
Desse caminhante solitário que ocupa um lugar muito particular na minha biblioteca de quarto escuro, W. G. Sebald, chega, agora, às livrarias portuguesas, Logis in einem Landhaus (1998) [Hospedagem numa casa de campo] que na edição da Teorema se apresenta com o título de um dos ensaios que integra o livro, O caminhante solitário, belíssima homenagem a outro caminhante solitário, Roberto Walser - seu vizinho no meu quarto escuro, ambos escritores sem qualidades que partiram em trânsito deste mundo, Sebald numa curva de uma estrada de Norwich, num dia de Dezembro de 2001, e Walser, também num dia de Dezembro de 1956, durante um passeio pela neve nos arredores do manicómio de Herisau onde se refugiara para desaparecer – a quem Sebald descreve como um ente querido que aos poucos se vai dissolvendo no ar «suavemente e sem ruído até um reino mais livre», ou como um familiar próximo que lhe recorda o seu avô Josef Egelhofer: «Walser sempre me acompanhou em todos os caminhos. Apenas necessito suspender um dia de trabalho quotidiano, para logo ver meu ao lado, nalgum lugar, [a sua] figura inconfundível […] olhando à sua volta».
Normalmente buscamos a semelhança: num livro, numa pessoa, em algo a que pretendemos nos dedicar de alguma forma; a isso, que comentei uma vez num outro blog, chamo de paradigma do espelho. Ás vezes um pequeno elo de similaridade já cria uma proximidade tão nítida que parece absurda; noutras vezes o absurdo reside na semelhança tão inacreditavelmente plena. Especialmente com os livros e certos autores, acabo criando esse vínculo, como você também, João, que nos brinda sempre e generosamente com seus excertos de alma. Essa necessidade de companhia com ares de reflexo é apenas para que tenhamos uma confirmação alheia de que SOMOS e HAVEMOS no mundo, uns nos outros, na existência, enfim. Abraços, João.
ResponderEliminarTambém eu prefiro o termo walsereano "paseante". E li o ensaio sobre Walser na edição da Siruela.
ResponderEliminarCarlota, livros, então, que trazem consigo o estigma dos cruzamentos, da enxertia. Livros que engendram novos livros. Às vezes, também, encontros, ainda que virtuais, entre leitores "sem qualidades". Abraço.
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