31 de dezembro de 2007

Spleen



Paris, 1857. Um homem caminha de olhos baixos por «uma nova avenida, ainda inacabada, ainda cheia de entulho [...] exibindo os seus inacabados esplendores». Ao lado, as ruínas dos velhos bairros - escuros, densos, assustadores - amontoadas no chão. Uma família andrajosa emerge do entulho à procura da nova luz da cidade moderna. No dobrar de uma esquina, o homem cruza um umbral que dá para um labirinto de ruas, arcadas, passages, onde se exibem os despojos do tempo que passa. Sobre as metamorfoses de Paris escrevera num livro que acaba de publicar: «Paris change! Mais rien dans ma mélancolie/ N'a bougé ! Palais neufs, échafaudages, blocs,/ Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie,/ Et mes chers souvenirs sont plus lourds que des rocs» [«Le Cygne»]. O homem que caminha à deriva soberbamente consciente da sua melancolia chama-se Charles Baudelaire, ensaísta e jornalista, tradutor de Edgar Allan Poe. E o livro onde escreveu estes versos chama-se Les fleurs du mal.

Com esse livro fundaria, também, a lírica urbana, maldita e anti-sentimental capaz de expressar um mundo em descida vertiginosa, cada vez mais para baixo, em direcção ao seu vórtice. E sobre esta visão desafiadora, fantasmagórica, insuperável e premonitória da vida nas grandes metrópoles, escreveria Walter Benjamin, outra alma saturnina que também se erraria, anos depois, pelas ruas de Paris: «C’est là le regard d’un flâneur, dont le genre de vie dissimule derrière un mirage bienfaisant la détresse des habitants futurs de nos métropoles»  [Walter Benjamin. Paris, capitale du XIXème siècle. 1955, Schriften I, pp. 406-422]. 

Mas mais do que os cento e cinquenta anos que agora lembro aqui, estas flores malditas têm uma outra idade, a de «l’horloge, dieu sinistre, effrayant impassible, dont le doigt nous menace et nous dit: Souviens-toi!» [«L´horloge»]. A aguda consciência da industrialização galopante que tudo arrastava no seu vórtice, uma amargura saturnina e, depois, o convite à viagem, a fugacidade... tudo aí se encontra plasmado de forma violentamente prosaica, estilhaçando os códigos de um tempo à deriva: «Je suis comme le roi d’un pays pluvieux, riche, mais impuissant, jeune et pourtant très-vieux...». E, ainda, «le poète est semblable au prince des nuées qui hante la tempête et se rit de l’archer; exilé sur le sol au milieu des huées, ses ailes de géant l’empêchent de marcher» [«L´albatroz»]. Baudelaire, o albatroz urbano, sobrevoou o seu tempo deixando-nos «rares fleurs mêlant leurs odeurs aux vagues senteurs de l’ambre» cujo perfume inebriante, radicalmente moderno, não cessa de nos dar a volta à cabeça.

Seria o mundo do seu tempo um jardim de flores do mal, conforme se interrogava Baudelaire num miserável quarto de hotel, em Bruxelas, onde, doente de sífilis, esperava a morte? Talvez seja o spleen, essa consciência distópica dos labirintos do flâneur melancólico que marca, ainda, a actualidade do seu livro fundacional, ligando o vazio do seu tempo à artificialidade deste nosso tempo, em que nós, transeuntes motorizados e alienados, nos vamos também perdendo através dos labirintos feéricos de uma pós-modernidade glamorosa, desalmada e sem redenção, fantasmagoricamente antecipada no seu livro sobre Baudelaire, por Walter Benjamin, talvez o mais saturnino dos flâneurs das grandes metrópoles da modernidade e aquele que melhor se deixou levar pelo inebriante perfume  das flores do mal.

E é através dessa pós-modernidade glamorosa e desalmada, ostentada nas vitrinas dos grands magasins do Boulevard Haussmann que, também eu, neste último entardecer do ano de 2007 - cento e cinquenta anos depois da sua construção, portanto, - vou caminhando sem rumo. E se fosse dado ao spleen, como um passeante solitário, talvez me detivesse agora no passeio onde uma chusma de transeuntes anónimos vai passando apressada com sacos que transportam os vinhos espumantes que à meia-noite afogarão o tédio. Mas não, não sou dado ao spleen, por isso aproveito, acompanhado, o privilégio supremo que me é oferecido enquanto forasteiro, que é o de participar da banalidade quotidiana desta cidade que nunca se acaba sem lhe sentir o peso, que é como quem diz, sem se deixar levar pelo aroma inebriante das flores do mal.

26 de dezembro de 2007

Passeante do Loire


foto de Gérard Bertrand 

Também ele era um passeante e também ele desapareceu neste Dezembro nas margens do Loire. «Professeur, du géographe, du provincial, de l’amoureux du fleuve, du promeneur, du parisien d’adoption, de l’homme qui dit non, de l’ancien surréaliste qui l’était resté dans l’âme, de feu le communiste très provisoire, eis quem era, ainda, Julien Gracq (1910-2007), segundo o retrato que lhe traça Pierre Assouline.

Ao observar as novidades que por estes dias enchem os escaparates das livrarias não posso deixar de recordar as palavras deste escritor clássico-moderno francês que viveu até às vésperas deste Natal, ocultado na sua casa, em Saint-Florent-le-Vieil, nas margens do Loire, e que em A literatura no estômago [Assírio e Alvim, 1987], um planfleto publicado em 1950, escrevia que a arte literária não só era vítima desgraçada de uma massificação vazia, como estava submetida às perversas regras analfabetas do não-literário. Nesse texto premonitório, de uma actualidade cortante, Julien Gracq arremetia já contra a «literatura alimentícia», essa espécie de fast-food literário imposto pelo mercantilismo editorial emergente e que haveria de se tornar, nos nossos dias, na dieta compulsiva dos «analfabetos altivos».

Tal como Robert Walser que se ocultou em Herisau para escapar ao ruído do mundo, também Julien Gracq se refugiou - numa espécie de exílio interior contra a vanidade dos salões literários - na sua casa natal, nas margens do Loire, fora de Paris portanto, cujo apelo rejeitou, como rejeitou o Goncourt que lhe foi atribuído em 1951, para melhor construir os castelos no ar em que se foram transformando os seus livros cada vez mais fragmentários, cada vez mais imbricados nos territórios dos seus antepassados cujas paisagens quiméricas, como um amante do rio, atravessava em busca do conhecimento perdido. Daí o seu «desejo de preservar-se, de não ser incomodado, de dizer não, em resumo esse Deixem-me tranquilo no meu canto e não parem [que] deve atribuir-se à sua ascendência vendeana», tornando-se num «dos escritores mais ocultos do nosso tempo, um dos mais esquivos e afastados, um dos reis da Negação», como escreve Enrique Vila-Matas em O Mal de Montano, depois de o ter visitado no seu exílio vendeano.

E assim foi até à sua morte, com noventa e sete anos, na ante-véspera do dia de Natal, deixando-nos as dezenas de cadernos onde durante últimos quinze anos foi pintando as suas paisagens interiores. E, sobretudo, A costa de Sirtes [Vega, 1998], esse romance absoluto sobre a espera e os mundos de fronteira que sugere a mesma vagabundagem nervosa de Nerval e onde o leitor se cruza com uma sucessão de iluminações rimbaudianas, como aquela, fantasmagórica, quando vemos emergir do mar, como uma montanha mágica, o vulcão Tängri: «Aí estava, ali o tínhamos. A sua fria luz irradiava como um manancial de silêncio, rei na noite deserta». Um livro, ainda, que à data da sua publicação, em 1950, foi considerado por André Breton como o único livro capaz de actualizar a herança do surrealismo. E, sobretudo, um livro profético sobre a consternação do mundo que aí está, agora, aparentemente sem redenção.

Quando, na próxima semana, eu for a Paris - cidade que Julien Gracq adoptou durante grande parte da sua vida, antes de regressar definitivamente à sua casa natal - seguirei o conselho de Pierre Assouline e irei até à livraria de José Corti, o editor-livreiro da rue de Médicis, para, talvez, comprar ali algum livro de Gracq e depois, se a meteorologia o permitir, já no outro lado da rua, no Jardin du Luxembourg, folheá-lo «armé d’un canif, couteau, coupe-coupe, machette, tronçonneuse ou tout objet susceptible de disjoindre en un bruit exquis les pages non massicotées», porque assim o exigem os livros de José Corti.

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[Foto: Vitrine Julien Gracq, janvier 2002, rue Médicis, archives Corti].

20 de dezembro de 2007

A invenção do ensaio



Em 1571, o nobre senhor Michel Eyquem de Montaigne [1533-1592] ao passear a cavalo nos arredores de Bordéus teve um acidente que quase lhe custou a vida. Este episódio, que veio juntar-se à morte recente do pai, transmitiu-lhe uma tão aguda consciência da fragilidade da vida que decidiu abandonar os altos cargos de magistratura e retirar-se para as suas propriedades no Périgord, desfrutando ali da tranquilidade do campo, da companhia dos amigos e, sobretudo, da excelente biblioteca instalada na torre circular do seu castelo. Para assinalar essa decisão mandaria pintar no gabinete adjunto à sua biblioteca a seguinte inscrição: «No ano de Cristo 1571, com a idade de 38 anos, na véspera das calendas de Março, seu aniversário natalício, Michel de Montaigne, desde há muito desgostado da servidão áulica e dos cargos públicos, sentindo-se ainda vigoroso, retirou-se para o seio das doutas virgens, onde, calmo e sem se inquietar com a mais pequena coisa, passará o que lhe resta de uma vida já muito avançada. Se as decisões do destino o permitirem, perfaça ele esta residência e refúgio ancestral, que ele consagrou à sua liberdade, à sua tranquilidade e ao ócio» [in prefácio de Rui Bertrand Romão a Montaigne – Ensaios, Relógio d’Água, 1998].

Seria ali,  então, ali, ocultado do mundo e em diálogo com Platão, Epicuro, Séneca e Lucrécio sobre o sentido da vida, as paixões, os prazeres e os mistérios da existência, que escreveria os seus livros, inventando um género literário que viria designar-se por ensaio - esse género sem género, de uma ambiguidade propositada, que encerra todos os cruzamentos da escrita -, e que ficaria indelevelmente ligado à construção da subjectividade moderna.

