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2 de maio de 2007

A última passagem de Walter Benjamin


Suprema ironia a de acordar, na madrugada, com o apito seco e cortante de um comboio que, afinal, partiria sem ele deixando-o com a sua solidão no cais de embarque. «O primeiro comboio para Lisboa», tinha-lhe recomendado a senhora Fittko quando se despediu dele, em França. Mas, mais uma vez as suas asas incertas de borboleta nocturna tinham falhado, incapazes de o levarem para fora daquele quarto de hotel, na pequena localidade de Port Bou. Na escuridão do quarto sem janela, um sopro de luz irrompe sob a porta, acordando nele a recordação da Vista de Delft, de Vermeer. «Nesse momento, era o seu próprio pequeno pedaço de muro amarelo que pestanejava no seu quarto ... com a promessa de um descanso definitivo», como Bergotte, a personagem de Proust que depois de encontrar a luz palpitante no canto esquerdo do quadro exposto em Paris, teve uma epifania, a revelação de que aquela luz que continuava a brilhar há quatro séculos valia toda a sua obra de escritor. Como uma borboleta atraída pela luz, também Proust procurou a mesma mancha amarela. Seria a última vez que saiu de casa.

Agora era a vez de Walter Benjamin que filtrando a memória daquela luz vista por outros, «sem se deixar levar pelas asas incertas da mariposa», caminhava pelo cais do seu último embarque, escapando aos «rabos de ratazana da Europa». A mariposa de Schiller já não estava ali. Apenas um filósofo que descobrira o secreto esplendor que a sua solidão irredutível produziu nas trevas e a paixão de ter sido estrangeiro sempre e de não ter tido nunca nada, a não ser a mala preta pousada no chão ao lado da mesa de cabeceira, onde guardava os últimos «labirintos de tinta embebidos nos seus cadernos». Afinal, não chegara tarde a esta última fronteira onde já não lhe exigiriam nenhum salvo-conduto «e, com a mesma alegria de quem verifica que, apesar de todos os contratempos, não tinha chegado tarde ao encontro, soltou um suspiro de alívio e fechou pacificamente os olhos atrás dos  seus grossos óculos de míope».

18 de abril de 2007

O passageiro Walter Benjamin


Port Bou 1940. Em 25 de Setembro, após sete anos de exílio, Walter Benjamin atravessa os Pirenéus num esforço desesperado para escapar à ocupação da França pelos nazis. Pretende atravessar clandestinamente a fronteira e, através da Espanha franquista, chegar a Lisboa - por onde passaram também outros artistas e intelectuais em fuga, como Franz Werfel, Heirich Mann ou Alma Mahler -, com um visto para os Estados Unidos no bolso. Porém, uma trágica combinação de circunstâncias, entre as quais a conversão simbólica dos Pirinéus em muralha cultural e política, impede a sua entrada em Espanha. Benjamin vê-se, então, obrigado a pernoitar numa pensão de Port Bou, sob apertada vigilância de três polícias que têm ordens para deportá-lo para França na manhã seguinte. Nessa mesma noite, Benjamin inicia uma agonia que o levará à morte vinte e quatro horas mais tarde. A tese oficial é a de que se tratou de suicídio com uma overdose de morfina. Mas o relatório médico refere o caso como morte natural. O que terá acontecido realmente? Quién mató a Walter Benjamin? é um título de um documentário do realizador argentino David Mauas que passou na Culturgest em Fevereiro. A minha condição periférica não me permitiu na altura ver o filme. Tão pouco assistir ao debate que se seguiu, moderado por João Barrento, entre o realizador e o compositor José Júlio Lopes, cuja ópera W, com libretto sobre a morte de Benjamin, estreará, em Dezembro, na Culturgest.  Essa não a irei perder.

Mas, há dias, numa livraria de Portimão, encontrei um livro que narra as últimas horas do escritor e filósofo.  Sobre O Passageiro Walter Benjamin, de Ricardo Gaviria, escreve Enrique Vila-Matas, na contra-capa, que se trata de uma subtil e mui elegante recriação das últimas horas que precederam a morte do escritor... Cada vez gosto mais dos bons romances e menos de palavreado. Vou a meio do romance, que sem pretender ultrapassar  a biografia- o que seria muito pouco benjaminiano -, e convocando factos verídicos e outros recriados com afectação literária, faz-me entrar na derradeira morada de Benjamin, onde me vou embrenhando nos caminhos afectivos e intelectuais do escritor que, apesar das sombras que descem sobre o seu quarto de hotel, permanece lúcido na desgraça final. Benjamin viveu só e morreu só, sempre como um estrangeiro, mas quero acreditar que nesse último momento trágico viu, ainda, a luz da saudade que iluminou a sua vida, porque a paixão de estar despojado de tudo, a paixão da solidão que sempre o acompanhou e procurou na última morada, terá iluminado o instante em que soltou um suspiro de alívio e fechou pacificamente os olhos atrás dos seus grossos óculos de míope.