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17 de fevereiro de 2012

Dickens para governantes


Leio no Guardian que, por ocasião do bicentenário do nascimento de Charles Dickens (7 de Fevereiro de 1812), o ministro da Cultura do governo inglês ofereceu, aleatoriamente, segundo o próprio, aos seus colegas, o primeiro ministro à cabeça, um livro do genial autor de "David Copperfield". A David Cameron ofereceu, talvez numa alusão, digo eu, à crise que o seu país e a Europa atravessam e que, costuma ouvir-se dizer com inconfessado cinismo, para além dos dramas que provoca também gera oportunidades, "Tempos Difíceis" e "Grandes Esperanças", que também seriam adequados para qualquer outro primeiro ministro europeu, embora me pareça que alguns deles, a começar pela senhora Merckel, não são muito dados a leituras literárias.

Comentando esta oferenda literária, numa crónica no Corriere della Sera, o escritor triestino Claudio Magris, com confessada intenção simbólica,  diz-nos que não obstante a sua paixão absoluta por Os cadernos póstumos do clube Pickwick, não hesitaria em oferecer David Copperfield ao presidente do Conselho do governo de Itália, porque, em sua opinião, "não é um romance político", sendo, por isso, aquele cuja leitura melhor conviria a Mario Monti, cujo governo se discute "se é ou não político".

Ponho-me a pensar que livros de Dickens poderia, também, eu oferecer ao nosso primeiro ministro para ajudá-lo a melhorar o seu sentido de justiça social e a compreender melhor a infelicidade quotidiana que as medidas do seu governo vão gerando em sectores crescentes da nossa população. A Passos Coelho que, confessou que, à noite, em casa, quase nunca vê televisão, o que lhe dará vantagem para leitura, oferecer-lhe-ia, então, um dos livros oferecidos a Cameron, Tempos difíceis, onde Dickens critica com acidez as deploráveis condições de vida dos operários ingleses e o fosso abismal que existia entre a sua vida precária e o fausto obsceno dos ricos da Inglaterra vitoriana, enfim, algo que nos vai sendo familiar quando nos damos conta do desemprego que alastra e vai queimando as esperanças dos portugueses.

Mas, talvez, mais proveitoso para todos, fosse recomendar-lhe que transformasse algumas reuniões do Conselho de Ministros num "conselho de leitores" dos livros de Dickens para, assim, aprenderem com ele a observar o mundo dos mais desprotegidos que se vai desmoronando à sua volta. É que, para nossa desgraça, os difíceis tempos que vamos vivendo parecem-se, cada vez mais, com os seus Tempos difíceis. E David Copperfield, Contos de Natal, Oliver Twist ou Historia de duas cidades, entre muitos outras obras que Dickens nos legou, para além de clássicos imprescindíveis em qualquer biblioteca, mesmo em bibliotecas de ministros mais dados às letras bancárias do que às literárias, de repente voltaram a ficar actuais. Não poderiam ser personagens de Oliver Twist muitas crianças que hoje vão para as escolas sem tomar o pequeno-almoço porque os pais já não têm como alimentá-los por se encontrarem desempregados? E os despejados de suas casas por já não poderem pagar as hipotecas a que estavam sujeitos por terem ficado sem emprego não nos fazem pensar nos mesmos métodos do usurário Scrooge em Conto de Natal ou do avarento Uriah Heep em David Copperfield?

A quem se dirigia Dickens quando escreveu "Oh, economistas utilitários, comissários de realidades, elegantes incrédulos... se continuardes enchendo de pobres a vossa sociedade e não cultivardes neles a esperança, quando tiverdes conseguido arrancar das suas almas todo o idealismo e eles se encontrarem a sós com a sua vida vazia, a realidade converter-se-á num lobo e devorar-vos-á"? Aos usurários e agiotas do seu tempo ou, premonitoriamente, aos especuladores financeiros de hoje que criaram os tempos difíceis em que vamos vivendo, perante o olhar complacente dos economistas apaniguados neo-liberalismo? Que diriam Álvaro e Gaspar se lessem Dickens, hoje, em conselho de leitores?


14 de fevereiro de 2012

À espera dos bárbaros


Por estes dias em que a Grécia se vê ameaçada pela nova barbárie estrangeira que já acampa junto às suas fronteiras aguardando o seu colapso financeiro e social, recordo o poema "À espera dos bárbaros", do grande poeta helénico do século XX, nascido em Alexandria, Constantino Cavafis (1863-1933), que numa alegoria ao desmoronamento do Império romano, recria uma cidade decadente, com políticos imóveis diante da ameaça estrangeira, preferindo a retórica da submissão à acção mobilizadora.