A sua escrita, fragmentária, tangencial, quase nunca assertiva, seguia o ritmo das suas meditações, estimuladas ora pela leitura acidental dos seus autores de cabeceira ora pelas oscilações da alma ora pela imaginação caprichosa ora, ainda, pelas manifestações do quotidiano obscurecido pelas guerras religiosas que assolavam a França. «O meu ofício, e a minha arte, é viver. […] Pinto sobretudo os meus pensamentos, matéria informe que não se pode exprimir por actos. A muito custo posso colocá-la nesse corpo aéreo que é a voz. […] Eu exponho-me na íntegra, tal um esqueleto, em que simultaneamente aparecem à vista as veias, os músculos e os tendões, cada peça no seu lugar. […] O que eu descrevo não são as minhas acções, sou eu próprio, é a minha essência» [op. cit. «Da Exercitação»]. Filósofo sem academia para quem filosofar era aprender a morrer, rejeitava as abstracções metafísicas, procurando tão só compreender a realidade que confrontava com a sua visão humanista do mundo, o sentido hedonista da existência e o culto do individualismo que faziam a sua modernidade.

Pensar, então, que a modernidade não surgiu em contacto com o mundo, mas das meditações daqueles que se retiraram do mundo, precisamente, para melhor poderem pensá-lo. Como Montaigne na torre circular do seu castelo; como Descartes, que decidiu ocultar-se num quarto aquecido de um quartel de Inverno, em Ulm; como Nietzsche que encerrado em si mesmo dizia que apenas na companhia de Montaigne a vida se lhe revelava mais suportável; como Walter Benjamin, solitário sempre, embebendo em tinta os seus cadernos de pensamentos; como Pessoa transportando, anónimo entre os transeuntes da Baixa de Lisboa, uma arca que haveria de nos desassossegar. Todos fazendo parte da minha mala pessoal da modernidade.

Por isso, nesta época de troca de livros, talvez receber aquela expressiva e inacabada biografia que Stefan Zweig nos legou sobre o filósofo do tangível e que constitui, asseguram-me, o melhor estímulo à leitura dos Ensaios e à passagem tangencial pela sua vida. E quem melhor para nos abrir as portas do castelo de Montaigne que Zweig, também ele um humanista solitário fugido à barbárie nazi em busca do paraíso que nunca encontraria no seu exílio brasileiro, defensor da liberdade do pensamento contra as imposições totalitárias das ideologias e demais loucuras gregárias?

[Ao alto, escritório de Montaigne na torre circular do castelo]

17 de dezembro de 2007

Crónica comestível


Se uma madalena «mergulhada na infusão de chá preto ou de tília» pôde desencadear em Proust «recordações tanto tempo abandonadas longe da memória» que o levaram a escrever Em busca do tempo perdido, como não poderá a minha visita ao novo mercado de Portimão servir de pretexto para esta crónica comestível  cuja matéria verbal se dispõe, primeiro, em bancas como as que me foram dadas ali observar? Até porque, como escreve Vásquez Montalbán, «o gourmet devora duas vezes ao mesmo tempo, aquilo que come e aquilo que comeu» [in Contra los gourmets]. Ao que eu acrescentaria uma terceira, aquilo que leu, consistindo esse terceiro momento, para nosso deleite e instrução, a sublimação pela literatura, cuja ilustração nos foi oferecida por Karen Blixen nesse delicioso romance Festa de Babette, levado depois ao cinema por Gabriel Axel, que celebra o aparecimento da grande cuisine da viragem pós-revolução francesa.

Aos sábados, pela manhã, vou às compras ao mercado de Portimão. E sempre que ali vou, dou-me conta, como se fosse a primeira vez, da viva presença das coisas ali dispostas. A geometria das bancas, a perfeita distribuição de áreas e produtos, a boa disposição dos vendedores, a gente da minha terra conversando. Os encontros fortuitos, ainda que semanalmente repetidos. Comprovo a inteligência e a ficção das coisas postas ali em sossego ao meu dispor como um território habitual mas sempre inexplorado, donde recolherei a matéria ficcional com que, depois, elaborarei uma retórica pessoal dos sabores. Na perfeita distribuição da matéria exposta, vou encontrando os peixes dourados do mar do Algarve, as carnes bravias e campesinas, a pura poesia dos frutos, os ingredientes vegetais e telúricos que me hão-de proporcionar o devotado exercício gastronómico que vou mentalmente ensaiando em imaginários menus por fazer. Uma manhã feliz.

Porque estamos na época deles, navego entre bancas de peixes onde brilham sargos, douradas e robalos acabados de chegar do mar de Sagres. Escolho um gordo sargo que grelharei com ervas aromáticas como ensina Colette: «Prepare a vassoura, é assim que eu chamo ao ramo de cheiros com louro, hortelã, segurelha, tomilho, rosmaninho, salva... mergulhe-a num pote cheio de azeite misturado com vinagre de vinho [...]. O alho [...] esmagado, até ficar com uma consistência cremosa, realça a mistura, como convém. Um pouco de sal, bastante pimenta» [in Prisons et paradis].

No talho, mando cortar um teclado musical de costoletas de porco preto alentejano que hei-de levar ao forno a assar com ervas aromáticas e mel. Peço, ainda, que me cortem uns bifes tenros de vitela que cozinharei ao jantar, na figideira, à lisboeta, com o molho a pedir aquele pão caseiro que comprarei em seguida e o ovo a cavalo, de preferência de galinhas do campo. E enquanto o talhante vai cortando o coração da carne, lembro-me do bife com batatas fritas de Roland Barthes [in Mitologias], que não é uma receita, antes uma espécie de leitura antropológica sobre o bifteck cujo «prestígio resulta, de toda a evidência, da sua natureza de carne quase crua». Para a sobremesa, se fosse época, escolheria uns figos que cortaria à maneira de D. H. Lawrence que embora não sendo algarvio conhecia «a maneira correcta de comer um figo à mesa», ou de Herberto Helder que lhe mudou o poema para português: «é parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo,/ E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,/ desabrochada em quatro espessas pétalas.» [«Figos», in Poesia toda, Herberto Helder]. Levarei, então, laranjas de Silves para o almoço. E para o jantar, farei um arroz-doce «disposto» - como no poema de Háfiz Dimashki - «em longas tiras sobre o/ prato, a brancura do leite [...]/O acúcar espalhado sobre os bordos/ cintila como um raio/ de luz solidificado.» [«Celebração do arroz-doce», Háfiz Dimashki  (1134-1176).

Eis, então, um sábado de compras, semanalmente repetidas, no mercado de Portimão, recuperado como matéria ficcional desta crónica em que se conclui que também se pode ir a um mercado como se vai a uma livraria.

10 de dezembro de 2007

Escrita vegetal




Leio traçando a lápis, simultaneamente, linhas de fuga e de intromissão sob os labirintos de tinta embebidos das páginas dos livros, como diria Walter Benjamin. Deixo, assim, a presença fragmentária da minha mão no corpo do texto, como se cada página fosse um território por medir, por interpretar, à espera do rasto vegetal - madeira e carvão - que vou deixando no chão da escrita, também ele vegetal - papel -, incitado (e excitado) pela leitura que, lentamente umas vezes, sofregamente outras, avança através dos labirintos de tinta impressa. Aqui e acolá, escapo-me furtivamente para as margens, território virgem da página onde deixo impressões de leitura: anotações, remissões, indexações - espelhos quebrados do texto onde mais tarde regressarei para me rever como co-autor de um livro que não escrevi. Então, como o Agrimensor de Kafka [in O Castelo], também eu ando de margem em margem, e passo de uma anotação para outra, de um comentário para outro, adentrando-me nos trilhos vegetais que fui abrindo durante a primeira leitura.

Devo, portanto, ao lápis essa possibilidade infinita de não mais me perder nos labirintos de tinta embebidos, impressos, nas páginas dos livros. O lápis, então, como ferramenta preparadora de outros textos que hão-de vir em forma de pequeno ensaio ou de crónica de momento que convoca a paráfrase, a citação, preparadas transitoriamente pelo trilhar a lápis do pensamento que toda a leitura incita (e excita). Como esta crónica breve sobre a escrita a lápis que nasce da anotação vegetal o fabricante de lápis, na margem da página 17 de Fuga sem fim, de Joseph Roth [Acantilado, 2003]; ou a referência ao agrimensor K. suscitada por uma outra anotação à página 156 de O mal de Montano, de Enrique Vila-Matas [Teorema, 2002]. Sublinhar, anotar a lápis, então, não para desaparecer como pretendia Robert Walser com os seus microgramas, mas para abrir afluentes vegetais que hão-de embeber, depois, a tinta, os cadernos moleskine por vir.

Nos cadernos moleskine prefiro escrever a tinta, com caneta de aparo, uma art pen que me que me transforma momentaneamente no escritor húngaro Dezsó Kosztolány que num café, em Budapeste, enquanto escrevia Cotovia [Dom Quixote, 2006], em vez de pedir ao empregado um café, pedia tinta: - « Garçon - dizia - tinta, s´il vous plaît!».

A caneta de aparo como extensão da mão, do corpo, um fio de tinta, ziguezagueante, a embeber a página, com cheiro, e mudando de cor no rasto das oscilações da alma, deitando depois o pensamento no chão do caderno onde desaguam os afluentes vegetais que brotam das margens dos livros lidos. Como evocaria Kosztolány, primeiro a tinta e, depois, no computador, se como um agrimensor literário não tivesse antes deixado uma anotação vegetal na margem de Cotovia?

E só depois utilizo o computador. Pelas suas infinitas possibilidades de permuta e de substituição de palavras, de frases e de períodos; de cristalização sintáctica e morfológica da escrita. Enfim, de estabilização racional do pensamento ondulante no espelho quebrado do monitor onde vou colando citações, fragmentos, ecos de leituras a que acrescento frases e ideias próprias que me vão sendo incitadas  - e excitadas - pelo fio de anotações que foi brotando, primeiro a lápis e depois a tinta, como uma respiração de ideias fragmentárias no chão do caderno moleskine, para se cristalizar, finalmente, numa crónica autónoma, pessoal, mas onde se escutará sempre o eco inaugural da leitura.

