançar uma qualquer fatwa que o faça calar-se para sempre.

Por mim, exorto o escritor a limitar-se a escrever, ainda que não me tenha como leitor, e que quando instado a comentar um seu livro responda como Bartleby "preferia não o fazer". Ao deputado, exorto-o a fazer como a líder do seu partido, isto é, calar-se bartlebianamente. Ou ainda menos que isso.

16 de outubro de 2009

Desaparecidos em trânsito



Desse caminhante solitário que ocupa um lugar muito particular na minha biblioteca de quarto escuro, W. G. Sebald, chega, agora, às livrarias portuguesas, Logis in einem Landhaus (1998) [Hospedagem numa casa de campo] que na edição da Teorema se apresenta com o título de um dos ensaios que integra o livro, O caminhante solitário, belíssima homenagem a outro caminhante solitário, Roberto Walser - seu vizinho no meu quarto escuro, ambos escritores sem qualidades que partiram em trânsito deste mundo, Sebald numa curva de uma estrada de Norwich, num dia de Dezembro de 2001, e Walser, também num dia de Dezembro de 1956, durante um passeio pela neve nos arredores do manicómio de Herisau onde se refugiara para desaparecer – a quem Sebald descreve como um ente querido que aos poucos se vai dissolvendo no ar «suavemente e sem ruído até um reino mais livre», ou como um familiar próximo que lhe recorda o seu avô Josef Egelhofer: «Walser sempre me acompanhou em todos os caminhos. Apenas necessito suspender um dia de trabalho quotidiano, para logo ver meu ao lado, nalgum lugar, [a sua] figura inconfundível […] olhando à sua volta».

6 de outubro de 2009

Um Bolaño menor?



À medida que vou lendo Una novelita lumpen de Roberto Bolaño - que comprei, ontem, na Casa del Libro, em Sevilha - mais esta se vai parecendo com um capítulo perdido de Os detectives selvagens, só que - também me vai parecendo - menos conseguido. Mas o que me parece, apesar de tudo, mais evidente, é a semelhança das personagens do bolonhês e do líbio com as de Belano e Lima, já que ambas as parelhas poderiam vagabundear indistintamente entre Roma e Mexico D.F. sem que nos apercebêssemos qual o seu território ficcional de origem. E, tal como em Os detectives selvagens, não há aqui melodrama nem ambição redentora, a não ser a da ilusão de sobrevivência. Existe sim, o prenúncio de um Bolaño que haveríamos de conhecer, depois, em Os detectives selvagens e em 2666: o Bolaño da piedade difusa, das vidas amarguradas, das frustrações veladas, embora tudo seja aqui, ainda, comedido, subtil, sem a desmesura apocalítica dos seus romances póstumos.

Não sei se esta novelita me revelará, no final, um Bolaño menor, mas sei que a vou lendo com a lealdade que Bolaño me merece e que exige que sejamos capazes de distinguir entre as suas obras perfeitas (Estela distante), interessantes (Monsieur Pain), vertiginosas (Os detectives selvagens), monumentais (2666) e esta novelita lumpen que me vai parecendo, talvez, o seu livro menos conseguido. E, seguramente, seria esta a atitude que Bolaño - que desconfiava da unanimidade crítica - exigiria aos seus leitores mais cúmplices. Que o lessem sem contemplações.

13 de setembro de 2009

A caixa negra de Bolaño



«Estoy seguro de que moriré inédito», anotou, sem esperança, no seu diário, Roberto Bolaño, seis anos antes de morrer. Estava redondamente enganado. Depois dos livros póstumos - El secreto del mal, La Universidad desconocida, Entre paréntesis, Bolaño por el mismo e 2666 - que eu trouxe d uma recente viagem ao Chile, a voz fragmentária e testamentária de Bolãno ressoa, agora, na caixa negra do seu voo tragicamente inconcluso, convidando a adentrarmo-nos através da estranha cartografia dos seus livros por vir. É que depois do agente Andrew Wylie ter anunciado a descoberta, na caixa negra bolañiana - ou se se preferir, por corresponder melhor ao cânone, na sua arca pessoana -, do romance inédito El Tercer Reich, a editar em breve, leio em La Vanguardia a notícia da descoberta de mais dois romances inéditos do assombroso escritor chileno: Diorama e Los sinsabores del verdadero policía o Asesinos de Sonora. «El futuro del archivo, un mar de libretas y cuadernos de todos los tamaños, una vez inventariado, será seguramente una universidad. Adentrarse en sus páginas requiere la paciencia del paleólogo o del domador de pulgas», pode ler-se em La Vanguardia.