Revejo as imagens do parlamento grego reunido na noite ateniense em chamas para aprovar novo pacote de medidas de austeridade, mas são, ainda, as palavra de Kavafis que melhor iluminam a noite:

"O que esperamos na ágora reunidos? / É que os bárbaros chegam hoje. / Por que tanta apatia no senado? / Os senadores não legislam mais? / É que os bárbaros chegam hoje. / Que leis hão-de fazer os senadores? / Os bárbaros que chegam as farão. / 

Por que o imperador se ergueu tão cedo
 / e de coroa solene se assentou
 / em seu trono, à porta magna da cidade?

 / É que os bárbaros chegam hoje.
 /  O nosso imperador conta saudar
 / o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe / 
um pergaminho no qual estão escritos / 
muitos nomes e títulos.

 / Por que hoje os dois cônsules e os pretores / 
usam togas de púrpura, bordadas, / 
e pulseiras com grandes ametistas / 
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas? / 
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
 / de ouro e prata finamente cravejados? / 

É que os bárbaros chegam hoje,
 / tais coisas os deslumbram.

 / Por que não vêm os dignos oradores
 / derramar o seu verbo como sempre? / 

É que os bárbaros chegam hoje / e aborrecem arengas, eloquências.

 / Por que subitamente esta inquietude?
 / (Que seriedade nas fisionomias!)
 / Por que tão rápido as ruas se esvaziam
 / e todos voltam para casa preocupados? / 

Porque é já noite, os bárbaros não vêm / e gente recém-chegada das fronteiras
 / diz que não há mais bárbaros.

 / Sem bárbaros o que será de nós?
 / Ah! eles eram uma solução."


10 de agosto de 2009

O síndroma de Bartlebly


Olho para os cartazes eleitorais que apresentam Manuela Ferreira Leite numa postura de braços cruzados e lembro-me, cada vez mais, de Bartleby, o escriturário, o personagem do conto homónimo de Herman Melville que, quando instado a realizar um qualquer trabalho, respondia impreterivelmente «Preferia não o fazer». É que o mesmo se vai passando com a líder do PSD que, sempre que alguém lhe pede um comentário sobre um qualquer episódio político ou que revele qual o seu programa eleitoral, responde, invariavelmente, que preferia não o fazer, numa atitude de exaltação da passividade política que a própria iconologia política (isto é, a sua imagem nos cartazes) vem, agora, corroborar, coincidindo, assim, com a atitude de inactividade discursiva traduzida numa mímica pessoal que já se tornou numa espécie de fórmula expressiva sem autor, logo, também, sem conteúdo.

Trata-se, então, de um estilo, entendido como conjunto de traços formais ou discursivos, algo que tem que ver com o modo inconfessado de fazer qualquer coisa, e não com o que é feito ou dito, ou não dito - que é o que, no caso de MFL, sucede na maioria das situações em que é interpelada pelos jornalistas.

Assim, tendo em conta esse seu catálogo pessoal de instantes fulgurantes de «pulsão negativa ou atracção pelo nada» na política - de que ausência de apresentação de programa eleitoral constitui o grau máximo da inacção discursiva -, a questão que me coloco é se não sofrerá, então, Manuela Ferreira Leite de uma espécie de «síndroma de Bartleby» - noção shandiana que peço emprestada a Enrique Vila-Matas [in Bartleby & Companhia, Assírio & Alvim] e que aplico aqui à política - que a leva a renunciar ao discurso político para melhor esconder a ausência de soluções governativas, numa vertigem de silêncio que visa evitar o compromisso político, preferindo apostar, apenas, na erosão do adversário - isto é, na erosão de Sócrates, cujo discurso prolixo nos trouxe um cansaço imenso - e, por isso, mais exposto à contradição entre a forma e o conteúdo?

28 de julho de 2009

De que falamos quando falamos de avaliação


O conflito entre o Ministério da Educação e sindicatos de professores, sobretudo a Frenprof - que saltou ontem, de novo, para os noticiários televisivos, agora em vésperas de eleições para um novo governo - suscita-me a seguinte reflexão. O que continua, então, em jogo, neste caso? Um confronto entre aqueles que procuram impôr um modelo de avaliação - agora, «simplificado», dizem - que convoca um sofisticado sistema de medições, regras e tabelas visando a caução científica para fins mais menos ou inconfessados, mas que procuram denegar a sua dimensão ideológica e aqueles que, embora movidos por diferentes motivações, recusam expôr-se a um novo «dispositivo de vigilância» que mais não é do que o resultado da expansão do paradigma da medição nas sociedades modernas.