 [Ilustração ao alto, de Rachael Caiano©]

6 de dezembro de 2007

O último Vila-Matas: funambulismos



Contrariamente ao que pensaria Elias Canetti, para quem os exploradores jamais regressam dos mapas obscuros em que adentram, cruzo a última página de Exploradores del abismo [Enrique Vila-Matas, Anagrama, 2007] e como um funâmbulo regressado à plataforma segura onde se prende a corda estendida sobre aquela cartografia abismal, reencontro-me no lado de cá de um território fronteiriço, desolador e, às vezes, desassossegante, onde numa noite de insónia me cruzei com «seres corrientes y vulgares, es decir de individuos amostazados, apopléticos y analfabetos» que entretém a vida roçando o vazio existencial multiplicado no espelho carveriano deste livro que, mais do que uma antologia de contos, antes constitui uma contínua narrativa de equilíbrio sobre o vazio do mundo - de que a travessia sobre uma corda estendida entre as torres gémeas do WTC evocada no conto Materia oscura constitui a metáfora absoluta -, atravessado por um escritor equilibrista com «una risa excepcional, diáfana, allá en lo alto, en claro contraste con el coche fúnebre que había quedado aparcado allí abajo».

E não só não me perdi ali, como naquela perigosa região fronteiriça me cruzei com o próprio Vila-Matas, também ele, sobretudo ele, um escritor funâmbulo em equilíbrio instável sobre os abismos que abrem no outro lado da literatura: «No quiero indagar más en el abismo, es decir, en el más allá de la literatura. No hay vida ahí, sino un riesgo de muerte». Por isso, estende-nos a corda que atravessa as dezanove estações do vazio, numa tentativa de ir ludibriando a morte, como já a havia ludibriado antes quando roçou literalmente o precipício absoluto numa cama de hospital. Funâmbulismos, portanto [segundo também a tese expressa no excelente blogue espanhol, El Lamento de Portnoy], do escritor e do leitor, a que Maurice Forest-Meyer, aquela personagem furtiva que encontramos em quase todas as estações abismais, dá consistência narrativa.

Daí a atracção kafkiana pelo abismo experimentada pelas suas personagens solitárias e erráticas que, vivendo na mais absoluta rotina quotidiana, são inesperadamente obsequiados com epifanias que os transformam em expedicionários de mundos paralelos, de vivências nunca experimentadas, preferindo os mundos paralelos à realidade que confrontam com a soberba de quem possui a fórmula mágica que a há-de esconjurar. Mas personagens impregnadas e construídas pela discursividade omnisciente do autor cuja presença abismal como se fosse um Deus habitando no apartamento do lado e que tudo manipula, fazendo deslizar as personagens ora para o abismo ora para «fuera daquí».

Por isso, autor e personagens, perseguem os luminosos e equívocos abismos que «dan contenido espiritual al vacío», através de uma casualidade onírica que não se esgota na retórica ficcional declinada em metáforas abismais, reiterações, acasos aparentes, imagens da monotonia da chuva, inverosimilhanças, miniaturizações descritivas, desvios, citações, atribuições falsas, biografias apócrifas procuradas incessantemente por um caçador furtivo de frases, por um fazedor de discursividade - diria Barthes -, onde ecoam, ainda e sempre, as vozes de Borges, de Augusto Monteroso ou de Sérgio Pitol. Do estilo destes contos diria, seguramente, Rosario Girondo, o narrador de O mal de montano, que «consiste em destestar a linha recta e vaguear, debruar, seguir elipses e labirintos, retroceder, andar em círculo, tocar de repente esse inalcansável» que é a realidade.

«Fuera de aquí, tal es mi meta», eis a radical auto-consciência que alimenta o propósito vertiginoso deste livro onde damos com um falso explorador de abismos que escala um vulcão em busca das almas dos mortos que se escondem num lago na cratera; um autista apaixonado pelas plateias vazias; gente que julga que uma matéria obscura e invisível atravessa o universo inteiro; um russo melancólico que, farto da sua vida familiar, descobre aliviado que prefere ser um personagem de um conto; uma mulher que descobre os contornos da sua própria morte e protagoniza, ritualmente, todas as cenas prefiguradas; alguém que vive a mesma vida do seu companheiro ligeiramente alterada; a artista Sophie Calle que desafia um escritor a inventar-lhe uma história que ela, depois, protagonizará na realidade; e o belíssimo ensaio final, La gloria solitaria, que convoca Miles Davis, Thelionius Monk, Montaigne, Kafka, Fernando Pessoa, Thomas Berhardt, Glenn Gould, Robert Walser, Raymond Roussel, Giorgio Agamben, «un microcosmos de soledades todas vinculadas entre ellas». Todos «solitario[s] de sí mismo».

Ficções imbricadas na realidade que um Vila-Matas fingidor que diz «que no podría haber escrito [...] si previamente, hace un año, no [se] hubiera transformado en alguien levemente distinto, no [se] hubiera convertido en otro» [in Café Kubista], de acordo com um propósito borgesiano que vinha anunciando havia já algum tempo, o que coloca, então, a questão de se saber quem, efectivamente, - o outro ou o mesmo Vila-Matas - escreve estes contos abismais? «Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas [...] eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me», confessa Jorge Luís Borges num seu famoso texto [O fazedor (Obras Completas Vol.II), Lisboa, Teorema]. E Vila-Matas, numa entrevista recente à revista catalã Paper de Vidre: «Que me ocurren cosas vilamatasianas? Lo sabe todo el mundo que me conoce. Basta salir un momento conmigo a la calle, ir a algún sitio y armarse de una relativa paciencia y al poco rato verá usted que ocurre siempre algo que parece salido de mis relatos. Toda la realidad se parece a lo que escribo. En esta situación, Vila-Matas es obviamente uno de mis personajes».

Esta mesma urdidura ficcional já era o propósito de Vila-Matas em livros anteriores em que ensaiava a ausência e o desaparecimento como temas literários: procurando, num romance precoce, La asesina ilustrada, aniquilar os seus leitores; depois, fazendo passar um ladrão de túmulos por um escritor desaparecido, em La impostura; a seguir, inventariando escritores que renunciaram à literatura, em Bartleby & compañia; depois, ainda, confundindo-se com um homem sem qualidades, doente da literatura, em O Mal de Montano; e, no final anunciado de um ciclo, perseguir a ocultação, o eclipse, o grau zero do desaparecimento, em Doutor Pasavento. Mas será que foi mesmo um fim de ciclo, como em dado momento o autor nos quis fazer acreditar, ou antes estes contos serão, ainda, a nova habitação, multiplicada agora dezanove vezes, de Montano e Pasavento expandidos nestes exploradores de abismos? E que a utopia do desaparecimento é agora mais do que nunca múltipla, constituindo a escrita, como diria Deleuze, uma ocultação do sujeito. Ou «a vida secreta do autor, o obscuro irmão gémeo de um homem», nas palavras de Faulkner. Ou em resposta à pergunta de Blanchot - «Como faremos para desaparecer?» -, talvez diluir-se no tecido da escrita, tornando-se uma espécie de alma gémea de Musil, o escritor sem qualidades. Ou, ainda, a invenção do duplo que, segundo Ricardo Piglia, decorre da recordação de uma memória estranha, metáfora perfeita da experiência literária. Ora dessas memórias estranhas de expedicionários da realidade tratam estes contos abismais.

A mesma afectação literária de sempre, portanto, onde a autobiografia se bifurca na construção de um outro a quem acontecem as coisas e que evoca a figura borgesiana do duplo. Só que, ao invés de Borges, Vila-Matas-o mesmo não se transforma num apagado contemplador do outro, antes procura fundir a sua autobiobiografia caprichosa com o universo ficcional que se declina ora no formato de retratos de momento, inspirados em Gombrowicz, ora em entrevistas espasmódicas, ora no universo shandiano dos seus livros, onde as coisas acontecem não ao outro, mas a todos os Vila-Matas em que Vila-Matas-o mesmo se multiplicam sem que, no entanto, essa heteronímia seja assumida, por exemplo, à maneira pessoana. Já em Doutor Pasavento escrevia que «havia tantos Pasaventos em palco que seria impossível localizar-me, perder-me-ia entre eles (p. 273). O autor-expedicionário destes abismos é, então, não o outro, mas o mesmo Vila-Matas que no romance anterior se confundia com Pasavento, Ingravallo e Pynchon, como se a sua autobiografia - construída por ele à altura da sua literatura - fosse caprichosamente um género literário - uma autoficção, segundo Serge Doubrovsky, simultaneamente vivida na vida real e nas vidas de papel acolhidas na «sua maleta con libros de Bolaño», como o próprio Vila-Matas me confessava, um destes dias, numa troca de correio electrónico. Fingimentos que Vila-Matas volta a  convocar para estilhaçar a distancia entre ficção e realidade, cuja imbricação extrema é sintetizada no insuperável conto Porque ella no lo pidió, a estação mais absoluta deste itinerário abismal sobre a realidade que encontramos para além da literatura.

23 de novembro de 2007

A região mais tenebrosa



Olho o auto-retrato de Bruno Schulz e o que vejo é uma figura kafkiana, simultaneamente assustada e feliz , fugindo à claridade do dia para se refugiar nas «regiões do destino onde reina a solidão». Witold Gombrowicz descreveu-o como um «gnomo, minúsculo, com uma cabeça enorme, quase demasiado apavorado para ter coragem de existir, era um ser escorraçado da vida, um daqueles que desliza, furtivo, pelas margens». Alguém que se escondia nas sombras, fechado na prisão de loucos que era a sua casa, na «Praça do Mercado, «uma destas casas sombrias com fachada cega e vazia», em Drohobycz, nos confins da Galícia que ele descreve como uma «cidade dada a mergulhar na cinza crónica do crepúsculo, a enfeitar os seus contornos com uma lepra escura, um bolor felpudo, um musgo cor de ferro»

Aí nasceu, em 1892, e viveu, num estado de depressão profunda, entre «polacos ucranianos e judeus [como ele], lado a lado ou misturados, ou talvez nem uma coisa nem outra», até ser assassinado com uma bala na nuca pelos nazis, numa manhã fria de Novembro, em 1942. Mas nos seus contos, perturbadores e hipnóticos, reunidos em As Lojas de Canela [Assírio e Alvim, (1933), 1987] e em O Sanatório Debaixo da Clépsidra [1937], este território das trevas desaparece dando lugar ao fogo intenso da fantasia, a metamorfoses absolutas, a emanações coloridas por detrás das lojas nocturnas: «Nunca me há-de esquecer esta corrida luminosa na mais clara noite de um Inverno. O mapa colorido do firmamento transformara-se numa cúpula enorme onde se acumulavam continentes e oceanos fantásticos cortados pelas linhas dos turbilhões e das correntes estelares, riscos brilhantes da geografia celeste» [As Lojas de Canela, Assírio e Alvim, (1933), 1987, pág. 72] 

Mas havia, há outro Schulz, o da pintura, uma vocação anterior à escrita, habitante do um país mais tenebroso que aquele que atravessamos nos contos. «Ocupava os ócios a desenhar: numa paisagem de província, para lá da praça vazia do Município, um fiacre a trote levava mulheres nuas com meias e chapéus de palha; machos franzinos de cabeça imensa e olhos febris arrastavam-se aos pés de raparigas sentadas com indolência numa poltrona», conta um amigo, Arthur Sandauer, que uma vez lhe apareceu em casa. 