17 de dezembro de 2007

Crónica comestível


Se uma madalena «mergulhada na infusão de chá preto ou de tília» pôde desencadear em Proust «recordações tanto tempo abandonadas longe da memória» que o levaram a escrever Em busca do tempo perdido, como não poderá a minha visita ao novo mercado de Portimão servir de pretexto para esta crónica comestível  cuja matéria verbal se dispõe, primeiro, em bancas como as que me foram dadas ali observar? Até porque, como escreve Vásquez Montalbán, «o gourmet devora duas vezes ao mesmo tempo, aquilo que come e aquilo que comeu» [in Contra los gourmets]. Ao que eu acrescentaria uma terceira, aquilo que leu, consistindo esse terceiro momento, para nosso deleite e instrução, a sublimação pela literatura, cuja ilustração nos foi oferecida por Karen Blixen nesse delicioso romance Festa de Babette, levado depois ao cinema por Gabriel Axel, que celebra o aparecimento da grande cuisine da viragem pós-revolução francesa.

Aos sábados, pela manhã, vou às compras ao mercado de Portimão. E sempre que ali vou, dou-me conta, como se fosse a primeira vez, da viva presença das coisas ali dispostas. A geometria das bancas, a perfeita distribuição de áreas e produtos, a boa disposição dos vendedores, a gente da minha terra conversando. Os encontros fortuitos, ainda que semanalmente repetidos. Comprovo a inteligência e a ficção das coisas postas ali em sossego ao meu dispor como um território habitual mas sempre inexplorado, donde recolherei a matéria ficcional com que, depois, elaborarei uma retórica pessoal dos sabores. Na perfeita distribuição da matéria exposta, vou encontrando os peixes dourados do mar do Algarve, as carnes bravias e campesinas, a pura poesia dos frutos, os ingredientes vegetais e telúricos que me hão-de proporcionar o devotado exercício gastronómico que vou mentalmente ensaiando em imaginários menus por fazer. Uma manhã feliz.

Porque estamos na época deles, navego entre bancas de peixes onde brilham sargos, douradas e robalos acabados de chegar do mar de Sagres. Escolho um gordo sargo que grelharei com ervas aromáticas como ensina Colette: «Prepare a vassoura, é assim que eu chamo ao ramo de cheiros com louro, hortelã, segurelha, tomilho, rosmaninho, salva... mergulhe-a num pote cheio de azeite misturado com vinagre de vinho [...]. O alho [...] esmagado, até ficar com uma consistência cremosa, realça a mistura, como convém. Um pouco de sal, bastante pimenta» [in Prisons et paradis].

No talho, mando cortar um teclado musical de costoletas de porco preto alentejano que hei-de levar ao forno a assar com ervas aromáticas e mel. Peço, ainda, que me cortem uns bifes tenros de vitela que cozinharei ao jantar, na figideira, à lisboeta, com o molho a pedir aquele pão caseiro que comprarei em seguida e o ovo a cavalo, de preferência de galinhas do campo. E enquanto o talhante vai cortando o coração da carne, lembro-me do bife com batatas fritas de Roland Barthes [in Mitologias], que não é uma receita, antes uma espécie de leitura antropológica sobre o bifteck cujo «prestígio resulta, de toda a evidência, da sua natureza de carne quase crua». Para a sobremesa, se fosse época, escolheria uns figos que cortaria à maneira de D. H. Lawrence que embora não sendo algarvio conhecia «a maneira correcta de comer um figo à mesa», ou de Herberto Helder que lhe mudou o poema para português: «é parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo,/ E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,/ desabrochada em quatro espessas pétalas.» [«Figos», in Poesia toda, Herberto Helder]. Levarei, então, laranjas de Silves para o almoço. E para o jantar, farei um arroz-doce «disposto» - como no poema de Háfiz Dimashki - «em longas tiras sobre o/ prato, a brancura do leite [...]/O acúcar espalhado sobre os bordos/ cintila como um raio/ de luz solidificado.» [«Celebração do arroz-doce», Háfiz Dimashki  (1134-1176).

Eis, então, um sábado de compras, semanalmente repetidas, no mercado de Portimão, recuperado como matéria ficcional desta crónica em que se conclui que também se pode ir a um mercado como se vai a uma livraria.