E o que é, então, denegado sob a roupagem pseudo-científica da avaliação? A emergência daquilo a que Giles Deleuze designou, apropropriando-se do conceito de William Burroughs, como «sociedade de controlo» e que Michel Foucault aponta como substituto das «sociedades disciplinares». E cuja formulação através da avaliação, mais não é, do ponto de vista técnico (objecto, método, resultados), do que uma consequência da expansão do paradigma da medição, corroborando o uso social da matemática nas sociedades modernas; e do ponto de vista do poder, um modo de funcionamento do Estado que institui uma maneira de governar que se exerce através da matematização da experiência.

O que é, então, a avaliação? E quem são os avaliadores? Conforme escreve o filósofo e psicanalista francês Jean-Claude Milner em Voulez-vous être évalué?, «a avaliação é essencialmente uma retórica. Os avaliadores são os sofistas de hoje». Sendo que a sofística da avaliação procura resolver sumariamente a questão dos critérios e da legitimidade dos próprios avaliadores, evitando, acima de tudo, que se coloque a incómoda questão: quem avalia os avaliadores, isto é, aqueles especialistas hiperactivos, fetichistas das medições, das classificações, dos escalonamentos, das comparações em cujos paradoxos inextrincáveis procuram enredar os avaliados?

21 de julho de 2009

No reino da estupidez




Uma das patologias que se manifestam nos governos em vias de se despenharem num qualquer precipício eleitoral é o discurso reiterado da estupidez. E o que é a estupidez, então? Asneira, disparate, parvoíce, entre outros, constituem alguns sinónimos a aplicar conforme as circunstâncias, o que mostra que a estupidez não se deixa apreender facilmente, que as suas metamorfoses fazem dela algo a que ninguém está seguro de escapar. Flaubert, Proust, Gombrowicz, Musil ou Thomas Bernhard, todos eles escritores que integram a minha biblioteca de quarto escuro, encontraram na ironia ou no humor - leio num número pretérito do Magazine Littéraire dedicado, precisamente, à bêtise - a forma mais adequada para a denúncia dos avanços dissimulados da bêtise, sem garantias, contudo, de conseguirem escapar-lhe. Até porque, às vezes, aquela revela-se, como observa Clément Rosset, em «segundo grau», isto é, aparentemente reflexiva e apanágio de homens com qualidades.

«A bêtise – escreve Clément Rosset, em Le réel et son double, Minuit, 1997 - é de natureza intervencionista: ela não procura decifrar, mas sim emitir repetidamente. Ela fala, fala, ela não pára nunca de acrescentar». Repetitivo e irredutível, fechado sobre si mesmo, o discurso da estupidez é opaco mas obstinado. Diz-se determinado, mas é, sobretudo, obsessivo. Manifestações do discurso da estupidez em «segundo grau», disfarçadas num discurso aparentemente reflexivo, mas afirmativo e, ao mesmo tempo, insensível à argumentação dos outros, na tentativa de controlar o espaço saturado das escolas, temo-las visto em abundância sempre que a ministra da Educação ou os seus secretários de Estado falam, falam, e não param de acrescentar ao seu discurso sobre a avaliação dos professores. Há dias,à pergunta de uma jornalista sobre o que fará se houver novas manifestações de professores pelo facto de não ser suspenso o «modelo simplex de avaliação», a ministra da Educação, sem reflectir, em primeiro grau, portanto, respondeu: «Haverá, haverá».

Assim, indiferentes ao torvelinho provocado pelo seu próprio discurso autista, vão estes sujeitos mais ou menos reflexivos, repetitivos e irredutíveis, empurrando o governo para o abismo, sem querer saber o que haverá do outro lado. Incapazes de controlar o seu discurso enquistado, porque isso seria contrário à própria natureza da estupidez, no seu estertor vão estes governantes imitando o idiota de Rilke na «Canção do Idiota» : «Não me incomodam. Deixam-me ir. / Dizem que não pode acontecer nada. /Ainda bem. / Não pode acontecer nada. Tudo chega e gira / sempre em torno do Espírito Santo, /em torno de determinado espírito (tu sabes) — / que bem» [Rainer Maria Rilke, in O Livro das Imagens, Relógio d´Água].