Eis o que pude ver na exposição do Círculo de Bellas Artes, em Madrid, onde se mostram meia centena de trabalhos dos duzentos que escaparam à devastação nazi. Uma sequência que abre com dois auto-retratos, espécie de umbral da sua paixão pela própria efígie que aflora em múltiplas composições. E que percorre toda a trajectória do artista desde a gestação das ilustrações de O Livro Idólatra, num ritual fetichista que sobreviverá nos seus contos. E, sempre, as «cortesãs apocalípticas», colegiais perversas, mulheres maduras, indiferentes e dominantes, nuas ou semi-nuas, de chicote, anões e velhos rastejando, gatinhando, fetichistas idolatrando-se, lambendo o próprio corpo, eis a tribo de párias que, em procissão ou solitariamente, habita a região obscura reflectida na sua obra plástica. 

Particularmente interessante é, ainda, o Encontro [numa ruela da sua cidade natal, um judeu cumprimentando cerimoniosamente duas tentadoras, provocadoras prostitutas], óleo sobre cartão, de 1920, único exemplo sobrevivente da sua pintura, exceptuando os dois fragmentários e deteriorados vestígios recuperados daquilo que foi o seu testamento plástico, o mural com cenas de contos que realizou para o quarto do filho do Hauptscharführer Félix Landau, membro da Gestapo e seu protector durante o aziago tempo emprestado que precedeu o seu assassinato. Significativo é, também, o núcleo documental da exposição com as edições originais dos dois conjuntos de contos e das colaborações em revistas, assim como uma selecção da correspondência - donde se destaca uma carta trocada com Gombrowicz , fotografias de família e postais de Drohobycz. 

Num exemplar do Hebdomadário Ilustrado, de Varsóvia, que escapou à voragem destruidora do seu espólio literário  [sabe-se da existência de um romance, O Messias, que estaria quase pronto e que desapareceu], e numa carta dirida a Witkiewicz, outro escritor-pintor, Schulz explica a génese da sua obra plástica: «Ainda eu não sabia falar e já enchia quantos papéis encontrava, e as margens dos jornais, com garatujas que despertavam a atenção de quem vivia comigo. Comecei por fazer sempre carros atrelados. O percurso de uma viagem de fiacre parecia-me cheio de importância e simbologia oculta. Com seis, sete anos, nos meus desenhos aparecia sempre a imagem de um fiacre de capota abaixada e lanternas acesas, a sair de uma floresta nocturna».

E donde emana a filiação artística de Schulz? Para Mónica Poliwka, comissária da exposição, há dois círculos concêntricos na sua obra. Um que estabelece a confluência com a pintura polaca da época: Wojtkiewicz e Weiss e, logo, a coincidência geracional com Witkiewicz. E outro, mais amplo que remonta essa filiação até uma bem precisa deriva negra da arte europeia, onde encontramos a presença seminal de Goya e de Klinger e Grosz, como sombras tutelares.

[ao alto, reprodução de Dedykacja, auto-retrato de Schulz]

20 de novembro de 2007

Rio Congo acima



«Tudo me é antipático aqui» - escreve Jósep Teodor Konrad Korzenlowski numa carta enviada à sua tia Marguerite Paradowska, referindo-se à viagem que realizou em 1890, rio Congo acima até ao coração das trevas  - «os homens e as coisas, mas sobretudo os homens. Todos estes [...] mercadores de marfim de instintos sórdidos. Lamento ter vindo aqui. Lamento-o mesmo amargamente». Dessa subida iniciática do rio que lhe deixaria no corpo um sopro maligno, mas que também mudaria a sua alma - «Navegando pelo rio Congo, deixei de ser um animal para converter-me num escritor» - , contará, mais tarde, Conrad,  pela boca do expedicionário Marlow, seu alter ego no romance Coração das trevas, que publicará em 1902, depois de se ter feito escritor, precisamente, por causa dessa assombrosa viagem ao coração do mal, que nos legou como uma crónica daquela perversão levada a cabo no Congo, entre 1890 e 1900, pelo rei genocida Leopoldo II da Bélgica, originando a morte de quinhentas mil vítimas anónimas que não figuram nos relatórios oficiais. Uma experiência real que, escreveu Conrad, supera a ficção «com o propósito perfeitamente legítimo, creio eu, de trazê-la às mentes e ao coração dos leitores» e dar a «este tema sombrio uma sinistra ressonância, uma tonalidade própria, uma contínua vibração que ficará, essa a intenção, suspensa no ar e permanecerá gravada no ouvido depois de ter soado a última nota».

Por essa mesma altura, Roger de Casement, cônsul britânico em Boma, denunciava também a natureza e o volume desses crimes: «Quem viajar até ao curso superior do Congo e não tiver cegado de cobiça do dinheiro, verá desfilar diante dos seus olhos a agonia de um povo inteiro com todos os seus pormenores de rasgar o coração....». Denúncia que W. G. Sebald se encarregará de fazer ressoar nas páginas desse portentoso livro onde dá conta da consternação do mundo que é Os Anéis de Saturno, onde faz a contabilidade macabra desse reinado de terror: «Em muitas regiões do Congo, a população indígena foi totalmente dizimada pelo regime de trabalho forçado e os nativos que foram trazidos de outras partes de África ou de além-mar morreram em massa de disenteria, paludismo, varíola, beribéri, icterícia, fome, exaustão física e tuberculose».

 Esta a sinistra ressonância que ecoa no monólogo de Marlow que tem lugar num outro rio, o Tamisa, onde se pode pressentir «o lugar da cidade monstruosa, sinistramente marcado no céu, treva a germinar na luz do Sol, sinistro olhar debaixo das estrelas», como se aí residisse, ironicamente, a origem das trevas que o mundo civilizado derramou no coração de África «- E isto tudo, aqui [nas margens do Tamisa] - disse Marlow, de repente - foi um dos lugares selvagens do mundo», donde partiram «caçadores de ouro ou caçadores de glória», como Kurtz, o anjo exterminador que enlouquece absorvido pelos abismos da selva tropical, com um coração donde brota a mais primitiva crueldade, cujo drama se reflecte nas palavras pronunciadas pelo próprio antes de morrrer: «O horror! O horror!», e que constitui um dos gritos mais imponentes da literatura do século XX. Conta Marlow que, rio Congo acima, se vai arrastando o seu pequeno e decrépito vapor, numa atmosfera riscada pela morte e crueldade que ora se eleva da selva obscura, ora da rapacidade colonialista que ali se instalou para contaminar todos aqueles que atravessam a neblina cinzenta que esconde «a torrente deserta, um grande silêncio, a floresta impenetrável». Conta Marlow que o vapor vai percorrendo «um negro e incompreensível frémito», penetrando «mais e mais profundamente no coração das trevas», através de «intermináveis milhas de silêncio - que o arrastavam em direcção a Kurtz», com uma «inexplicável sensação de dor desesperada do clamor selvagem que [os] atingia da margem, atrás da cega brancura daquelas névoas».

A existência humana tomada como navegação encoberta, rio acima, capaz de naufragar a qualquer instante nas correntes súbitas do mal civilizacional, provocando uma hecatombe de cadáveres negros amontoados na história. O monólogo de Marlow, então, como uma relato em que o sombrio está tanto na orla do desconhecido como na alma dos que como «flibusteiros reles [apenas] querem arrancar tesouros às entranhas da terra» e se perdem na espessura do coração da trevas. Mas um coração que, embora remeta para um lugar geográfico e físico, o Congo, ou o continente negro que no mapa tem a forma de um coração gigante, constitui no romance de Conrad a metáfora das trevas que transportamos dentro de nós e que podemos derramar à nossa volta a qualquer momento sucumbindo ao «fascínio do abominável». Não sucumbiu Conrad a esse terrível fascínio, regressando da obscura corrente com a rapidez do coração das trevas, rio abaixo, à velocidade dupla da subida, numa espécie de refluxo do seu coração no mar inexorável do tempo, fazendo-se, depois, escritor na «cidade sepulcral», para que a contínua vibração da sua experiência permaneça gravada no ouvido depois de ter soado a última nota como um libelo desconstrucionista de um dos males do século passado, o colonialismo brutal cuja denuncia este livro actualiza, sempre que escutarmos Marlow.

Ontem voltei a adentrar-me no coração das trevas, para encontrar Kurtz, essa figura fantasmática que antecipa outras de Kafka ou de Beckett. Em duas horas de leitura subi e desci, rapidamente, o rio da infâmia colonial e na dobra da última página deste monólogo de assombrosa modernidade, deixei para trás definitivamente «caminho das águas, que leva aos confins da terra, corria escuro sob um céu sombrio - dir-se-ia que a levar-nos ao coração de infinitas trevas», as mesmas que foram pintadas da cor do sangue, no inquietante filme de Francis Ford Coppola, Apocalipse Now, inspirado na segunda parte do livro de Conrad que Agustina Bessa Luís elegeu como o livro da sua vida.

Por estes dias em que se evocam os cento e cinquenta anos do nascimento do escritor, em  1857, em Berdichev, uma pequena cidade polaca que integra hoje a Ucrânia - e se meteu, órfão, adolescente e marinheiro, num barco francês explorando os mares e, mais tarde, aos 23 anos, se fixar em Inglaterra e na sua marinha e atravessar águas exóticas -, reler talvez Lord Jim, esse romance marítimo que trata de outras iniquidades humanas.

12 de novembro de 2007

Diário chileno (X). Voo nocturno



Junto à porta de embarque número 60 do aeroporto Toribio Merino, em Santiago do Chile, vejo passar em formação cerrada a tripulação do voo Suiss 97 que daqui a pouco se fará aos céus por cima da cordilheira branca. Com passada rápida e decidida, cruzam o umbral que leva ao grande pássaro metálico que descansa na pista, ignorando os passageiros, quietos e silenciosos, que esperam o embarque. E neste derradeiro território a roçar os abismos duvidosos por vir, inspecciono à minha volta aqueles que comigo sobrevoarão, a doze mil metros de altura, montanhas crepusculares, cidades invisíveis, mares nocturnos. Alguns conversam em alemão, outros em castelhano, muitos em português do Brasil, porque o avião fará escala em São Paulo. Ninguém ousa falar do tributo inconfessável que, às vezes, é pedido a quem ousa desafiar os céus. Nem ninguém estaria disposto a pagá-lo. Eu não. Por isso, entre os passageiros suspensos no espelho deste aeroporto austral, procuro aquela criança que viaja sempre comigo em todos os aviões que cruzam os altos mapas em que me adentro e quando a encontro sei, então, que o avião que me aguarda do outro lado do espelho não cairá.