24 de outubro de 2007

A página assinalada



Na corrente proposta pela Maria do Rosário (Divas e Contrabaixos), poderia ser outro livro qualquer e outra página qualquer a assinalar, mas o acaso surpreendeu-me regressando do mapa obscuro onde Canetti acharia que me perderia enquanto expedicionário, tantas são as bifurcações que irrompem nesse abismo que ousei explorar em noites recentes sem outra orientação que não o desejo de habitar momentaneamente esse território onde a realidade supera a ficção acolhida na escrita luminosa e equívoca de Enrique Vila-Matas. O livro, já se percebeu, é Exploradores del Abismo [Anagrama, 2007] que comprei há dias em Madrid e que li sofregamente como sempre leio os livros desafiantes, as entrevistas espasmódicas, as crónicas gombrowiczianas em forma de retratos de momento do escritor catalão que habita a minha «biblioteca do quarto escuro», juntamente com outros que com ele atravessam a região shandy da literatura.

E a página 161 proposta como brecha de entrada no abismo é última página conto "El día señalado", assim como a quinta frase completa dessa página não é outra senão a última frase de um relato muito vilamatiasiano sobre o acaso objectivo que comanda as nossas vidas, do qual, muitas vezes, só conseguimos escapar no derradeiro instante enquanto «el mundo [parece] seguir su curso habitual, del mismo modo que, incluso en los casos extremos en los que todo está en juego, se sigue viviendo como si no pasar nada» [esta a frase assinalada na pág. 161].

Não sou muito dado a correntes, mas reconheço que não devemos pará-las para não interferirmos no curso habitual das coisas, por isso e também por voyeurismo que nõ escondo relativamente à página 161 de outros livros, passo o convite a cinco outros expedicionários cujos caminhos muitas vezes se bifurcam no meu próprio caminho. Ao Rui Bebiano (A Terceira Noite), ao Luís Jorge (Vida Breve), ao Sérgio Lavos (Auto-retrato), à Isabel Victor (Caderno de Campo) e à Sandra Costa (Tubo de Ensaio) para nos revelarem uma passagem dos seus mapas literários.

[E lembrem-se: escolher o livro mais próximo, literalmente; assinalar a página 161; transcrever a 5ª frase completa] e continuar a corrente].

11 de outubro de 2007

Retrato breve




Conheço pouco da obra de Doris Lessing, a laureada deste ano, mas gosto do seu olhar tranquilo, luminoso e, simultaneamente, distante. E mais do que a sua obra, desperta-me curiosidade a sua biografia. Uma mulher que nasce em Kermanshah, na Pérsia, e vai viver para África aos seis anos, que trabalha como telefonista em Salisbury, que é capaz de andar de país em país, deixando marido e filhos, escolhendo ser escritora, alguém sem formação académica e que mesmo assim constrói uma obra com a amplitude da sua, é com certeza mais interessante do que o cortejo de escreventes que publicam livros só porque ganharam um nome fora da escrita. Dela sei, ainda, que é uma escritora comprometida. Uma testemunha do seu tempo. «Uma contadora épica da experiência feminina [que] perscruta uma civilização dividida», como ouvi dizer a Lídia Jorge. Sei ainda que na sua autobiografia incompleta, a propósito de um saco que um dia uma portuguesa lhe ofereceu, escreveu que Portugal era «uma dessas regiões do mundo onde reina a graça do coração». E, há instantes, quando a vi noticiário, não pude deixar de pensar que também Agustina Bessa Luis merecia um prémio assim.

8 de outubro de 2007

Espião casual



Diz António Trabucchi que todos os escritores são um pouco voyeurs, todos olham para lá das portas que abrem para os abismos de todos os dias, procurando roubar a experiência de outras vidas. Enrique Vila-Matas confessa esse pecado dizendo que tem por hábito fazer de espião casual no autocarro nº 24 que percorre «la calle Mayor de Gracia», em Barcelona, retirando dessa observação disfarçada a matéria impura dos seus livros: «Tenho em casa um arquivo de gestos, frases e conversas escutadas através do tempo nesse trajecto de autocarro, e até creio que poderia escrever um romance tão infinito como aquele que queria fazer Joe Gould sobre Nova Iorque, pois roubei e registei todo o tipo de frases soltas, conversas estranhas, disparatadas situações». Ficamos, então, a saber que o conto La Modestia [in Exploradores del abismo, Anagrama, 2007] é um produto de uma espionagem literária da realidade de todos os dias, feita de mundos ficcionais paralelos que às vezes se confundem, sem que os seus protagonistas o saibam, como aconteceu com «aquela mulher toda vestida de cinzento como a mãe de Nerval», saída, talvez, de um quadro de Fragonard para entrar no autocarro da carreira nº 24. É que numa carreira diária de um qualquer autocarro, se observarmos bem à nossa volta, talvez encontremos a porta que se abre para o abismo da dura realidade daqueles que, incógnitos, viajam connosco. O problema é que, depois, como diria Canetti, quando a porta se fecha já não sabemos como regressar desse mapa onde, entre uma paragem e outra, nos perdemos.