16 de janeiro de 2011

Da arte balzaquiana de pagar as dívidas sem gastar um cêntimo


Honoré de Balzac (1799-1850) não integra a minha biblioteca de autores favoritos. A minha experiência como leitor de Balzac é, seguramente, a de um leitor sem qualidades, e ficou a dever-se, sobretudo, a obrigações académicas. Do que li do autor da Comédia Humana, recordo personagens híbridas, metamorfoses andróginas, situações equívocas, angústias recorrentes. O seu herói mais visível, Vautrin, é invisível. Ao contrário de Tristam Shandy, de Emma Bovary, ou dos irmãos dostoievskianos, o herói balzaquiano é insignificante e fugaz.

Também a sua biografia é fugidia. Antes de se tornar um escritor conhecido, entre 1821 e 1932, Balzac vivia numas águas-furtadas, cultivando negócios rocambolescos, acumulando dívidas e acossado por credores. Durante esses anos em que se revelou, também, como impressor suicidário e editor promíscuo, escreveu alguns opúsculos que não figuram, hoje, na lista das suas obras mais conhecidas, mas cuja leitura agradará aos leitores sem qualidades. A arte de pôr a gravata de todas as maneiras conhecidas e utilizadas, ensinada e demonstrada em dezasseis lições (1827), A arte de nunca almoçar em casa, e de jantar sempre em casa dos outros, ensinada em oito lições (1827), A arte de pagar as suas dívidas e de satisfazer os credores, sem gastar um cêntimo, ensinado em dez lições (1827) são alguns desses opúsculos de ideias fulgurantes e certeiras que destoam na bibliografia balzaquiana, escritos a meias com um folhetinista da época, EM de Saint-Hilaire.

Ora, nestes tempos de crise financeira em que, primeiro a Grécia, depois a Irlanda e, agora, Portugal, e no horizonte a Espanha, se vão endividando junto dos chamados “mercados” que compram dívidas soberanas a juros cada vez mais altos, tornando insustentável o seu pagamento no futuro, A arte de pagar as suas dívidas sem gastar um cêntimo revela uma desconcertante actualidade, pois aí se dá conta, com recurso a uma ironia, simultaneamente, ácida e luminosa, da génese do endividamento do Estado, do estado de corrupção moral, e do estado da humilhante prostração dos países diante dos banqueiros especuladores.

Entre Madoff e Oliveira e Costa ou Lehman Brothers e BPN, estas atrevidas "lições" balzaquianas "sobre as dívidas e a arte de não ter de as pagar", não destoariam nas modernas escolas de economia e finanças, face aos desfalques, golpes e outras vigarices que nos vão empurrando para o abismo. E, já agora, poderiam, também, ser deixadas à atenção da senhora Merckel como "manual" técnico para a liquidação da nossa dívida soberana, não diria sem termos de pagar um cêntimo, mas com taxas não especulativas.

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