Subo para aquela espécie de cápsula intercontinental que, veloz, roncando, atravessa obliquamente as nuvens até estabilizar nos céus deixando para trás a cidade nervosa. Comunicam que devemos manter os cintos apertados. Turbulências nos Andes. Estremecimentos. Voamos. Não sei como fazem para manter toda esta massa no ar. Seguramente é aquela criança que no seu sonho colorido vai sustendo as enormes asas metálicas que nem precisam de bater para avançar na insustentável leveza do caminho que o avião vai desenhando atrás de si. Regresso do Chile, de outro continente, de outro hemisfério sobrevoando a cordilheira branca ao segundo entardecer. Nos corredores laterais passam hospedeiras suíças empurrando carrinhos com refeições empacotadas, perguntando o que desejamos beber com reiterados sorrisos plásticos. A noite real, lá fora, envolve o avião. E cá dentro apagam-se as luzes. Há passageiros que lêem e se eu fosse Vila-Matas, levantar-me-ia e, dissimuladamente, como um voyeur aéreo, atravessaria, agora, de ponta a ponta, a penumbra do corredor e, sob a luz oblíqua que desce do tecto nalguns assentos, num acto do mais puro voyeurismo, procuraria saber o que lêem estes passageiros da noite.

Mas não me atrevo a tanto e abro Los detectives salvajes, de Bolaño. Vou na página duzentas e noventa, faltam, portanto, trezentas e dezasseis páginas que devem chegar aguentar as três horas de viagem até São Paulo, mais as doze, depois, até Zurique, mais quase três até Lisboa. Vou no rasto de Cesárea Tinajero, a misteriosa escritora desaparecida no México após a Revolución, e as dezoito horas de voo correspondem ao tempo canónico da busca errante que retomo nesta cápsula voadora que vai rasgando a penumbra rumo ao norte. Leio furiosamente este tremendo romance infra-realista na companhia dos poetas desesperados e traficantes ocasionais que Bolaño me vai apresentando, bifurcando-me através das ruas selvagens do México DF, do «espacio oscuro que es la ciudad de Managua [...], una ciudad que sólo conocen sus carteros», das ramblas nervosas de Barcelona, mendigando em Tel-Aviv, escapulindo-se da morte em Monróvia.

Há passageiros adormecidos, alguns com pesadelos recorrentes a preto e branco. Eu não. Iluminado pela minha lâmpada pessoal, numa dobra da página, adormeço por momentos e tenho «sueños, no pesadillas, sueños musicales, sueños de preguntas transparentes, sueños de aviones esbeltos y seguros que cruzaban Latinoamerica de punta a punta por brillante y frío cielo azul». Indiferente aos sonhos e aos pesadelos alheios dos restantes passageiros e ao meu thriller bolañiano, a jovem engenheira chilena sentada ao meu lado que vai para Barcelona à procura de trabalho prefere o zapping pelos programas oferecidos pelo vídeo do avião. Lá fora, as turbinas ferem já um céu de muitos azuis verticais sobre o primeiro amanhecer de uma Lisboa que o avião ignora. Antes, ainda, a montanha mágica, bifurcação estranha antes experimentada por Montano, a personagem que Vila-Matas encontrou no Chile e que «después, directamente desde la orilla del batallador Pacífico, viajó con él a la cumbre de una montaña suiza». Este também o destino incerto para onde me vão conduzindo as asas metálicas deste avião, agora menos perdido, menos adormecido, atento já ao lento mover de asas do outro avião que, daqui a pouco, me há-de levar para Lisboa.

Regresso de Santiago do Chile aonde fui convidado para participar no Encuentro Internacional de Escritores. Foi a primeira vez que fui ao Chile. Antes já tinha estado noutros países da América Latina. Nunca no Chile. Queria ir ao sul profundo, mas os dias não chegaram. Fiquei-me por Santiago, confusa, nervosa, híbrida, às vezes secreta, invisível. E escapei-me para Valparaíso, luminosa, nostálgica, arruinada, caótica. Santiago estava igual à cidade anterior que Bolaño deixou para trás - disse-me -apesar de «los nuevos edificios, las nuevas avenidas que no significan nada», [...] aún se comen empanadas chilenas y uno puede ir a saborear al Nacional o al Rápido. Aún se comen barros-luco o barros-jarpa o charcareros». Mas Bolaño, que se foi tornando num mexicano salvaje, já cá não está e se estivesse, depois do que vi e ouvi na Villa Grimaldi, dir-lhe-ia que se equivocara, pois o mal já não anda à solta em Santiago, o umbral do medo foi encerrado e a chave atirada para o fundo de um abismo. E isso significa tudo. Ou quase tudo.

Mas onde viu Carlos Fuentes «as mulheres formosas de olhar cor de uva» que eu não as encontrei nem em Ahumada, nem em Lastarria, nem em Bellavista? Nem nos cerros porteños, ao entardecer? Apenas vi rostos de chilenos que pareciam chilenos cruzando as ruas nervosas de Santiago, chilenos entrando e saindo das lojas da moda nas ruas Moneda, Huerfanos, Merced, chilenos deambulando na Plaza de Armas, chilenos bebendo  pacificamente pisco sour na Plaza Mulato Gil de Castro, chilenos em amplexos amorosos cerro de Santa Lucia acima, chilenos rindo nas esplanadas de Bellavista, chilenos observando os livros caros na Feria del Libro, chilenos subindo o funicular do cerro San Cristóbal num domingo à tarde azul, chilenos perdendo-se nos labirintos subterrâneos do metro de Santiago, chilenos quietos e silenciosos em salas de espera de estações rodoviárias, chilenos partindo em autocarros lotados para viagens longitudinais, chilenos circulando em automóveis japoneses na Avenida O´Higgins, chilenos fardados de carabineros, de colegiais, de bombeiros, chilenos apregoando mariscos e peixes estranhos nos mercados, chilenos com feições tristes de índios mapuche, chilenos festejando a vitória do Universidad de Santiago no último jogo do campeonato nacional, chilenos nem demasiadamente tristes nem demasiadamente alegres, chilenos, às vezes, melancólicos, outras vezes arrogantes, chilenos que querem ser europeus e não latino-americanos, chilenos demasiadamente parecidos com portugueses. Chilenos num país passillo, «al este limitado con la cordillera de los Andes, al norte con el desierto de Atacama, al sur con la Antártida y al oeste con el oceáno Pacífico [...] chilenos mirando perplexos hacia los cuatro puntos cardinales».

Não digo que não fossem escritores toda a chusma que se reuniu no dia da inauguração do Encuentro Internacional de Escritores, no Museu de Bellas Artes. Mas que não estavam ali para transgredir, isso soube-o logo mal começaram a dedicar-se mutuamente os seus livros, porque, talvez para eles - leio em Bolaño - o «ejercicio más usual de la escritura es una forma de escalar posiciones en la pirámide social [...] y no reniegan de lo que se puede renegar y se cuidan mucho de no crearse enemigos o de escoger a éstos entre los más inermes. No se suicidan por una idea sino por locura o rabia».

E o mesmo observo na Feria del Libro de Santiago, na Estación Mapoche. Deambulo pela feira, vasculhando nos expositores as novidades chilenas, buscando entre a rasura existencial ali amontoada, algum rasgo capaz de dar conta, ainda, da consternação do mundo. E constato que também no Chile, há um efeito Bolaño. Ali, na Anagrama, encontram-se preferencialmente expostos todos os bolaños que os leitores vão folheando, como se, postumamente, também para ele, las puertas, implacablemente, se le [abrieran] de par en par.

«E outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo / cidade pavorosamente perdida, outra vez te sonho aqui», diria Álvaro de Campos se agora se fizesse comigo a terra neste avião que não cobrou tributo. Não a Lisboa obscura, «con gente vestida de negro, con casas hechas de caoba o de mármol negro o de piedra negra», imaginada num sonho febril por Bolaño, mas a Lisboa que acrescenta «azul de muitas cores / ao outro azul que os vossos olhos vêem», como viu Pedro Tamen.

5 de novembro de 2007

Diário chileno (IX). Valparaíso




É no porto onde acostam embarcações adormecidas, sobrevoadas por bandos esfomeados de gaivotas e pelicanos, que se deve procurar o carácter porteño de Valparaíso onde marinheiros de todas as épocas viram a sua imagem abandonada no espelho quebrado da baía que reflecte o anfiteatro de casario colorido descendo num dédalo de ruelas, becos e escadarias ziguezagueantes os quarenta e dois cerros «secretos, sinuosos, recoderos», sobranceiros ao Pacífico. Mas é nos cerros, sob o azul-lavanda de um céu cristalino, ou encobertos nas sombras do segundo crepúsculo, que sobrevive, ainda, a sua verdadeira alma. Talvez, por isso, aquilo que melhor define ainda hoje Valparaíso é a convivência entre a luminosidade diurna que cobre o casario desalinhado e a obscuridade nocturna dos seus becos de pesadelo onde marinheiros de passos incertos, às vezes, ainda se perdem.

Como um funâmbulo, persigo os passos desses marinheiros que, desertando por uma noite dos navios baleeiros, depois de terem sobrevivido à travessia do Cabo Horn, aqui vinham naufragar, escadarias acima, nos cerros, em tempestuosos leitos. E dos outros que, rumando à Califórnia em busca de ouro, aqui ficariam para sempre, paralizados pelo canto das sereias numa qualquer pista de tango perdida na dobra secreta das suas ruas e praças irrigadas pelo sopro salgado do mar.  No Paseo Veintiuno de Mayo, donde antes habia grandes carnavales, subo ao assalto das colinas por um dos quinze funiculares ainda em actividade, o Artilleria, de 1893, verdadeira peça de museu habitado pela nostalgia de um tempo em que Valparaíso conheceu a prosperidade, antes de se transformar, primeiro, num porto fantasma, arruinado pelas novas rotas de navegação após a construção do canal do Panamá e, depois, na selva de contentores nervosos que observarei desde o mirador Diego Portales. Primero, cruzo um obscuro corredor e passo pelo torno de bronze que contabiliza os passageiros que sobem; entro num velho carro de madeira que depois de um súbito solavanco começa a subir guinchando, deslizando sobre carris oleados, puxado por roldanas e correntes; e, uma vez em cima,  recebe-me «un hombre palido, um misterioso angel de sombra». E no mirador Diego Portales é a cidade inteira que resplandece debruçada sobre o Pacífico através de um labirinto de ruelas com velhas casas desequilibradas, imbricadas umas nas outras, amparando-se mutuamente, enlouquecidas. E a mesma baía que viu Gabriela Mistral: «Bahia mayor de Valparaiso! Anda en novelas y poemas ingleses y noruegos. Quien navega la conoce y la cuenta al contar sus mares».

Desço pela Escalera de la Muerte até à rua Prat, onde Jorge Luis Borges se assomou, em 1977, depois da apresentação de um livro de Maria Luisa Bombal, e sigo, depois, pela rua Esmeralda, onde ainda sobrevive o velho letreiro do Café Vienés já desaparecido, frequentado nos tempos luminosos de Valparaíso pelas senhoras do cerro Alegre que ali vinham ouvir valsas interpretadas por uma orquestra vivo. Por breves instantes, consigo imaginar o esplendor perdido de um tempo efémero em que, a seguir a São Francisco, Valparaíso era a principal cidade do Pacífico, quando as suas lojas exibiam as novidades europeias e os seus teatros as mesmas peças da moda que faziam o gáudio dos espectadores em Paris e Londres. E já na Plaza Anibal Pinto, em frente da fonte de Neptuno, entro no Café Riquet para comer o famoso manjar con nueces, servido por velhos empregados que parecem saídos de um tempo que já não existe.

E novamente um funicular, o mesmo em que o alfandegário Rubén Darío subiu, em 1888, para no cerro Concepción contemplar «ondeantes cortinas de enredadera» e assomar por janelas de guilhotina, como escreveu em Azul, e perder-se depois por escadarias que não conduzem a parte nenhuma. E ao entardecer, perco-me em  deambulações pelo cerro Alegre: Pasaje Cambridge, subida Templeton, paseo Atkinson e, sobretudo, paseo Loti, território mágico que evoca o escritor francês que por aqui também errou. E depois de um carmenere crepuscular fico na pensão Carrasco, em Concepción, sonhando breves sonhos a preto e branco que antecipam o dia por vir.

Sigo os passos de Neruda que no cerro Bellavista mandou erigir uma das suas residências na terra, vou depois por Florida e por Mariposa, cruzo recantos surgidos do nada, casas penduradas no vazio, umbrais escuros cujo limiar não ouso atravessar, descendo «escaleras [que] parten [...] de arriba y se retuercen trepando. Se adelgazan como cabellos, dan un ligero reposo, se tornan verticales. Se marean. Se precipitan. Se alargan. Retroceden. No terminan jamás», povoadas de bares, onde ao som de uma milonga qualquer se servem bebidas centenárias a bebedores sonolentos».

E, de novo na baixa ruidosa, confusa, caótica, agora como um detective salvaje - única maneira de avançar incólume na manhã apocalíptica que se estende ao longo da nervosa avenida Pedro Montt, enxameada por um povo de vendedores ambulantes e cães errando nos passeios - apanho o último trolley que me levará ao terminal de autocarros para Santiago.

4 de novembro de 2007

Diário chileno (VIII). A cultura na cidade



1. A julgar pelo que não se lê no metro de Santiago, pode inferir-se que por aqui se lê pouco. E que os livros são caros, porque na maioria importados - Anagrama, Alfaguara, Ediciones B, Seix Barral. Resta, então, a quem precisa de livros para viver, comprá-los em livrarias de saldos ou de usados que encontro no centro. O que não encontro é a minha livraria artúrica, pois todas me parecem indistintas, e as da rede Feria Chilena de Libro ainda mais. Talvez uma pequena livraria, Metales Pesados, quase no final da rua Merced, perto do Museu de Bellas Artes, onde finalmente compro a Rayuela de Cortázar, sem ser em edição de bolso, e converso com o livreiro sobre o efeito Bolaño.

2. Vou à inauguração do Encuentro Internacional de Escritores que me trouxe aqui e deparo-me com muita vanidade e presunção. A literatura, ali, não como ficção mas como falsa sociabilidade. Escritores chilenos dedicando-se mutuamente os seus livros, trocando laudatórias palavras de circunstância. E evoco Ulisses Lima, o detective selvaje de Bolaño que se evaporou da comitiva de escritores mexicanos de visita à Nicarágua para se perder no «espacio oscuro que era a cidade de Manágua [...] que sólo conocen sus carteros». Mas Santiago não é Manágua e não corro o risco de me perder. Por isso, logo que posso, escapo-me dali, fugindo daquela chusma de escritores que se desejam comentados, premiados, homenageados, becados. E recordo as palavras de Nicanor Parra a propósito dos escritores chilenos: "tal vez sería conveniente leer un poco más". E vou pela noite santiaguina jantar tranquilamente na rua Lastarria.

3. Passou-se melhor o debate em que participei, no Encuentro, sobretudo porque a chusma estava noutro local, talvez dando entrevistas a jornais da moda. Falei da literatura rasurada que, sob a hegemonia do mercado, se vende por aí. Mas também das linhas de fuga possíveis para uma outra literatura que pode ainda expressar a consternação do mundo.

4. Como costumo sentar-me só nos restaurantes santiagueros - Bolaño nem sempre está comigo -  gosto de observar as mesas à minha volta e, às vezes, escutar as conversas. Há um grupo de brasileiros pretensiosos que falam de compras, um casal colombiano que fala, depois, com os brasileiros de auto-estrada que uma empresa brasileira está construindo na Colômbia, chilenos que se referem a uma seita maradoniana que faz casamentos. Mas, na mesa mesmo ao lado, há um chileno distinto que, a pretexto do suplemento literário do El País que vou folheando para me alhear daquela América que ali está, me incita a ler o livro de Jonathan Littel, Las Benevolas, que faz a capa de Babelia. Trata-se de Camilo Marks que tem uma coluna de crítica de livros no suplemento cultural do El Mercurio, e que me diz que "en Chile, hoy, no hay narradores, solo poetas y que nadie lee".

5. No Centro Cultural Matucana 100, visito a exposição El Manifiesto de Santiago que propõe «una mensaje desde la periferia hasta el centro». Saio sem perceber qual era a mensagem. No Museu de Bellas Artes elejo a exposição de Gracia Barros sobre el dolor y la perdida. Figurações de mulheres desaparecidas em Villa Grimaldi: se llas llevaran vivas y llevavan vida. Da colecção permanente do museu, retenho Roberto Matta. Vejo, depois, La Remolienda, numa encenação do Teatro Nacional Chileno, dirigido por Raul Osorio e antes por Victor Jara. Um gozo iluminado.

2 de novembro de 2007

Diário chileno (VII). Luz e nevoeiro



1. Estou na Patagónia. Não os territórios magalhânicos, errando pelos páramos ventosos e rudes do fim do mundo, mas apenas num restaurante homónimo, na rua Lastratria, em Santiago, aonde me trouxeram os meus passos incertos de detectve salvaje em busca do aleph santiaguino que por aqui deve estar escondido. E nesta Patagónia que já foi mercearia, ainda ali se encontram os velhos armários de madeira, o primitivo balcão com grandes frascos de vidro em cima, velhas caixas de vinhos, uma garrafeira de vinhos austrais e, a um canto, um armário com livros que me são oferecidos enquanto espero pelos sabores longitudinais do sul profundo. Trazem-me um cordero magallánico com bagas silvestres patagónicas, um carmenére e, no final, o incontornável flan con manjarblanco que me recorda outras evasões por estas paragens. E eu julgo ter encontrado, finalmente, a rua artúrica para onde me conduziu, hoje, o meu destino incerto.

2. Caminho por ruas nervosas até à Estación Mapoche onde está a Feira do Livro de Santiago. Antes, atravesso os portões do velho Mercado Central e confronto-me com algumas das espécies esquisitas que nadavam ontem na paila marina que comi com Bolaño. E já na feira, desisto de comprar os Bolaños que me faltam. É que sei onde comprá-los por metade do preco. Sigo, depois, para Bellavista, ao lado da corrente do Mapoche que desce veloz da cordilheira sobre um leito de cimento. E desespero ao procurar o pequeno teatro La Memoria, onde passa Las brutas, que Daniel Barraco me desafiou a ver, mas quando finalmente o encontro, descubro que o espectáculo fora cancelado por impossibilidade de uma actriz. Propõem-me que veja, ali no mesmo bairro, Nadar como um perro. E enquanto faço tempo para o teatro, algo me puxa mais para o sul, nem que seja através de uma Austral, a cerveja patagónica que vou  bebendo, ao crepúsculo.

3. Outro dia. Vou de taxi a Villa Grimaldi que fica já na periferia de Santiago, em Peñalolen. Cruzo bairros pobres em direcção à cordilheira nevada e, de súbito, ali está o umbral tenebroso do tempo da ditatura militar. A Villa Grimaldi foi uma sinistra prisão clandestina especializada na tortura, por onde passaram, entre 1973 e 1978, 4.500 presos políticos, dos quais muitos desaparecerem sem rastro. Entro por uma porta lateral, porque o umbral do medo por onde entravam de olhos vendados os prisioneiros, encerrou-se para sempre. Conheço um sobrevivente que me guia na visita ao parque erigido sobre os alicerces dos pavilhões do mal. E regresso a Santiago, sem outra semântica que nao seja do silêncio diante da banalidade do mal. E pensar que, às vezes, num mesma cidade, a luz pode estar à distância de um taxi do nevoeiro mais cerrado.

1 de novembro de 2007

Diário chileno (VI). Jantando com Bolaño



Segundo dia numa Santiago radiante apesar dos colegiais fardados, dos carabineros de olhar distante, da mesma matilha de cães vadios errando na Alameda. E as mulheres formosas de olhos de uva, essas ainda não as vi. Mas comecemos pelo princípio. Ontem, ao jantar, esbocei com Daniel um arrojado plano de evasão rumo ao sul, no rasto de Chatwin. Não ao sul profundo dos páramos gelados, mas aonde seria possível ir nos dois dias que destinaria para isso. Talvez Pucón ou Puerto Mont ou Coyhaique. Hoje descobri que todos os voos estavam esgotados. Os lagos, os vulcões, as florestas araucanianas terão de ficar para outra evasão.

Vou, por isso, a Bellavista, o bairro boémio de Santiago, dizem. Compro algumas jóias em lápislazuli. Visito a casa de Neruda, La Chascona. Depois, imitando um conto instantâneo de Bolaño que caminha ao meu lado, ao último atardecer en la tierra, atravesso uma Santiago provinciana, cruzo ruas de casas ajardinadas, evito umbrais de bares coloridos, ignoro esplanadas nervosas na calçada. E escolho o Galindo para jantar com este companheiro fortuito politicamente incorrecto que, à medida que o vou conhecendo, se revela mais mexicano e, sobretudo, mais latino-americano que chileno. Mas é sobre o nocturno chileno que ele abandonou em 1974, depois de sair de uma prisão de Pinochet, que falamos. 

Entretanto, trazem-me uma paila marina escaldante e é como se tivesse todo o Pacífico à minha mesa, com uma fauna de mariscos conhecidos  e outros cuja identidade nao ouso adivinhar. Através das janelas atravessa um segundo entardecer menos nervoso que o de ontem. Bolaño conta-me agora dos novos escritores chilenos que obstinadamente procuram escapar à sombra tutelar de Huidobro, de Neruda, de Gabriela Mistral, de Violeta Parra. E menos de Nicanor Parra que nao é um fantasma. E sobre Isabel Allende diz-me que "no es una escritora, sino na escribidora"; e Skármeta, "un personaje de televisión". Espero não vir a ler, um destes dias, na revista catalã Ajoblanco, uma crítica desapiedada sobre este jantar, como retribuiu a Diamela Eltit que o convidara para jantar em sua casa. Julgo que o facto de ter viajado no avião para o Chile com os seus  detectives salvajes jogará a meu favor. E também o meu interesse súbito pela modernidade visceral do nocturno chileno e das ruas do exílio mexicano. Por isso, me conta, ainda, el secreto del mal, evocando o eterno diálogo com a literatura argentina, Arlt, Piglia, os fantasmas de Borges, as vanidades literárias. E também la canalla sentimental. Mas da vanidade do tempo não me apercebi eu. 

Saio, então, para rua e reparo que o personagem de Soldados de Salamina, de Javier Cercas, já não caminha ao meu lado, na noite infrarrealista de Bellavista. Apenas grupos de jovens escondidos atrás de enormes garrafas de cerveja Escudo como se estivessem numa estação do inferno. Uns riem-se como se soubessem que o mundo está para acabar e só eles suspeitam desse destino quebrado. Outros olham as mesas vermelhas, flutuando sobre abismos duvidosos. Não vejo ali nenhum dos rostos que conheci nas filas das cabines telefónicas de Estocolmo. E ficam felizes, indiferentes aos meus passos incertos, agora que Bolaño me deixou só nesta parcela do nocturno chileno.

31 de outubro de 2007

Diário chileno (V). Entardecer nervoso



Todas as cidades têm o seu aleph, isto é, um lugar secreto capaz de albergar todas as representações que fomos construindo sobre cada uma delas. Em Santiago, procuro-o ao entardecer nervoso, desde a Plaza de Armas, ocupada por pintores que reivindincam aquele espaço para expor o seu trabalho, jogadores de xadrez e damas, desempregados e passeantes fortuitos como eu. Sigo por Ahumada onde, encostados a anónimos edifícios novos, sobrevivem restos da velha cidade fundada por Pedro de Valdivia, em 1541. Atravesso várias ruas pedonais, Huerfanos, Monjitas, Santo Domingo, depois pelo barrio Paris-Londres, espécie de mosaico sereno de estilos variados, neo-clássico, gótico e mourisco, povoado de pequenos hotéis elegantes para amantes secretos, e depois pela Merced até à livraria Metales Pesados onde compro um Bolaño, Entre parénteses, que me acompanha agora pela rua Lastarria. Ali está, ainda, o Biógrafo, célebre cinema e cafetaria de culto para onde confluem jovens cineastas, actrizes da moda, punks, yuppies, numa invulgar justaposição de estilos de vida nem sempre coincidentes.  E já na Plaza Mulato Gil de Castro, enquadrada por antiquários, alfarrabistas e galerias de arte, cafés e esplanadas, onde, dizem-me, nasceu em boa medida a nova literatura chilena, entre rodadas de pisco sour bebido aqui com um rigor profissional, disponho a escrever este diário. Adentro-me a seguir por um labirinto de ruelas secretas, ladeadas de pequenas habitações de cores vivas a que o crespúsculo confere múltiplas tonalidades. Estou em Santiago e ainda não encontrei o seu aleph.

30 de outubro de 2007

Diário chileno (IV). Santiago do Chile


Chego a Santiago do Chile 26 horas depois de ter saído de casa. A combi que me transporta desde o aeroporto Toribio Merino acompanhando a corrente poluída do rio Mapoche, atravessa agora uma cidade radiante, com incandescentes torres de vidro pós-modernas e gigantescos centros comerciais coabitando com veneráveis habitações coloniais, alguns edifícios Art Deco e outros sem estilo nenhum, numa acumulação espalhafatosa de formas que compoem o mixt arquitectónico de Santiago do Chile. A interminável Alameda Bernardo O’Higgins, enquadrada pela cordilheira nevada, abre-se diante dos meus olhos como uma corrente de luz, vinda da histórica Estação Central, construída pelo mesmo Gustavo Eiffel que fez a torre de Paris. Na calçada, burocratas apressados de fato e gravata, grupos de jovens estudantes uniformizados, carabineros, compoem um quadro aparentemente conservador, militarizado, que parece constituir a imagem de Santiago. À direita, ergue-se o Cerro de Santa Lúcia, "tão culpado de noite, tão inocente de dia", como escreveu o poeta Nicolás Guillén e onde o fundador de Santiago, Pedro de Valdivia, sediou em 1541, o seu acampamento. Na esquina Ahumada vislumbro uma cidade mercantil, confusa, uma corrente humana cruzando-se indiferente. E de repente, surge o Palácio de La Moneda, e recordo Salvador Allende, ali assassinado em 11 de Setembro de 1973 pelos militares golpistas, seguindo-se 16 anos de chumbo. Depois de deixar por ali os últimos passageiros que comigo vieram do aeroporto, retornamos ainda pela Alameda, e já na Providência, adentrando-nos numa Santiago de casas térreas, rectilínea, arborizada, provinciana, até ao bairro de Ñuñoa onde Daniel Barraco me espera.

28 de outubro de 2007

Diário chileno (III). Fazer a mala com Bolaño



E que levar na mala? Roupas frescas, porque agora começa o Verão austral; também uns agasalhos porque, à noite, a sopra uma aragem fresca  vinda da cordilheira, adverte-me o Daniel Barraco. Algumas prendas, claro. Marisa ao vivo em Lisboa, a incontornável garrafa de Porto e um queijo e estrelas de figo que comprei hoje no mercado. Pequenos sabores de um tempo em desagregação. Câmara fotográfica, telefone, cartões de crédito. Um moleskine para ir corrigindo o plano de evasão. E para ler durante a viagem? Tinha pensado no livro de Joseph Roth, Fuga sem fim, o mesmo que Pasavento levou na sua mala vermelha quando viajou de Madrid para Sevilha; mas é muito curto para as longas horas de viagem que me esperam amanhã.  E depois, o meu plano de evasão tem regresso. Fazia-me jeito um livro escrito em castelhano, para assim mergulhar na língua que vou usar durante mais de uma semana. De um escritor chileno, preferencialmente. Será, então, Los Detectives Salvajes, de Roberto Bolaño, que comprei há dias em Madrid, e cujas extravagantes 609 páginas chegarão seguramente para aguentar as 16 horas de avião desde Zurique até Santiago do Chile, mais as três de Lisboa a Zurique, e regresso.

E porquê Bolaño? Porque depois dos abismos de Vila-Matas que acabo de explorar, este livro é um precipício azul que abre para a nova literatura latino-americana depois do boom do realismo mágico, contrariado pela Rayuela, de Cortázar, de que este romance é, ironicamente, o mais perfeito «contrário». E porque Los Detectives Salvajes é, escreve Vila-Matas, «uma brecha que abre para o mundo infernal de uma geração agrilhoada», a nossa. E porque Bolaño, que já cá não está, ocupa agora a minha «biblioteca do quarto escuro», ao lado de Bioy Casares, um autor do seu universo literário, também aqui hoje chamado para a elaboração deste plano de evasão. E porque quando estiver em Santiago do Chile, irei eu próprio, como um detective selvagem, procurá-lo «na rua Banderas, esquina Ahumada» onde Vila-Matas diz que «parece tê-lo visto observando esse mendigo que ali está sempre e se diz neto de Léon Tolstoi», embora isso seja inverosímil porque àquela data já Bolaño teria ido «embora deste mundo em silêncio».

27 de outubro de 2007

Diário chileno (II). Plano de evasão



«Perder-se numa cidade, tal como é possível acontecer num bosque requer instrução», diz Walter Benjamin. Por isso, quando partimos, não como turistas fortuitos, mas como viajantes intrépidos adentrando-nos por mapas por fazer, é útil prevenirmo-nos com um plano de evasão, recolhendo antecipadamente informação sob os territórios de fuga, mapeando percursos, inventariando paisagens e lugares a visitar, registando intenções, construindo ficções a habitar. Nesse plano - que no meu caso é quase sempre urbano - assinalo as «cidades nervosas» com os seus monumentos, as avenidas da moda cheias de gente convergindo em direcção ao centro. Museus, teatros, exposições e outras iluminações. E também os tugúrios míticos onde depois procurarei o aleph que todas as cidades escondem. A rua artúrica que apenas ao expedicionário é oferecida, mas que só será revelada quando ultrapassar o seu limiar perdido na floresta de banalidades urbanas circundante. 

Prodígios e raridades, portanto, levemente suspeitadas, para explorar mais tarde. Passagens. Lentidões. Cafés com mesas de mármore onde se sentaram escritores, licores fortes como o metal fundido, livrarias de livros estranhos, pequenos jardins de amantes sem dinheiro. E labirintos subterrâneos. Estações de metro, quando as há, porque o metro é sempre uma aventura na noite infinita donde nem todos os que nele penetram regressam à superfície. E também estradas espalhando em muitas direcções. E, ainda, advertências e obrigações. Fusos horários, a natureza do clima, câmbios, transacções, roamings.

Daqui resulta, às vezes, que a viagem começa por ser uma ficção com lugares, tempos, personagens e acções mesmo antes de se iniciar, com a intenção expressa de, uma vez o viajante no território a explorar, habitar a ficção previamente construída durante os dias que antecederam a partida, como um expedicionário que, ao mesmo tempo que vai confirmando no terreno os sinais previamente assinalados, procura nas dobras do novo mapa sobre o qual caminha as linhas de passagem que permitem perceber a cidade. Isto porque uma cidade que não se compreende caminhando é indecifrável.

E é nessa perdição procurada com instrução que reside todo o segredo da evasão. Mesmo que a cidade seja Santiago do Chile, poluída, híbrida, anárquica, com os restos da sua arquitectura colonial perdidos no meio de uma Litlle Manhattan austral de torres pós-modernas desafiando a cordilheira nevada. Como encontrar ali as linhas de passagem para o mapa por vir? Este o desafio que Santiago coloca ao expedicionário que talvez ali tenha de ser um detective selvagem à maneira de Arturo Belano e Ulises Lima, espécie de «poetas desesperados» e errantes do livro de Roberto Bolaño [Los detectives salvajes, Anagrama], bifurcando-se através de cenários contraditórios em busca do que lhes escapa.

Mais fácil será o expedicionário perder-se no «insólito porto sem portas» que é Valparaíso, hipnotizado pelo brilho nocturno da baía, ou num funicular louco galgando uma qualquer colina sobranceira ao Pacífico, ou nos labirintos de ruelas e becos ziguezagueantes perseguindo os passos de marinheiros antigos que ali naufragaram embalados por milongas tristes. Talvez ali baste ser como Cayetano Brulé, o detective do livro de Roberto Ampuero [Encontro no azul profundo, Temas e Debates, 2004], que mora no cerro Concepción e não precisa de metafísica nenhuma, pois «Valparaíso [já] é um lugar metafísico, um centro mágico da existência», como escreveu Sergio Vuskovic Rojo na última Atlântica.

Levo comigo um plano de evasão que esconde dunas movediças, abismos inesperados cujos umbrais luminosos cruzarei à procura do aleph borgesiano que encerra tanto os segredos da cidade da cordilheira como os da cidade do paraíso e, talvez, ainda aqueles que se escondem nas estradas que se espalham desde Santiago em direcção aos Andes, ao Aconcágua e a Mendoza, na Argentina.

Entretanto, para lá chegar, primeiro um estranho roteiro que passará sobre a montanha mágica de Thomas Mann e de Robert Walser perto da qual, em Zurique, tomarei o avião que me levará até ao outro lado do mar e, depois, até ao outro lado do continente, banhado aí pelo Pacífico.

25 de outubro de 2007

Diário chileno (I). Lonjuras




Do Chile, contou-me Neruda das soberbas paisagens e dos aromas, das madrugadas e dos crepúsculos, do estoicismo e da hospitalidade das suas gentes. E também dos «exílios que mordem e [de] outros [que] são como fogo que consome». E do «medo como um sabor metálico na boca», ouvi contar Isabel Allende. E Roberto Bolaño, o escritor que se exilou no México, sem dinheiro para as chamadas telefónicas. Roberto Ampuero, com quem vou trocando mails entre Portimão e o Ohio, contou-me também que, quando era criança, no pátio alemão do colégio alemão de Valparaíso, meninos e meninas costumavam cantar com uma fé cega uma cantiga de roda que dizia: «arroz con leche, me quiero casar con una señorita de Portugal». Eram os anos sessenta e Portugal vivia no tempo da «cobra e do abutre». 

Mais tarde, em vésperas de Abril de 1974, em Estocolmo, juntei o meu desterro ao desterro de muitos chilenos. E depois, enquanto a chuva cinzenta caía sobre Santiago, os cravos vermelhos floriam em Lisboa. Entretanto, perdi o rasto aos chilenos de Estocolmo, mas em Gijón, no Salon de Libro, fui conhecendo outros, o Luís Sepúlveda e a Carmen Yañez, a Virgínia Vidal, a Regina Rodriguez, o Hernán Neira, todos cúmplices da Atlântica. E o Daniel Barraco, que sendo argentino, mora em Santiago, e que só conheço dos mails que vamos trocando e das belíssimas fotografias de Valparaíso e das ilustrações de Frida Khalo e de Witold Gombrowicz que me mandou para a Atlântica. Por isso, o Chile sempre foi para mim um país inventado.

Do Chile, contaram-me também da sua geografia longitudinal. Um país austral de lonjuras sem fim, espreguiçado nos seus quatro mil e trezentos quilómetros de montanhas, vulcões, vales, estepes, desertos, lagos, estuários, fiordes, arquipélagos, onde, contar-me-ia, depois, Neruda, «noite, neve e areia fazem a forma /da minha fina pátria, / há todo o silêncio na sua longa linha, /toda a espuma sai da sua barba marinha, / todo o carvão a enche de misteriosos beijos». Ao norte, a paisagem lunar do perfeito deserto de Atacama, sol, pedras calcinadas, uma paisagem imóvel de transparência cortante, emoldurada por um cenário de vulcões, uma solidão espectral, mas que, na Primavera, se veste momentaneamente de «vermelho, intensamente vermelho, coberto de pequenas flores cor de sangue», como escreve Luís Sepúlveda em As Rosas de Atacama: «- Ali as tens. As rosas do deserto, as rosas de Atacama. (...) As plantas continuam ali, debaixo da terra salgada. Viram-nas os atacamenses, os incas, os conquistadores espanhóis, os soldados da guerra do Pacífico, os operários do salitre. Continuam lá e florescem uma vez por ano. Ao meio-dia já estarão calcinadas pelo sol». A leste, a cordilheira dos Andes, formidável maciço de rocha e neves eternas sobrevoadas por condores. E a sul, a Patagónia, «terra de ar puro e de grandes espaços», como a definiu Bruce Chatwin, salpicada de parques nacionais com árvores milenárias, hoje ameaçadas pela destruição humana, atravessada pela Carretera Austral, uma pista pedregosa de 1200 km que vai de Puerto Montt até Villa O´Higgins, interrompida pela muralha dos glaciares para depois se transformar na pampa magalhânica; e também a costa patagónica, terras de Dezembro - como assinalou Fernão de Magalhães no mapa ainda por fazer quando avistou este rude e selvagem, em 1520 -, labirinto de ilhotas e fiordes, focas e pinguins, «cenário de catástrofes telúricas e de atrozes iniquidades humanas», onde viveu e escreveu Francisco Coloane, «o mais anfíbio dos escritores», como o classificou Volodia Teitelboim; e a última cidade continental, Punta Arenas, fustigada pelos ventos gelados do Estreito de Magalhães, orgulhosa da sua profunda australidade, enfrentando páramos e nevadas; e a última fronteira, a Terra do Fogo, antes dos gelos da Antárctica e dos icebergues à deriva que dão conta doutras iniquidades humanas. E a oeste, sempre o mesmo mar que Pedro de Valdivia baptizou de Pacífico. 

E que me contaram das cidades aonde irei? De Santiago do Chile, cujo aleph se esconde por detrás de uma pequena Manhattan orgulhosa das suas torres de vidro, ouvi Carlos Fuentes elogiar as suas «mulheres formosas com olhares de uva»; e que é uma cidade «melancólica e arrogante» e «confusa e secreta», segundo Antonio Skármeta; e que a sua boémia acontece à volta do cinema Biógrafo, da rua Lastarria, do Cerro de Santa Lucía, dédalo de escadarias, jardins e fontes; e que a praça Mulato Gil de Castro, enquadrada por antiquários e alfarrabistas, cafés e esplanadas, é o ponto de encontro da movida cultural santiaguina. E que La Piojera, «una de las picadas más famosas de Santiago», é imperdível. E de Valparaíso, «luminosa, ruidosa, espumosa e prostituta», que sei eu? Que Neruda e todos os viajantes e poetas a têm cantado como porto de nostalgia, aventura e perdição de marinheiros. E que também eu quero atravessar a obscuridade das suas escadarias, ruelas e praças sempre irrigadas pelo sopro salgado do Pacífico que sobe, ao crepúsculo, as suas quarenta e duas colinas, antes de me perder no Siete Machos ouvindo numa juke-box um tango Carlos Gardel. Mas contaram-me também que a vida no Chile é dura e brava, mas não igualmente para todos. Que há uma Santiago pintada com cores vivas e outra a preto e branco. Que nos bairros populares de «los de abajo», como Victoria, ou nos bairros de lata como Villa Francia, tudo parece cinzento, as pessoas exaustas, e que até os cães que erram entre caixotes de lixo são famélicos. E que nos bairros dos que vivem acima, nas colinas arborizadas, ao abrigo do smog no Inverno e da fornalha no Verão, como em Las Condas, os ricos escondem-se em luxuosas mansões atrás de altos muros rigorosamente vigiados. Que «los de abajo» descarregam as suas tensões, aos domingos, no Estádio Nacional de triste memória, insultando a polícia - «Pacos, hijos de puta» - e incentivando o clube do seu coração, Universidad de Chile. Que outros, vagueiam por infernos como o Cerro Navia, prisioneiros da «pasta base», a cocaína dos pobres que provoca razias. E que, alheios ao drama, outros há que cultivam a insustentável leveza da sua juventude, escapando-se no Verão para Viña de Mar, no Inverno para as estações de ski andinas e aos fins de semana para a movida dos bares de Bellavista e da rua Suécia. 

Hoje, o Chile é governado por uma mulher, Michelle Bachelet, filha de uma vítima da ditadura, em quem os chilenos depositam confiança para fazer esquecer as cicatrizes do passado, ultrapassar as dificuldades do presente e cruzar novos horizontes de esperança. Entretanto, as contas com o passado vão sendo saldadas, mandando para a prisão a viúva, filhos e acólitos de Pinochet, acusados de roubo de milhões de dólares durante a ditadura. [Eis o Chile antecipado que confrontarei na próxima semana, pois é para esse «território de essências longitudinais», cantado por Pablo Neruda e por Gabriela Mistral - que também tinha Portugal no coração - que viajo na segunda-feira. // Motivo: a participação num Encuentro Internacional de Escritores em Santiago e a apresentação da revista Atlântica. // Plano de evasão: 1. Santiago do Chile, das «mulheres formosas com olhar uva»; 2. A nostálgica Valparaíso, luminosa e obscura, debruçada sobre o Pacífico; 3. ... E, como Pepe Carvalho e Biscuter, intrépidos detectivos selvagens do derradeiro livro de Vázquez Montalbán, talvez «atravessar a fronteira pelo túnel do Aconcágua, que liga directamente a Mendoza, já na Argentina». // E para que o plano de evasão possa servir a outros, quando por perto houver um computador ligado à rede, irei dando conta do que me cair dos dias em terras austrais].